quinta-feira, janeiro 15, 2004

A minha 'Desgraca' e a do Bruno...

Finalmente tive tempo para ler a ‘Desgraça’ de Coetzee. Hoje regressei aos comentários do Bruno sobre o mesmo livro e confirmei que a matemática nestas coisas da ‘cultura’ simplesmente não funciona. A arte sente-se, não se analisa como se submetida a um rigoroso processo de experimentação laboratorial. Só assim se compreende que as interpretações sobre uma mesma obra difiram quase tanto quanto o numero daqueles que se dispõem a senti-la. E o modo como eu senti o livro não me leva a pensar que o mesmo seja primordialmente acerca de África de Sul. O país é secundário à mensagem, constitui apenas o cenário com o qual Coetzee certamente se encontra mais familiarizado mas não o determinante da crueldade ao qual o livro violentamente nos expõe. Sem cores, branco ou preto, Coetzee atira-nos propositadamente para uma narrativa, quase introspectiva, sobre a natureza humana. Todos os personagens são, acima de tudo, humanos. E o desespero do leitor reside precisamente aqui. Coetzee puxa-nos o tapete, deixa-nos sem rede: não nos empresta uma alma intrinsecamente boa ou humana, não nos concede um herói, branco ou preto, no qual possamos depositar todas as nossas esperanças de um final feliz. O autor constrói assim a essência do ‘humano’ como a antítese do humano enquanto conceito e tal como este é universalmente entendido enquanto adjectivo qualificativo. David personifica esse ser ‘humano’, egocêntrico, auto-centrado, convencido da sua superioridade enquanto ser. Uma superioridade adquirida através da aprendizagem da manipulação ‘correcta’ de determinados códigos sociais e culturais. Tudo (e todos) o que sai fora deste seu mundo choca-o. A própria beleza, outra que não aquela conforme aos seus padrões, causa-lhe asco. No entanto a forma cruel como descreve esteticamente Bev não o impede de dormir com ela simplesmente para satisfazer as suas necessidades físicas ainda que a vergonha do acto o persiga até final. Uma vergonha que David não sente em relação ao seu episódio com Mel, um episódio onde David foi por sua vez o violador numa violação, esta sim, ‘branca’ ou quase transparente, silenciosa a que Coetzee alude ironicamente em jeito de provocação ao próprio leitor [“Não é uma violação, nada disso; contudo é indesejável, indesejável até ao âmago. Por isso, decide manter-se inerte, morrer dentro dela mesma durante o acto”]. Será que esta violação passará despercebida? Durante todo o processo jurídico, ao qual David foi submetido na sequência daquilo que ele pensa ter sido apenas a materialização de um desejo sexual legítimo e privado (e que por isso se recusa a falar sobre), David é múltiplas vezes confrontado com a questão chave: saberá ele em que consiste o fundamento da acusação de Mel? David não sabe. Nem quer saber. Para ele Mel foi pressionada a inventar uma qualquer história pelo seu namorado ou pela sua prima feia e encalhada. Para ele o encontro sexual entre ambos simbolizara apenas libertação do mais puro dos desejos, sobretudo do seu desejo. Para ele a passividade de Mel derivara da sua inexperiência. Só.
Lucy, a filha, que é brutalmente violada por três assaltantes, será talvez a personagem que ao longo da narrativa nos deixa mais incrédulos. Talvez porque Lucy não demonstra capacidade para odiar, assim como David não demonstra para amar. Mas a incapacidade de David parece não irritar tanto quanto a de Lucy, que não se comporta como a vítima ou prisioneira. Dela não conseguimos fazer heroina! Mas na verdade Lucy é a única personagem que conscientemente procura libertar-se da sua condição humana à lá Coetzee: renunciando à facilidade do ódio (que depressa a faria mergulhar numa infinita espiral).
Coetzee entrecorta toda a história com requintadas descrições sobre a relação de David com os cães claramente demonstrando que David, incapaz de amar verdadeiramente alguém para além de si mesmo, vai desenvolvendo uma relação quase de amor pelos seres caninos, aos quais devota o maior cuidado sobretudo depois de mortos... David somos todos nós. Coetzee concentra neste personagem toda a essência do ser ‘humano’, distribuindo pelos outros, à excepção de Lucy, dimensões dessa mesma essência. Ao vermos a nossa imagem reflectida o livro oferece-nos como cruel e quanto a Lucy, por vezes condenamo-la e criticamo-la pelo seu não ódio e tarde nos apercebemos que a crueldade que existe emana de todos os outros menos dela própria. Lucy é deveras a ficção em “Desgraça”. Todos os outros personagens, qualquer semelhança com qualquer animal da espécie humana será pura coincidência...

PS: do mesmo autor uma obra ainda mais brilhante, Waiting for the Brabarians.