sexta-feira, dezembro 03, 2004

Cavaco outra vez I

A serio, eu nao compreendo. Levamos com o Cavaco oito anos, oito mal fadados anos! O povo foi na altura literalmente ‘chantageado’ a votar Cavaco em nome da estabilidade. Lembro-me muito bem dessas eleicoes. Tudo parecia enorme, gigantesco. Para um povo amordacado por uma loga ditadura, ser atirado para a democracia e deveras assustador, nomeadamente quando liderado por uma elite politica pouco informada e muito menos preparada para a vida democratica do que o povo que a elege. Em nome da estabilidade, elege-se Cavaco Silva. Em nome da garantia de proteccao da UE, entidade ate entao ‘desconhecida’, elege-se o homem que podera 'trazer o ouro aos cofres'. Elege-se, portanto, um proto-sosia-de-Salazar. Dispensa-se a PIDE, a censura, e outros ‘vicios’, mas opta-se pelo 'familiar'; pelo cinzentismo; pela rigidez (confundida com estabilidade). Opta-se pela esperteza (confundida com competencia) em detrimento da inteligencia; pela burocratizacao ao inves da creatividade. Iniciam-se as hostilidades democraticas neste pais atraves da celebracao do mediano, do pensar pequenino. Renova-se portanto a maxima do ‘pobrezinhos mas orgulhosos’. Veste-se esta maxima com roupagens democraticas. E nesta transformacao cosmetica, liderada pelo Sr. funcionario-mangas-de-alpaca, Cavaco Silva, chula-se a UE. Rompem-se estradas por tudo quanto e chao neste pais: enriquecem-se os empreiteiros com orcamentos supervalorizados para a compra de materias da pior qualidade. Destroi-se, literalmente o sector agricola: nao se aposta na profissionalizacao dos agricultores; concebem-se programas de formacao agricola ridiculos (alguns resumiam-se a aulas de ponto cruz as ‘mulheres agricultoras’ por essas aldeias a fora); nao se promove a criacao de nichos de mercado de producao agricola, nomeadamente a cultura de produtos organicos, ideal num pais sem grandes latifundios. Difundiu-se a mediocridade para o sector empresarial: os programas de apoio as pequenas e medias empresas contemplam apenas negocios considerados ‘seguros’ - cafes, quiosques, restaurantes que resumem a criacao de emprego quanto muito a dois membros da mesma familia que ficam assim a trabalhar no mesmo sector; teme-se a inovacao e o desenvolvimento, chumbam-se tais projectos e inaugura-se o ciclo de fuga dos ‘cerebros’ (actualmento, atras da Italia, um dos mais elevados da Europa). Nao houve capacidade para a estruturacao de um plano de Saude Nacional coerente: a tendencia para a privatizacao do sector promove a multiplicacao de clinicas privadas, nao havendo controlo nem respeito pelas ‘guidelines’ medicas no que concerne, por exemplo, a realizacao de exames medicos; a anarquia instale-se no sector da saude e no seu ventre gestam-se os hospitais de publicos de gestao privada, o maior engodo que o pais jamais permitiu e que ainda ira dar muito que falar. Tomou-se de assalto a educacao: inicia-se a moda de reformas curriculares sem uma filosofia de fundo; atacam-se as universidades publicas em favor das privadas; difunde-se a ideia de que as universidades sao o tapete vermelho para o mercado de trabalho; impoem-se propinas a falta de uma reforma fiscal. E poderiamos continuar...
Os oito anos de Cavaco foram oito anos de desperdicio. A historia assim se encarregara de o dizer. Pior, foi com o Cavaco que se iniciou a tradicao portuguesa dos politicos-mediocres-gestores. Esta tradicao parece estar tao enraizada que este homem muito provavelmente ira ser o proximo Presidente da Republica! E a democracia, pois entao. Apetece dizer: Portugueses nao votem pela ‘estabilidade’, nao tenham medo. Nao ha que votar sempre nos mesmos, sempre pelas mesmas razoes. Nao temam a creatividade, o arrojo, as ideias novas! Isso nao e sinonimo de instabilidade, e sinonimo de avanco, de mudanca.
Nao tenham medo, vai correr tudo bem!