segunda-feira, novembro 28, 2005

A UE, a PAC, e a nova 'guerra' franco-inglesa

O impasse da União Europeia (UE) era esperado. O problema é a forma como a questão está a ser colocada: a nova guerra entre o Reino Unido (RU) e a França. O RU quer diminuir o peso dos gastos com a PAC (Pacote de Agricultura Comum) nos impostos dos cidadãos Europeus. Segundo o governo britânico, o sector industrial nunca foi tão fortemente subsidiado e por isso mesmo, assim vai o argumento, soube adaptar-se ao dinâmico mercado global. Este argumento é coerente com a política britânica e a sua tendência patogenica para a liberalização dos mercados, independentemente das consequências adversas que daí poderão advir. O moto é: se singrares tudo bem, se não singrares paciência... Do outro lado da trincheira temos a França, a economia mais subsidiada do conjunto dos paises ditos desenvolvidos. A França recusa-se inclusive a negociar uma pequena redução na PAC. Afinal, o coutryside francês mantém-se prístino, inalterado, e rico porque subsidiado. Christine Legarde, a ministra francesa para o comercio com o exterior, defende, num tom arrogante e cínico, que a importância de uma agricultura subsidiada é a de sabermos a origem da comida que temos no nosso prato e a preservação da identidade cultural francesa. Ao ouvir a senhora falar fiquei com a sensação que a França realmente não se enxerga! Ter o desplante de dizer tal coisa quando os paises mais pobres da UE são forçados a desmantelar o seu countryside, obrigados a parar de cultivar certos e determinados produtos, diminuindo assim a variedade das culturas em seu território nacional, com todas as consequências ambientais que daí advêm! O que a França não percebe é que a UE não existe para a servir e que os direitos deverão ser iguais para todos. O RU entende que os direitos deverão ser iguais para todos mas sobre uma perspectiva cruelmente neo-liberal. Esta ‘guerra’ no interior da UE deveria opor os pequenos paises da União às chamadas economias fortes. O paises menos desenvolvidos da União deveriam exigir uma maior igualdade de qualidade vida. Sim porque o que se passa em França é que enquanto na Roménia e em Portugal os camponeses emigram para limpar as latrinas dos franceses, os camponeses franceses passam o dia a cheirar vinho e queijo sponsored by the EU... Esta igualdade passa ainda por uma reforma das instituições Europeias, uma maior democratização destas mesmas instituições a par da sua desburocratização, limpando das suas secretarias centenas de burocratas cuja a única utilidade é a de aumentarem o trafego aéreo... A guerra que opõe o RU a França opõe dois pontos de vista errados. O único mérito do RU é obrigar os paises da União a repensarem a estrutura política e económica da mesma. É talvez uma oportunidade de ouro para os paises mais fracos se unirem e aproveitarem a luta dos Golias para forçarem, finalmente, a integração das suas reivindicações.