quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Ainda sobre a responsabilidade do presidente

Parece-me óbvio que Sampaio tem uma responsabilidade acrescida no actual momento político. Se Sampaio, e escrevi isso aqui em tempos, não convocou eleições em Junho (como de facto o devia ter feito) foi, de certeza, porque tinha um acordo com Durão Barroso. Se assim não fosse, Durão nunca teria partido para Bruxelas e deixado vago o cargo de primeiro-ministro. Ou não é isto óbvio?
Do mal menor, encontrou-se Santana Lopes, um Vice-Presidente (o primeiro) do PSD e simplesmente o presidente da maior câmara do país, que Sampaio aceitou, mas a quem anteviu um futuro negro (mesmo com aquelas cenas todas de ouvir os vários quadrantes políticos, as corporações e o Conselho de Estado para fingir que a sua decisão era ponderada e que não estava ainda tomada). Tudo muito bem. O timing era perfeito e jogava a favor do mestre que mexia as pedras. Entre ele e o seu objectivo final (uma maioria PS no Parlamento) apenas uma pedra no sapato: Ferro Rodrigues. Era preciso forçar a demissão de um líder e uma direcção envolvidos, indirectamente, no escândalo Casa Pia, o qual manchava a reputação dos socialistas e que o PS geria muito mal arrastando-se, por culpa própria, num lodo sem fim à vista. Ainda para mais, com Santana motivado, a convocação então de eleições teria servido para legitimá-lo no poder, uma vez que Ferro seria presa fácil do discurso e da popularidade de Santana. Bastou-lhe (a Sampaio) então, e depois, esperar enquanto o governo metia os pés pelas mãos, praticamente todas as semanas. E foi aqui que Sampaio fez jurisprudência e que conseguiu aquilo que ninguém antes ousara fazer: dissolver um parlamento com uma maioria sólida no governo, por mero capricho. Depois de legitimar Santana, Sampaio, protegido pela comunicação social e pela esquerda sedenta de voltar ao poder e atraída pelas sondagens, cometeu um erro pelo qual nunca pagará. O que é pena.