segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Agendas políticas de quem?!

A questão dos cartoons trate-se de facto de uma questão de liberdade de imprensa. Parece-me a mim que o que está a acontecer com o islamismo corresponde exactamente ao mesmo que sucedeu com o judaísmo. Actualmente, por exemplo, quem toma partido dos palestinianos é constantemente acusado de anti-semitismo.
O empolamento da questão dos cartoons não radica em nenhuma conspiração cristãos/homens/de direita/ocidentais associados aos médias. Outras questões ligadas ao fundamentalismo religioso/liberdade de expressão foram no passado empoladas: uma peça de teatro em Inglaterra que teve de ser cancelada porque a comunidade Sikh se sentiu ofendida, ou a retirada da grelha de programação da BBC do ‘Jerry Springer show’ que a comunidade cristã considerou uma blasfémia. Isto para não mencionar tantos outros casos como o de Salmon Rushdie. Portanto, achar que só este facto foi agora empolado porque se vive numa era em que a divisão de civilizações passou a ser teorizada nos discursos políticos é ter memória curta. Por outro lado, esta questão não deverá ser reduzida a essa tal oposição de civilizações. Os EUA emitiram um comunicado oficial dizendo que os cartoons eram ofensivos e que achavam deplorável que se manipulasse e utilizasse de tal forma imagens e símbolos religiosos. Este é um momento que define a fronteira que separa os que querem viver em estados seculares e os outros – fundamentalistas muçulmanos, católicos, protestantes, budistas, o que for – que pretendem o regresso à promiscuidade entre estado e religião. Exemplo disso é a declaração de um alto responsável da comunidade muçulmana em Inglaterra que disse que pelas leis do Corão não se deve usar a imagem do profeta. Ora aí é que está o busílis: eu não me rejo pelo Corão, assim como não gostaria de me reger pela bíblia. Eu rejo-me por uma constituição que não me impede de usar a imagem de Maomé.
O que se passou nestes últimos dias está sim senhor ligado à questão da liberdade de expressão, à preservação de uma liberdade que não branqueie a história ou fundamente preconceitos apoiados em ideologias religiosas impostas sem escrutínio dos indivíduos que a elas estão sujeitos. E acreditem, há muito muçulmano que não saltou às ruas em protesto mas que olhou com apreensão a possibilidade de a imprensa fazer concessões às facções mais fundamentalistas.