quinta-feira, novembro 17, 2005

A Igreja e o sexo

Na tradicional e Catolica cidade de Viseu foi assassinada uma prostituta Brasileira, portadora do vírus HIV. Parte-se do principio que o facto desta mulher estar infectada esteve na origem deste deplorável acto. Para já, há duas questões que aqui se levantam:

1. A ‘bela italiana’, como era apelidada a mulher assassinada, terá feito o teste no Centro de Rastreio Anonimo do Hospital de Viseu. Parece-me a mim que provavelmente a informação acerca da infecção desta mulher terá vindo desta unidade.

2. Por outro lado, no circuito da prostituição em Viseu, esta mulher era a mais procurada e a que mais facturava porque não obrigava os seus clientes ao uso do preservativo.

Segundo informacoes do Centro de Rastreio Anonimo do Hospital de Viseu, o numero de utentes desta unidade não sofreu nenhum aumento. Significa pois que, e segundo fontes não oficiais, os presumíveis clientes da ‘bela italiana’ se dirigem a outras unidades de rastreio, nomeadamente as situadas nas grandes cidades, para fazerem o teste de despiste do HIV. E realmente deplorável que os cidadãos não sintam confiança numa estrutura de Saúde que legalmente e obrigada a manter o anonimato. Mais deplorável ainda e o assassinato desta mulher. Tudo isto so vem provar que em termos de mentalidades, Portugal ainda esta na Idade das Trevas. Pior, revela igualmente que as campanhas de prevenção do HIV/Sida tem falhado redondamente. Os homens portugueses, a grande maioria, recusa-se a usar preservativo. A grande maioria das mulheres, amordaçadas por uma cultura ainda altamente conservadora, não e suficientemente emancipada para exigir o uso do preservativo, remetendo essa decisão para homem. Assim sendo, Portugal e o pais da Europa com um dos mais elevados índices do vírus de HVI. A julgar pela a confiança que os cidadaos tem nas estruturas de Saúde, este indice será ate, porventura, mais elevado.
Para tornar esta questão ainda mais surreal, a educação sexual nas escolas parece engatada em marcha atrás. A Igreja, incapaz de resolver os seus proprios problemas internos no que concerne ao comportamento sexual dos seus apóstolos padres, da-se ao luxo de fazer comentários públicos completamente desajustados a situação do pais. Acusa o Estado de se preocupar somente com a prevenção da "gravidez não planeada, (d)as doenças sexualmente transmissíveis e abusos e exploração sexual" e expressa o seu descontentamento relativamente "a colaboração de estudantes mais velhos que frequentam o ensino superior" nas aulas que abordem estas tematicas com os adolescentes. A Igreja, parece-me a mim, quer ensinar o ‘amor’. Os veiculos humanos para divulgarem este ensinamento serao, presumo, os padres (que ganharao assim um salario do Estado, com todas as regalias que isso implica). Sendo uma organizacao dita da sociedade civil, a Igreja tem todo o direito de expressar a sua opiniao. No entanto, num estado constitucionalmente laico, a ultima coisa que eu gostaria de ver era padres nas escolas. Os padres tem que se acostumar ao seu espaco – a igreja, a capela, e o adro. O ‘amor’ nao se ensina, sente-se. Nao ha moral nenhuma, catolica ou outra, que possa vir ensinar, inculcar o amor, as formas de amar, e os preceitos do amor. Sexo por sexo, sexo com amor ou sem amor, devera ficar ao criterio de cada um. Isto desde que ambas as pessoas envolvidas no acto estejam plenamente conscientes do que estao a fazer, desde que nenhuma delas seja forcada a faze-lo e/ou humilhada no processo. Sexo com amor por si so nao evita doencas sexualmente transmissiveis, que vao desde a Sida, a hepatite, a clamidia que leva a infertilidade, ao papiloma virus que se desenvolve em cancro do cervix. Como em questoes do amor cada um sabe de si, uma educacao sexual correcta devera passar sobretudo pela emancipacao feminina. O inculcar nas mentalidades das adolescentes que sexo so quando elas quiserem, sem pressoes sociais, quando se sentirem preparadas, e com preservativo. Aos homens, e educacao sexual passara pela desconstrucao dos mitos da virilidade e masculinidade, e por uma maior responsabilizacao pelo acto sexual. A Igreja, que reze pais-nossos e que ame os outros, de tal forma que nao os condene moral e fisicamente.