quarta-feira, abril 05, 2006

Havana Blues

Fazendo jus ao título escolhido, Havana Blues gira a câmara de filmar em torno dos sons actualmente produzidos em Cuba, que vão desde as sonoridades mais características da ilha, até ao rock, aos blues, ao hip-hop, ao rap ou ao metal.
São estas também as sonoridades que, misturadas, são abraçadas pelos principais protagonistas da história. Dois jovens e inseparáveis músicos, Ruy e Tito, marcados pela ânsia de transporem os mares que os rodeiam e os enclausuram cumplicemente com as determinações políticas, aspiram pelos palcos europeus, pelo alcance da fama musical para lá das fronteiras da ilha e das salas de espectáculo degradadas.
A oportunidade tem uma face galega, a face visível de dois produtores assalariados de uma editora multinacional, que concede ao grupo musical liderado por Ruy e Tito um salvo conduto para a produção e distribuição internacional de registos discográficos.
Para lá desta aparente correspondência de vontades escondem-se as contrapartidas do mundo do business musical. O salvo conduto, representado pelo contrato discográfico, pressupõe a exteriorização mediática de discursos flamejantes sobre a conjuntura cubana, em paridade com uma imposição artística e usurpação financeira excessiva dos ganhos que advirem das vendas discográficas e dos concertos.
A leitura do contrato faz estremecer a solidariedade entre os membros do grupo. De súbito, o inconformismo unido dos protagonistas perante as amarras políticas e culturais cubana estremece, agora divididos entre a perseguição de um sonho e o preço do mesmo, traduzido no provável fechamento fronteiriço e decorrente separação familiar quase irremediável.
A (re) conquista espanhola estava consumada, agora pela música, e embora não suficientemente forte para impedir o concerto da reconciliação, trouxe para a antiga colónia mais algumas vozes para fazer moeda. O desespero e os sonhos a tal podem obrigar.

quinta-feira, março 30, 2006

Os prazeres da rádio

Provavelmente, a maior parte das pessoas que por aqui passam não têm a mínima pachorra para ouvir rádio.E, quando digo ouvir, é escutar, divagar, passear com as palavras. Aos Sábados de manhã, vale a pena escutá-la.Na Antena 1, Lugar ao Sul,das 9 às 10.Na TSF, Terra a Terra.O primeiro com Rafael Correia, que entra quase literalmente pela porta dentro, puxando a conversa com um Portugal cada vez mais desruralizado.O segundo,com vários moderadores, mostra-nos um pouco da gastronomia, da história de diversas localidades.

Portanto,ouvidos atentos...

quarta-feira, março 22, 2006

PSD Madeira

Jaime Ramos, lider parlamentar dos sociais-democratas madeirenses, apresentou um requerimento à Assembleia Legislativa no sentido de este ano não haver sessão comemorativa da Revolução de 1974, por "não ser oportuno"
Jaime Ramos adiantou ainda que a comemoração do 25 de Abril, através de uma sessão comemorativa no Parlamento Regional, colocava entraves ao normal desenrolar dos trabalhos parlamentares desse dia, em virtude de já ter agendado para o dia 25 de Abril, da parte da manhã, uma sessão de insultos, impropérios e ameaças com sifões de retrete à integridade física dos líderes da oposição e, da parte da tarde, a entrega de vários requerimentos ao Presidente da Assembleia Regional para a avaliação compulsiva do estado de sanidade mental de vários deputados da oposição regional.
"E se o PSD nacional ainda há 2 anos quis reescrever a História, perdão, ensinar todos os portugueses que aquilo que se passou naquele dia foi uma mera "Evolução", como afixou nos cartazes, é também nosso dever iluminar o povo madeirense acerca do que realmente (não) significa essa data!", acrescentou, antes de atirar para o chão um cravo vermelho, em solidariedade com o gesto do ano passado cometido pelo seu colega parlamentar Coito Pita.

segunda-feira, março 13, 2006

Os paraquedistas...

