quarta-feira, outubro 15, 2003

Estado (des)Educador

Isto está mau, mas mesmo muito mau!
Pode parecer um lugar comum esta expressão do meu estado de alma. Dirão alguns, pouco original, ademais tratando-se de uma estreia em tão prestigiado fórum.
Concordo. Esta ideia de partida não é, seguramente, mais que uma repetição de tudo o que todos dizem. Mas, que dizer quando, sempre que olhamos um jornal, somos confrontados com uma sucessão de notícias, relatando situações até então improváveis e inimagináveis?
Não consigo sair disto. Isto está mau, muito mau!
Isto está tão mau, mas mesmo tão mau que – alguém poderia imaginar? – o programa de Português do 10º ano apresenta, entre os diversos “textos pragmáticos” – adoro estas pós-modernices –, o regulamento do concurso Big Brother, com o qual se propõe aos alunos “que, em diálogo com os colegas da turma, refiram o que já conhecem sobre este concurso e que, após a leitura do regulamento, emitam um parecer sobre o mesmo” (ver Público, 11-10-2003).
É intenção da corrente pedagógica vigente – vulgo “pedagogos, pedagagos, pedófilos” – valorizar todo o tipo de vivências e (des)aprendizagens dos alunos tidas fora do contexto escolar, integrando-as nos programas e currículos lectivos e fazendo-os “reflectir” e discutir sobre os mesmos, não importa a sua natureza, a sua vacuidade intelectual ou desinteresse cognitivo ou científico. O que interessa é que seja uma “vivência” dos jovens.
Isto está mau, mesmo muito mau, pois é o resultado das reformas curriculares iniciadas em 2001 pelo nosso, salvo seja, governo guterrista e que, infelizmente, o actual ministro da educação não teve a coragem para travar. Este é o resultado de se ter abolido autores como Gil Vicente, Luís de Camões, Virgílio Ferreira, entre outros, dos currículos do secundário, substituindo-os pelos mais “instrutivos” e “adequados” “textos pragmáticos”.
Isto só merece um comentário: Isto está mau, mesmo muito mau!
Não se pode compactuar com isto. É esta a educação que queremos para o nosso país? É este o Estado educador que se pretende?
O actual sistema educativo não serve ao país que pretendemos construir, não serve a ninguém como ser dotado de racionalidade.
Ao invés de se potenciar o verdadeiro conhecimento, promove-se a boçalidade, a estupidez, a acefalia, a ignorância.
Isto está mau, mesmo muito mau, pois temos um Estado de tal forma deseducador que não promove a existência de princípios e valores éticos e morais, que não promove o conhecimento e o saber. Temos um Estado que, desde a sua génese, se desresponsabilizou e demitiu do seu papel de Educador, tal como se propôs na Constituição da República. Temos um Estado que não promove uma actuação concertada, coerente e transversal ao todo social.
A título de exemplo, refiro-vos uma outra situação que para mim retrata precisamente aquilo que acabo de referir. O nosso Estado - e enfim todos nós - compactua com existência de um programa inenarrável no seu principal canal de televisão. Refiro-me às “Lições do Tonecas”. Este programa representa precisamente a desresponsabilização do dito Estado Educador. Senão vejamos. O enredo da referida série representa tudo aquilo que não deve ser o estado ideal das coisas. O herói - sim o herói - fomenta e promove a imagem do estudante acéfalo, estúpido, boçal, ignorante, desrespeitador, mal educado, impertinente, burro, enfim, tudo o que não deve ser. Este programa de entretenimento de muitas famílias, crianças e jovens, representa mais que uma simples distracção. Ele veicula um ideal tipo, o qual considero ser contrário a tudo aquilo pelo que devemos lutar e que o Estado deve promover.
Isto está mau, mesmo muito mau!
Mas isto não está mau por estar. Isto está mau porque resulta das opções que o nosso país tomou ao longo da sua história. Isto está mau, não porque as coisas estão a correr mal, ou porque estamos a ter azar. Não! Isto está mal porque este é o resultado de tudo aquilo que procuramos.
Isto está mau, porque o Estado que construímos é um Estado que se demite das suas responsabilidades, é um estado que se mantém neutro, mesmo face àquilo que é de sua responsabilidade. Se não vejamos. No artigo 43 da Constituição refere-se o seguinte: “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.” Resumindo e concluindo, o Estado deve manter-se neutro relativamente ao seu papel de educador. Não pode defender e veicular princípios ou valores de qualquer espécie, pois, caso contrário, estará a ir contra a sua lei fundamental. Isto é um paradoxo, e os seus resultados estão à vista. Qualquer “texto pragmático” serve para educar as pessoas. Afinal educar é isso. Tudo serve, tudo é possível, tudo é aceitável.
Isto está mal, mesmo muito mal! E está tão mal, que as pessoas encolerizam-se, revoltam-se, indignam-se porque o Paulo Portas defende que se cante o hino nas escolas. Sejamos honestos, o que é preferível? Continuar com os “textos pragmáticos”, as análises pragmáticas, a acefalia pragmática, a ignorância pragmática, a falta de rigor, de exigência, a ausência de princípios, de valores. Ou pelo contrário cantar o hino.
É preciso pensar o que pretendemos com o nosso país. É preciso mudar. É preciso dar mais às pessoas, para além da “merda” que lhes é servida todos os dias, acompanhad ao jantar. Como diz o Nuno Pacheco no editorial do Público de domingo passado, é preciso abrir mundos aos nossos jovens para que amanhã sejam mais que simples vegetais com BI e cartão de crédito.
É por isto, e por tudo o resto que isto está mau, mesmo muito mau! Mas pode ficar melhor se quisermos e trabalhar-mos para isso.