quinta-feira, outubro 14, 2004

Bailado em Alvalade

Um dos problemas do futebol como espectáculo é a sua indeterminação. Neste aspecto é muito diferente de outros géneros artísticos. Antes de ver um filme ou uma peça de teatro podemos ler as críticas, inteirarmo-nos sobre o seu conteúdo e sobre a forma como este é apresentado. No futebol, como no cinema ou no teatro, conhecemos o elenco mas não podemos prever como será o espectáculo. Temos que ir esperando que algo de especial aconteça. Ontem houve bailado em Alvalade. O elenco português esteva bem montado. Não é difícil perceber quais as opções do encenador, são claras e fazem sentido. Mas depois tudo depende das circunstâncias e dos intérpretes de ambos os lados. Ontem a equipa de Portugal, recorrendo à gíria futebolística, “abriu o livro”, contra uma selecção russa bem acima da média. É certo que as bolas pareciam telecomandadas e que tanta exactidão é quase impensável. Não é menos verdade, porém, que a equipa foi muito para além dos golos marcados. O realizador da RTP foi feliz, no final do jogo, ao revelar os bailados executados pelos principais artistas – movimentos que podem, ou não, estar relacionados com os golos. Acima de todos Deco. É lindíssimo vê-lo jogar assim. O controlo que tem sobre o corpo, a sua noção de espaço, de passe, tornam-no quase perfeito. A seguir Ronaldo. O modo como avança para a defesa é sublime, como que dizendo ao adversário que nada pode fazer contra a sua arte. Deve meter muito medo defender alguém como Ronaldo. Tenho assistido a alguns jogos dos seus jogos no Manchester e é sempre assim. Os ingleses preferem falar de Rooney. Por último Carvalho: de uma elegância única, demonstrando toda a beleza inerente ao ofício de defender. Haverá poucos defesas no mundo como ele. Os actores principais foram bem coadjuvados pelos restantes intérpretes e é bom saber que há outras opções para os diferentes lugares. O mais importante deste jogo foi que, por breves momentos, as pessoas esqueceram-se que assistíamos a uma competição entre nações, deixando-se levar pelo espectáculo. No Café Estrela estavam cinco russos. Depois do intervalo aplaudiram de pé todos os golos portugueses. Para quem gosta de futebol era a única coisa a fazer. Ontem houve bailado em Alvalade.

Selecção

Como ontem à noite considerava o Gil, e com inteira razão, é inadmissível como é que a Selecção Nacional permitiu que a Rússia marcasse um golo!

terça-feira, outubro 12, 2004

Alberto João é um Milagre

Depois de ainda ontem ter comentado, no final da visualização do mais recente filme de Emir Kusturica, “A Vida é Um Milagre”, que a capacidade inventiva do realizador jugoslavo continua a dar cartas no seu cinema étnico, eis quando hoje de manhã me vejo confrontado com a óbvia necessidade de relativizar o talento criador do jugoslavo, ao deparar com as frases proferidas pelo líder do Governo Regional da Madeira a propósito da detenção do Presidente da CM de Ponta do Sol por alegada corrupção.
Num dos comício pré-eleitorais, insinuou Alberto João que o PCP «está infiltrado» na Polícia Judiciária da Madeira e teve influência para o desfecho agora obtido (nem se deve ter apercebido de que estava a fazer um grande elogio à competência e ao profissionalismo dos tais elementos policiais comunas infiltrados...).
Realmente, perante isto, Kusturica ao lado de AJJ é apenas um mero principiante na arte de fantasiar ficções surreais e delirantes. Tão fértil é a imaginação do líder madeirense que consegue até inverter as sequências reais com uma naturalidade estonteante. Só assim se consegue compreender como é que a mesma pessoa que envia uma missiva ao Ministro da Justiça, antes das detenções preventivas de quadros da Câmara Municipal da Ponta do Sol, a queixar-se da actuação da Inspecção da Polícia Judiciária (PJ), no período pré-eleitoral, nomeadamente a notificação de um destacado quadro da administração regional para depor, como arguido, num processo judicial em curso, consegue vir depois a terreiro apregoar que mesmo em época de eleições pediu à polícia que actuasse sem medo!
Definitivamente, está visto que AJJ não pede meças aos grandes mestres da sétima arte na elaboração de enredos criativos, plenos de farta imaginação e pródigos em humor.

sábado, outubro 09, 2004

O Tal Canal

Acerca das censuras que se exercem sobre a televisão, por parte dos detentores dos media:
"São factos tão grandes e grosseiros que a crítica mais elementar se apercebe, mas que escondem os mecanismos anónimos, invisíveis, por meio dos quais se exercem todas as censuras de todas as ordens que fazem da televisão um formidável instrumento de conservação da ordem simbólica."
Pierre Bourdieu, "Sobre a Televisão".

sexta-feira, outubro 08, 2004

Marcelo

O universo político tem uma autonomia própria que não permite análises simplistas. Longe de ser um mero reflexo de uma infra-estrutura material, o mundo político é ele próprio produtor do real. A questão “Marcelo” é uma machadada poderosa desferida neste governo. Figura mediática, quase com dois milhões de espectadores por domingo, Marcelo faz parte da nossa cultura popular e conseguiu, com distinção, ganhar o respeito de um imaginado português médio. O professor anda há muito cometido numa luta, disputada em jornadas semanais, contra o primeiro-ministro e os seus acólitos. A sua auto-exclusão dos noticiários da TVI, depois de ter sido amavelmente convidado a calar-se, foi o seu último ataque, o mais contundente. A sombra da censura não vai largar o governo. Foi bom, também, termos um exemplo visível do modo como os media vão funcionando e das suas relações com o mundo político. Mas a questão mais interessante é perceber se Marcelo tem lugar noutra televisão portuguesa. A SIC é propriedade do fundador do PSD. A RTP, já se sabe, é de quem está no poleiro. Nos media da PT, com o exemplo de jornalismo independente que se tornou o Diário de Notícias de Luís Delgado, o senhor, recorde-se, que está à frente da Lusa, também não deve caber. Onde colocamos Marcelo?
Apesar de as pessoas relativamente educadas já terem percebido o que significa este governo, resta ainda o perigo real do populismo, especialidade absoluta de Santana e Portas. E como é preciso levantar poeira para esconder a destruição sistemática de tudo o que é público neste país (isto é, de todos, mas que quase sempre é apropriado pelos senhores feudais que governam o rectângulo) preparem-se para o regresso das promessas aos velhinhos, das inaugurações em catadupa, da defesa da lavoura, e, quem sabe, do reaparecimento em força do discurso contra os emigrantes, empossados da responsabilidade do desemprego e dos baixos salários.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Espectro

"O ex-presidente do PSD Marcelo Rebelo de Sousa anunciou hoje que vai deixar de fazer comentários na TVI, na sequência de uma reunião a pedido de Miguel Paes do Amaral, presidente da Media Capital."

Até apetece plagiar, com algumas novas nuances, um filósofo alemão:
"Um espectro ronda Portugal - o espectro do censura."

segunda-feira, outubro 04, 2004

Baldrick e a arqueologia do trabalho

Alguém se lembra de Baldrick? Baldrick era aquela figura pequena, normalmente suja e não muito inteligente, que acompanhava as aventuras de Black Adder, personagem televisiva imortalizada pelo conhecido cómico inglês Rowan Atkinson. Pois bem, Baldrick, ou melhor o actor Tony Robinson, está de volta, apresentando uma série de documentários sobre os piores trabalhos existentes na Inglaterra oitocentista da rainha Vitória. O título é algo guloso, mas a intenção comercial proporciona uma curiosa e interessante, se bem que ligeira, arqueologia do trabalho no período de intensificação da revolução industrial. Robinson viaja por diversos espaços laborais, demonstra como se edificaram as grandes obras, quem construía os túneis e as valas, por onde passaram os comboios, revela as condições nas fábricas, a exploração da mão-de-obra nos campos, os trabalhos forçados, o trabalho infantil. A presença nos ambientes de trabalho e a exemplificação de “como se fazia” possibilitam a compreensão da violência inerente a muitas ocupações (Violência que sobreviveu, em larga medida, à Inglaterra industrial vitoriana. As fotografias de Sebastião Salgado sobre o “trabalho” são um bom exemplo do tratamento do tema na actualidade). Os documentários apresentados por Robinson permitem, ainda, de uma forma geral, mergulhar na vida quotidiana dos grupos sociais mais baixos, traçando a sua genealogia. Este programa passa em horário nobre, ao Sábado, num dos principais canais ingleses. Diga-se que a televisão inglesa está muito longe de ser um exemplo de qualidade. No entanto, é considerável a atenção conferida ao documentário. A utilização de actores como Tony Robinson, ou como os ex-Monty Phyton Terry Jones e Michael Palin, na apresentação de documentários históricos ou de viagens, é uma forma encontrada de transmitir de forma simples e didáctica, não descurando a qualidade, conteúdos históricos e sociais. Um facilitismo, dirão alguns. Ao conseguir unir a distracção ao conhecimento estes documentários cumprem, porém, uma função importante que não belisca o seu valor. Isto faz-me lembrar quanto seria necessário encontrar em Portugal alternativas ao José Hermano Saraiva, que, pese embora a sua historiografia, povoada em demasia por reis, rainhas, príncipes e princesas, lá vai fazendo o seu trabalho de divulgação.

