quarta-feira, outubro 22, 2003

Karol Wojtyla – uma homenagem

Há pouco mais de 25 anos, um polaco católico, Karol Wojtyla, futuro João Paulo II, iniciava um dos mais importantes papados de que há memória na história da Igreja Católica.
João Paulo II é, muito provavelmente, o mais importante líder mundial da nossa era e é, certamente, o mais respeitado e conhecido de todos.

Naquele longínquo dia de 16 de Outubro de 1978, Deng Xiaoping dominava uma adormecida China, e Brejnev e Jimmy Carter eram os adversários políticos da Guerra Fria: colectivismo marxista de um lado e capitalismo liberal de um outro, digladiavam-se e alimentavam doces e severas propagandas ideológicas que estimulavam tempos de experiências, de tensões e do medo frio do Inverno nuclear. Talvez por isso, nomear um polaco católico Sumo Pontífice não tenha sido de todo inocente. Nem de todo despropositado. A Polónia, recorde-se, era um dos países atrás daquilo que Winston Churchill apelidou de “Cortina de Ferro”.

Mais do que com qualquer político, foi com João Paulo II que se iniciou a etapa final do fim da Guerra Fria. E foi com ele que se iniciou porque, como é identificado por Timothy Garton Ash, há dois aspectos que são decisivos para a derrota final do socialismo real em 1989:
1- a primeira grande digressão do novo Papa, em 1979, que passando pela Polónia, sua terra natal, ajudou ao processo de formação ou de consolidação de uma organização poderosíssima clandestina chamada “Solidariedade” que teve como líder o carismático Lech Walesa;
2- e, consequentemente, a nova atitude de Gorbachev perante a resistência, anos mais tarde, do mesmo “Solidariedade” de Walesa, que o fez ver que algo estava errado, que o socialismo não podia ter afinal qualquer preço e que nem todas as greves podiam ser resolvidas à força dos tanques e das metralhadoras.

Claro que isto é uma análise demasiado simplista das coisas, porque pelo meio há outras causas que podem ou que deviam ser identificadas e que por certo ajudariam a fazer uma análise mais global e detalhada de todo o fenómeno. Mas não seríamos honestos se não relevássemos o papel do Papa e da Igreja Católica para este desfecho mesmo que a queda do Muro, o fim da utopia, fosse inevitável.

Mas, e apesar de ser um ódio de estimação para muitos (com razão ou sem ela, não importa isso agora), não se julgue que este Papa, que tem tanto de conservador como de progressista no entender dos católicos, apenas lutou contra o comunismo esquecendo-se de tudo o resto. Muito pelo contrário. Rejeitando a ideia de que a doutrina da Igreja era uma terceira alternativa aos dois tipos de sociedade existente, João Paulo II a partir dos anos 90, dedicou-se a denunciar os males da exploração dita capitalista, onde os ricos dominam os pobres e onde há uma evidente discrepância entre hemisférios e um proliferar de desigualdades.
Tornou-se então um Papa universal, reivindicativo e que colocava em sentido todo e qualquer governante; foi um Papa capaz de espalhar a fé, a esperança e de colocar no centro de tudo a “pessoa humana” – corpo, razão e alma – mostrando, através da canonização e da beatificação, inúmeros novos modelos de conduta que enriqueceram com uma outra visão toda a Igreja Católica e aqueles, que nos princípios mais nobres dela, se revêem mesmo que em Deus não acreditem. De repente, o mais importante deixou de ser o santo demasiado puro (logo, inacessível) para haver uma série de homens e mulheres que à luz da “normalidade” dedicaram a sua vida a causas humanitárias e a feitos, que não sendo extraordinários, transmitiram uma nova esperança àqueles que mais necessitavam ou que ainda necessitam. Isto significa dedicar uma vida inteira a ajudar os outros. Há pessoas que não podem, simplesmente, ser apagadas ou esquecidas da memória colectiva das gentes ou dos povos. Daí o tal reconhecimento.

Mas Wojtyla foi ainda mais longe: conseguiu ainda a aproximação ecuménica às outras igrejas cristãs e imprimiu um ritmo de evangelização impressionante fazendo várias voltas ao mundo, procurando unir os seus fiéis e abraçando muitas novas causas.
Foi capaz ainda de perdoar, e de pedir perdão, e aproximar-se das outras religiões mostrando o seu respeito e tolerância por outros cultos e demonstrar o quão erradas foram certas atitudes e comportamentos do passado. Isto não é de ânimo leve.
A bondade deste homem é e foi inexcedível. Não ver isso é escamotear toda uma existência e não conseguir passar por cima de uma ideia pré-concebida, pelos anos e pelos séculos negros passados, que ainda se faz da igreja Católica. Wojtyla continuou. E continuou porque tinha a coragem e a força como características naturais e inatas capaz de o fazer protestar contra os abusos da liberdade, ou da libertinagem, o mediatismo, o populismo, o consumismo, a promiscuidade sexual, o alcoolismo, o relativismo e o pós-modernismo. Nestes aspectos, Wojtyla foi um conservador. Um bom conservador. Podia, quem sabe, ter ido um pouco mais além. Mas numa instituição monstruosa como o Vaticano e a Igreja Católica há coisas que demoram a mudar, há resistências, há políticas, há dificuldades, há, também, interesses instalados. Porque até a Igreja é feita pelos homens.

Naturalmente que Karol Wojtyla tem aspectos da sua actuação que podem considerar-se mais negativos, principalmente nas questões que envolveram a contracepção e o uso do preservativo quando África assim o exigia e mesmo na questão da pena de morte (assunto contraditório no seio da Igreja), por exemplo, situações que no entender de muitos são intoleráveis e inconcebíveis. A própria situação das mulheres e do tratamento discriminatório dos homossexuais é uma realidade indesmentível. Mas em tudo o resto foi coerente e manteve-se como um símbolo inabalável da paz e da esperança num mundo cada vez melhor.

Passados 25 anos, João Paulo II já não tem a mesma força que o fez gritar ao mundo e às centenas de milhares de fiéis das varandas da Praça de São Pedro, em Outubro de 78, “Não tenhais medo!”.
Por ele, por aquilo que ele personifica e representa, muitos “não tiveram medo” e mudaram de facto o curso da história. E isso também não lhe pode ser negado. Porque há demasiadas testemunhas e porque a história não é feita nem escrita sempre pelo mesmo lado.
Eu mesmo que muitas vezes me custe a acreditar vejo nele uma obra notável e um líder espiritual como poucos, que vai deixar a Igreja e o Mundo um pouco melhor.
Em minha opinião foram passos imensos no sentido da harmonia, da obra, da paz, da liberdade e do diálogo inter e intra-religioso.
Isso, digam o que disserem, e apesar de tudo, vale bem toda a dedicação de uma vida.
E, obviamente, a minha homenagem: obrigado, Wojtyla.