sábado, julho 23, 2005

Cantona

Notícia interessante: um jogo de futebol de praia, entre as selecções de França e de Portugal, não acaba. Ou por outra, acaba em batalha campal. Ou em batalha no areal, para ser mais preciso. Quem começou a contenda aqui pouco importa e é irrelevante para o caso. Quem tem memória, lembra-se que estas duas selecções vivem pegadas seja na praia, seja nos torneios de jovens onde partimos os balneários, seja por causa das mãos do Abel Xavier (ou do bigode do José Romão, para exagerar um pouco). Mas no meio de tudo isto, uma coisa chama-me à atenção: o seleccionador francês atende pelo nome de Eric Cantona.
Num assombro, lembro-me dele e do futebol de eleição que praticava no Manchester United. Já não há jogadores assim: com este carisma, com esta determinação, com esta desenvoltura, com esta elegância. Já não há jogadores deste calibre; jogadores que olhavam para o jogo como um movimento estético que tinha de resultar ou em poesia ou em tragédia. Eric, o homem que corria de cabeça erguida feito locomotiva, de gola levantada e pronto a fintar o adversário que enfrentava, foi provavelmente o último grande jogador do século XX (sim, de acordo, não me posso esquecer desse extraordinário Zidane, mas esse ainda entra no início deste século). Para Cantona, o jogo tinha um mínimo de regras e daí que tudo nele fosse verdadeiramente imprevisível e imponderável.
Cantona treina agora a selecção de futebol de praia do seu país, o que é quase uma despromoção, reconheça-se. Está um pouco mais gordo. Cantona, filho de artistas, também conhecido por Dieu (Deus) ou Eric, o Terrível, nos tempos áureos em que espalhava magia e rebeldia pelos relvados ingleses, era um romântico, um sonhador e um poeta. Vê-lo é como ver um mito. Um mito vivo, que fez do futebol a sua arte e a sua causa. Espero que ele continue igual a si próprio e que seja enquanto treinador o mesmo que foi enquanto jogador: genial, acima de tudo. E espero também que ele nunca mude porque fazem falta ao futebol, os românticos, os sonhadores e os poetas. Como ele foi. Como eu espero que ele ainda seja.