terça-feira, novembro 08, 2005

Nos subúrbios

A França assiste ha mais de 10 dias ao que se pode designar de uma ‘micro-guerra civil’. Jovens, apelidados de segundas e terceiras gerações de imigrantes, tem expressado o seu descontentamento, a sua revolta, relativamente às condições sociais em que vivem e a que estão sujeitos. O facto de estes jovens, nascidos e criados em Franca, serem ainda apelidados de segundas e terceiras gerações, e não simplesmente de um grupo de cidadãos, e bastante revelador da forma como os ditos ‘autóctones’ franceses lidam com a questão da imigração. Quantas gerações serão necessárias para que jovens como estes sejam considerados cidadãos de pleno direito?
Estes bairros, muito à semelhança do que se vem fazendo em Portugal, são verdadeiros depósitos de imigrantes e de ‘autóctones’ socialmente excluídos. Para aqui são empurrados os não-desejáveis, aqueles cujo funcionamento do mercado imobiliário exclui das zonas mais centrais das grandes cidades, de terem acesso às mesmas escolas que os desejáveis têm. Nestes depósitos, famílias amontoam-se em andares, esquecidas que estão por se manterem (ou serem mantidas) longe da vista... A integração não passa nunca pela mistura, daí a falácia do ‘multiculturalismo’ e/ou da ‘multisocialização’. Passa sim, pela hipócrita transferência de recursos ‘apropriados’ ao tipo de população residente: uma população ‘especial’, porque afinal trata-se de gerações de segunda e terceira... Apoiam-se assim a criação nestas áreas de centros de recursos ‘multiculturais’, associações de todo o tipo, ONGs e afins. O estado delega a intervenção social num ‘corpo especializado’ da chamada sociedade civil. Este modelo está visivelmente esgotado e claramente não resulta. Sem perspectivas e confinados ao seu bairro, estes grupos de jovens não só se sentem frustrados, aborrecidos de morte, mas também territoriais: o perímetro do bairro e afinal o seu perímetro de vida. Em França, estes jovens FRANCESES, apenas demonstram que existem, que o seu território existe, numa existência diferente...
Por outro lado, há ainda a questão do ‘emprego’ ou do ‘trabalho’. Dizia um luso-francês que em Franca há trabalho, não será como há 30 anos, mas trabalho há. Ninguém quer é trabalho, mas sim empregos. Bom, ‘who can blame them?’. A corrente neo-liberal, estranhamente e talvez inconscientemente apoiada na ‘gouche avant-garde’ pós-moderna e pós tudo, instituiu, e contaminou as mentalidades, a idéia de que trabalho é prazer. Trabalho é vida. Vida é trabalho. Trabalho é diversão, é tudo... Acima de tudo, trabalho é ‘lifestyle’. Um estilo de vida ‘fluido’, ‘flutuante’, ‘informático’, cosmopolitano, cool. Ser trolha não é cool. Ser padeiro, carpinteiro, não é cool. Tanta coisa não é cool. A desvalorização de tantas e tantas profissões tem sido uma constante nos últimos 30, 20 anos. Esta desvalorização é acentuada pelo próprio, e tão celebrado, processo tecnológico, que retira criatividade aos ofícios. Os ‘ofícios’ passam de ofícios a ‘trabalho’, mas trabalhos não-cools. Já não mais se equaciona trabalho a creatividade, ou simplesmente a sobrevivência, ao conceito de ‘livelihoods’ ou modos de vida, que permitem viver não per se, mas viver para outras coisas, outros interesses fora da esfera do trabalho cool. O tal luso-francês tinha um trabalho cool. Daí talvez a sua incapacidade de perceber ‘o outro’, o que vive ‘ali’, no subúrbio...