No jornal Record :"José Veiga disparou hoje com um alvo bem definido. O administrador da SAD encarnada falou do empate a zero cedido ontem frente à Naval na Luz, dizendo que o Benfica está a ser prejudicado pelas arbitragens desde que denunciou a reunião entre Luís Guilherme e Pinto da Costa".

E se uns tais de Anderson e de Marcel não falhassem de baliza aberta?

domingo, março 12, 2006

Poesia

"A poesia do patronato
Há semanas, num jornal francês, dei com uma declaração extraordinária de um responsável do patronato. Qualquer coisa como isto: o amor é precário, a alegria é precária, o casamento é precário, a vida é precária; então porque é que o trabalho não pode ser precário? Quando o patronato argumenta com poesia, já nada é como dantes. "

Acabei de ler isto no blog do Pedro Mexia:
http://estadocivil.blogspot.com/

Realmente, dá que pensar...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Quem são as vítimas?

É relativamente divertido, mas também trágico, ver aqueles que defendem os poderes dominantes do mundo a fazerem-se de vítimas, pobres marginalizados sociais que vivem longe do conhecimento. Não, não resulta. Algumas posições aqui defendidas sobre África foram desumanas e partem de uma visão do mundo que olha de cima, típica de certa ciência política que é mais política que científica. Aliás toda a última resposta foi a tentativa de colocar qualquer opinião dentro de um enquadramento político, é o senhor Louçã para lá, o partido único para cá, etc. Não, não funciona. O mundo é mais complexo do que esse xadrez político. Quando falei da necessidade de utilizar argumentos sustentados não me estava a defender, nem a referir-me a mim próprio, mas apenas a apelar a uma discussão que não partisse precisamente de uma lógica “clubista”, cega da realidade e clara defensora de interesses ideológicos. Lamento, mas não fui eu que disse que defender o contrário da minha opinião era indefensável. Quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele. Quando se toma “a democracia absoluta” por uma bitola de exigência, quando se apregoa o respeito pelo outro, tem que se estar aberto às críticas, porque se não, como infelizmente acontece, a democracia é muito bonita mas é só para alguns. É evidente que as pessoas ficam mais bem informadas através de indivíduos que conhecem o terreno e a história específica de certos países e regiões, (e ao referir-me a estas pessoas não me estou a incluir no grupo, mas sim a utilizá-las como fontes de informação para os meus argumentos, o que é diferente), do que por geo-estrategas junto de certos governos cujo modo cínico de encarar a vida provocou 100 vezes mais mortes do que qualquer ditador africano. É essencial referir, por outro lado, que não se trata, como foi tentado passar, de um debate entre uma arrogância bem informada e alguém vítima do desconhecimento. Os argumentos utilizados para defender aqui certas opiniões não são nada originais nem ignorantes. A vitimação não resulta. Essas opiniões são defendidas em Portugal por pessoas bem instaladas nos meios de comunicação social, poderosos, alguém que tem forte poder de influência; encontramo-los na pena de José Manuel Fernandes, Luís Delgado, Helena Matos, Vasco Rato, Rui Ramos, etc; Pobres ignorantes? Não me parece.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Gisberto

