terça-feira, janeiro 11, 2005

Emigrantes no diva...

Aqui ha uns anos atras li um artigo de um famoso filosofo Portugues que se intitulava ‘Portugal no diva’. Ate hoje este titulo persegue-me e continuo a considera-lo a melhor palavra de ordem para tal pais a beira Atlantico plantado.
Vinha eu no aviao da Portugalia, de regresso a terras Lusas para um fausto e tradicional Natal, quando algo na conversa das minhas duas companheiras de voo imediatamente sentadas ao meu lado me chamou a atencao. Chamemos-lhe a Y e a X, ambas nos seus vinte e muitos, trintas anos. A X, do Porto, sentada do lado da janela, comentava para a Y, sentada no lugar do meio de uma fila de tres, que antes de ir viver para Inglaterra tinha vivido na Alemanha e que, acredite-se ou nao, tinha gostado mais das terras Germanicas do que estava a gostar das Anglo-Saxonicas. Queixava-se da dificuldade do funcionamentro do sistema, da distancia das pessoas ou indiferenca, e tambem do clima. A Y, com pronuncia de Braga, lancou-se numa acerrima defesa da Inglaterra. No seu parco e deficiente vocabulario, oralizou e verbalizou uma ode. Entre outras coisas mencionou ser professora na universidade e afiancou a X que os alunos por la eram bem mais inteligentes do que por terras lusas. Terminou com a estilistica frase: ‘Em Portugal sao todos uns abortos, basta ver por este aviao. Sao vao abortos aqui’. Ora tendo eu ‘Portuguesa’ de nacionalidade escrito no passaporte, e porque quem nao se sente nao e filho de boa gente, gentilmente interpelei a senhora. Passo a reproduzir o nosso dialogo:

Eu – A senhora desculpe, mas eu nao posso deixar de me meter na conversa. E professora de que e onde?
Y – De biologia na universidade em Chester (?).
Eu – Ah, ok. E que eu tambem dou aulas, mas em Manchester, e posso garantir-lhe que o nivel dos alunos e de facto muito baixo comparativamente a Portugal. Nao o considero em nada superior a Portugal.
Y – Hum, entao deve ser por sermos mais inteligentes que somos menos desenvolvidos…
Eu – Mas menos desenvolvidos em que sentido? No aspecto social? Economico? Tem ideia do nivel de desigualdades socias em Inglaterra? Ja alguma vez foi a Withemshaw? Sabe como funciona o NHS? Estamos a comparar o que com o que?
Y – Oh! Olhe o que sei e que eu em pouco tempo em Inglaterra ja comprei uma casa e em Portugal isso seria impossivel. E cale-se! Cale-se que me esta a incomodar! [o Reino Unido e o expoente maximo da sociedade do credito. Comprar uma casa nao e um grande feito. Cumprir com as obrigacoes que se seguem e que podera ser…]
Eu – Pois olhe, desculpe, nao querendo incomodar, nem tao pouco ofender, deixe-me dizer-lhe que a senhora esta com um discurso de ‘ressaibiada’. Parece ate aqueles emigrantes Portugueses que foram para Franca nos anos 60 e que chegavam a Portugal no Verao a dizer ‘ah, la na France e que bom’.
Y – Ressaibiada! Olhe eu em Portugal so porque fiz um curso de Fisica nao me deram bolsa para fazer um doutoramento em Biologia Molecular. Portugal nunca me deu nada. E cale-se, ja disse, esta-me a incomodar. [Provavelmente nao deu porque a senhora nao preenchia as especificacoes. Sem querer elogiar a FCT, que ultimamente tem funcionado muito por compadrio, tenho a acrescentar que desde que se tenha dinheiro e possivel fazer qualquer curso em Inglaterra. A universidade e um negocio antes de ser uma instituicao de ensino. Desenganem-se os inocentes…]
Eu – E o que e que a senhora fez por Portugal? Faz alguma coisa para mudar? Nao. Entao nao se queixe! So lhe digo que ainda bem que pessoas como voce nao regressam mais.

O que e que se retira desta conversa. Que os Portugueses desde que tenham o sistema montado dao-se bem. Falta-lhes a criatividade, e se quiserem tomates, para organizar as coisas. Se vao para paises onde toda a estrutura ja esta montada, mas onde ao mesmo tempo, o espaco para a criatividade e menor, sentem-se bem. Pouco arriscam e nada tem a perder. Ha sempre alguem para os guiar... Sentem-se na coroa da lua so porque estao fora do seu pais, uma nacao continental que parece sofrer de uma insularidade maior do que as ilhas britanicas. Sera real esta insularidade? Nao. Digo-vos que nao. Esta na cabeca dos Portugueses que se sentem inferiores e incapazes em terras lusas. Ao inves de arregassarem mangas anunciam a derrota depois de longas elaboracoes teoricas. Sem se mexerem, sem sequer tentarem, ja estao a dizer que e dificil, muito dificil. E tudo muito, muito, muito dificil, ninguem compreende o quao dificil e… Na verdade querem e chegar a um local onde tudo e ‘ready-made’. Onde as coisas ja estao de tal maneira que eles sabem exactamente o que fazer: sabem exactamente que rebanho seguir. Nada mais facil que ser uma ovelha. Esta ovelha deveria fazer psicanalise. As ovelhas Portuguesas precisam de um diva. Definitivamente. Urgentemente. E agora a imagem do Mamede, aquele corredor que desistia sempre antes da meta, veio-me a cabeca... Porque sera?!