terça-feira, junho 01, 2004

Saber da vida dos outros

Um hábito terrível que se sente nos madeirenses é o querer saber da vida dos outros. Sente-se à distância esse prazer mesquinho a que se dá particular ênfase se for alguém conhecido ou que tenha fama de ser conhecido, mesmo que não passe de um reles sem mérito nenhum e sem nada de interessante que valha o trabalho de narrar.
Sempre que estou num grupo de pessoas a fazer qualquer coisa simples, como por exemplo a jantar, há sempre alguém, ou há sempre um momento em que alguém, de sorriso deliciado e maquiavélico, desata a comentar a vida de quem muito bem lhe apetece. Inusitado será dizer que perco o meu apetite quase instantaneamente. O meu estômago não aguenta com tanta má-língua e com tanta hipocrisia ao serviço da espécie humana como se nós vivêssemos a vida dos outros e não a nossa vida. Por isso não é raro ouvir por aí, em qualquer lado, em qualquer ajuntamento com duas ou mais pessoas, que x dorme com y, que a enganou b, que c roubou a d e outras pérolas que só visto, ou neste caso, só ouvido.
Os sítios pequenos são todos assim, ao que me dizem (é mais fácil sempre acreditar em ideias feitas, mesmo que absurdas). Mal-educados, claro, e estupidamente altruístas (estou a ironizar, como é óbvio). Nós, herdeiros desta tradição de séculos (povo metido na vida dos outros), não podíamos ficar para trás renegando as nossas origens, o nosso código genético (claro, saber de tudo aquilo que não interessa). Neste aspecto, em nada aprendemos com os ingleses, nem com os seus hábitos bem mais de acordo com os hábitos de uma elite de cariz europeu e empreendedor do que com uma pequena burguesia, muita dela medíocre, em ascensão a partir do último quartel do século passado.
Que se tenha vivido assim ao longo dos tempos pela falta de notícias, pela proximidade das gentes, pelo favor pessoal e pela cunha instituída e mecanicamente processada, pela solidão, pelo mar, pela falta do que fazer, pelas centenas de Alziras bilhardeiras (a bilhardice é um termo nosso, acho eu), pela regência e predomínio inglês que parece não se preocupou lá muito em pôr na linha o tal do povo nem perdeu tempo a educá-lo, ainda aceitava. Mas quando vejo várias gerações inteiras, com formação superior e continental e que sabem bem a estigmatização que isto origina, continuarem pelo mesmo caminho, resta-me ironizar com tudo isto e chegar à triste conclusão que ninguém aprendeu nada.
Um dos males da ilha também é este: depois da nova clausura, rapidamente adoptamos os velhos, e dolorosos, hábitos. A ilha, pela falta de mobilidade, pela claustrofobia, estupidifica-nos e aprimora o que há de pior na coscuvilhice que é uma forma escamoteada e versátil de destruir a vida dos outros e o seu mérito muitas vezes.
Só que o mal dos novos é não terem sido ensinados para pensarem superiormente quando tiveram óptimas e inacreditáveis oportunidades para isso. Mais que as gerações que os precederam a quem a alegoria da caverna de Platão assentaria que nem uma luva. Hoje não têm justificação. Nem perdão.
Numa sociedade de aparências, o parecer sempre foi mais importante que o ser, mesmo que fosse um parecer estúpido, um parecer rico, um parecer esperto, um parecer que se vinha de boas famílias, um parecer que se era da burguesia há gerações e não novos-ricos. Sempre foi assim. Os que tinham dinheiro, mesmo muito dinheiro, passavam despercebidos, tentando sim, que não falassem deles; os outros, os que precisavam de dizer que tinham dinheiro (nem que fosse de garganta, nem que fosse se mostrar nas fotografias de qualquer publicação apresentando a intimidade sem piada) davam nas vistas, com o objectivo precisamente contrário. O que é certo é que vivemos numa terra de parecer que somos qualquer coisa que no fundo não somos, valorizando em demasia o aspecto exterior e não o conteúdo, o que é mau para a mobilidade e péssimo para a tão desejada meritocracia.
Por isso também, ganha particular importância o nome do pai, da mãe, as suas profissões, as suas propriedades; o que veste, com quem anda, que carro tem, que sítios frequenta, onde mora. Tudo isto ganha central importância na vida dos medíocres mais preocupados com a árvore genealógica do que em aprender com os erros do passado. Assim, não é raro renegar primos menos abastados, familiares deficientes ou antigos amigos que avivam a memória de infâncias miseráveis. Tudo vale em prol da aparência.
Só que tudo não passa de um pretensioso paradoxo: por um lado sabemos o como comentamos a vida dos outros e a forma, pouco simpática, como a pintamos; mas por outro, queremos é que os outros falem de nós, mesmo que seja para contar mentiras e falar de ilusões. Estranhos tempos estes. E sombrios.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Where did you find it? Interesting read »

7:46 da manhã  

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