quarta-feira, setembro 08, 2004

Não há festa como esta!

Texto da Catarina, que se esqueceu da sua senha de acesso...
"Para camaradas, amigos ou simples visitantes.
Fiz a minha estreia na festa do avante ao som do Godinho e do Palma “ ... vou ao fundo do mar, no corpo de uma mulher ...”. O espírito vermelho cresceu dentro de mim e, de repente, tudo fazia sentido por uma noite : o som, os cheiros genuínos de quem dispensa desodorizantes, o caldo verde, o pão partilhado, as mãos das crianças a bater o compasso nas cabeças desprotegidas de pais complacentes, as bandeiras ao rubro, a percussão ensurdecedora dos toca-a-rufar ... , os sons de beijos molhados aqui e ali, entre sorrisos (“hoje soube-me a tanto ...”) , enquanto nas tendas se adivinham as trocas de fluidos feitas de amor incondicional (na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida ...) . O Saramago dentro da tenda a dar autógrafos, em troca dos olhares lacrimejantes de quem lhe devora os caracteres impressos e sente que o reconhece, por detrás dos óculos. Aproximam-se e identificam-se, para que saiba a quem dedicar mais umas páginas, e ele, o mestre, nem se levanta, e mal olha : a admiração incondicional também é feita destes pequenos nadas, destes snobismos de artista, que todos desculpam (e admiram) : Ele é mesmo assim ... E afinal nem tanto os separa (uma mesa tosca) , como o que os une (1 livro, a tinta derramada com o seu e o meu nome desenhados na mesma frase, uma frase de dádiva que começa com : PARA ... um PARA que se abre numa imensidão interminável de possibilidades e se fecha naquele olhar inebriado de quem, por momentos, é a razão única de ser daquele livro e daquele homem (um Nobel, um nobre ), que escreve para ser lido, que escreve para MIM. Um aperto de mão sela o pacto de promessas surdas (eu continuarei a ler, tu continuarás a escrever), e traz de novo a consciência de que são, afinal, tão semelhantes : de carne e osso. Corre-se para o telemovel : “Tou, ... olha, ... sim, está aqui, eu vi-o ! ...” , ( e o mais importante fica, submerso, por dizer : ... “e ele também me viu !” ) Sempre é verdade : não há festa como esta ! Catarina A R"