segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Comentanto o "em jeito de comentário"

1- Descontextualizar expressões colocando-as com um sentido que não era o original faz parte de uma velha táctica. É um método simples que geralmente produz bons resultados quando os outros estão desatentos. Mas é um método que esconde algo de essencial: a inexistência de um argumento sólido. Este caso em particular tem contudo uma variante, que foi utilizada, por exemplo, há um ano atrás pelo guardião da moral e dos bons costumes portugueses. Vi então este mesmo argumento em Louçã, armado em Savonarola como correctamente o apelidaram, num debate com Portas em que este foi condenado ao ostracismo e ao silêncio na questão do aborto porque não sabia o que era gerar vida. Para além de cínico, é deselegante. E claro de muita má-fé. A arrogância e a mania de superioridade em todo o seu esplendor.

2- Por isso, o mais preocupante é precisamente o argumento do “incluem-se parte importante de estudos e trabalhos feitos por pessoas que em vez de papaguearem cartilhas ideológicas, estudaram, foram para o terreno, para os arquivos e procuraram, o que não os torna imunes à crítica, chegar a algumas conclusões. Quem é que informa melhor?” Toda a citação resume bem o pensamento do autor. Eu sei porque vi, porque estudei, porque pesquisei. Logo, tu que não viste, que não estudaste, que não pesquisaste não sabes nada do assunto nem podes ter qualquer opinião formada e digna de ser, sequer, comentada. Por isso, cala-te porque não podes “informar”. Faltou apenas acrescentar “sou [a tal] uma autoridade moral avalizada pelas pesquisas académicas que fiz e que diariamente faço”.

3- Eu não percebo nada de átomos (aliás, nunca vi nenhum), mas sei que eles existem. Sou até capaz de explicar, pasme-se, a sua composição (que heresia). Sou capaz também de falar sobre a Revolução Industrial, mas de repente não sei se devo porque não vivi na época. Estou consequentemente e também por isso condenado a não poder falar da China, ou da Inglaterra ou mesmo da Austrália pelo simples facto de nunca os ter visitado. Ou de Angola e Moçambique porque nunca vi de perto a sua pobreza e o desespero das suas populações. Estou proibido ainda de falar sobre a fome e a miséria porque nunca passei fome nem fui miserável. Ou sobre a toxicodependência por razões semelhantes. Continuo assim a procurar sentido para a existência de livros, revistas, filmes, jornais. E de bibliotecas, e livrarias, e museus, e arquivos. E da televisão, da rádio, da internet, etc. Triste mundo este se nos limitássemos a falar apenas sobre as nossas profissões ou sobre o nosso clube de futebol.

4- No meu partido (apesar de discordar com muitas das suas orientações e estratégias) há gente contra e a favor do aborto. Contra e a favor da eutanásia. Contra e a favor da regionalização. Contra e a favor do casamento entre homossexuais. Contra e a favor das privatizações. Contra e a favor da integração europeia. Contra e a favor da intervenção militar no Iraque. Contra e a favor do código do trabalho. Contra e a favor de uma maior liberalização do mercado. Contra e a favor da publicação dos cartoons. Etc. etc. Poucos partidos existem em Portugal com tanta diversidade de opinião. Dogmáticos e transmissores de “cartilhas” são aqueles que impõem uma única, e apenas uma, possibilidade de escolha. Aos seus e ao mundo.