sábado, outubro 02, 2004

A Igreja do carmo

É a terceira igreja mais representativa da cidade de Viseu. Herdeira da tradição secular das igrejas aldeãs, também ela é branca, está orientada na direcção leste-oeste de forma a permitir aos fiéis ficarem voltados para o sol-nascente, e o seu acesso faz-se por intermédio de alguns degraus de pedra, os quais separam o templo do solo profano.
Se, como as igrejas dos camponeses, a Igreja do Carmo partilha com estas, pela sua imponência e grandiosidade, a função simbólica de domínio sobre o espaço envolvente, no entanto, actualmente distingue-se da simbologia tradicional das igrejas aldeãs por um infeliz e notório aspecto: o seu estado de conservação, ou melhor a absoluta ausência dele.
Sempre foi regra nas igrejas aldeãs que a sua conservação e reparação fossem um dever de todos os habitantes da aldeia. Para isso a norma era criarem-se comissões que arrecadavam de forma autorizada fundos monetários visando a manutenção da integridade das igrejas.
No caso específico da Igreja do Carmo, desconheço a quem compete zelar por esta obrigação, se à igreja católica, aos fiéis da freguesia, ou ambos.
O que salta à vista desde há bastante tempo é o ostracismo a que esta Igreja tem sido votada. Tinta a desprender-se em massa das paredes, deixando clareiras enorme de cimento e pedra à vista, vidros partidos, madeira carcomida, um sino completamente enferrujado, arcadas de pedra asfixiadas pelo negrume da poluição e inundadas de fungos, enfim, uma desgraça total!
Perante isto, a Igreja Católica não tem vergonha em deixar um tão nobre edifício naquele paupérrimo estado de conservação? E os fiéis da freguesia e da cidade não se inquietam pela desagregação evidente da sua Igreja e do seu património?
Eu, que não sou católico nem professo qualquer fé religiosa, dei-me conta por mais de uma vez nos últimos dias a cirandar perto do templo nos últimos para ver para crer como é possível deixar chegar aquele edifício a tão deplorável aspecto, tal o espanto...

sexta-feira, outubro 01, 2004

O Gado

A BBC tem um programa semanal em que um painel de convidados, das mais diversas especialidades mas com forte representação política, responde a perguntas de uma audiência seleccionada. As perguntas debruçam-se sobre temas da actualidade. Um dos assuntos tratados num dos últimos programas foi a emigração. O líder do partido conservador, Michael Howard, propôs um regime restrito de quotas para estancar o número de emigrantes que entra todos os anos no país. O partido conservador, que perdeu o centro político para os trabalhistas e se vê ameaçado pelo liberais democratas, guindou a sua política para a direita tentando pescar votos a partidos extremistas e xenófobos, renovados pela onda anti-europeísta. As opiniões dos convidados perante o problema foram quase consensuais. Os representantes conservador, trabalhista e liberal democrata concordaram, com diferentes graus de rigor e linguajar, com as quotas. Entre os convidados encontrava-se uma jornalista do Daily Mail, tablóide conhecido pela sua política editorial anti-emigrante. Começando por afirmar que não era racista, porque tinha sido bem educada, a senhora defendeu as quotas afirmando, no entanto, que a Inglaterra precisava de emigrantes. E que tipo de emigrantes? Emigrantes seleccionados por uma espécie de renovação da prática da eugenia, isto é, tem que ser jovens, sãos e fortes, qualificados, obedientes, que não ponham em causa as instituições, que conheçam e se adaptem obrigatoriamente à cultural britânica, que sejam trabalhadores obedientes. Perante a afirmação, não contrariada pelos outros convidados, um jovem da plateia, filho de emigrantes, acusou a jornalista de tratar as pessoas como gado. Podia ter-lhe chamado nazi. Adiantou ainda que, como ela bem sabia, a Inglaterra precisa da mão-de-obra emigrante e se existem clandestinos é porque há interesses económicos que beneficiam com a sua entrada, especialmente porque não lhes oferecem direitos sociais, lhes pagam salários baixos e não cumprem as leis laborais. A resposta foi a habitual: mas acha que o país pode abrir as portas a toda a gente?
Claro que os países não podem abrir as portas a toda a gente. Mas o debate tem que se descentrado da política interna dos países que acolhem emigrantes para ser focado na sua política externa. É precisamente pelo facto de os países desenvolvidos estrangularem as economias do terceiro mundo, exploradas primeiro pelo colonialismo e agora pelo neo-colonialismo económico, que os seus habitantes são obrigados a moverem-se. E vão, naturalmente, continuar a fazê-lo. O modo como os ingleses colocam publicamente a questão da emigração, mesmo os representantes do partido trabalhista, vai muito para além do que ouvimos à direita portuguesa. Não digo que os métodos não sejam os mesmos, mas o despudor das afirmações públicas, de políticos e de jornalistas, são preocupantes, porque tornam o racismo – sem lhe chamar racismo claro -, na coisa mais banal do mundo. Pelo rectângulo, apesar de tudo, ainda há alguma vergonha. Até quando?

sexta-feira, setembro 24, 2004

A Antiguidade dos Administradores da Galp

A informação esta noite veiculada num canal televisivo de que dois administradores da Galp Energia, nomeados para os respectivos postos há 2 anos, possuem contratos de trabalho onde consta a informação de que têm um vínculo contratual com a citada empresa há 15 anos (!!!), isto é, ainda a Galp Energia não existia e estes dois excelsos administradores já deixavam sangue, suor e lágrimas em prol da mesma, configura, para ser comedido, uma autêntica canalhice, própria de indivíduos sem quaisquer escrúpulos e vergonha.
Ainda segundo a notícia, a administração da empresa admitiu a veracidade da informação, mas escusou-se a comentá-la, uma vez que, na sua opinião, não tinha a obrigação de o fazer.
Dito isto, realmente parece que o descaramento não tem limites para a administração da Galp Energia. Não lhe bastou ter sido recentemente adjectivada de pouco zelosa e desleixada no estabelecimento de directrizes atinentes ao cumprimento da normas de segurança no seu exercício de actividade, na sequência do gravoso acidente da refinaria de Leça. Pois bem, agora arroga-se no direito de não justificar o favorecimento ilícito e infame destes seus dois administradores, tendo em vista precavê-los aquando das suas saídas com faustosas indemnizações por tempo de serviço e no encurtamento do seu tempo de descontos para efeitos de reforma.
Vai por caminhos muito lúgubres e pantanosos a ética de quem está à frente desta empresa maioritariamente financiada pelo erário público. É mais uma entidade onde a desfaçatez e a impunidade correm, pelos vistos, lado a lado com a incompetência e a incúria. Até quando, gostava eu de saber...



quarta-feira, setembro 22, 2004

O maravilhoso mundo do golfe

Realizou-se neste último fim-de-semana uma competição de golfe chamada Ryder Cup. Para quem não saiba bem que desporto é este avanço com duas ilustrações. O golfe é aquela modalidade que está a transformar a nossa paisagem rural num conjunto de terrenos arrelvados com 18 buracos assinalados por um bandeira, povoados por uma catrefada de ingleses e alemães gordos, de meias brancas e uns tacos na mão. O golfe também é, ao mesmo tempo, o desporto das novas elites endinheiradas portuguesas, especialmente daqueles novos ricos que resolvem começar a praticar a coisa aos sessenta anos, com os sapatinhos do golfe, os bonezinhos como aparecem nas revistas, as camisolinhas da Lacoste, e uma falta de jeito olímpica, habituados que estão à sueca e ao bilhar às três tabelas. Mas adiante.
A Ryder Cup realiza-se de dois em dois anos e opõe uma equipa de golfistas norte-americanos a uma equipa de golfistas europeus. Este ano os europeus, entre os quais se encontravam uns quantos britânicos, deram uma cabazada aos americanos. Em face disto, a BBC resolveu questionar os seus espectadores com a seguinte pergunta: depois da vitória europeia na Ryder Cup ficou com orgulho em ser europeu? A pergunta, relativamente pateta, dá azo a inúmeras leituras extra-desportivas. 39% daqueles que responderam afirmaram que sim, que sentem orgulho em ser europeus, mas 61% afirmou que não. As análises adiantam que, de um ponto de vista progressista, os números nem são maus. O nacionalismo em Inglaterra tem-se tornado uma realidade mais visível desde que o momento em que a União Europeia começou a ganhar uma forma definitiva. A libra, a rainha, as recordações do império, etc., são símbolos da singularidade britânica que influenciam as atitudes dos ingleses perante a Europa: o outro mais próximo. A Europa só parece atraente no contexto político internacional, isto é, a maior parte dos ingleses revê-se mais na opinião política dos governos da «velha Europa» no que na posição de Blair. Mas a decisão sobre o futuro da Inglaterra, especialmente ao que respeita a economia e o futuro da libra, deve estar dependente de outros processos: resistirá o nacionalismo à pressão económica, resistirá a libra ao enorme mercado da zona euro? A ver.

