quinta-feira, novembro 06, 2003

"Desgraça" - J. M. Coetzee

Estive a ler, por sugestão de alguém, um livro maravilhoso do mais recente prémio Nobel da Literatura, o sul-africano J. M. Coetzee, um autor que me era, até aqui, um completo desconhecido.
O livro chama-se "Desgraça" (Disgrace no original) e conta a história de David um professor Universitário que perde o emprego depois de se envolver com uma aluna (Melanie) e da filha deste, Lucy, uma jovem lésbica desiludida com a vida, que o acolhe numa espécie de retiro espiritual onde se dedica ao campo e à agricultura num ambiente nubloso.
O livro é um retrato irónico, mas muito real da África do Sul dos nossos dias e das consequências do fim do Apartheid na relação entre raças e das mudanças efectivas do poder e da propriedade privada que entre as mesmas se estabeleceram.
É por isso que o livro antes de mais nada é cru: cru como o ódio que pintou a história da segregação sul-africana, cru como a violência implícita em tudo isto e cru como o sentimento de impotência de David perante os sucessivos acontecimentos que inevitavelmente desenham o seu destino e o da sua própria filha.
Há dois momentos marcantes que orientam toda a sequência do livro: o seu despedimento e a violação dentro de casa da sua filha Lucy.
São estes dois átomos que são fulcrais para o desenvolvimento narrativo e para a grande lição que Coetzee nos pretende transmitir.
Todo o livro acaba por ser uma análise profunda às motivações dos homens e à sua incessante busca interior como se interminavelmente andem à procura de algo que os preencha, mas que raramente é quantificável, definível ou sequer hipoteticamente mensurável.
O livro nunca é bonito porque um livro destes nunca é bonito; é um livro ácido, muito azedo, onde o autor, num estilo explicativo simples nos conta de um modo sublime parte do que se alterou na África do Sul do fim do século e a borrasca que a mesma atravessa depois da libertação e do fim de um regime político repressivo e altamente segregador.
É também um livro, quanto a mim, totalmente desprovido de afecto, com personagens já incapazes de amar perante as desilusões e agruras da vida, onde parece haver um medo constante e macabro de falar das coisas que acontecem, do ódio a que estão sujeitos os brancos e da mentira e da ilusão em que vivem como se nada tivesse mudado.
Tudo parece irreal. Confortavelmente irreal, porque tirando David nenhuma personagem quer falar abertamente sobre o que se passa, sobre o que está a mudar, sobre o que sente, sobre o que vê, sobre o caminho que trilham, sobre o surrealismo das suas opções. Tudo é uma doce ilusão porque só numa doce ilusão se pode ainda acreditar na África do Sul. Nesta África do Sul.
"Desgraça" é por isso um livro muito poderoso, porque demonstra bem a falácia do sistema e o modo como estão desprotegidos os brancos numa África do Sul dos negros que num repente se sentem senhores inabalados e inimputáveis do país, das terras, das cidades, das gentes e até das almas; eles são os novos senhores intocáveis, senhores absolutos que vivem numa espécie de cobrança retroactiva de anos e heranças passadas em que tudo é permitido. Sente-se o medo e o determinismo histórico que é fatídico de aceitar o triste, maquiavélico e silencioso destino. "Um dia é (foi) da caça; o outro é do caçador".
É aqui que entra Petrus, a incarnação do novo senhor africano a quem se presta uma espécie de vassalagem e de tributo para habitar nas suas terras e que acaba como dono de tudo: da terra, da família, da força, da protecção, do mundo real que é irreal, da alma e como protector de Pollux, outra personagem, e um dos jovens violadores que é testemunha viva daquilo que aconteceu a Lucy e que cresce carregado de ódio.
Fazendo um aparte, Pollux na mitologia era filho imortal de Zeus sendo na astronomia a estrela mais brilhante da constelação de Gémeos (a outra é Castor). A ironia é que a estrela mais cintilante em Coetzee seja aquele que chega não para dar esperança mas precisamente para destruir essa esperança, ainda por cima com fama de....imortal.
Mas neste jogo de tributos, de vassalagem ao novo senhor feudal, o dono das terras, a Lucy resta carregar no ventre a semente da sua violação como hipoteca para toda a vida e como abono vital para a sua protecção. É aquele rebento, filho mestiço, que lhe garantirá a segurança, a sobrevivência, a companhia, a comida, o tecto que Petrus lhe estende e que fará dela sua amante, sua mulher, sua concubina, sua o que for. Já nem isso lhe interessa porque será aquele rebento que consagrará a sua escravatura eterna perante o novo senhor, da nova África do Sul.
Por seu turno a David resta continuar à procura de si e da ópera interminável que não consegue escrever, ajudando como pode no canil Bev, outra personagem, e mantendo-se por perto de Lucy na medida do possível, tomando um contacto cada vez mais estreito com os animais.
E ele, David, que sente que no canil - que acaba por ser num sentido figurado também a prisão dos homens que aguardam o fatídico fim - os cães também pressentem o sofrimento, a ilusão, a decadência, a submissão, a mudança.
Concluindo, Desgraça é uma metáfora subtil e cruel que mostra como Lucy, uma branca, depende mais de Petrus, o negro, do que do próprio David, o pai, para a proteger e que a harmonização racial na África do Sul passa pela miscigenação entre raças como se se quisesse criar uma nova estirpe que abraçasse o melhor de dois mundos tão distintos.
Só que em Coetzee nada disto é natural. Aliás, em Coetzee tudo isto é uma verdadeira descida ao Inferno onde tudo é consumado pela força porque só pela força, pela superioridade física é possível ficar com a terra, ser protector e fazer um filho na branca.
São estas as grandes lições que Coetzee, num romance aflitivo, doloroso e triste como o maior desassossego jamais imaginado pelos homens, nos narra.
Afinal, Lucy tornou-se prisioneira perpétua num país sem lei nem ordem porque tudo é permitido como se ela expiasse pecados antigos e como se vivesse numa espécie de pensão vitalícia que acabe por justificar o injustificável, tal como os cães que no canil de Bev aguardam a sua vez.
Ele, Coetzee, percebe que "a vingança é como um incêndio [que] quanto mais devora, mais fome tem" e que no fim, o que nos liberta, aos homens e aos cães do canil, aquilo que nos permite partir, verdadeiramente partir da vida, da dor e do ódio, é a morte, porque só a morte nos liberta a alma, porque só a morte nos liberta das grilhetas que nos prendem o corpo à vida terrena e porque só a morte nos salva da arbitrariedade dos outros homens.