segunda-feira, outubro 27, 2003

Inaugurações

Assisti, por me ser impossível não assistir, à inauguração de mais um estádio que teve o patrocínio dos contribuintes portugueses: o do Benfica.
Num espectáculo pobre a todos os níveis (transmissão televisiva medonha, coreografias horríveis e muito longe do mínimo admissível para um suposto evento desta natureza e jogo de futebol pobre semelhante a um qualquer Paços de Ferreira-Moreirense), o Benfica lá conseguiu bater uns tipos castiços da América do Sul, com salários em atraso, que cá vieram com o único propósito de não estragar a festa há muito encomendada pela candidatura do Sr. Luís Filipe, com o beneplácito do Sr. Vilarinho, e porque não conheciam Lisboa, antiga capital do Império.
Criou-se então um artifício e inventou-se a única enchente que muito provavelmente, em jogos do Benfica, aquele estádio, nos anos mais próximos, vai registar. E o jogo miserável pôs a nu uma evidência assustadora: o Benfica é há muito o espelho de uma decadência que só não é mais pronunciada pela falta de coragem apanágio dos políticos portugueses que com negócios que lesam os contribuintes lá vão dando mais algumas dezenas de milhões de contos para que o senhor Sabrosa se continue a jogar elegantemente para a relva (que por acaso até passou num teste de gastronomia feito por um tal de "barbas" que, sem sal nem pimenta, a provou à frente da televisão) e a fazer umas birras por causa de uma braçadeira de capitão de equipa, enquanto graciosamente exibe uma t-shirt de muito "bom gosto" com o nome "Mariana".
Numa instituição que tem como principais candidatos à presidência tipos como Luís Filipe Vieira (de ar suspeito), Guerra Madaleno (com processos de burla acumulados e acusações graves) e Jaime Antunes (um eterno candidato que um dia vai lá chegar pela insistência, por ser chato, por não desistir de ser chato - riscar o que não interessa) fica bem patente a qualidade e o quilate desta organização e a apetência com que gente séria se interessa pelos destinos deste "glorioso" clube.
Eduardo Lourenço uma vez escreveu, e referindo-se ao nosso país, que "Na verdade, o único paradigma que dá sentido ao nosso presente é ainda – e talvez mais do que nunca - o do passado. E de um passado não apenas mítico mas mitificado. Passamos a vida a comemorar-nos no que já não somos, descobridores de mares, senhores fictícios de oceanos onde outros imperam". O Benfica, infelizmente, também é assim: vive amarrado ao passado à espera, não de um Messias, mas de um novo Eusébio que o leve a ser, novamente, o novo pseudo-senhor do país e da Europa do futebol. Que clube mais triste.