quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Não se pode transigir com o novo totalitarismo

O totalitarismo tem de ser combatido sem medos e sem cedências. De qualquer espécie. Não se negoceia com quem defende valores opostos aos da liberdade. Se por comparação (num exercício meramente prático) quisermos analisar o valor da liberdade na nossa sociedade em comparação com outras, não podemos ter qualquer dúvida: a nossa sociedade é superior (é preciso dizer as coisas como elas são) porque é a liberdade que nos garante esta nossa enorme diversidade política, cultural, económica e social. É a liberdade, por exemplo, que nos permite alimentar esta nossa polémica nas páginas de internet do nosso blogue. Isso valoriza-nos.
Quem massacra à pedrada, pratica excisões em crianças, apedreja a mulher adúltera, nega o holocausto ou se deixa explodir num mercado cheio de crianças não é gente recomendável nem gente que eu convide para ir ao café ou para comer em minha casa. Eu sei que são afirmações perigosas, mas perigosos são também os tempos. Nenhum de nós gosta de fascistas.
A história, infelizmente, não nos deixa outro remédio que não seja o não transigir perante a chantagem, o terror ou a intolerância de gente que não quer ou que não sabe ver ou aceitar o que está verdadeiramente em causa: o nosso estilo de vida, a nossa liberdade, a nossa pluralidade. Devemos por isso resistir em nome de todos aqueles que sofreram na pele as arbitrariedades de doutrinas totalitárias, como o fascismo e o comunismo, e à luta que muitos outros travaram para impedir que nós não sofrêssemos hoje na pele a arbitrariedade total do homem sobre o homem, hasteada em nome da utopia e da sociedade perfeita, gritada em nome do sonho tornado pesadelo, num mundo onde a única pergunta - o porquê? - nunca teve uma única ou singular resposta. Recordar Primo Levi e Soljenitsin deve ser suficiente.
Algures por aqui se falou na instrumentalização de imagens desenterradas quatro meses depois com intuitos dúbios. Algures foi afirmado que existiriam interesses obscuros por parte da extrema-direita interessada em fazer renascer esta polémica (que muito sinceramente não é polémica coisíssima nenhuma) com objectivos, quiçá pró-americanos, devido à situação explosiva que se vive no Médio Oriente. Sinceramente, o argumento de tanto usado está gasto. É o mesmo que justifica a guerra no Iraque com o petróleo e exactamente o mesmo que afirma que o Katrina é consequência da globalização predadora. Mas ainda assim poderíamos colocar a questão ao contrário: porquê só agora? Que obscuros interesses estarão por trás das agendas políticas dos fundamentalistas? Sim: porque não colocar a questão ao contrário? Porque é que apenas um lado é capaz de ser conspirativo? Por acaso não haverá islâmicos com vontade própria?
Outra coisa que não podemos estar constantemente a utilizar é o maldito sentimento de culpa pelo passado. Fizemos muitas asneiras, fizemos muitas matanças, e em nome de valores e dos nossos deuses e de outros santos promovemos uma sangrenta Inquisição. Tudo isto foi feito pelo Ocidente apostado em demonstrar, então, a sua superioridade militar, cultural, económica e social. Com resultados desastrosos, diga-se em abono da verdade. Mas isso não pode desculpar nem permitir que outros se aproveitem desse sentimento de culpa para explorar a nossa permanente boa vontade, alicerçada na tentação do diálogo e na busca de soluções de compromisso. Sintomática a situação africana (tantas vezes aqui referida), continuamente injectada com donativos que se limitam a encher chorudas contas bancárias em bancos suíços enquanto os seus dirigentes se sucedem por golpe de Estado ou por conivência política, deixando populações inteiras na miséria e na fome, enquanto assobiamos para o lado ou para o ar. Mas por mais concertos que se façam, com Geldoff e Bono à frente da trupe, a situação não se vai alterar nunca se não houver a coragem de colocar um travão a este nefasto vício que não ajuda os povos que necessitam: apenas apela a um dos nossos sentimentos menos nobres, o da compaixão, traduzida na nossa consciência tranquila de dever cumprido, como a esmola que damos aos mendigos que encontramos nas ruas das nossas cidades.
Mas o problema destes países e destas regiões não é também a globalização (ou o suposto novo império), como muita gente maravilhada e hipnotizada por Chomsky e Negri por aí arenga. O problema é precisamente o contrário: o problema é estar fora e à margem dessa globalização (que ao contrário do que muitos julgam tem regras) porque tudo lhes passa ao lado. Literalmente ao lado. Isto pouca gente quer entender. Ou confortavelmente prefere não entender. Olhem para o exemplo indiano e também para o chinês, e vejam o seu crescimento. Mas como povos de potências “neocoloniais”, que exploraram os mais fracos e que disso se aproveitaram para enriquecer, parece que mais uma geração inteira de europeus terá que pagar as facturas (em atraso?) do passado, como forma de ultrapassar os incómodos do presente. Tudo em nome daquilo que outros, noutros tempos fizeram e projectaram. Desculpem, mas não carrego cruzes de outros, nem aceito que se viva com estes fantasmas. Nem tolero, ainda, que me imponham um sentimento de compaixão que acho repugnante porque essa é a forma mais fácil de cruzar os braços e de não encontrar solução cabal para as coisas. Definitivamente.
Acredito que este conflito, infelizmente, não terminará tão cedo. É latente e parece apenas precisar de um ligeiro rastilho para deflagrar em maior escala (se é que já não deflagrou). Só que ceder em caricaturas ou em simples desenhos, é meio caminho andado para ceder em tudo o resto: na literatura, na pintura, na fotografia, na roupa, na linguagem, nos usos e nos costumes porque podemos ofender a dignidade do profeta ou de outro qualquer ser. Dispensa-se uma nova Idade Média.
Derrotamos há seis décadas o fascismo. Mais recentemente derrotamos o comunismo embora este sobreviva por todo o lado, sem legitimidade política face ao desastre dos resultados, implantado nas nossas universidades e nos meios de comunicação social que deliram com imaginativas teorias e com um conjunto de teses que se pautam, mais pela irresponsabilidade e facilitismo do que propriamente por uma análise séria das coisas. Agora, devemos derrotar este novo totalitarismo (o islamismo radical) que não gosta de nós, do nosso modo de viver e que está disposto a massacrar o que for preciso para impor uma sociedade sem liberdade, ancorada no medo, na escuridão e em dogmas religiosos. Passados estes anos todos, pensei que o totalitarismo fosse coisa sem argumentação ou justificação possíveis. Enganei-me redondamente.
Finalmente, outro aspecto que quanto a mim também é perceptível é que quem promove o choque civilizacional são aqueles que não toleram que outros, nos seus países, tenham liberdade de expressão, queimando, agredindo e matando em nome dessa intolerância. Uma coisa é o direito à indignação (legítima); outra, totalmente diferente, é usar como escudo essa indignação para espalhar e semear a violência gratuita, pilhando, violentando e matando e instrumentalizando (sim, porque os manifestantes nem sabem a cor das caricaturas) ódios com fins políticos. Não pode haver benevolência nem branqueamento de semelhantes comportamentos. Contemporizar, ou deferir, neste particular é voltar atrás. E é um verdadeiro retrocesso civilizacional. Não só da nossa civilização como também de todas as outras que primam pela tolerância e pelo direito à liberdade e à diferença e que procuram um mundo equilibrado onde seja possível haver, apesar das nossas diferenças culturais evidentes, uma só raça de homens: a dos homens livres.