sexta-feira, novembro 07, 2003

Os esqueletos que saem do armário

Álvaro Cunhal decidiu quebrar, através de uma carta/intervenção, o silêncio para comprovar porque é que o PC português é o partido comunista mais ortodoxo e com mais tiques estalinistas da Europa civilizada e para discorrer sobre as razões por que é ainda possível acreditar no marxismo. Com "criatividade".
Todo o texto de Álvaro Cunhal é lixo. Lixo programático e ideológico assente em abjectas e levianas considerações sobre o mais terrível dos males políticos que o homem conseguiu inventar.
O comunismo não é só uma utopia e um discurso que alegremente se atira ao ar; é também o mais terrível totalitarismo inventado e obstinadamente perseguido pelos homens.
Nem é preciso ser muito inteligente para desmontar todo o discurso de Álvaro Cunhal que se estrutura numa negação inacreditável daquilo que foi precisamente o marxismo, ou por outra, naquilo em que ele verdadeiramente resultou, o socialismo dito real.
Só por brincadeira se pode esquecer as pretensões imperialistas soviéticas do tempo da guerra fria; só por brincadeira se pode continuar a defender a China, o Vietname, a Coreia do Norte, o Laos ou Cuba; só por brincadeira se pode afirmar que a excessiva centralização e burocratização da máquina estatal resultou de um erro conjuntural; só por brincadeira, de mau gosto, se continua a perseguir os fantasmas que põem em "perigo [imaginário] o futuro da sociedade socialista em construção".
Fazer afirmações deste quilate é mentir, é mentir sem escrúpulos, é omitir, é acreditar numa espécie de Pai Natal determinista ou pior, é usar de uma ironia atroz, sem qualquer respeito intelectual por quem o lê, por quem o ouve e por quem sentiu na pele o tal comunismo de que ele fala. Se foi para isto que quebrou o seu longo silêncio, mas valia ter estado calado porque das duas uma: ou Álvaro Cunhal está embrenhado num jogo onde, estou convencido, se tenta enganar a si próprio numa atitude autista inqualificável ou de uma vez por todas, Álvaro Cunhal parou no tempo, no espaço e ainda não percebeu que o muro ruiu, que a URSS desmembrou-se, que Cuba e a Coreia não são exemplos de pluralidade de pensamento e que o socialismo real, consequência da utopia, avalia-se cruamente pelo resultado da soma de pessoas que morreram em vão e em nome desse processo de engenharia social.
Assim e nestes termos, a criatividade a que se refere Álvaro Cunhal só pode ser a originalidade dos regimes que defende onde tudo se resolve branda e pacatamente com julgamentos sumários, com execuções bárbaras ou matando à fome um terço da população. Este deve ser um novo conceito revolucionário para a criatividade. Uma nova criatividade estalinista.
Nada disto é, ou pode ser, considerado inocente. Porque, de certeza absoluta, o que Álvaro Cunhal veio fazer foi garantir que o PC irá continuar a sua lenta caminhada até à sua prodigiosa extinção num momento em que o PC enfrenta o seu maior problema: o PC em si. O PC em si e o seu isolamento, a falta de diálogo, a perseguição política interna, a cúpula directiva que açambarca todo o poder e que debita os conteúdos programáticos de uma ideologia moribunda e que assenta, na lei e na ordem do mais puro e duro estalinismo, a sua crescente falta de credibilidade e a voz sebastiânica que ainda ouve, a de Álvaro Cunhal.
Talvez seja por isso que agora me seja mais fácil perceber porque é que um partido como o PCP tem um líder parlamentar que tem dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia. E onde é que ele vai beber a sua triste e abominável inspiração.