O erro da raça

Os jornais britânicos andam muito preocupados com o facto dos estudantes ingleses de origem africana continuarem a apresentar piores resultados escolares que os alunos dos outros grupos étnicos. Incapazes de afirmar que se trata de uma qualquer tendência natural ou genética, seria politicamente incorrecto, tentam encontrar uma causa que explique o fenómeno. Com base em alguns relatórios elaborados por especialistas chegaram à conclusão que o problema são os professores brancos. O ensino é dominado por professores brancos descrentes das capacidades dos alunos de origem africana. Para estes últimos, tratados diferenciadamente, a vida torna-se um inferno. Vamos admitir que, em certa medida, a discriminação efectuada pelos professores brancos é responsável pelo insucesso dos alunos negros. Mas vamos imaginar que, por artes mágicas, eliminávamos o factor discriminatório, e que, mesmo assim, os alunos de origem africana continuavam a ser os piores. Perante tal cenário, como é que os políticos e os jornais iriam explicar o fenómeno?
A insistência de tratar as perfomances escolares com base na questão da raça é algo bastante perigoso. Bem sei que a palavra classe está fora de moda mas não vejo outra forma de lidar com o assunto. As teorias da sociologia da educação sobre a função de reprodução social inerente ao sistema educativo já há muito saíram do gueto académico. Sabemos, numa apreciação muito genérica, que a linguagem da escola favorece as classes médias. O que se passa, pelo mesmo na área de Londres, é que as classes baixas estão fortemente etnicizadas. Para os indivíduos de origem africana o handicap da origem de classe junta-se a outros problemas relacionados com a etnia, nomeadamente as línguas faladas em casa pelas famílias, quase sempre formas autóctones, jamaicanas, nigerianas, ganesas, etc, do inglês. Noutro sentido, as famílias de origem africana, e os seus filhos, rapidamente percebem que o seu futuro não vai em grande medida depender das qualificações escolares. Eles vão ocupar os lugar mais baixos da estrutura profissional e cada ano perdido na escola é menos dinheiro a entrar em casa.

A sensibilidade burguesa

Várias televisões do mundo transmitiram há poucos dias imagens dos protestos dos caçadores ingleses em frente ao Parlamento britânico. O órgão legislativo deliberou proibir a caça à raposa, tradição centenária por terras de sua majestade. Milhares de indivíduos rumaram a Londres demonstrando a sua ira em relação à decisão governamental. Alguns dos argumentos adiantados para justificar o protesto sugeriam que se tratava de mais uma luta entre o campo e a cidade. As classes médias urbanas e os seus representantes políticos não percebem os modos de vida do campo obrigando todo o país a sujeitar-se à sua sensibilidade particular. Para quem não esteja por dentro do contexto da caça em Inglaterra o argumento poderia fazer algum sentido.
A caça foi desde sempre uma forma de sobrevivência. Num contexto de necessidade, falar em direitos dos animais é absurdo. Sabemos, infelizmente, que os defensores dos direitos dos animais tendem muitas vezes a esquecer os direitos das pessoas. Uma inversão lamentável. O que se passa em Inglaterra, porém, nada tem a ver com um contexto de necessidade. A caça à raposa é um dos mais evidentes resquícios de uma mentalidade aristocrata de uma Inglaterra serôdia. O ritual que acompanha a caça à raposa é, sem dúvida, uma demonstração de posição de classe. Homens montados a rigor e dezenas de cães a bater o terreno e a perseguir implacavelmente as raposas. A figura literária do Robin dos Bosques representa, em certa medida, a luta pela democratização da caça num contexto em que os senhores feudais monopolizavam as terras. Os descendentes desses mesmos senhores pretendem, sob a capa da tradição e da cultura, preservar os seus rituais distintivos. O parlamento inglês decidiu acabar com isto.
É simplista, no entanto, afirmar que a questão da caça à raposa é um reflexo da oposição entre o campo e a cidade. Talvez seja mais adequado considerá-la como mais uma etapa da luta da burguesia contra a aristocracia. A sensibilidade das classes médias urbanas, o grande estrato de uma concepção alargada de burguesia, tende a impor a sua lei, seja em relação às tradições aristocráticas, seja em relação às tradições operárias. O processo é evidente num conjunto largo de fenómenos sociais: hábitos de alimentação, de consumo, defesa dos direitos dos animais, consciência ecológica, a importância dada à cultura, a defesa da diversidade das opções sexuais, a defesa dos direitos das crianças, etc. Esta sensibilidade burguesa é, porém, quase sempre muito estreita. É com dificuldade que a encontramos, por exemplo, na luta pelos direitos de saúde, de educação ou do trabalho. A existência de hospitais privados, escolas privadas, empregos assegurados e bem remunerados, afasta estes grupos de preocupações tão comezinhas. Sabemos bem que a maior parte dos nossos políticos representa os interesses desta sensibilidade social.

As Grandes Barracas

Após a débacle monumental em que se transformou, este ano, o concurso de colocação dos professores, o Ministério da Educação encontrou finalmente uma solução alternativa à empresa Machete & Couto dos Santos, vulgo Compta, para a resolução do imbróglio, noutra dupla, aquela formada por Dias da Cunha & Peseiro.
Numa solução bem ponderada e reflectida, como é apanágio de Santana Lopes, o Governo chegou à conclusão de que este duo é, à partida, através do primeiro componente, garante da desculpabilização dos erros próprios que surgirem na ordenação das listas, ao invocar o sistema educativo como o responsável pela situação, e uma voz autoritária capaz de ordenar o silêncio de todos os portugueses que acometam de críticas o processo de colocação, e, através do segundo elemento, certeza absoluta de uma ordenação e colocação de professores nas mais originais posições, seja por intermédio da táctica do losango, da táctica W ou da táctica do pirilau.
Deste modo o Governo espera que, através da dupla Dias da Cunha & Peseiro, o impasse da colocação dos professores seja resolutamente ultrapassado e o ano lectivo possa começar rapidamente e em força.

quinta-feira, setembro 16, 2004

Shôrss Agentess

Dois agentes da PSP de Viseu, um deles graduado, "aconselharam", anteontem, os responsáveis por uma livraria a retirarem da montra um livro com um título eventualmente polémico: "As mulheres não gostam de foder". O ensaio sexual em banda desenhada, da autoria do espanhol Alvarez Rabo, encontrava-se exposto na montra da loja que as Edições Polvo abriram, há cerca de dois meses, no shopping Ícaro, no centro da cidade.

"Estiveram da parte de fora a ler os títulos. Depois entraram e pediram para ver o livro. Vinham fardados. No princípio, julguei que estavam aqui como clientes. Mas não. Fiquei espantado quando o graduado, em jeito de aviso, aconselhou a retirar a obra da montra", explicou ontem, Alexandre de Melo, colaborador da livraria.

Os agentes da autoridade terão justificado o aviso ao livreiro, com "várias" queixas recebidas na PSP. "Com a maior correcção, explicaram-me que Viseu é uma cidade muito especial e que aquele livro não ficava bem na montra", lembra Alexandre Melo, que afirma ter argumentado que a editora e a obra em causa "eram absolutamente legais".

Fonte: Viseu Online

terça-feira, setembro 14, 2004

Condutores de Domingo

Dadas as estatísticas cruéis da sinistralidade rodoviária, a velocidade excessiva, as transgressões grosseiras do código da estrada, o mau estado de conservação das estradas e o sono, têm estado sempre presentes nos discursos do apuramento das funestas causas do negro panorama de acidentes em Portugal, o qual não tem fim à vista.
A todos estes comprovados motivos, eu acrescentaria, por elementar justiça, um outro, que, ou muito me engano eu ou já tem provocado bastantes acidentes pelo desespero que provoca, mesmo nos condutores com um histórico de cadastro sem infracções, levando-os à prática de manobras arriscadas para se apartarem do perigo: os Condutores de Domingo.
Os Condutores de Domingo pegam na sua carripana ao domingo, geralmente bem conservada depois de uma semana de pousio na garagem, com esposa, descendentes e sogros a acompanhar, e lançam-se no alcatrão determinados a nunca exceder os 30 ou 40km/h, no máximo, e com isso conseguirem igualar a média de qualquer cicloturista.
Abnegados e inflexíveis, é vê-los agruparem-se aos magotes depois do almoço para se passearem descontraidamente, frequentemente com os braços de fora dos vidros, apontando incessantemente para todas as direcções “Olhem aquela casa salmão. Bonita, mas acho que as caves são pouco altas”; “Vejam, vejam aqui à direita, aquele relvado com macieiras de bravo de elmolfe!”.
Demitindo-se das filas de quilómetros que a sua vagarosidade assumida acarreta, começam por levar o mais cumpridor das regras de trânsito à apoquentação, depois à ânsia, a seguir à aflição e, por fim, ao desespero total (que está na origem da tentativa enfurecida de ultrapassar colericamente esta sub-espécie das nossas estradas para poder prosseguir na estrada com uma mudança superior à 2).
A solução, e depreendendo que tais condutores são encartados, alguns há 40 ou 50 anos, e por isso têm o direito de conduzir, está em construir um ou dois circuitos, não de velocidade, mas sim de vagarosidade, para poderem livremente dar azo aos seus ímpetos obstrucionistas.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Evidentemente mediterrânico

Esplanada do café Estrela. Selecção nacional na Letónia. Sagres a quinhentos paus, bifanas e saladas de polvo. Aproxima-se um velho que me pede para se sentar à minha mesa. Sentou-se. Esperou dois minutos até encontrar o meu olhar, até ai perdido nos movimentos televisionados dos pupilos de Scolari, e pergunta-me de onde sou. Respondo e ele diz: eu também sou do mediterrâneo. Era sírio. Faz sentido.

