quarta-feira, novembro 09, 2005

Na periferia

Conheço Cinfães como a palma da minha mão. Os meus Verões eram passados numa pequena aldeia, Paradela. Aqueles Verões que se estendiam por Setembro e que me permitiam ficar para as vindimas. A ‘praia’ era a Espiunca, que fica na rota do então límpido rio Paiva. A piscina o ‘poço negro’, uma das nascentes do rio acantonada num dos profundos vales de Paradela antes de se juntar ao leito do Paiva. Lembro-me ainda pequena de ouvir as minhas tias falarem nos ‘brasileiros’, aqueles que no inicio do século XX cruzaram o Atlântico em busca de melhores dias. Ou dos foragidos a I Guerra mundial. Uma guerra em que os historiadores Portugueses teimam em negar a participação de Portugal. Na aldeia falava-se da ‘venda’ de homens ao exército inglês. Homens esses que rumavam ao Brasil, precisamente no sentido oposto a uma Europa em armas. Falavam também dos ‘aliados’ do regime, que vinham ‘confiscar’ as colheitas e das paredes falsas, por detrás das lareiras, para esconder o milho. Aos ‘brasileiros’, juntavam-se os ‘suíços’, os ‘alemães’, e os ‘franceses’, em Agosto para a festa da padroeira Santa Ana. Dos emigrados na ‘Europa’ recordo-me dos carros e das bolachas! Bolachas a que ainda não tínhamos acesso em Portugal, muito menos em Paradela, onde só havia uma ‘loja’ com produtos locais e pastilhas elásticas ‘Gorila’. Em Paradela, a água acartava-se da fonte, a roupa lavava-se nos tanques comunitários. As televisões, para quem as tinha, eram a bateria. As casas eram iluminadas a ‘petromax’. A água do banho era aquecida a lareira, fosse Verão ou Inverno, e a banheira era uma ‘celha’ enorme. As casas de banho eram construídas por cima das cortes dos animais e consistiam numa tábua disposta como se fosse um banco de madeira mas com um círculo recortado. A vida em Paradela assemelhava-se à vida de tantas outras aldeias do concelho de Cinfães, onde mulheres de negro estavam claramente em maioria e carregavam as costas os molhes de milho amparados pelas ‘sacholas’. Recordo-me quando a luz eléctrica chegou à aldeia. Não me recordo de quando o saneamento básico, ou a água canalizada foram introduzidos. Talvez porque nunca o foram... Mas vi este ano, este Verão, que mais campos e campos se amontoam sem serem trabalhados, que as mulheres de negro morreram e que muitos poucos restam numa aldeia que ainda assim teima em permanecer acolhedora e bucólica. A emigração, tal como a imigração, e um fenómeno que deve ser levado a sério. Em Cinfães, os sucessivos fluxos migratórios e a progressiva desertificação humana das suas aldeias e lugares revela o abandono a que o interior foi votado pelos sucessivos governos que, mal, concentram a sua atenção somente no litoral do pais. Governos que optaram por um tipo de desenvolvimento económico apressado, trôpego, sem nada de estrutural. Um desenvolvimento económico que ignorou a necessidade do desenvolvimento agrícola e criou ‘novos-ricos’ a rodos, engenheiros aos molhos, politiqueiros Armani, licenciados as pás, e, claro está, muitos e muitos ‘executivos’. Cinfães é o subúrbio dos subúrbios. Ou melhor, o subúrbio da periferia, ignorado, esquecido. Pela esquerda e pela direita. Paradela lá esta, aguardando por novo Agosto, mês em que os filhos da terra regressam. Mas agora, os carros já não impressionam e as bolachas já são as mesmas.
Leitura interessante:
http://dn.sapo.pt/2005/11/09/sociedade/aqui_ha_trabalho_malta_para_fora.html