sexta-feira, novembro 21, 2003

É tudo uma questão de números

As ruas de Londres foram ontem invadidas por milhares de pessoas, que se manifestaram contra a presença de Bush em solo britânico. A manifestação, realizada num dia de semana, foi gigantesca e superou as expectativas mais optimistas. Para não variar, os números variam conforme a fonte que os divulga. Segundo as autoridades oficiais estiveram nas ruas de Londres 110 mil pessoas, ao passo que a organização da manifestação defende que esse número foi de 200 mil pessoas. Estas disparidades monstruosas já não chocam ninguém. Já faz parte da tradição. Banalizaram-se. Seja na Grã-bretanha, em Portugal ou noutro lugar qualquer.
Esta obsessão pela manipulação dos números sempre que se realizam manifestações é algo que, apesar de a compreender perfeitamente, me intriga. Tornou-se uma espécie de jogo perverso. E neste jogo, como é óbvio, os organizadores das manifestações também entram. No entanto, as tentativas de desvalorização da cidadania através deste método por parte das autoridades chegam a ser patéticas perante o evidente gigantismo de algumas manifs.
A cobertura televisiva da manifestação por parte da emissora britânica Sky, muito boa diga-se, foi a este respeito paradigmática. Como foi largamente difundido, a expectativa dos organizadores apontava para a mobilização de 100 mil pessoas. Apenas tinham passado hora e meia desde do início da manifestação e os jornalistas da Sky começaram imediatamente a fazer a “contagem de espingardas”. Um dos pivôs avança com o número das autoridades: cerca de vinte mil pessoas. Perante as imagens em directo, o número parece anedótico. De seguida o pivô entra em contacto com uma repórter, situada no início da marcha, e pergunta-lhe a sua opinião sobre a questão numérica. A resposta da repórter foi algo parecido com isto: “Bom, é muito difícil fazer esse tipo de contabilidade neste momento. No entanto, as autoridades no terreno (a polícia) estimam que estejam cerca de 75 mil pessoas nas ruas.” E acrescentou: “mas as pessoas continuam a chegar”.