O nosso homem em Londres

Pensaram que o indivíduo se ia calar? Pensaram que ia transformar os seus modos por respeito ao país onde trabalha, que ia deixar de ser malcriado e arrogante, que ia começar a sorrir? Pensaram mal. José Mourinho continua igual, sem tirar nem pôr. Os jornais ingleses adoram-no porque ele é notícia. Divertem-se com as suas baboseiras e esperam gulosos que Mourinho se espalhe para o ridicularizar implacavelmente. Já passaram cinco semanas e continuam à espera. Têm a certeza, no entanto, que o momento virá. Mourinho diz mal dos árbitros, não é polido com os adversários, diz mal dos métodos de treino em Inglaterra e chegou a insinuar, dirigindo-se ao mundo britânico, que só recebia lições de quem ganhava mais trofeus internacionais do que ele. Há alguém por aí que tenha ganho mais do que eu? Depois de afirmar que antes dele só Deus, o treinador de Setúbal afirmou que só o todo poderoso lhe tira o sono, sugerindo que os media ingleses lhe eram perfeitamente indiferentes. O homem já comprou mil guerras, mas é extraordinário o modo como pretende ganhá-las uma a uma.
Mourinho consegue, como todos sabemos, ser bastante irritante. Mas como estas coisas têm sempre que ser avaliadas dentro do seu próprio contexto, o nosso homem em Londres têm alguma graça. Habituados à emigração portuguesa da cabeça vergada, do trabalhador pouco instruído e economicamente debilitado vemos de repente aterrar na sobranceira capital do que foi o maior império do mundo um indivíduo obviamente latino, com um ar chateado, um ordenado milionário e uma confiança do tamanho do universo que o leva, com a maior das irresponsabilidades, a disparar para todo o lado enfrentando qualquer adversário, independendemente da sua origem, história, tradição, fleuma, etc. Continuamos à espera do momento da queda de Mourinho.

quarta-feira, setembro 08, 2004

O Guerreiro

O Guerreiro é o antigo comandante do exército privado de um senhor feudal, numa Índia remota e cercada pelo deserto. Líder feroz e impiedoso ao serviço da extorsão da vida e das colheitas alimentares das aldeias sob o jugo inclemente do senhor, rebela-se, a certa altura, contra este ao abandonar o seu posto para regressar à aldeia natal. Imediatamente perseguido pelos sequazes do suserano, que se considerava afrontado na sua honra, vê o filho ser degolado às mãos dos anteriores companheiros de guerra, logo no início da sua viagem de retorno primordial.
Por entre paisagens desérticas e montanhas enregeladas, a viagem de retorno torna-se a partir desse momento um ritual da tentativa de expiação de antigos pecados, sempre presentes, seja pela activação espontânea da memória seja pelo acompanhamento inseparável de um descendente das suas inúmeras vítimas, símbolo do passado, ou pela repulsa da sábia anciã que busca as águas sagradas, no seu auxílio motor.
Amargurado pela sucessão de recordações, vagarosamente se arrasta sob tempestades de areia ou de areia, numa absoluta resignação aos desígnios providenciais, até chegar a ser encontrado pelo ambicioso antigo coadjuvante de epopeias de destruição. Abdicando da vingança imediata, coloca-se sob o alcance do punhal do sicário, até que o seu jovem companheiro de viagem, sombra do seu passado maldito, lhe salva a vida.
Notável do ponto de visto do enquadramento natural, o Guerreiro é uma metáfora singular do arrependimento e da busca de perdão.





segunda-feira, setembro 06, 2004

Queremos mesmo que Bush se vá embora?

A questão parece estranha, mas confesso que não conheço a resposta. O problema nem passa pelo argumento de que Bush e Kerry são iguais e que republicanos e democratas representam, cada qual à sua maneira, a América dos interesses. Se esta última afirmação é no geral verdadeira é justo afirmar que Bush e Kerry não são totalmente iguais. Bush é uma versão mais rude, violenta e perigosa de Reagan. Bush é a prova que a democracia pode transformar-se numa completa aberração, uma retórica dirigida a autênticos mentecaptos, um simplificação absoluta das ideias, uma prática maniqueista primária, manipulatória e, como se pode observar, criminosa e assassina. Neste sentido, Bush é pior, talvez não muito pior, mas efectivamente pior. Para o povo americano é melhor que Kerry ganhe. Com Kerry, não que dele se esperem maravilhas, os direitos sociais vão aguentar-se e a economia talvez cresça, à semelhança do que sucedeu com Clinton.

Mas noutro sentido, talvez seja melhor que Bush ganhe. A consciencialização política de largas camadas da população do mundo, especialmente aquelas que mais afastadas estão da vida cívica e política, deve muito ao presidente Bush. Os seus modos básicos chegam tão rapidamente aos seus apoiantes como às pessoas que acham a política algo esotérico e distante, coisa de especialistas. Quantas pessoas passaram a ter opinião política desde que Bush apareceu? Quantas pessoas se juntaram a manifestações porque o alvo era George W. Bush e a política imperialista americana. Os movimentos sociais na Europa e no Mundo ganharam muito com Bush, apesar de, por vezes, de forma errada, se confundir a política americana com o povo americano. Queremos mesmo que Bush se vá embora?

O Trabalho no mundo

1) O Guardian publicou, na sua edição do último dia dois de Setembro, os resultados de um relatório do International Labour Office sobre o universo laboral. Noventa países foram colocados numa escala segundo vários critérios: salário, representação sindical, segurança do posto de trabalho, segurança no trabalho, direitos de saúde e segurança social, entre outros. Os resultados, no geral, não são muito surpreendentes. Em primeiro lugar a Suécia, depois a Finlândia, a Noruega, a Dinamarca, a Holanda, a Bélgica, a França, o Luxemburgo, a Alemanha e o Canadá. Portugal surge no 14.º lugar, depois da Irlanda, da Áustria e da Espanha e imediatamente à frente do Reino Unido. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, estão em 25.º lugar. O primeiro país asiático é o Japão, em 18.º lugar e não há quaisquer sinais de países árabes nem das novas democracias do leste da Europa entre os primeiros 20. Na cauda da tabela está, como se esperaria, um contingente de países africanos. Segundo o mesmo relatório, a progressiva privatização dos sistemas de segurança social tem levado a um efectivo empobrecimento das populações. Contra esta tendência foi apontado como factor positivo o incremento das pensões sociais no Brasil.

2) A luta contra a União Europeia é, nos nossos dias, um anacronismo. É elementar, no entanto, desejar uma outra Europa. O primeiro passo para alcançar este objectivo passa por impedir todas as forças que pretendem destruir um modelo de direitos sociais e do trabalho que, sendo já de si bastante débil e injusto, ainda faz da Europa um lugar à parte no contexto mundial. As últimas tendências não são, infelizmente, positivas.