Pouco depois do conhecimento público do homicídio de um sem abrigo, no Porto, perpetrado por adolescentes, os media concederam-lhe prontamente um reforçado enfoque narrativo, colocando uma acentuada tónica na caracterização dos autores do crime que, invariavelmente, deslizava para a condição familiar e económica dos mesmos, herança maldita que os rapazes partilhavam desde o berço.
Nados em famílias “desestruturadas”, desprovidos por isso de referências parentais centrais para a sua conduta e sem modelos de conduta relacional, sobre os adolescentes procurava-se traçar essencialmente um quadro de contextualização sócio-económico que supostamente teria facilitado o desfecho ocorrido.
Manifestamente, era uma linha claramente redutora e que mitigava outras variáveis de relevo para se compreender o móbil do crime. Muitos outros rapazes têm dificuldades económicas, não estão enraízados num núcleo familiar tradicional e não é por isso que cometem tais actos criminosos. A pobreza é uma condição já suficientemente maldita e difícil de superar, para não se fazer recair o estigma duplamente nessa condição. Havia necessariamente que alargar o âmbito de abordagem noticiosa e investigar outros vectores de entendimento da situação, em suma, advogar uma reflexividade mais alargada do que as propaladas condições materiais de existência, tão centrais nas narrativas jornalísticas.
Entretanto, no fim de semana, uma estação televisiva exibiu uma reportagem efectuada a propósito de uma competição futebolística internacional entre padres. A certa altura, aquando da apresentação dos “craques”, a reportagem visitou um jornal minhoto de inspiração católica, onde a certa altura foi dada voz ao editor do mesmo a dirigir informalmente uma questão a um jornalista do jornal a propósito do “casamento daquelas duas fulanas de Lisboa”…
Matéria jornalística de interesse, não pela aspiração em si, mas pelo carácter de novidade da mesma, envolta por isso ainda em questões jurídicas de jurisprudência, a interrogação do editor do diário minhoto, afinal, não tinha como fito a obtenção de mais elementos informativos com vista à sua inclusão nas páginas do órgão escrito, porque, como se aprestou o editor a revelar, os critérios jornalísticos não tinham eleito esse acontecimento como digno de ser alvo de tratamento noticioso no jornal.
Todavia, aquela “caixa jornalística” momentânea constituiu um momento esclarecedor de como a instituição católica continua a lidar com as orientações sexuais minoritárias. De repente, a “pessoa humana”, tão fulcral nas alegações católicas a respeito de outros assuntos na ordem do dia, transformou-se em “fulana”, expressão provida de uma consideração social menor.
As duas mulheres, por afrontarem valores historicamente estabelecidos a respeito do entendimento da chamada instituição do casamento e por denotarem comportamentos distintivos em relação à moral defendida eclesiaticamente, já não eram duas pessoas, mas sim duas fulanas.
Se dissermos que os rapazes do Porto estavam há muito internados na Oficina de S. José, instituição da diocese do Porto, e que a vítima do crime e das perseguições era um transexual, começamos a ponderar que a aclaração da deficiente socialização primária a que os rapazes foram sujeitos não se deverá única e exclusivamente à sua condição sócio-económica. Analise-se também a actual instituição de integração social dos rapazes e verifique-se em conformidade quais os valores e os pensamentos que ela transmite aos seus internados sobre o "outro". Se calhar alguma da luz para a explicação do sucedido está aí…

Comentanto o "em jeito de comentário"

1- Descontextualizar expressões colocando-as com um sentido que não era o original faz parte de uma velha táctica. É um método simples que geralmente produz bons resultados quando os outros estão desatentos. Mas é um método que esconde algo de essencial: a inexistência de um argumento sólido. Este caso em particular tem contudo uma variante, que foi utilizada, por exemplo, há um ano atrás pelo guardião da moral e dos bons costumes portugueses. Vi então este mesmo argumento em Louçã, armado em Savonarola como correctamente o apelidaram, num debate com Portas em que este foi condenado ao ostracismo e ao silêncio na questão do aborto porque não sabia o que era gerar vida. Para além de cínico, é deselegante. E claro de muita má-fé. A arrogância e a mania de superioridade em todo o seu esplendor.

2- Por isso, o mais preocupante é precisamente o argumento do “incluem-se parte importante de estudos e trabalhos feitos por pessoas que em vez de papaguearem cartilhas ideológicas, estudaram, foram para o terreno, para os arquivos e procuraram, o que não os torna imunes à crítica, chegar a algumas conclusões. Quem é que informa melhor?” Toda a citação resume bem o pensamento do autor. Eu sei porque vi, porque estudei, porque pesquisei. Logo, tu que não viste, que não estudaste, que não pesquisaste não sabes nada do assunto nem podes ter qualquer opinião formada e digna de ser, sequer, comentada. Por isso, cala-te porque não podes “informar”. Faltou apenas acrescentar “sou [a tal] uma autoridade moral avalizada pelas pesquisas académicas que fiz e que diariamente faço”.

