terça-feira, novembro 04, 2003

ainda o futebol...

Algures deveria estar escrito que o ser humano se distingue dos outros animais e todos os restantes ser vivos pela necessidade imcomprensivel de afirmar uma ou outra dimensao socio-cultural nao para demarcar a diferenca mas para realcar a sua superioridade em relacao ao outro. Resumindo e concluido, a definicao por oposicao ao outro encalha sempre na procura de uma categoria afirmativa de superioridade. Daqui decorre o facto de qualquer sentimento de pertenca nao ser pacifico: sou portugues por oposicao aos espanhois que falam alto e mataram mais indios que nos, sou madeirense e consequentemente sei mais sobre a 'vida' porque a insularidade me devotou a uma condicao de privacao cumulativa que so me fez mais forte, sou deste clube que e melhor do que o outro porque representa o povo… Infelizmente, sendo esta uma caracteristica inata ao ser humano, atenua-la em cada um de nos exige um esforco que por vezes parece sobre-humano. Seja como for, custa-me ver gente que 'pertence' a um conjunto privilegiado, que teve oportunidade de estudar e de desenvolver minimamente o seu espirito critico (o que lhe permite, dentro do possivel, seleccionar a informacao disponivel), a debater estas questoes da 'pertenca' usando de preconceitos que eu julgaria ja devidamente descontruidos.
Resta-me acrescentar que considero grosseiro identificar, ao jeito de correlacao directa, um clube de futebol com uma 'classe social' ou 'popular'. O 'povo que lava no rio' tem muito mais que se lhe diga… Por outro lado, esse povo, benfiquista ou outro, que assobiou o nosso Primeiro no estadio de futebol foi o mesmo que votou nele. Logo, o assobio pouco me revela acerca das opcoes politico-ideologicas dos legitimos 'populares' que acorreram ao estadio. Mais depressa me faz pensar que o descontentamento radica em motivos bem mais prosaicos e individualistas (aumento de impostos e por ai vai) do que propriamente em preocupacoes de caracter mais colectivo e estrutural (nomeadamente as privatizacoes, 'a desertificação do interior, os múltiplos despedimentos que assolam a Beira Baixa, as fábricas que fecham, as escolas que fecham').