3) O resultado alcançado por Portugal é, de certo modo, espantoso, nomeadamente porque o país chegou a 74 com uma infra-estrutura de apoio social e de direitos do trabalho muito débil, quando comparada, por exemplo, com o pujante welfare-state britânico construído depois da Segunda Guerra Mundial. É útil olhar para a história portuguesa destes últimos 30 anos e procurar os momentos e as causas que proporcionaram a inversão. Não será difícil perceber, basta olhar para as estatísticas, que o grande momento de social-democratização do país foi precisamente o período revolucionário após o 25 de Abril de 74. Tarefa realizada, refira-se, em contra-ciclo económico. Também não é difícil compreender que o maior ataque a este conjunto de direitos se realizou a partir dos anos noventa, pela mão de governos socialistas e sociais-democratas. Basta olhar, por exemplo, para a evolução da legislação dos contratos a prazo. Quanto tempo mais nos vamos aguentar no 14.º lugar?

sexta-feira, setembro 03, 2004

Seinfeld - o Regresso

Agora, que já estamos na contagem decrescente para a reexibição do Verdadeiro Artista (dia 20 de Setembro, na Sic Radical), a horas decentes para a maioria dos seres, fica aqui um pequeno aperitivo:
"Porque será tão difícil e desconfortável estar nu? É porque quando estamos vestidos, é sempre possível fazer aqueles pequenos arranjos, que as pessoas adoram fazer. Puxar, endireitar, ajustar. Achamos que estamos a ficar bem. «Ah, estou mesmo jeitoso. Sinto-me bem, muito bem». Mas quando estamos nus, não há nada a fazer. «Pronto, é isto. Não posso fazer mais nada.»
É por isso que eu gosto de pôr um cinto quando estou nu. Sinto que tenho qualquer coisa. Gostava de ter uns bolsos pendurados no cinto. Não era o máximo? Imaginem! Estar nu e, mesmo assim, conseguir pôr as mãos nos bolsos. Acho que seria uma grande ajuda."

terça-feira, agosto 31, 2004

A oriente tudo de novo

Tenho partilhado a minha condição de estudante no Reino Unido com uma vasta comunidade oriental. Chineses, japoneses, coreanos, tailandeses, etc Temo-nos dado bem e uma japonesa chegou mesmo a dizer-me que eu era parecido com o primo dela, mas para não me preocupar – como se uma comparação com um oriental fosse uma espécie de ofensa. Entre japoneses mais sofisticados e chineses mais tímidos uma coisa em comum: a obsessão com o ocidente e, especialmente, com o american way of life. A China é um caso particularmente interessante. As roupas, as marcas, os gestos, as séries de televisão, o cinema, os carros, são ambicionados por milhões de chineses (muitos milhões digamos). A grande maioria dos chineses que frequentam a SOAS estão a expensas das famílias. Estamos a falar de quase três mil contos por ano de propinas mais os custos da habitação, alimentação, etc. Asseverou-me o chinês que já há muita gente na China a poder pagar tais quantias. As universidades britânicas agradecem.

Portugal Olímpico

Tenho à minha frente o quadro completo das medalhas atribuídas nos jogos olímpicos de Atenas. Portugal situa-se no 61.º lugar entre os setenta e cinco países que ganharam alguma coisa. A equipa nacional alcançou duas medalhas de prata e uma de bronze. Destas, apenas a última me parece poder ser considerada o resultado de um qualquer investimento estrutural. Rui Silva é há muito um valor evidente e, embora não se esperasse dele uma medalha, sabia-se que poderia fazer um bom resultado. O feito de Sérgio Paulinho, sem lhe tirar o mérito, muito dificilmente se voltará a repetir. Foi, de certa forma, um feliz acaso. Francis Obikwelu é um nigeriano que treina em Espanha e que Portugal, e muito bem, acolheu na sua equipa. É fantástico o que fez, mas não se pode considerar o produto da política desportiva do país. Não é preciso recorrer ao quadro de medalhas para perceber o desastre que é a actividade desportiva em Portugal. No país do futebol fala-se muito e pratica-se pouco. Agitam-se bandeirinhas pela pátria mas não se percebe quão efémeras são as conquistas do futebol face à fragilidade de tudo o resto. É certo que as medalhas não são o único, sem sequer o melhor, critério de avaliação da saúde desportiva de uma população. Mas basta ouvir as queixas de atletas, nadadores, judocas, velejadores, corredores, etc, para perceber que o que fazem é quase sempre muito mais do que tinham que fazer. É nestas ocasiões que os argumentos esgrimidos por aqueles que lutaram contra o “país dos dez estádios” parecem realmente válidos.

quinta-feira, agosto 26, 2004

(IV) Madeira - Agosto 2004

Enquanto não podem aceder à SIC e à TVI os madeirenses lá se vão entretendo com as Semanas Gastronómicas dedicadas às especialidades locais (Lapas, Polvo de escabeche, Queijadas, Pudins de maracujá, entre outras), quase sempre fartamente oferecidas em bandeja por belas moçoilas, como acontece no Machico, terra de muitos “comunas”, como carinhosamente e sem desdém nenhum o Jornal da Madeira costuma caricaturar os seus naturais...
Evento já razoavelmente enraizado na história, é apenas mais um dos atractivos da Ilha da Madeira dignos de uma visita.

(III) Madeira - Agosto 2004

Por falar em media, a presença in loco na Madeira permitiu-me ficar a saber que os canais televisivos SIC e TVI, felizmente, não estão disponíveis em sinal aberto, mas apenas para os assinantes das ligações por cabo.
Mas ao que parece, azar dos azares, esta situação será em breve corrigida, por pressão das forças políticas, incluindo o PCP, que na voz do seu líder regional, Edgar Silva invocava ainda o imperativo ético do Estado comparticipar a totalidade do preço do descodificador necessário para tal visualização (15 contos na moda antiga). Ou seja, em breve será possível a todos os madeirenses terem nos seus ecrãs a projecção diária de 17 novelas brasileiras e 15 portuguesas, distribuídas pelos dois canais, reality-shows com farturinha e noticiários televisivos dedicados às aparições de extra-terrestres no Alvito e de fantasmas na casa dos Gomes em Vila Franca das Naves (Guarda).
Estavam os madeirense muito bem até hoje, imunes ao nivelamento por cima que os citados canais televisivos trouxeram ao espaço televisivo e vem o Padre Edgar exigir que o Estado faculte gratuitamente o acesso aos mesmos. Só apetece fazer-lhe o mesmo que a figura do Bordalo.
Ao Padre Edgar propunha, em alternativa, que em vez de andar a defender que o dinheiro dos contribuintes que vá ser desbaratado em descodificadores, com insígnias apregoe que o metal valioso seja melhor afortunado na compra dos primeiros três volumes do Capital para todos os cidadãos da Madeira. Seria uma atitude que contemplava certamente maior valor educativo e cultural do que andar a dar-lhes a SIC e a TVI. E os madeirense agradeciam, com certeza!

terça-feira, agosto 24, 2004

(II) Madeira - Agosto 2004

Retomando a crónica madeirense, e depois da aclaração de alguns dos aspectos passíveis de provocar consideráveis contratempos às pessoas e às viaturas, (tinha-me esquecido da amplitude de remendos no alcatrão em quase tudo o que é estrada!) mesmo àquelas máquinas de grande qualidade e capacidade de resistência, como são o caso do Ford Ka e do Nissan Micra, arriscaria dizer, ainda assim, que nenhum deles consegue concorrer tanto para a má imagem da ilha como o cenário com que nos deparámos na discoteca JAM.
Nesse cenário, nem mais nem menos do que o localmente apelidado de “Quinhentitos”, Presidente do Nacional da Madeira, num estilo muito "à lá Intendente", mirava as moças que bailavam na pista de dança, encostado ao balcão e envergando uma t-shirt sem mangas e uma pulseira verde fluorescente. Atroz imagem para o turismo de qualquer região!
A banir rapidamente, portanto.
Falando de coisas mais propensas a deixarem uma boa impressão nos visitantes, seremos obrigados a mencionar o carácter consideravelmente prolixo da imprensa local.
Com 3 ou 4 jornais diários, e pelo menos um semanário, se não me engano, e com particular destaque para o Diário de Notícias da Madeira, cuja tiragem chega perto dos 20.000 exemplares,(certamente um dos líderes da imprensa regional), depreende-se daqui que a taxa de leitura de jornais na Madeira é francamente superior à da média da população do Continente (embora, por exemplo, a leitura do Jornal de Notícias da Madeira, a julgar pela edições que vimos, quase sempre com um editorial do Presidente do Governo Regional, em topo de página, por sua vez também ele quase sempre secundado por um outro texto de um líder de um organismo público regional a distribuir encómios ao primeiro, não me pareça prefigurar este como uma mais valia de informação isenta...)

Continua...

quinta-feira, agosto 19, 2004

(I) Madeira - Agosto de 2004

Depois da estreia nos palcos madeirenses, é altura de fazer um curto balanço da digressão. Como me movimentei em território conhecido por metade dos leitores deste blog, não vale a pena estar a ser exaustivo na descrição da ilha, pois seria como estar a ensinar a missa ao padre ( à excepção, claro, do Forte do Pico, que parece que quase nenhum dos madeirenses conhece!... Mas depois do árduo esforço que envolveu a sua subida compreendo melhor as reticências para irem visitar o Forte).
Num tom geral, diria que retive bastantes aspectos agradáveis da Madeira, situados essencialmente ao nível da paisagem natural (a Costa Norte, o Paúl da Serra, o Cabo Girão, o Pico do Areeiro, o Ribeiro Frio, o Curral das Freiras, o Santo da Serra, a Ponta de São Lourenço, etc), mas também cultural e patrimonial (a caótica Livraria Esperança, alguns museus e os Fortes de Santiago e do Pico, por exemplo).
Tais virtualidade superam algumas situações que merecem reparos, seja pelo incómodo que provocam aos cidadãos (a quantidade de empreitadas da construção civil a decorrer em simultâneo e a antiguidade dos autocarros que fazem o percurso desde o Funchal até ao interior da ilha), seja por se constituírem como rombos no património natural (aqui o destaque vai para as obras de requalificação (???) da praia de Ponta do Sol).

