quarta-feira, junho 29, 2005

Mais papista que o Papa

No Parlamento Regional, um deputado do PS pavoneia-se em loas às famigeradas medidas apresentadas por Sócrates para combater o défice e colocar na ordem as contas do país. A sua intervenção incide essencialmente no fim de algumas regalias, há muito instituídas, dos funcionários públicos e no anúncio da austeridade e de uma espécie de nova ditadura que transforma tudo em números., em índices e em estatísticas. No caso em particular, Ricardo Freitas, o deputado em questão, referia-se ao congelamento das progressões automáticas nas carreiras e à passagem da reforma para os 65 anos, entre outras coisas (como o extraordinário aumento do IVA) que têm o objectivo supremo e ignóbil de culpar os suspeitos do costume.
Tudo muito bem. Nada que não se esperasse de um parlamentar da bancada que tem a mesma cor partidária do governo da República e que faz do seu discurso uma tentativa, vã e efémera, de legitimação da actual acção política de um executivo há demasiado tempo à deriva.
Mas o extraordinário nisto tudo, e espantem-se, é que o referido deputado é, para além de deputado pelo Partido Socialista, presidente do Sindicato Democrático da Função Pública na Madeira. Isso mesmo, leram bem: presidente do Sindicato da Função Pública na Madeira. Ora, neste cenário absurdo, não estaremos perante um caso gritante de incompatibilidade política? Como se sentirão os associados deste sindicato ao verem um presidente que não os defende e que não é com eles solidário? É para isto que servem os sindicatos? Bem fez Roberto Almada, deputado pelo Bloco de Esquerda, ao anunciar no hemiciclo que ia cessar imediatamente a sua inscrição neste sindicato e distribuir cópias do referido discurso pelos trabalhadores do mesmo. Se eu fosse sindicalizado, faria o mesmo.