segunda-feira, outubro 20, 2003

Unanimismo pantanoso

A semana passada ficou marcada pela celebração dos vinte e cinco anos de pontificado de João Paulo II. Todos os meios de comunicação dedicaram a este assunto rios de tinta ou horas de emissão. Pela minha parte, fiquei estupefacto e espantado com a onda de aplauso com que quase toda a gente analisou estes vinte e cinco anos. Descontando os “suspeitos do costume”, todos os comentadores, analistas ou especialistas (?) desdobraram-se em hossanas celebratórias à figura papal e ao seu legado à humanidade. Que ele foi o Papa dos direitos humanos, um Papa humanista, o Papa que lutou contra todos os totalitarismos, que foi um Papa fenomenal, etc... Pasme-se, houve até quem garantisse que se tratou de um Papa progressista.
Este unanimismo pantanoso deixou-me inquieto. Percebi que, para os guardiões das consciências habituais, o espirito critico não passa de um slogan oco e démode. O excesso de politicamente correcto nos media lusos começa a ser insuportável. Falemos claro: este Papa é responsável por algumas das orientações mais obscurantistas que se podem imaginar. Durante o seu pontificado, a Igreja assumiu posições inaceitáveis no que toca a questões relativas à vida quotidiana: definiu, vergonhosamente, a homosexualidade como uma doença; lutou contra a despenalização do aborto; condenou o uso do preservativo. A nível interno o seu conservadorismo revelou-se na reprodução das assimetrias homem-mulher, num marialvismo deslocado no tempo.
É obvio que nada é a preto e branco e este Papa também marcou alguns pontos pela positiva. A este respeito, os exemplos referidos são sempre a auto-crítica ao passado histórico, a promoção de um diálogo ecuménico e, principalmente, a crítica ao capitalismo e à relação capital-trabalho existente no seu interior. Este último ponto, aparentemente contraditório com o percurso pessoal do Papa, tem que ser enquadrado na encruzilhada histórica em que nos encontramos. Perante o mundo cada vez mais desigual e caótico do capitalismo globalizado e sem o “papão” comunismo-ateísmo para combater, a Igreja Católica não podia ficar indiferente e passiva. Mas esta é outra conversa.