3- Eu não percebo nada de átomos (aliás, nunca vi nenhum), mas sei que eles existem. Sou até capaz de explicar, pasme-se, a sua composição (que heresia). Sou capaz também de falar sobre a Revolução Industrial, mas de repente não sei se devo porque não vivi na época. Estou consequentemente e também por isso condenado a não poder falar da China, ou da Inglaterra ou mesmo da Austrália pelo simples facto de nunca os ter visitado. Ou de Angola e Moçambique porque nunca vi de perto a sua pobreza e o desespero das suas populações. Estou proibido ainda de falar sobre a fome e a miséria porque nunca passei fome nem fui miserável. Ou sobre a toxicodependência por razões semelhantes. Continuo assim a procurar sentido para a existência de livros, revistas, filmes, jornais. E de bibliotecas, e livrarias, e museus, e arquivos. E da televisão, da rádio, da internet, etc. Triste mundo este se nos limitássemos a falar apenas sobre as nossas profissões ou sobre o nosso clube de futebol.

4- No meu partido (apesar de discordar com muitas das suas orientações e estratégias) há gente contra e a favor do aborto. Contra e a favor da eutanásia. Contra e a favor da regionalização. Contra e a favor do casamento entre homossexuais. Contra e a favor das privatizações. Contra e a favor da integração europeia. Contra e a favor da intervenção militar no Iraque. Contra e a favor do código do trabalho. Contra e a favor de uma maior liberalização do mercado. Contra e a favor da publicação dos cartoons. Etc. etc. Poucos partidos existem em Portugal com tanta diversidade de opinião. Dogmáticos e transmissores de “cartilhas” são aqueles que impõem uma única, e apenas uma, possibilidade de escolha. Aos seus e ao mundo.

sábado, fevereiro 25, 2006

Para que fique registado

O Benfica, na última terça-feira, ganhou ao campeão europeu. Para quem ia envergonhar o país não está nada mau.

Em jeito de comentário

Sobre África. Não vou repetir os argumentos que utilizei porque continuo a acreditar neles. Seja como for, é de assinalar que do lado dos pretensos defensores das liberdades e democracias continue a surgir argumentos democráticos como "Tudo o resto, é defender o indefensável". A prova de que as sociedades ocidentais ainda não se livraram de todos as expressões autoritárias. Neste "tudo o resto" incluem-se parte importante de estudos e trabalhos feitos por pessoas que em vez de papaguearem cartilhas ideológicas, estudaram, foram para o terreno, para os arquivos e procuraram, o que não os torna imunes à crítica, chegar a algumas conclusões. Quem é que informa melhor?
Sobre o comunicado do PCP, partido do qual não sou emissário, acho-o, no essencial do seu conteúdo, bastante razoável e certeiro. Demonstrando, aliás, um elementar bom senso que escapou a muito outros. Diga-se que, no meio disto tudo, pesando as circunstâncias, o ministro dos Negócios Estrangeiros foi também bastante razoável, embora a forma como o fez seja algo discutível.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A realidade existe

O Comité Central do PCP, de acordo com uma notícia saída ontem no Público, entende que no caso das caricaturas de Maomé o que está em causa “não é a liberdade de imprensa e de expressão, mas acções provocatórias de carácter racista e xenófobo que insultando e identificando o islão com o terrorismo procuram atiçar a tensão, alimentar e explorar acções radicais que possam servir de pretexto para o prosseguimento da estratégia de agressão e guerra imperialista contra países soberanos e a criminalização das forças e povos que lhe resistem”. Mas como delirar não paga imposto e a asneira (liberdade de expressão) é livre, o Comité Central vê ainda “motivações” e uma “ofensiva mais geral do grande capital e do imperialismo”, interessado em propagar e em semear o ódio e a violência. A táctica não é nova. Aliás, está putrefacta de tanto ser utilizada. Daqui a pouco, o camarada Jerónimo dirá que o Presidente americano, himself, é o autor moral dos desenhos porque está interessado no petróleo e na instabilidade na região e que foi ele próprio que financiou o concurso. Pelo meio, os sionistas também entrarão em cena com uma série de métodos pouco ortodoxos e tenebrosos. No fim, surgirá como complemento a globalização predadora. O camarada Jerónimo, como se vê, é mais um caso perdido. Com o fim do comunismo (prática política), o discurso marxista (teoria) virou-se para o cinismo e para a má-fé, numa clara acção de desespero demonstrativa da sua impotência política. No seu discurso seráfico, e saudosista, o Camarada Jerónimo não vê que lá fora a realidade existe.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

