terça-feira, janeiro 06, 2004

Casa Pia ou mergulhar na lama

Uma coisa é certa: o actual clima de suspeição só protege os verdadeiros culpados e enterra cada vez mais inocentes. A credibilidade de todo o processo está por um fio e chegou-se ao cúmulo de disparar nomes à toa, baseados em cartas anónimas rapidamente desmentidas ou desvalorizadas. Realmente, nada como baralhar e dar de novo para ver se as coisas ainda vão ao lugar.
Os pirómanos de serviço, ao serviço não sabemos é de quem, devem estar felizes por atingirem os seus objectivos: deixar tudo na mesma, tudo igual, porque nada pode mudar submergido em tanto asco. Daqui por alguns meses, quando muita gente sair em liberdade, relembraremos a enorme lição de todo este processo. A culpa afinal é do sistema, é dos políticos, é da sociedade, é do capitalismo, é do dinheiro que tudo pode. A culpa não é certamente das corporações, dos interesses, do populismo e do descrédito em que o país se transformou. Nada disso. A culpa é sempre dos outros e vai morrer evidentemente solteira, como boa portuguesa que vai ser.
A comunicação social fez de tudo isto um circo mediático e os advogados dos arguidos, pagos a peso de ouro para se auto-promoverem nos telejornais e demais programas televisivos, aproveitaram a deixa para mostrar como a justiça joga baixo e como tudo vale para salvar a pele do seu cliente ou de quem verdadeiramente lhes paga o serviço. Primeiras páginas de ouro e aberturas de telejornais quanto valem?
Neste momento, só consigo sentir vergonha. Vergonha de não haver um político que seja - afinal a classe política é a única sujeita a sufrágio e a julgamento popular - com tomates para colocar fim nisto de uma vez por todas. Enquanto for assim, juízes, advogados e jornalistas andarão de mãos dadas a fazerem o que muito bem lhes apetece num total descontrolo julgado na comunicação social e segundo um jogo que é dúbio e que tem princípios que não são claros nem iguais para todos.
Ainda ninguém percebeu que é preciso mudar as regras do jogo? Colocar imediatamente na cadeia quem as violar? Como é possível que se continue a publicar nos jornais em primeira página notícias sem fundamento e que se encontram à venda? E a abrir telejornais com notícias não confirmadas e com entrevistas induzidas? E por que razão se dá tempo de antena ao Sr. Namora, ao Sr. Granja e aos advogados dos arguidos que só lançam ainda mais confusão?
Chegou-se a um ponto que não se informa, confunde-se; não se esclarece, atira-se com areia. E faz-se tudo isto com a cumplicidade de todos nós e para gáudio da sublime pátria que se derrete com os escândalos de paróquia que metam meninos e gente conhecida. Os verdadeiros criminosos certamente agradecem.
No fundo, já não há inocentes, é bem certo. Somos todos culpados. Culpados pelo ponto a que isto chegou. Culpados pela abjecta decadência em que mergulhamos e da qual tão cedo não sairemos.
Afinal, continuamos iguais porque nós gostamos de viver assim. Na lama.