quinta-feira, março 31, 2005

Os ingleses e suas colonias...

Para ira dos pós-modernistas, um dia escreverei um livro sobre a cultura e o legado dos povos anglo-saxônicos. Não são melhores nem piores do que outros povos, mas as suas contradições são por certo muito mais sofisticadas, para além de divertidas... Ora pois então, estão a realizar-se eleições no Zimbábue. O Zimbábue tem a sorte (ou o azar) de ser um país de expressão oficial inglesa. Daí o facto de figurar nos telejornais dos canais britânicos. Falasse chinês ou árabe, e não tivesse um tsunami ou petróleo, para a sua existência passar completamente despercebida aos olhos dos súbditos de Isabel. De manha cedo, estava eu no meu café da manha, quando no ‘Morning Programme’ da BBC (desculpem lá, eu sei, com esta conversinha de chacha já pareço o Pacheco...) quando se começa então a falar no Zimbábue, esse país governado pelo Robert Mugabe. Ora diz a apresentadora que o Zimbábue, ‘um país que foi colônia inglesa por mais de 75 anos’ (e enfatiza os ’75 anos anos’) tem uma população empobrecida, com 38% a sofrer de malnutrição, uma situação agravada, garante-nos a jornalista, pela expulsão dos agricultores e donos de terras brancos. Bom, eu já não me choco com este tipo de comentários neste país. O hábito faz o monge, e eu já levo uns anitos de convento nos costados. Mas de facto eu nunca vi nação mais orgulhosa do seu passado colonial como esta. Eles estão profundamente convencidos que foram um bom império, de que ha bons impérios, e que os outros fizeram muito mal em rejeitar a sua iluminada gestão. O Reino Unido é um país nem de bem nem de mal com a historia porque é um país que vive uma fábula: a fabula do bom colonizador e civilizador. E isto esta de tal forma entranhado na psique nacional que leva a que, precisamente, os seus cidadãos se choquem de ir a Rússia e de ninguém falar inglês, de não haver pequeno almoço inglês na Bavária, e dos outros europeus conduzirem pela direita.
Mugabe não e um santo. E um ditador. Mas Mugabe estudou no berço da 'boa civilização': no Reino Unido. Como um ‘mau selvagem’, regressou para expulsar os brancos que ha mais de 75 anos atrás tinham usurpado, a forca da bala, as terras das gentes que povoavam a então Rodesia. Os 38% de malnutrição não são decorrentes da ma gestão por parte do povo (negro) do processo produtivo agrícola no Zimbábue (no fundo é isto que os ingleses querem dizer, mas são demasiado 'hipocritamente correctos') mas da grave seca que assola o pais e, é claro, do despótico governo de Mugabe, que se rodeou de ávidos caciques.