quinta-feira, novembro 27, 2003

Ainda bem que não veio...

Parece que ficamos todos muito tristes (este nosso orgulho lusitano!!!) com a escolha de Valência para a organização da Taça América em Vela em 2007. Eu por mim faz-me confusão este contínuo agitar do nacionalismo finório quando toda e qualquer candidatura à organização de um evento internacional se destina a engordar os mesmos de sempre e a aprofundar os males do país. Ou seja, quando tudo, mais uma vez, se limita a beneficiar a capital do império e os limites da sua aldeia e a esquecer todo o resto do país eu não percebo a razão de ser de tanta excitação.
Há coisas que serão sempre iguais neste Portugal dos pequeninos.
Este centralismo que impõe sempre Lisboa como centro de um mundo decadente é castrador e, simultaneamente, alimentador de enormes discrepâncias que continuamente se alastram como um tumor pelo seio da sociedade portuguesa. Depois disto viria a mesma história da Capital Europeia, da Expo e até do Euro: tudo se paga, tudo tem retorno; tudo está sob forte rigor orçamental, está garantido o cumprimento escrupuloso de prazos, vêm milhares, quiçá, milhões de turistas etc, etc. A mesma cantilena cheia de ar e de vento. No fim, ficariam mais umas marinas (onde os aborígenes poderiam olhar pasmados para a beleza dos iates dos ricos exclamando espantados “ah! aquele também às vezes vem na Caras. É casado com aquela que tem a loja que se divorciou do outro que criava camelos e que é sócio do Clube Naval de Cascais”), mais umas estradas melhores (ou talvez nem isso), voariam uns bons milhões de contos, haveria suspeitas de fraude, mas ninguém iria preso, viriam umas histórias de corrupção e de coisas estranhas em jornais, apareceriam uns novos mercedes, quem sabe uns novos barcos, umas riquezas súbitas, mas o que interessaria era que tudo se teria feito mesmo que tivesse custado mais uns cobres do que o previsto e o indígena tivesse dado ao mundo uma boa imagem da sua civilidade em nome de um desporto que apesar na nossa suposta tradição de marinheiros, quase nenhum português pratica pelas razões evidentes. Só que, e ainda, a experiência, que neste país é muitas vezes convenientemente esquecida, diz-nos que devemos colocar sempre as receitas previstas pela metade (sendo optimistas) e multiplicar por três os custos orçamentados (sendo realistas). Afinal, basta olhar para a Expo, para a Capital Europeia ou para o Euro para se perceber do que se fala.
Eu não sei onde é que os nossos governantes vão buscar tanta lata para apoiar a megalomania de iluminados que devem pensar que Portugal é um país do primeiro mundo (bastava olhar para os outros candidatos). Acredito que o Sr. Santana gostasse imenso de ter a sua Taça América para lhe granjear uns votos importantes numa altura muito próxima de eleições presidenciais; acredito que o Dr. Durão encher-se-ia de orgulho pelas mesmas razões, mas não acredito que isso trouxesse qualquer tipo de vantagem para o desenvolvimento cabal, estrutural e estratégico deste nosso país. Só por isso, e porque parece que andamos sempre a reboque de grandes epopeias é que digo “Ainda bem. Ainda bem que não veio!”.