África

Quando se fala na pobreza em África é importante desmontar duas ideias, ou fantasias, falaciosas: o colonialismo acabou, mas continua responsável por aquilo que acontece em África (primeira ideia); a liberalização do comércio aumentou as desigualdades e, consequentemente, a pobreza em África (segunda ideia).
Entre 1960 e 1997 o continente africano recebeu qualquer coisa como o equivalente a seis planos Marshall. Resultado: um enorme e indescritível desastre. África está hoje muito pior do que estava, há quarenta anos atrás. Um exemplo particular: a esperança de vida no Zimbabwe passou de 56 para 33 anos. Vários outros exemplos gerais: metade da sua população vive com menos de um dólar; a fome mata anualmente milhões; a esperança de vida está nos 46 anos; uma em cada seis crianças morre antes de atingir os 5 anos; há 25 milhões de infectados (projecções simpáticas) com o HIV sendo que dois milhões sucumbiram à pandemia apenas em 2005. Problema central: o mundo perante a catástrofe evidente, alicerçado num forte sentimento de culpa (ocidental, sobretudo), decidiu doar rios de dinheiro que mais não serviram do que para encher os bolsos ou de políticos corruptos ou de senhores da guerra. Em qualquer das hipóteses, tratou-se sempre de gente pouco recomendável, que na maioria larga dos casos dedicou-se afincadamente à destruição física, e maciça, dos recursos disponíveis. Como lamento, a grande massa dos europeus convenceu-se de que doar dinheiro apagava o desconforto das imagens que corriam mundo e eliminava, da sua consciência, os dramas e as tragédias individuais e colectivas que entravam, via televisão, casa adentro. Por isso, nada como puxar do livro de cheques e comprar alguma leveza de consciência. Erro crasso, claro está. A maioria dos fundos disponibilizados acabou em parte incerta. Aliás, 80 cêntimos de cada dólar, para ser mais exacto. E claro que a caridade não desenvolveu as estruturas económicas nem deu azo ao desenvolvimento efectivo de uma classe média empreendedora capaz de solidificar alguma coisa de concreto que pudesse avalizar um qualquer futuro. O dinheiro mandou. Logo, o dinheiro comprou, por exemplo, as armas necessárias para amansar o povo e eliminar os adversários, principalmente os incómodos, em troca do forjar de algo levemente parecido com eleições.
Depois da Guerra Fria, situação complexa que não pode ser avaliada fora do contexto específico da época e dos blocos divididos por um muro, restou um único culpado: a América imperial, mais os falcões da sua administração (do passado e do presente, com especial ressonância na administração Reagan, afinal aquela que fez o muro ruir gerando um ódio evidente), responsáveis pelo arrastar das situações devido à sua política geoestratégica expansionista e predatória dos recursos terrestres ou mesmo devido à falta de interesse da região em questão. Outro grave, e roliço, engano. E explicação demasiado simplista para ser levada a sério. Os primeiros responsáveis da grave situação africana são os seus governantes, mesmo que educados nas melhores universidades americanas, inglesas, russas ou francesas e sob influência do “ocidente”. É preciso dizer as coisas como elas são. Usar o colonialismo, ou mesmo o pós-colonialismo, como justificação e desculpabilização pelo terror instituído e diversificado, não ajuda a resolver a situação porque, é preciso que se diga, boa parte dos líderes africanos são déspotas da pior espécie e, em alguns casos, notórios serial killers. Tudo o resto, é defender o indefensável e ser conivente com quem diariamente trai o seu povo, não criando uma única infra-estrutura que possa fazer crescer um país.
Quanto ao argumento da liberalização do comércio é preciso dizer que este é, e quanto a mim, um não argumento. Porque sucede precisamente o contrário: o problema africano resulta do excessivo proteccionismo de alguns mercados e não da liberalização do comércio ou da globalização em si. Basta ver a vergonha da União Europeia e das suas políticas agrícolas, o proteccionismo alfandegário e aduaneiro de blocos comerciais antagónicos e o recente falhanço da Organização Mundial de Comércio. O problema é estar, e continuar, à margem da globalização. Não é estar na globalização. O problema é que gostamos demasiado do nosso bem-estar e aceitamos que líderes africanos continuem impunes. O problema é que passar o raio do cheque é bem mais fácil. E dá menos chatices.

