sexta-feira, janeiro 14, 2005

O Príncipe Burro VI

Pode um príncipe ir disfarçado de nazi a um baile de máscaras? A resposta parece-me óbvia: não. E em nenhuma circunstância. Nem no mais absurdo dos bailes de máscaras.
Consequência primeira da pressão e da imediaticidade comunicacional dos fenómenos políticos e sociais começa a surgir-nos um problema que se prende com a ausência de memória social, individual e colectiva. A maioria de nós cresceu neste ambiente de total desresponsabilização e de total alheamento da história sangrenta que é a história do continente europeu, por exemplo. Não conheceu outro regime que não este que lhes garante total e plena liberdade. Não conheceu a prisão política. Não conheceu o sofrimento atroz ou o campo de concentração. Não conheceu Hitler, Mussolini ou Estaline. Só isso justifica que um príncipe ache in ir disfarçado de nazi a uma festa ou que milhares de adolescentes enverguem orgulhosos t-shirts de assassinos de massas como Guevara, Fidel e outros distintos artistas adeptos da engenharia social e da manipulação de massas. Não está em causa quem pior fez; está em causa quem foram eles e o que fizeram. E bem foi coisa de certeza que nenhum deles fez.
Não é raro encontrar na Internet, nas salas de jogos por exemplo, gente que se esconde atrás de pseudónimos racistas e/ou nazis. A questão por isso parece-me estar na vivência, nas experiências que nós não tivemos; na ausência do contacto com a violência, com a arbitrariedade dos homens sobre outros homens (uma forma refinada de violência), com o dogmatismo, com o que seja que nos leva hoje a assumir como passado longínquo que nós teimamos em desrespeitar. Já não bastam as imagens. A distância de tudo isto, as coisas a preto-e-branco tornam tudo distante, irreal, impossível, inverosímil. Suave e leve engano. Não é à toa que muita gente que lutou para que acontecesse o 25 de Abril em Portugal se sente hoje defraudada com as novas gerações aparentemente indiferentes a tudo o que se passa.
Mas o problema, quanto a mim, não está no disfarce do príncipe: está na leviandade com que o mesmo príncipe escolheu tão ridícula, e perigosa, indumentária. Esse é que é o nosso verdadeiro problema. O mundo está cheio de Harrys para quem disfarçar-se de nazi é um assunto sem tabus e aparentemente motivo de chacota e diversão.Só que sem memória, não há respeito. E sem respeito pelo próximo, pela sua/nossa memória, não há civilização que resista nem alicerce que nos valha.
Nenhum adolescente pode pensar que é normal disfarçar-se de nazi. Não é só Harry: são todos.