Continua...

segunda-feira, agosto 09, 2004

Moore & Moore

Fahrenheit 9/11 é um filme importante. A base da democracia é a participação dos indivíduos. Estes só podem participar na vida do seu país se estiverem informados. No que respeita às actividades e intenções do governo americano liderado por Bush Jr. ficamos, com este documentário, mais esclarecidos: percebemos o que está por detrás das guerras do Iraque e do Afeganistão, as ligações da família Bush e seus acólitos com as monarquias do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita (7% da riqueza americana é saudita). Dados importantes, e devidamente comprovados, para o exercício do direito de cidadania. Quem acusa Moore de ser parcial esquece-se da parcialidade das grandes multinacionais da comunicação. O filme de Moore é dedicado ao público americano. É por isso que, para chegar ao cidadão comum, opta, algumas vezes, por um discurso simplista e emocional, bastante visível quando trata da questão do Iraque e da presença dos soldados do Tio Sam. É possível afirmar que certos planos eram dispensáveis, mas Moore sabe bem que são úteis. A vida das pessoas é, neste como em muitos outros casos, mais importante do que arte.

sábado, agosto 07, 2004

Sines 2004 outra vez

Em relação ao meu post anterior o camarada César contestou, informalmente, algumas das minhas afirmações. As suas discordâncias foram em dois sentidos. Por um lado, afirmou ele, a maior parte das pessoas que estava em Sines não era da terra, mas de Lisboa, o que contrariaria a ideia de uma política local de desenvolvimento. Por outro lado, a própria música apresentada no festival teria pouco a ver com o gosto das pessoas da terra. Deste modo, o festival de Sines estaria mais a servir uma população de Lisboa, com determinados gostos, digamos, próximo de certa classe média.
A verdade é que o César tem, em grande parte, razão. O que ele não apresenta, no entanto, é um modelo alternativo que permita que a sua crítica se torne construtiva. Temos um festival com um conjunto de grupos que se inclui no que se chama de World Music (embora, na minha opinião, o festival consiga ir para além deste chapéu), fora, portanto, do registo mais claramente comercial das rádios, televisões, editoras, distribuidoras, etc; um festival cuja entrada, pelos três dias, custa 10 euros; existem, à parte, inúmeras iniciativas gratuitas. A música não será globalmente conhecida mas, com toda a certeza, não apresenta os problemas formais de um concerto de trash metal, ou de música de câmara, ou um espectáculo de dança contemporânea, etc. A lógica do festival de Sines, aliás, não é assim tão diferente da apresentada nas Cantigas de Maio do Seixal, ou mesmo, embora neste caso a questão seja mais complexa, na festa do Avante.
Claro que isto não evita os dois problemas colocados: a invasão da classe média lisboeta (embora seja discutível que as pessoas vindas de Lisboa sejam na sua maioria de classe média) e a dificuldade dos habitantes de Sines, por incompatibilidade formal com a música apresentada, aderirem ao evento.
Assim de repente só me lembro de uma solução para o problema do César: o populismo. Esta solução é, aliás, utilizada em grande parte dos nossos munícipios. Usando aquela velha máxima rangeliana de que «só damos ao povo o que o povo quer», enchamos o Castelo de Sines com o Nel Monteiro e a Mónica Sintra. De certeza que temos adesão maciça à la Chão da Lagoa. Estou em crer que, apesar de tudo, quem organiza o festival de Sines tem o povo em melhor conta. Infelizmente, dirão algumas almas mais intolerantes e desconfiadas, não é possível proibir a classe média de Lisboa de rumar a sul.


terça-feira, agosto 03, 2004

Sines 2004

O festival de Músicas do Mundo realizado em Sines é um exemplo de bom trabalho autárquico na área da cultura. Um festival de inegável qualidade a preços acessíveis. Alguns críticos musicais, denotando dificuldade em pensar para além das notas que semanalmente dão aos discos que vão saindo, não conseguem perceber que a importância do festival é inseparável de uma filosofia de política local. Gerido por uma qualquer produtora, o festivalde Sines proporcionaria um lucro assinalável, bastava aumentar o preço dos bilhetes e, seguindo a doutrina João César das Neves, acabar com o investimento em espectáculos gratuitos. Considera a autarquia, no entanto, que existem benefícios para a população, não contabilizáveis apenas em balanços e balancetes, que justificam a aposta. O festival de Sines levanta muito mais discussões do que aquelas que perspassam em meia página de crítica musical. Houvesse jornalistas capazes de as pensar.

sexta-feira, julho 30, 2004

Críticas de cinema e Lições básicas de matemática

Por uma questão de curiosidade, decidi dar uma vista de olhos ao suplemento "Indígena" do jornal Independente que tinha ao dispor aqui perto.
Com a atenção mais virada para a crítica do filme "Fahrenheit", da autoria do senhor Leonardo Ralha, voluntariei-me para ler a mesma de fio e pavio de molde a poder julgá-la e compará-la mais logo com a minha visualização do filme.
De forma expectável, o crítico do Independente propõe-se no seu texto levar a cabo a tarefa de desfazer, ponto por ponto, os argumentos de Michael Moore, no intuito de desmascarar a terrível manipulação da verdade que neles estão subsumidos, abstraindo-se, claro, "tanto quanto possível de preconceitos ideológicos", como o tipo-ideal da actividade de crítico de cinema postula.
Não conseguindo disfarçar minimamente os tais preconceitos ideológicos (a aposição destas ressalvas no destaque dos textos, geralmente é quase sempre um indício da garantia do que vem a seguir...), o crítico atinge o auge da sua tarefa inglória perto do final do texto quando refere:
"Se num universo de 1070 pais - partindo do princípio de que nenhum dos eleitos é viúvo ou viúva - existe um dos 140 mil estacionados no país e em 294 milhões de norte-americanos há cerca de 130 milhões com idade suficiente para terem filhos nas Forças Armadas, a proporção é idêntica".
Apostado em oferecer-nos esta "lição básica de matemática", como diz, esquece-se das lições básicas de representatividade estatística!
Honesto seria o crítico verificar se existe uma correspondência entre o peso proporcional dos distintos extractos sócio-económicos no conjunto da população americana e os 140 mil militares destacados no Iraque.
Desconfio que se esqueceu de dar ao trabalho de verificar esta lição básica de representatividade estatística por algum motivo...





quarta-feira, julho 28, 2004

La Palisse

Naquilo que pensava ser um anúncio de grande impacte em termos de novidade, o Presidente da Associação de Turismo de Lisboa disse ontem ter garantias que o novo casino de Lisboa se irá situar no Pavilhão da Realidade Virtual... como se isso não fosse já do conhecimento de toda a gente desde há muito tempo! La Palisse não diria melhor...

terça-feira, julho 27, 2004

Bola

Para os amantes da bola, um site com alguns dos melhores momentos de sempre:
http://www.soccerpulse.com/forum/
lofiversion/index.php/t306.html

Pedintes

Há algumas semanas atrás foi anunciado, com pompa e circunstância, pelo Governo o reforço dos meios aéreos de combate aos incêndios.
Ontem o Governo português pediu auxílio externo, em aviões e helicópteros, para combater os fogos florestais que estão a lavrar pelo país.
Alguém me consegue explicar como é que isto é possível?

quinta-feira, julho 22, 2004

A modernidade

O Ikea chegou a Lisboa para revolucionar as casas portuguesas. Design para o povo, funcionalidade, novas soluções, faça você mesmo. Passo a publicidade, mas temos que agradecer aos nossos amigos suecos esta forma de democratizar o mobiliário. William Morris chamou-lhes as artes menores, sabendo que eram da maior importância.

Responsabilidade

Um dos argumentos mais usados pelo PSD contra a esquerda é o da falta de responsabilidade. Desde que está no governo, o PSD apresentou-se como o partido que ia limpar as impurezas do país, impondo o rigor contra a irresponsabilidade da esquerda. Para isso rodearam-se de técnicos e burocratas. Os economistas neo-clássicos, os famosos gestores, para os quais a discussão entre direita e esquerda foi há muito ultrapassada pelas regras infalíveis e universais do cálculo económico, matematizaram o mundo: tudo o que foge à sua aritmética neo-liberal é pura irresponsabilidade.  Manuela Ferreira Leite foi o rosto desta política em Portugal.

