terça-feira, março 22, 2005

A economia por Manuel Fernandes...

O Sr. Director do jornal Publico tantas vezes peca por ‘se meter a falar’ de coisas que visivelmente não percebe. Este velho do Restelo, escreveu hoje um artigo sobre o síndrome Português de seguir exemplos de outros paises para se inspirar no seu modelo de desenvolvimento. Da então o exemplo da Irlanda (a coqueluche de Durão) e da Finlândia (da preferência de Sócrates). Faz Fernandes depender o desenvolvimento destes dois paises do seu patriotismo. Confesso que desde que Santana era PM não ouvia eu declarações tão disparatadas quanto estas... Ora o primeiro erro deste senhor e comparar alhos com bugalhos. A Irlanda não e comparável a Finlândia, Sr. Director. A Irlanda, se assim o quiser, encaixa-se na tradição Latino-Americana da teoria da dependência econômica. E um balão, insuflado pela criação de vantagens fiscais a empresas, nomeadamente de serviços (isto e, call centres, basicamente), para a fixação de negócios. Digamos que estas não levam a criação de infra-estruturas tecnológicas nem tão pouco ao aumento da procura de recursos humanos mais qualificados e diferenciados. E um balão insuflado pela economia norte-americana, por grupos americanos que prezam a sua ascendência irlandesa e dinamizam, especialmente e nomeadamente, o mercado de especulação imobiliária. Ora Dublin é a Irlanda e o resto nem paisagem, é o marasmo. E lógico que em termos de indicadores macroeconômicos isto tudo parece muito bem. No entanto, não acrescentaria o qualificativo ‘sustentado’ à expressão ‘economia Irlandesa’.
A Finlândia e outra fruta. Aqui falamos de um pais que procura aliar o desenvolvimento tecnológico e econômico ao desenvolvimento do bem estar social. Deste modo percebeu que um desenvolvimento sustentado se faz apenas com pessoas e com a criação de uma massa critica, cujo papel vai muito para alem de ‘pseudismos’ e intelectualismos dandies como os que temos em Portugal. A criação desta massa critica passou na Finlândia pelo acesso universal, gratuito e facilitado ao ensino onde, Sr. Director, não se pagam propinas (alas...). Passou também pela criação de um serviço publico forte e estruturado, voltado para a criação do bem estar social, entendendo-se este como função primeira do Estado. Digamos que a diferença entre a Finlândia e a Irlanda e que a primeira delineou uma estratégia para criar, de raiz, infra-estruturas sociais e econômicas baseadas no conhecimento. A Irlanda e apenas um hospedeiro, que aloja empresas parasitas. É tipo uma plataforma de exportação de serviços, neste caso call centres. A entrada da Índia neste mercado de atracção de empresas trará, a médio prazo, problemas para a economia irlandesa que se vera incapaz de competir com as vantagens comparativas da Índia que, elace, também fala inglês.
Portanto, se temos de nos comparar a alguém, com alguém e seguir o exemplo de alguém, estou muito contente que seja a Finlândia e que de uma vez por todas deixemos de olhar para cima, para os ‘velhos aliados' Anglo-saxões. Não que possamos imitar modelo de desenvolvimento Finlandês, mas pelo menos que sejamos capazes de reter o básico: investimento nos recursos humanos, numa economia do conhecimento como vantagem comparativa e na criação de infra-estruturas que nos permitam alcançar tais objectivos. E o nosso problema não e o patriotismo ou a falta dele. O problema reside no tecido empresarial que temos (cambada de ignorantes, abrunhos e grosseiroes, vendedores de sapatos e feijões sem visão) e intelectuais que se reproduzem dentro de uma lógica familiar e que em vez de estarem na frente de novas idéias se comportam como a Igreja Católica (alias, estão para a sociedade como a Opus Dei esta para a Teologia da Libertação...)... Bom, mas nada, nada e impossível! A ver vamos.