B. Macedo

domingo, fevereiro 19, 2006

O futebol de domingo

Costumo dizer que o futebol em Portugal é demasiado mau. Na verdade, quanto a mim, esta é uma evidência sem necessidade de grande comprovação. Ainda há pouco, o líder da prova entrou em campo com um tal de Ivanildo, um desastroso Alan, um inexistente Adriano, um ridículo Bosingwa e com um central mais conhecido na luta livre do que no futebol. Pelo meio, jogou ainda esse extraordinário Jorginho, candidato a pior jogador da liga das apostas. E o Marítimo, claro, ajudando à festa, conseguiu perder um jogo parecido com um filme de terror: mau demais para ser verdade. Há alguns anos atrás, uma equipa destas seria impossível num clube que lutasse pelo título. Hoje é uma prática recorrente e a fazer escola. Ao contrário do que muitos pensaram (eu inclusive) os holandeses que aterraram em Portugal no último defeso não trouxeram consigo nada de novo ou sequer de inovador. Trouxeram absurdos inexplicáveis disfarçados de tácticas e ilusões escondidas na suposta notoriedade dos seus currículos. Porto e Benfica são consequentemente erros de casting profundos que sobrevivem mais pelo peso das suas camisolas do que propriamente pela qualidade do seu futebol de todo inexistente. O futebol em Portugal piora a olhos vistos. Só não vê quem não quer. Mas continua-se a acreditar em milagres.

B. Macedo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Berthelot

Caro(a)s Sócio(a)s
Entramos em contacto convosco para, infelizmente, vos transmitirmos a notícia, recebida da AISLF, do falecimento de Jean-Michel Berthelot. Desejamos deixar aqui expresso também o nosso pesar por esta perda significativa tanto para os sociólogos em geral como para os colegas que com ele privaram. Em baixo enviamos a notícia recebida da AISLF e um resumo biográfico de Jean-Michel Berthelot (obtido através da página electrónica do Centred’Études Sociologiques de La Sorbonne).
AtentamenteAssociação Portuguesa de Sociologia
A Direcção

