quarta-feira, julho 13, 2005

Sitiada em Manchester

Aqui estou eu, sitiada no edificio da faculdade porque uns poucos metros a frente, por baixo da Mancunian Way, a policia procura por uma bomba. No café da faculdade, os sitiados e evacuados dos edificios circundantes amontoam-se, procurando reproduzir uma normalidade que ja nao existe, falando ao telemovel com familiares para relatar em primeira mao a experiencia viva de quem parece viver numa guerra. A normalidade, essa, ja nao e o que era. A normalidade agora e assustadora. Nao tanto pelas bombas. Mas pela forma como nos, seres humanos, aceitamos, interiorizamos e aprendemos a viver e a conviver com a violencia. As explosoes em Londres chocaram muito poucos. A reaccao mais comum foi o ‘ja era esperado’. Portanto, esperamos assim que o normal seja as pessoas morrerem, de forma violenta, a merce de fundamentalismos religiosos, de politicas cruzadas que tantas vezes transcedem os cidadaos comuns. A actual realidade, para muitos, tera pois de se adaptar a esta nova normalidade. Como? Reforcando-se os mecanismos de vigilancia e controlo pessoal e social. Parte da nova normalidade passa entao a ser a subtil coercao social praticada, na Europa, por estados democraticos que gradualmente se vao transformando em democracias policiais dado a sua incompetencia de lidar com questoes de integracao. Comeco a viver num mundo que so pensava possivel nos livros de ficcao cientifica, onde talvez ate para ir ao café terei de passar por um dispositivo de identificacao de retina, onde diariamente seremos obrigados a provar a nossa inocencia sob pena de denunciar culpabilidade, onde nos afastaremos mais e mais uns dos outros, onde o medo nos invade, onde a violencia inesperada se torna esperada e normal. Milhares e milhares de anos de evolucao para nada. Para isto…