terça-feira, abril 13, 2004

Interessa ao Sr. Barroso perder as eleições europeias?

O atraso na apresentação do cabeça-de-lista do PSD às Europeias não é obviamente inocente uma vez que a conjuntura tem sofrido oscilações importantes à medida que o tempo avança. Mas interessa, em primeiro lugar, ao Sr. Barroso, perder estas eleições porque só assim será possível manter o incompetente do Sr. Ferro à frente dos destinos da única alternativa viável enquanto tenta nova maioria absoluta em 2006. E interessa em segundo lugar, que apesar de perder (o Sr. Barroso), o PS (o Sr. Ferro) saia vencedor e não fragilizado porque os seus vizinhos mais à esquerda saíram reforçados, o que também podia ser uma espécie de derrota. Qualquer outro resultado pode colocar o Sr. Vitorino como D. Sebastião socialista e na rota que impede nova maioria.
O problema é que o Sr. Louçã e o Sr. Carvalhas não estão pelos ajustes, como lhes compete (embora possa ser paradoxal), e já começaram em vigorosa campanha para derrotar a direita nas eleições que aí vêm apelando ao fantasma securitário, aos pseudo-erros cometidos pelo apoio à intervenção no Iraque e ao voto em branco, enquanto se extrapola o risco iminente de atentado por terras portucalenses e se mostram as imagens da cumplicidade da aliança invasora.
O Sr. Sousa Franco, comatoso cabeça-de-lista pelo PS, tinha como única função centrar o debate europeu nas questões económicas internas. Erro crasso que o Sr. Barroso está a tentar desesperadamente ultrapassar, porque entretanto aconteceu o 11 de Março. Ninguém quer saber das tretas económicas e da crise nas finanças quando comboios em vez de andarem nos trilhos rebentam pelos ares e fazem 200 mortos na estação de comboio do vizinho. Toda a gente está interessada em falar e discutir a questão central da vida dos europeus contemporâneos: o terrorismo e até onde se estende a sua ameaça, agora que o Iraque mergulha numa quase-guerra civil e não há pré-avisos de atentados. É isto que importa.
O Sr. Barroso percebeu uma coisa: mais vale mandar por cá no burgo do que tentar grandes voos por outras paragens lutando em várias frentes (a lógica do sacrifício político porque ele entende que não pode ganhar sempre), situação que a prazo se pode revelar complexa e um monumental tiro no pé porque em política dificilmente é bom perder.
Percebe-se a enorme dificuldade de arranjar pessoas com disponibilidade principalmente quando se tem de partilhar a mesa com gente perigosa e ambiciosa. E entende-se que para a maioria dos tão propalados e ilustres barões e baronetes servir o país só mesmo na Assembleia da República porque nisto de ir para longe faz perder muito tempo, e dinheiro, em aviões.
Oxalá que o tiro não saia pela culatra porque foi este o preço que ele decidiu pagar para manter o Sr. Ferro à frente do PS a qualquer custo.