Mensagem recebida hoje às 12h15

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Alguma coisa sobre África

Retirar ao ocidente as graves responsabilidades que tem na actual situação africana, para insistir apenas nas teorias dos choques tribais e dos chefes corruptos é produzir esquecimento histórico. Infelizmente, com a civilização, o ocidente trouxe a barbárie. Sim, é certo que já existiam práticas esclavagistas, sim, existiriam guerras tribais, sim, as relações sociais reproduziam fortes desigualdades. Mas todas estas características foram aumentadas incomensuravelmente com o colonialismo. As políticas de governação indirecta, a cooptação de líderes tribais e o reforço das hierarquias anteriores criaram um quadro político de violência e de injustiça generalizado. A marcação étnica foi reforçada pelo poder europeu: armas poderosas e eficazes, políticas generalizadas de trabalho forçado. Nasceram assim as sementes de um ódio étnico nunca antes visto. Em certo sentido, foram os sistemas de dominação colonial que "criaram" as bases das divisões étnicas tais quais hoje as conhecemos. À parte disto, como se sabe, as sociedades coloniais eram racialmente organizadas. Foi dessas injustiças que nasceu o ódio. A independências dos países africanos foi encontrar o mundo em plena guerra-fria. Com a frieza típica do geo-estratega, encarnado hoje pela figura de alguns cientistas políticos, foram efectuadas políticas de aliança, para um lado ou para o outro. Os Estados Unidos, sob a direcção política de homens como Chester Crocket, secretário de Estado da administração Reagan, suportaram política e militarmente homens como Mobutu no Zaire (hoje República Democrática do Congo), Samuel Doe e Charles Taylor na Liberia, Siad Barre na Somália, o governo do Apartheid na África do Sul, a Unita em Angola, a Renamo em Moçambique, o governo árabe do Norte do Sudão, que passaram a combater depois do fim da guerra-fria (o mesmo que fizeram com Saddam no Iraque, ou com os Mudjahedeens no Afeganistão), a administração Clinton bloqueou a intervenção da ONU no sentido de evitar o genocídio no Ruanda, etc, etc, etc, etc. Parte dos líderes africanos são mestres e doutores por universidades inglesas e americanas. As mortes causadas pelos conflitos étnicos foram sobretudo o resultado de uma diplomacia absolutamente irresponsável que em nome do "mundo livre" armou tiranos e déspotas que transformaram os ódios raciais firmados durante o colonialismos em genocídios em série. Não estou a negar a existência de líderes corruptos e assassínos ou a tirar-lhe as imensas responsabilidades que têm. Mas vamos perceber as condições da sua emergência e a natureza dos seus métodos. Um conselho de leitura para os interessados: The Graves are not yet full, race, tribe and power in the heart of Africa, de Bill Berkeley, editorialista desse perigoso jornal vermelho chamado New York Times; e já agora, claro Joseph Conrad, Heart of Darkness, cuja história, originalmente africana, inspirou o Apocalipse Now de Coppola

Sobre os posts longos...

Há duas coisas que me espantam em tudo isto: não perceberem que Hitler, por exemplo, copiou o estado totalitário de Estaline, logo que a prática política era igual (tal como era igual a política expansionista ou a política de extermínio ou dos campos de concentração); e dizer que o fascismo provocou mais mortos do que o comunismo, como se isto se resumisse a um qualquer campeonato de primeiras e segundas categorias. Mau grado a contabilidade dos mortos, apenas para relembrar que na China foram apenas 70 milhões de mortos sob a égide desse grande timoneiro Mao Tse-tung em nome da Revolução Cultural e do grande passo em frente. Na URSS dos camaradas soviéticos, avança-se com números (por baixo) perto dos 20 milhões. Deixemo-nos de verdades dissimuladas que não nos levam a lado nenhum. Por respeito pelas vítimas.
Queria acrescentar que na realidade vejo uma grande diferença entre fascismo e comunismo, mas que esta nem está no plano doutrinário nem na extraordinária teoria da inclusão/exclusão (tristes tempos estes, em que um totalitarismo é justificado pela sua capacidade ou não de inclusão). E passo a explicar: enquanto que o fascismo teve criminosos com rosto, uma vez que foi derrotado militarmente por uma associação de Estados a quem isso convinha, que acabaram julgados e condenados (pelo menos, os que sobreviveram) pelos horríveis crimes que cometeram, o comunismo, por seu turno, teve a original ousadia de originar crimes sem criminosos, como a história actual nos diz, num branqueamento atroz que lesa a memória, que jamais deveria ser esquecida, das suas vítimas. É por isso que um crime perpetrado por um ditador fascista é um crime; mas um crime perpetrado por um ditador comunista, não é crime: é um passo em frente ou apenas um infeliz acontecimento, um desvio, que nada tem a ver com o comunismo ou com a ideologia. É por isso que Estaline representa um desvio. Tal como todos os outros tipos simpáticos, responsáveis por outros tantos desvios de circunstância. É esta a razão que leva o marxismo a passear-se impune pelo mundo e por muitas cabeças. Como na do camarada Jerónimo que hoje mesmo afirma, em entrevista ao Público, a extraordinária verdade “Quem sou eu para dizer que a minha democracia é melhor do que a deles?”. Isto como resposta à pergunta “Acha que há democracia em Cuba?” Quem sou eu, para dizer o contrário? Quem sou eu para tentar explicar que não há totalitarismos bons e maus? Não acham que está tudo explicado?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

