quinta-feira, janeiro 20, 2005

Vera Drake

Mike Leigh e um filho de Manchester. Nasceu a meio da Segunda Guerra Mundial numa das cidades mais bombardeadas pelo Alemaes, que procuravam acima de tudo, destruir o coracao industrial de Inglaterra. So quem nao conhece o Noroeste de Inglaterra e que pode negar a existencia de uma classe trabalhadora, a mesma que Marx e Engel descreveram. Leigh conhece esta classe melhor do que ninguem. Cresceu em Salford onde a vida acontecia ao som do toque da fabrica, onde nos bairros as familias se aglutinavam por oficios, onde as arvores eram cinzentas e nao verdes, onde o sol a custo despontava pelo meio da poluicao, onde a agua do canal nao era translucida e transparente. Todas estas memorias, Leigh transfere-as para a tela do cinema. Melhor do que ninguem, este e um realizador que retrata as diferencas de classe numa Inglaterra dominada pela Industria pesada.
E no entanto uma visao romantizada, que quase sempre transmite a idea da classe trabalhadora como uma classe de pessoas boas, humildes, puras e docemente ingenuas; por oposicao a uma classe alta arrogante e snob. Leigh ja nao vive em Manchester. Leigh ja nao vive em Salford, Manchester. Nao ficou para assistir a depressao industrial, a Guerra da cidade com o governo Tatcher, que lhe custou anos de abandono politico. Leigh nao sabe as consequencias que tal teve para a sua ‘working class’. Mas e, no entanto, um 'realista' que procura filmar uma realidade que nao se confina a Dover e a uma Londres turistica…
Sendo um ‘realista’, foi com expectativa que fui ver ‘Vera Drake’, o ultimo filme de Leigh. Como seria Leigh capaz de abordar a tematica do aborto? Vera Drake e uma mulher da classe trabalhadora que, no pos Segunda Guerra Mundial, ganha a vida a limpar as casas ‘das senhoras’. No seu tempo livre, Drake faz abortos, sem pedir dinheiro algum as mulheres que recorrem aos seus servicos. A obsessao do realizador por enfatizar a divisao de classes resultou porque no que concerne a esta tematica, a divisao de classes permanence actual: as mulheres que Drake ajuda sao praticamente todas da classe trabalhadora mas Leigh subtilmente mostra-nos como fazem as mulheres da classe alta, que recorrem a clinicas especializadas. Drake, ao contrario dos medicos dessas clinicas, e apanhada pela policia e condenada a prisao. Durante o interrogatorio, quando o inspector lhe pergunta o que e que ela faz, Vera Drake responde que ‘ajuda as raparigas’. ‘Faz abortos, portanto?’, insiste o inspector. ‘Nao, voce chama abortos, eu nao. Eu ajudo as raparigas a mestruarem de novo’.
Leigh, um homem, conseguiu neste dialogo dizer muito mais do que muitas campanhas a favor da liberalizacao do aborto. Alias, o filme so poderia ser escrito e realizado por um homem. Uma mulher exploraria mais o lado da mulher que e submetida a interrupcao da gravidez. O seu sofrimento fisico e emocional, a sua culpa. No entanto, este enfoque dificilmente seria compreendido pela maioria dos homens que por vezes parecem nao entender que para uma mulher aborto para alem de significar perder um filho e quase como uma amputacao. Fisicamente todo o corpo da mulher se altera desde de um dia 1 de uma gravidez, e se prepara para algo que faz agora parte do seu organismo. No filme de Leigh, as mulheres que abortam nao sao as protagonistas. Com 52 anos, Leigh tem maturidade suficiente para perceber que se tentasse ir por essa via seria um desastre. A protagonista e Vera Drake, que na sua candura e simplicidade, acredita nao estar a fazer nada de mal. Acredita que esta simplesmente a ‘ajudar as raparigas’ que nao tem mais a quem recorrer. A Inglaterra de 1950 retratada em ‘Vera Drake’ poderia ser Portugal de 2005. Com uma diferenca: nem em Inglaterra de 1950 se condenavam a prisao as mulheres que interrompiam a gravidez…