terça-feira, abril 26, 2005

Disfunções

Há lugares comuns que de tanto se repetirem chegam à náusea. Falo-vos como “funcionário público”, publicamente reconhecido como privilegiado, mau trabalhador, e rotineiramente habituado a fazer coisa nenhuma. Tenho suportado as “felicitações” quase diárias com um sorriso de circunstância. Repetem-se os clichés do costume: “Grande sorte!”, “Então não fazes nada!”(seguido de uma gargalhada mais ou menos alarve consoante os casos), e mimos diversos que congratulam a minha suposta entrada no limbo do laxismo, e da preguiça.
Seria injusto não reconhecer que há benefícios óbvios, sobretudo em relação ao sector privado. De facto não tenho grandes razões de queixa nessa matéria. Segundo alguns não deveria sequer queixar-me. Mas queixo-me.

1º - É inacreditável que só uma imensa minoria dos que me interrogam/felicitam deseja saber o conteúdo funcional do meu trabalho, ou demonstram interesse sobre aquilo que se passa numa instituição que sobrevive à custa dos impostos que pagam, sendo óbvio que não acham bem pagar impostos, muito menos para pagar o meu salário.

2º - A subversão maior e mais preocupante, é que na maioria dos casos a bitola de comparação com as ditas regalias do funcionalismo público, são as condições laborais de que a maioria goza no sector privado, que são normalmente aceites entre um prosaico, “é a vida”, ou um fatalista …”não há nada a fazer”

A minha inquietação (sim, porque isto de ser funcionário público também dá espaço para inquietações), é a leviandade com que se tratam matérias fundamentais como os direitos dos trabalhadores, e como se pensa segundo uma lógica bipolar profundamente acrítica e superficial. Se alguém folhear o novo código do trabalho vai perceber, que já não há só o branco e o preto, mas que se caminha a passos largos para um cinzento carregado e homogéneo. Não faltarão muitos anos para que tanto no público como no privado os trabalhadores usufruam do mesmo: De cada vez menos.

Já agora seria interessante que muitos dos que se queixam da sua sorte, que “invejam” a minha, ou que acham que não se pode fazer nada, estivessem presentes nas comemorações do 1º de Maio. Pode parecer um argumento demagógico, mas ainda assim continuo a gostar muito mais do vermelho do que do cinzento.

(P.S. – Parece–me uma ideia demasiado batida e pouco original comparar o P.C.P à igreja católica, mas ainda assim, cristãos e ateus venham à missa na Alameda)