terça-feira, novembro 25, 2003

A ingenuidade de Eduardo Prado….

Andava eu no sitio do Publico, desesperadamente a procura de um artigo de Manuel Fernandes (o meu odio de estimacao e admiracao por personificar a simbiose perfeita entre a ignorancia e a arrogancia) quando me deparo com uma cronica do Prado Coelho. Confesso que o Prado Coelho nao desperta em mim qualquer tipo de reaccao (e chato, flacido, pouco imaginativo, por vezes forcado) a nao ser a de pena quando enche paginas de jornal com os seus problemas pessoais do tipo, a conta da EDP. Mas, isso ate se perdoa uma vez que nao foi o homem que lancou moda. Tera sido a Maria Filomena Monica quando, num dos seus artigos, depois de realcar pela enesima vez que estudou em Inglaterra com fulano de tal, teceu largas consideracoes sobre a sua vida dosmetica e sobre a sua empregada…
Bom, mas o EPC la foi ao Brasil, ao que parece debater o futuro dos intelectuais, essa especie oprimida e perseguida, que vagueia em diaspora sem abrigo. Pois o mundo pode ate estar a beira do caos mas ha que discutir o futuro dos intelectuais. Alias, sera precisamente por esse motivo… Avante, deixemos a intelectualidade reunida, a pensar sobre si propria (e eu que julgava que os que se auto-designam de intelectuais nao fazem mais do que isso mesmo…) e avancemos para o artigo de hoje do nosso bom intelectual pensador de si e dos outros, EPC. O senhor in loco, aproveitou para saber em que estado esta o governo do Lula. Logico que isto sem sair do Rio de Janeiro e ja na cidade maravilhosa, logico que isto sem sair do Leblon e da Lapa (para onde deve ter ido de autocarro climatizado ou vulgo ‘frescao’). Ora diz o EPC que quase nao ha violencia no Rio. Diz ainda que o governo de Garotinho tem todo merito nessa materia. Meu caro, Garotinho nao e o governador do Rio. Garotinho concorreu as presidenciais lado a lado com o Lula, Ciro Gomes e o Serra. Rosinha e a governadora do Rio de Janeiro, sucessora de Benedita do PT (primeira mulher e primeira negra a chegar a governadora do Estado do Rio de Janeiro). Rosinha pode ate ser casada com Garotinho mas o EPC tambem nao gostava que viessem para aqui dizer que o primeiro ministro de Portugal e a Maria (ou la como e que se chama a mulher do Durao).
Depois EPC avanca com a tese de que a violencia e mais relatada do que real pois “sabemos de casos contados por amigos que foram assaltados, sabemos de confrontos entre habitantes de favelas, com tiros à mistura, que por vezes atingem pessoas de passagem, encontramos a violência referida quotidianamente pelas televisões e os jornais, assistimos a mesas-redondas - mas de facto, ao andarmos nas ruas, seja no Leblon, seja na Lapa, a insegurança é reduzida, desde que se tome um certo número de medidas de bom senso. O policiamento nas praias recrudesceu e faz que hoje se possa ir tomar banho deixando as coisas que levámos na areia sem que no regresso possamos estar certos de que elas desapareceram”. Meu dilecto intelectual, pois quem fica no Leblon, em hotel de cinco estrelas e e transportado de autocarro de um lado para o outro nao tem muita nocao, nao e verdade… Alias, a sua logica e a mesma logica da classe media alta e alta brasileira que se fecha em condominios como se assim se fechasse do mundo. Ja agora pergunto-lhe, oh grande pensador do pensar, sera que a vida de um favelado vale menos do que a sua que se pavoneia pelas praias da orla, de agua infecta pelos despejos da lagoa, onde os traficantes atiram os corpos mutilados e em putrefaccao? Sabe por acaso a estatistica de quantos levam um tiro na cabeca nos semaforos da Estrada do Leblon que ladeia o calcadao? E a policia do Rio, sabera por acaso que e apontada pelo IBGE como uma das mais corruptas do pais, nao se sabendo muito bem onde comeca o trafico e acaba o dever publico?
EPC, que ingenuidade intelectual a sua, para se deixar contagiar pelo pagode de mesa tocado na bela Lapa e esquecer que o que se passa na ponte Niteroi mais do que uma estrategia para lhe tornar a vida mais confortavel e uma estrategia de criacao de emprego. Tera por acaso perguntado ao senhor que o ‘serviu’ quanto e que ele ganha?
So faltou terminar com a celebre frase, ‘vivem tao mal mas estao sempre contentes’… Quando comentava isso com uma ‘intelectual’ brasileira, militante de um movimento social no Rio de Janeiro, ela respondeu-me ‘se isso acontece e porque o povo e besta nao e nao?’ Considera o senhor que brasileiro e besta? Eu nao. Muito pelo contrario. A si convenceram-no. Ficou regalado. Venderam-lhe o produto: Brasil como turismo. Escamotearam-lhe a realidade, e retornaram ao morro, por entre os tiros de faccoes rivais, onde arriscam a vida diariamente. Factor que pouco importa porque afinal nao passa de uma violencia relatada bem longe do nosso intelecto. Quanto ao EPC um conselho, intelectual mais do que pensar deve fazer uso de todos os outros sentidos…