Gostava de perceber em que estado fica o discurso do rigor quando se sabe que Câmara de Lisboa, depois da liderança do novo primeiro-ministro,  está um atoleiro de dívidas, que o orçamento do governo regional da Madeira tem défices crónicos, que o novo governo criou mais ministérios e secretarias de Estado e que pensa colocá-los nos lugares mais mirabolantes do país e que, em breve, vão chover novos contratos e nomeações.
O PSD, se lhe resta algum efémero resíduo de social-democracia - é tão invisível a esquerda do PS como a social-democracia no PSD - devia-se preocupar com a responsabilidade, a responsabilidade social. Afinal não é isso que define um social-democrata?

O Novo-Burlesco

No intuito de combater um conjunto de restrições legais que foram instituídas na Big Aple na década de 90 (leis contra o álcool, o cigarro, a pornografia e tudo o que pudesse trazer algum prazer aos habitantes), têm renascido algumas das modas sonantes do passado na cosmopolita cidade de Nova Iorque. A mais sonantes dessa modas actuais é o Novo-Burlesco.
Herdeiro do oitocentista Burlesco, género teatral que combinava o Cabaré com o Teatro Revista, o Novo-Burlesco mistura o espectáculo circense com o freak-show.
Sempre atento às inovações da cena cultural internacional, Santana Lopes começou já a mimetizar esta corrente artística que visa levar os espectadores às gargalhadas para o seu Governo.
Em escassos 6 dias, e para combater os discursos pessimistas do governo anterior, o Executivo de Santana Lopes começou já a trazer alegria que escasseava ao povo depois de 2 anos de tanga.
Primeiro no anúncio da tomada de posse do seu Adjunto como Ministro do Mar (mas não das pescas, nem dos rios ou dos lagos), depois no desvio da nomeação da ex-Secretária de Estado da Segurança Social, garantida pelo Ministro do Mar como sua Secretária de Estado, para a Secretária das Artes, Santana Lopes começou já a dar provas inequívocas que o Novo-Burlesco veio para ficar próximos tempos para animar e dar cor a este anteriormente país cinzento!

terça-feira, julho 20, 2004

O últimos heróis desportivos

Quem consegue sentir a emoção de uma etapa de montanha na Volta à França sabe que aqueles homens que sobem paredes numa bicicleta são os últimos grandes heróis desportivos.

Pinguins: Vilar de Mouros 2004

Um pinguim madeirense de  espécie rara, das encostas do norte da ilha, atirou com um Corneto de morango ao cantor Bob Dylan durante o espectáculo que este apresentou no festival de Vilar de Mouros.

Perto do paraíso

Nesta última semana têm sido transmitidos na televisão portuguesa, de dois em dois dias, jogos do Benfica.

Homem não consegue sair do Fundão

Um jovem sociólogo beirão não consegue sair da sua terra. Mal se aproxima da auto-estrada há uma força poderosa que o devolve ao sofá da sua casa, numa casa no centro do Fundão. A Nasa já enviou cientistas para estudar o caso. Depois do nascimento de um rabanete de 56 kilos, em 1937,  este é mais um caso que abala a pacata cidade beirã.

Queremos os pinguins de volta

O blog do pato perdeu a sua densidade, a sua solidez, a sua dimensão metafórica em estado de graça para voltar a banalidade do comentário político. Queremos os pinguins de volta.

Lugares míticos e misteriosos

 
A esquerda do PS acaba de ganhar o prémio do lugar mais mítico e misterioso de Portugal, batendo a Boca do Inferno, o Cabo Espichel, a Lagoa das Sete Cidades e o Túnel das Antas. Ela existe, mas nunca ninguém a viu em acção.

quinta-feira, julho 15, 2004

O Demónio de Sócrates

Vós tendes frequentemente e em todo o lado ouvido dizer que um signo divino e demoníaco se manifesta em mim (...) Isso começou desde a minha infância; é uma espécie de voz que, quando se faz ouvir, me desvia sempre do que me proponho fazer, mas nunca me incita a isso. É ela que se opõe a que eu me ocupe da política, e creio que é de uma extrema felicidade para mim que ela me desvie disso.”
Apologia

terça-feira, julho 13, 2004

13-07-2008 - Parte II

Quatro anos após o anterior Presidente da República, Jorge Sampaio, tal como Deus, ao menino e ao borracho, entenda-se aliança Santana-Portas, ter colocado a mão por baixo, o Primeiro-Ministro, António Vitorino, anunciou hoje ao actual Presidente da República, Cavaco Silva, que recebeu um convite formulado pelo Partido Socialista Europeu, na sequência da vitória deste último partido nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, para ser o homem do leme da Comissão Europeia para os anos vindouros, em substituição do líder vigente, José Barroso, considerado inepto pelo PSE para continuar a desempenhar as funções para as quais foi mandatado há quatro anos pelo PPE como “mínimo denominador comum”.
António Vitorino fez saber junto de Cavaco Silva que é sua intenção aceitar, finalmente, embora a contragosto, o convite por entender, entre outros motivos, ser de relevante interesse nacional que este cargo seja novamente preenchido por um português.
Cavaco Silva compreendeu a vontade de Vitorino e deu anuência para a satisfação desta sua velha pretensão.
Cavaco hesita agora entre na decisão a adoptar. As alternativas consistem na nomeação do vice-presidente do PS, José Sócrates, como novo líder do Governo ou na convocação de eleições antecipadas.
Admitida pelo próprio como a mais grave e difícil decisão a tomar no seu mandato, porque inédita, Cavaco alegou que irá iniciar um conjunto diversificado de auscultações de figuras representativas da sociedade civil portuguesa, ou seja, os dirigentes de associações patronais, os accionistas de topo dos maiores bancos portugueses e o Governador do Banco de Portugal, antes de tomar a decisão final.

quinta-feira, julho 08, 2004

A Internet chegou a Cavernães

Numa acção promocional, mas que simultaneamente serviu como medida de equalização dos desníveis sociais no acesso à Internet, a PT ofereceu ontem a uma associação de solidariedade social de uma aldeia do concelho de Viseu, um Kit de navegação "Sapo ADSL".
Até ontem arredadas da utilização da Rede em virtude das dificuldades económicas de muitos dos seus progenitores em possuírem computadores e em estabelecerem ligações virtuais, a oferta da PT traduziu-se num enorme contentamento para as crianças locais.
O encantamento foi tão grande que, segundo as próprias, teriam ficado muito felizes, mesmo se em vez da ligação ADSL cá colocassem a Internet mais lenta do mundo .
É que, como disseram, a partir de agora vamos poder fazer muito mais coisas..., sem, evidentemente, poderem explicitar que coisas seriam essas para além da ideia de que na Internet «dá para ir buscar coisas. O meu irmão foi lá buscar receitas de bolos. Também dá para ir buscar coisas sobre animais, não dá?».
Possuíndo, naturalmente, apenas uma noção muito vaga do potencial da Internet, quase sempre construída pelos media, designadamente pelos anúncios publicitários da televisão, a difusão da Internet continua a espalhar sobre os mais jovens, mesmo entre aqueles que nunca usufruíram dela, uma curiosidade irresistível.
O mérito destas iniciativas, sem estar a querer aprofundar muito outras análises relativas aos benefícios e aos perigos do uso da Internet, está precisamente em equalizar o primeiro nível de desigualdade de acesso a este imenso manancial de informação, comunicação e diversão, já que
ao invés de outras crianças mais bafejadas por dotes financeiros, para quem a desenvoltura na utilização da Rede é um dado adquirido há algum tempo, para aquelas crianças aquilo que até ontem conheciam da Internet era o que tinham visto «na televisão. Eles dizem: o sapo libertou- se. Mas não sei para onde foi. Terá ido para a Internet?», como perguntou Cláudia Amaral, de 10 anos.
A partir de agora a Cláudia e outras crianças, menos afortunadas financeiramente, já saberão para onde terá ido o Sapo.

