segunda-feira, novembro 03, 2003

A Aldeia Gaulesa resiste agora "(n)um longínquo arquipélago"

Peço parte do título emprestado ao post colocado pelo Gil, mas confesso que não gosto da expressão. É seca, cínica e demonstrativa de uma certa mentalidade colonial-fascista muito do agrado de certos intelectuais lisboetas, mormente nos partidos mais à esquerda que por cá não se conseguem infiltrar e que vivem da publicidade enganosa e das parangonas das ideias feitas sobre a Madeira como por exemplo o Off-Shore, a pedofilia, o défice democrático, a pobreza escondida e a ditadura do Dr. Jardim. Tudo coisas sinistras, portanto e que alimentam novelas no imaginário da TVI e de muitos comentadores e políticos, mormente do partido dos intelectuais do cachimbo para os quais, muito sinceramente, me começa a faltar a pachorra.
Eu não levava muito a sério se a frase ("um longínquo arquipélago"), fria e assassina, fosse escrita por uma pessoa que nunca conheceu outra realidade que não a lisboeta. Mas vinda de um jovem do interior, como o Gil, que conhece bem de certeza absoluta, o que é estar "longínquo" de tudo (dos centros de decisão, do desenvolvimento, do conhecimento, do emprego, da vida), tal consideração passa a ser grave, extemporânea e redutora, para além de identificar na perfeição o actual situacionismo vigente e medíocre apanágio da classe política instalada em Lisboa e de muita gente por ela influenciada que não consegue olhar para além das fronteiras do distrito depois de lá entrar.
Não tenho por hábito embocar por este tipo de discussão até porque por mais que expliquemos ou se conhece ou não vale a pena sequer tentar explicar o que é a Madeira, o que são os madeirenses (que muitos gostariam que não fossem gauleses, perdão, portugueses), o que é a Autonomia, e outras "balelas" do género.
Viver num sítio "longínquo" tem destas coisas: acabamos tão esquecidos que só se lembram de nós quando descobrem uma família sem casa, quando expulsam um tal de Joel, quando o Marítimo incomoda e se infiltra nos primeiros lugares da classificação ou quando reivindicamos direitos nossos. Mas o problema é que dos outros nem reza a história.
A Madeira só incomoda porque é um caso de sucesso o que não deixa os centralistas estatais hediondos, corruptos, depravados e abjectos, contentes, porque isso pode significar o fim dos mitos que eles contam. É isso que incomoda também o Gil, já esquecido das suas origens.
Mas viver numa ilha acaba por ser, e se olharmos para o interior do país, a nossa grande vantagem, porque é a ilha que nos permite, dentro de certos limites, sermos donos do nosso próprio destino, mesmo que "longínquos" e mesmo com uma necessidade evidente de sair. Afinal, apesar de longe, de estarmos a meio do Atlântico é mil vezes melhor, apesar do mar, viver na Madeira que em qualquer outro distrito perdido no interior do país esquecido. Do interior que todos renegam.
Por isso, não invejo a sorte das gentes de Évora, Beja, Castelo Branco, Vila Real, Bragança, Viseu ou Guarda, abandonadas pelos centralistas de Lisboa e pelos seus próprios filhos que há muito tempo confortavelmente se instalaram noutros poisos do bolorento império.
Qualquer dia, olharemos para trás e estas gentes mais não serão que almas penadas a povoarem um sepulcral e original vazio (quem sabe não se safa isto com uns campos de golfe?). E isso o nosso líder, o tal "líder do governo regional de um longínquo arquipélago" não deixa que nos façam porque há muito tempo que abriu os olhos. É por isso que há gente que ainda não percebeu que a Madeira já está mais próxima de Lisboa que qualquer sítio de Castelo Branco. A tal Madeira, do "líder do governo regional de um longínquo arquipélago". E por aqui me fico.