A minha caricatura de Maomé

Realmente não se pode transigir com um novo totalitarismo

É bom saber que deixámos a espuma da liberdade de impressa e chegámos rapidamente ao cerne da questão. Há dois erros que não cometo. O primeiro é ser apanhado nesse maniqueísmo bipolar e ser tido como defensor de estados teocráticos que alimentam as mais crúeis injustiças. Prefiro, sem dúvida, o modelo secular. Mas reparem que denomino esses países de estados teocráticos, onde há responsáveis políticos e religiosos pela situação social que ai se vive. Os maiores desses responsáveis, acrescente-se, nem são locais. As situação actual têm por base processos históricos que convém conhecer. Isto é totalmente diferente de colocar o debate a nível da cultura, o que acaba por ser uma forma de racismo mascarado. Ninguém olha para a história, a política deixa de existir, a economia devanece-se, restando a cultura e a religião. O outro erro que não partilho é essa nova visão do mundo que um novo totalitarismo quer passar para as mundividências dos cidadãos do ocidente. O que se deseja é substituir a União Soviética como forma de acartelar as tropas, neste caso as opiniões públicas. Como foi aqui dito, é essencial combater todos os totalitarismos, e não há outro mais forte, pelo seu poder militar e económico, do que o que à força tenta dividir o mundo em dois. Falou-se de diversidade política, diversidade económica, diversidade cultural. Onde é que está essa diversidade se dividimos o mundo em dois. Lamento mas nesse plural cego, "nós isto", "nós aquilo" grande parte do mundo ocidental não entra. Basta pensar nas manifestações contra a guerra que varreram a Europa, um conflito que violou as regras mais básicas do direito internacional. Não é o cumprimento da lei uma característica das sociedades seculares? Parece que não. Porque antes dessa lei cultural que tanto apregoam, está a lei da economia e da política, esses sim os factores que dominam o mundo. Se o petróleo que existe no golfo pérsico estivesse na Bolívia o ocidente estava em guerra com a civilização índia. Totalitarismo é o modo como me obrigam a participar nesse "nós", um "nós" onde não há patrões nem empregados, homens nem mulheres, negros nem brancos, onde nem existem culturas diferentes, onde não existem sistemas económicos. Salvem-me deste totalitarismo. Não sei quem é digno de ser convidado para jantar, mas porventura não serão aqueles que torturam prisioneiros violando convenções internacionais, que já mataram dezenas de milhares de civis no Iraque, que começam uma guerra com uma mentira absolutamente descarada. A cartilha liberal, não menos descaradamente, diz que foram lá para derrubar um ditador. Mas quem é que apoiou esse ditador durante dezenas de anos? Nessa altura, os líderes da nossa civilização não tinham percebido que o homem, como muitos outros que foram vergonhosamente apoiados pelo ocidente, é um déspota sanguinário. Por que é que esta nossa superioridade não obriga o ocidente a cessar os acordos económicos com países como a Arábia Saudita? Onde é que estão as sanções que essas culturas tão atrasadas merecem? Hipocrisia de uma ponta à outra. Isto para dizer que a "pena" do ocidente não se fica pelas cruzadas, nem pela inquisição, nem tão pouco pelo holocausto. Essa "pena" é contemporânea. É tragicamente contemporânea. Esse "nós" coloca-me a mim ao lado dos maiores bandidos, e o nome é leve, que existem actualmente. Não entro nesse "nós" nem à custa de truques baixos sobre a liberdade de imprensa. O mundo islâmico não ameaça em nada a liberdade de imprensa no ocidente. O que a ameça verdadeiramente é a concentração dos media, é o controlo governamental sobre os media, que se nota, por exemplo, nos Estados Unidos. É verdade que sou um ocidental, mas não me ponham ao lado dessa gente. A esse "nós" não pertenço. Em relação às questões que foram levantadas sobre África, a resposta segue para a semana, já que o que foi dito é um branqueamento que necessita de ser desmascarado.