quarta-feira, março 23, 2005

A ciclicidade das notícias

No último mês, três polícias morreram na Amadora no cumprimento das suas funções. De súbito muita gente entrou em pânico e estabeleceu teorias e correlações entre a imigração, o crime e a violência. Alguns entraram numa espécie de paranóia sem fundamento e sem qualquer razão exigindo, a quente, medidas e rápidas soluções, algumas de foro radical. Convém não nos precipitarmos. E convém analisar, a frio, as verdadeiras causas por trás deste tipo de incidentes.
Há três ou quatro anos, uma série de assaltos a bombas de gasolina e um envolvendo uma actriz menor (Lídia Franco), fez com que em Portugal muita gente jurasse viver numa terra sem lei nem roque, onde a bandidagem fazia o que queria, inclusive gozar da polícia. Redondo equívoco, como se viu. Falso alarme para enganar e criar uma espécie de insegurança colectiva, onde toda a gente apontou o dedo a toda a gente. Também nessa altura a comunicação social fez um show off medonho empolando situações dignas do mais puro caricato desde gangs à solta a terroristas de sete costados. E também nessa altura, muita gente foi entrevistada, muito rancor foi jogado e muitos especialistas foram consultados. Efeitos? Praticamente nenhuns. No regresso à normalidade toda a gente percebeu que a fotografia era manifestamente exagerada e que não representava a realidade. A coisa parece-me que se volta agora a repetir. Portugal é muito provavelmente um dos países mais seguros da Europa (o que equivale a dizer do Mundo) e nos últimos tempos não se deu nenhuma alteração significativa para que tal deixasse de se suceder. Continuamos, no fundo, a ser um país de brandos costumes – não na violência doméstica, por exemplo, ou mesmo para com outro género de indefesos – e não há razão para alarme. Não se deixem influenciar. Afinal, “Aníbal (não) está às portas” como diziam os romanos para assustar as suas criancinhas….

PS: Reconheço que há que rever as condições de trabalho das polícias para que estas exerçam cabalmente as suas funções. Mas isso é uma coisa que nada tem a ver com os imigrantes nem com o suposto mal que eles representam. Tem a ver, sim, com a política e com a vontade dos políticos.