sexta-feira, março 26, 2004

Sobre a Guerra ilegal e sobre as provas

Relembro, aos mais distraídos, que o ónus da prova estava do lado do Iraque, país que desde 1991 violava sistematicamente as resoluções da ONU. Caberia aos iraquianos provar que não tinham armas e não o contrário. E desde cedo que se tentou inverter esse papel: fazer dos americanos os responsáveis por encontrar as ADM. Só que a não cooperação do Iraque presumiu um forte indício de culpa que aliás veio a ser confirmado pelo próprio Relatório Blix . Este relatório, ao contrário da poluição levantada, diz muito claramente e por várias vezes que há informação, classificada, por quem elaborou o relatório (o próprio Blix, portanto), como em falta, inexacta, insuficiente, incompleta e ainda que as informações prestadas pelo Iraque são omissas, inconsistentes, discrepantes, contraditórias ou imbuídas de explicação improvável (“not specific”, “insufficient”, “concealed”, “incomplete”, “unverifiable” e ainda “omissions”, “inconsistencies”, “discrepancies”, “improbable explanations”). Quem quiser ler que leia e tire as suas ilações.
Contudo é ainda errado dizer que as armas eram o único argumento para a invasão. Havia ainda outras duas preocupações centrais: o apoio ao terrorismo e o tratamento criminoso dado ao povo iraquiano, aspectos que ao longo do tempo foram sendo interessantemente esquecidos na comunicação social ocupada em proteger um ditador marxista (se fosse o Milosevic...). Estes dois aspectos estão a ser parcialmente conseguidos. Mas há falta de prova inequívoca (e relembro que o ónus estava do lado iraquiano) valia a força do argumento. E o argumento indiciava que era muito provável que Saddam tivesse as tais armas. E o ditador não se preocupou lá muito em provar o contrário.