sexta-feira, outubro 20, 2006

Vox Populi

Com a data da realização do referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, cuja proposta foi ontem aprovada no Parlamento, a divisar-se no horizonte próximo, a pena de muitos escribas tem recomeçado a verter tinta acerca da temática.
Lançado de novo para os destaques e primeiras páginas dos media, o assunto presta-se à salutar diversidade de opiniões e pontos de vista. Uma dessas opiniões hoje publicada, vertida por Ana Sá Lopes, sustenta boa parte da sua argumentação na crítica à praxis parlamentar seguida, a partir da invocação de uma lei de Murphy, aplicável a muitas situações da natureza mas também extrapolável para o processo em curso.
Invoca a escriba que "se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma resultar em catástrofe, então alguém a fará", e, portanto, uma vez que um dos porta-vozes de uma das partes intervenientes garante que os resultados de um referendo não vinculativo onde o "não" seja maioritário serão respeitados, estão, deste modo, reunidas todas as condições para a catástrofe.
Apregoando o postulado de que "o povo maioritário não quer decidir sobre isto e agradece a quem o fizer por si" , a escriba congrega em si um declarado conhecimento da voz do povo que lhe fica muito bem, denotando que possui uma vivência real alinhada com a do povo maioritário.
Qual mix personalizado de agente sindical, representante de uma associação de pais, sócia de associação cultural e recreativa, adepta do Benfica, frequentadora de espaços verdes e centros comerciais, automobilista dos subúrbios, assinante de um passe mensal da Carris, endividada bancária, espectadora televisiva da Floribella e veraneante algarvia, Ana Sá Lopes conhece a vontade do povo maioritário. Decifra-lhe as ânsias, antecipa-lhe as análises, fala por si.
Todo este conhecimento popular só abona a pessoa de Ana Sá Lopes. Mais fossem como ela e a veiculação do tradicional distanciamento entre as elites e o povo maioritário não passava de mera propaganda académica.
O crédito cego que lhe havia fiado foi, todavia, também hoje mesmo abalado por um outro destaque jornalístico sobre a interrupção voluntária da gravidez, sob a forma de uma sondagem, realizada por entidade especializada que se arroga de também pretender conhecer a vontade do povo maioritário sobre esta matéria.
Diz esta entidade, Universidade Católica, numa sondagem que "81 por cento dos inquiridos consideram que uma alteração da lei do aborto tem de passar por um referendo, contra 12 por cento que defendem alteração simples na Assembleia da República".
Perante esta informação resta-nos inferir que a sondagem padece de graves incorrecções metodólogicas na sua aplicação. Pois que a Ana Sá Lopes não nos garantia exactamente o contrário? E não conhece ela a vox populi como poucos?
Pierre Bourdieu certa vez afirmou que os jornalistas têm "óculos especiais, a partir dos quais vêem certas coisas e não outras; e vêem de certa maneira as coisas que vêem, operando uma selecção e uma construção do que é seleccionado".
Apazigua-nos o espírito saber que Ana Sá Lopes não usa óculos.