sábado, junho 18, 2005

Cunhal, o Álvaro, Cunhal o homem

Sempre ofereci grande resistência ao(s) culto(s) de personalidade(s). Um característica pessoal que fez com que mesmo o quarto da minha adolescência fosse despido de posters de cantores rock ou actores de cinema, e que me previne ainda de envergar camisolas com rostos estampados. Não acredito em seres humanos perfeitos, superiores, ímpios, forjados na correcção suprema de carácter. A humanidade é a condição de ser humano – este por vezes bom, por vezes mau, por vezes assim-assim, algumas vezes fraco, outras forte, capaz de grandes actos de bondade, inventor da tortura. Fruto das circunstâncias – físicas, sociais, genéticas e outras, suas e dos outros. É deveras uma condição complexa esta, não passível de ser reduzida e resumida a um só adjectivo qualificativo.
De Cunhal como ser humano, no total pouco sei. Bateria na mulher, como se diz de Einstein, assumido pacifista? Não faço a mínima ideia. Se estivesse em Lisboa teria ido ao seu funeral. Não por ser Cunhal, o Álvaro, mas o homem, como tantos outros, complexo. Iria pois celebrar uma vida de luta contra um regime opressor, uma tenacidade de sobrevivência em nome da liberdade, qualquer que fossem os moldes em que Cunhal, agora o Álvaro, pensou essa liberdade. Sair à rua no seu funeral é celebrar não uma vida, mas tantas outras anónimas, que nos permitem hoje usufruirmos do impensável há 30 anos atrás. E é precisamente na celebração de tantas outras vidas anónimas de tantos outros seres humanos de excepção, que reside o meu contentamento de ver tantos e tantas a seguirem, de cravo na mão, a carreta funerária de Álvaro. Muitos daqueles que foram entrevistados pelas televisões tinham também eles histórias para contar. Estas histórias fazem a História, e esta deverá narrar o colectivo. Celebravam-se pois a si próprios, às suas vidas. Celebrei também eu nesse dia a vida de Fernandes, meu bisavó, que organizou a primeira greve em Portugal de estivadores no Porto de Leixões e que por isso foi bater com os costados ao Aljube, agravando assim a pobreza da sua vasta prol que sempre o apoiou e compreendeu a sua permanente indignação. Assim o seguiu, uma vida também tantas vezes na clandestinidade, por esse Portugal a fora, de onde sempre se recusou a sair. ‘Prendem-te o corpo mas nunca o pensamento’, dizia.
O funeral de Cunhal foi para mim a não celebração do mito, mas do homem que como outros, e de uma vida, que como tantas e tantas outras, também elas de excepção, lutaram pela libertação da liberdade enclausurada pela ditadura. A ser símbolo, que esse dia seja o símbolo do colectivo, de bravas gentes que eu quero acreditar que ainda existem. Que não seja mito. Os mitos elevam-se à condição de sombras nas cavernas, das sombras geram-se dogmas, e os dogmas sim, não aprisionam os corpos (quando não...) mas quase sempre o pensamento...