sábado, outubro 02, 2004

A denúncia anónima

Cenas da vida política portuguesa

Parece que o governo regional açoriano se aproveita da boa vontade europeia para conseguir uns dinheirinhos extra. Sob o disfarce de obras de recuperação de imóveis destruídos pelo temporal de 1996, há importantes somas desviadas para outras construções, tudo em prol do bem-estar dos açorianos e das boas ideias do Sr. Carlos César. O Público de quinta-feira trazia esta auspiciosa notícia, sob o título “Sede do PSD-Açores Identificada em Queixas "Anónimas" a Bruxelas”. A coisa, ainda no início, promete incendiar as ilhas açorianas.
Admirados? Não fiquem. A marosca é complexa, mas não é original. Aliás, o esquema foi particularmente bem sucedido entre os empresários do norte e outros tipos empenhados em aproveitar os dinheiros comunitários para fazer de tudo menos reestruturar o sector em que laboravam ou intervinham. Digamos que desviavam o dinheiro para outras necessidades mais imediatas. Vale tudo para mamar da teta europeia porque os fins justificam os meios, principalmente se os fins forem carros desportivos, grandes casas com piscina e viagens educativas ou em última instância, ganhar mais uns votos.
Mas o que torna este caso diferente do empresário Chico-esperto é o facto de o mesmo partir de um governo regional que devia ser uma pessoa de bem e de acrescida responsabilidade. Puro engano ou ilusão. Reparem que a coisa deve ser ilegal. Altamente ilegal, embora proveitosa e tentadora, claro. E o que faz o PSD dos Açores para combater isto? Denuncia anonimamente (aliás, tão anonimamente que acabou com o rabo de fora) aquilo que o devia fazer publicamente e sem receio. Porquê? Precisamente porque tem medo da resposta: "Essa gente não se importa de prejudicar os açorianos, desde que consiga prejudicar o Governo da sua terra". Política à portuguesa, pois então.
O uso da retórica e da demagogia é brilhante neste caso: não podes atacar a mensagem, ataca o mensageiro. Não chega? Faz-te de vítima. Tudo muito simples. Tudo tão errado.