quarta-feira, julho 07, 2004

Memória

Desde que emergiu este processo de sucessão governativa, têm sido diversos os argumentos invocados, quer pelos defensores da continuidade da assunção das funções executivas pela coligação formada em Abril de 2002 quer por aqueles que preconizam a convocação de eleições antecipadas por parte do Presidente da República.
Em termos genéricos, os defensores da continuidade alegam a estabilidade governativa, a coesão da coligação PSD/PP ou a colocação em risco da tão propalada como dúbia retoma económica como motivos legítimos para a condução de Santana Lopes à chefia do Governo.
Os adeptos de eleições antecipadas apoiam-se na (falta de) legitimidade eleitoral de Santana Lopes e, por inerência, de todo o futuro Governo para conduzir os destinos próximos do País, no primado de responsabilização dos eleitores e na necessidade de se atender aos recentes resultados eleitorais para sustentarem a ida às urnas.
Estando a minha opinião incluída no lote dos que perfilham a necessidade do País ir a votos, e sem desmerecer nenhum dos argumentos atrás mencionados para legitimar tal decisão, o que mais me impressiona e mais chocaria na eventualidade de sucessão governativa que contemplasse a figura de Santana Lopes como Primeiro-Ministro, é a ideia de uma memória traída do seu Governo
Uma memória que remonta não à consciência de um passado remoto, mas que data de há pouco mais de 2 anos.
- Uma memória que contempla o demissionário Durão Barroso a acusar o seu antecessor de cobardia e de ter fugido às suas responsabilidades políticas, quando depois fez o mesmo;
- Que recorda Durão Barroso a apelar, após a demissão de Guterres, para a imediata necessidade de convocação de eleições, para agora solicitar ardentemente a não auscultação dos cidadãos na nomeação de um novo Governo;
- Que se lembra de ouvir Durão Barroso intitular num Congresso do PSD o seu agora sucessor como uma mistura de Zandinga e Gabriel Alves;
- Que evoca um passado recente onde Santana Lopes considerava o seu agora desejado líder de parceiro de coligação como um indivíduo que, obstinadamente, tudo fazia para denegrir todos os líderes do PSD desde Sá Carneiro, algo que Santana Lopes asseverava nunca ir esquecer;
De todo este histórico em tom de encómios recíprocos estes indivíduos fizeram agora tábua rasa... O primado do apego ao poder e a satisfação de ambições pessoais e partidárias consegue mascarar antipatias tão profundas como foram aquelas que foram reveladas, ao ponto de conseguir congregar no mesmo barco tantas falsas aparências!
Se não fosse por outro motivo, só o facto destes actores demonstrarem tanto fingimento e de se disporem a obliterar a memória tão facilmente, do tipo "Despertar da Mente", é razão mais do que suficiente para os cidadãos do País decidirem se os querem a governar o País, ou não.

segunda-feira, julho 05, 2004

Trappatoni, si!

E como de desilusões futebolísticas já chegaram as deste ano (Liga dos Campeões e Campeonato da Europa, ainda por cima competições perdidas sempre para adversários de menor capacidade futebolística...), a contratação de Trapatoni pelos rivais da 2ª circular serve para animar um pouco o dia!
Realmente, valeu a pena o tempo de espera para contratarem essa velha raposa do cattenacio...
A meu ver, a única esperança do SLB poderá ser a passagem a técnico principal a meio da época daquele que se adivinha futuro tradutor de Trappatoni em Portugal.
Vocês sabem do que é que eu estou a falar!

domingo, julho 04, 2004

Lutas laborais

Uma adepta grega acaba de afirmar na televisão que Deus é grego e, consequentemente, a vitória da equipa helénica é certa. Complicado. Portugal conta apenas com a nossa senhora de Caravagio e a nossa senhora de Fátima que, pelos vistos, andam a mijar fora do penico pois lá nas alturas a fidelidade laboral é uma característica importante e o patrão é que manda. Há, no entanto, a possibilidade da adepta grega estar a mentir. O portuense João Meireles diz que tem provas irrefutáveis de que Deus é do Boavista.

sexta-feira, julho 02, 2004

Eu também vou!

Informo os parceiros do Pato que fui também chamado a fazer ouvir a minha voz junto de Sua Excelência o Presidente da República, a propósito da indecisão governamental, em audiência, na próxima terça-feira à tarde assim que termine o expediente, o que irá acontecer lá para as 17h30 18h, em princípio.
Aproveito ainda para questionar algum parceiro se me sabe dizer que é a carreira da Carris
que faz o percurso entre a zona Oriental da Capital e a zona de Belém?

Uma laracha

Qual a diferença entre Portugal e a República Checa?
A República Checa tem o governo em Praga, Portugal vai ter uma praga de Governo...

Metáfora nórdica

Pedi a um amigo que desse uma olhada no nosso blogue. Ele enviou-me um mail que passo a reproduzir.

Fui à morada que me deste mas devo-me ter enganado.
Só encontrei posts sobre pinguins, icebergues, a vida no Polo Norte, pinguins do Polo Norte para o Polo Sul, a nossa senhora de Fátima, o Paulo empoleirado na duna, a rebentação das ondas. Eu tenho uma veia poética mas isto para mim é demais.

Um abraço do teu amigo

Ricardo Barbosa

O Euro acabou, já não era sem tempo

Esta coisa de a Grécia ir à final do Euro com Portugal torna qualquer torneio de snooker na associação recreativa de Freixo de Espada à Cinta mais interessante do que o último jogo da competição. A Grécia, para quem não saiba, é aquela equipa que joga futebol como os italianos nos seus piores dias e que é treinada por um alemão. Qualquer filme do Manoel de Oliveira é animadíssimo quando comparado com o futebol grego. Do outro lado, estão os novos heróis nacionais, os novos Vascos da Gama. Para quem não saiba, Portugal, é aquela equipa bestialmente parecida com o FC do Porto mas só que em em vez de ser treinada por aqueles rapaz simpático e modesto de Setúbal tem ao comando a nossa Senhora de Caravagio e a gravata do Durão Barroso, perdão, do José Barroso. E depois há ainda um brasileiro lá pelo meio, mas ainda não percebi bem qual é o papel dele.
Estou desejoso que chegue o dia cinco, quando o Benfica apresenta a sua nova equipa. Estou farto de Portugal. Confesso que neste momento prefiro um sportinguista ou um portista a um português. São menos histéricos e nos jogos destes bons clubes não temos que aturar o José Barroso nos flashs interviews depois dos jogos(César, junta esta ao teu glossário de anglicismos parolos.)

A Fuga de Durão

É preciso combater, por não ser verdade, a ideia de que a presença de Durão em Bruxelas dignifica o país. Não é verdade, dignifica-o, quanto muito, a ele próprio. O país não ganha, nem perde. Durão fugiu, sabendo que os dois próximos anos iam ser complicados e que, muito provavelmente, iria perder as eleições em 2006. Mas se Durão fugiu, como Guterres o tinha feito, se a equipa do Dr. Lopes pouco terá a ver com a que neste momento nos governa, resta escolher outro grupo, através da realização de eleições legilativas antecipadas, para governar o rectângulo.

segunda-feira, junho 28, 2004

Albergues espanhóis

Os dois maiores partidos portugueses continuam a dar a imagem real da nossa democracia. Alguém lhes reconhece alguma ideia estruturante, algum princípio fundamental a não ser o da defesa das corporações, da manipulação do aparelho de Estado, do patrocínio de carreiras individuais. No PSD-PPD, os do PSD não gostam dos do PPD (de quem o PP é uma óbvia extensão). Como é que é possível que pessoas que se odeiam que, aparentemente, têm ideias diferentes, estejam juntas no mesmo partido? Valentins e Pachecos, Rios e Meneses, Santanas e Balsemões, etc. No PS, a direcção quer eleições antecipadas, mas muitos daqueles que olham aguçadamente a carcaça de Ferro Rodrigues, pensam duas vezes: sem congresso Ferro não cai, se Ferro vai a eleições provavelmente ganha e lá se vão as carreiras dos Sócrates e dos Lamegos.

sábado, junho 26, 2004

Eleições

Confirmando-se o abandono do cargo de primeiro-ministro por parte de Durão Barroso parece-me que não resta a Jorge Sampaio outra atitude que não seja a convocação de eleições antecipadas.

Mas nem tudo é mau

É verdade. É um prazer ler as crónicas que Luís Campos, treinador de futebol do Gil Vicente, escreve no Público. Tal como foi superior o modo como José Mourinho comentou o Portugal-Espanha. Das poucos coisas que nos fazem esquecer o António Fidalgo, os jornalistas que não conseguem fazer um resumo de um jogo sem aplicar no mesmo milhares de trocadilhos idiotas, quase sempre como umas imagens de umas gajas pelo meio, e umas transmissões que nunca dão as repetições completas (Alguém que explique aos realizadores da televisão que, por exemplo, para apreciar o último golo do Rui Costa no Portugal-Inglaterra é preciso ver a jogada desde o início e não apenas o remate final).

Futebol?

Dizem os críticos que o país está futebolizado. De certo ponto de vista a afirmação é verdadeira. Arrisco afirmar, no entanto, que de futebol vejo, escuto e leio muito pouco. Façamos um exercício. Contabilizemos as horas de televisão, os minutos de rádio, as páginas de jornais e revistas dedicados ao Euro 2004. Vejamos agora quanto tempo e espaço é dedicado ao futebol, ao jogo em si. Bastante pouco. Restam as intermináveis e estereotipadas perguntas de rua - o povo é uma mais-valia televisiva bastante barata - os programas de televisão em que figuras públicas, que de futebol nada percebem, fazem comentários imbecis, opinam, dão conselhos ao treinador, o acompanhar das viagens das equipas entre treinos, as ridículas conferências de imprensa, as reportagens com todos os familiares possíveis e imaginários dos jogadores e um sem número de banalidades milhões de vezes repetido. De futebol, muito pouco.

Qual a razão?

Por que raio é que as duas primeiras pessoas a comentar para a televisão estatal a vitória da selecção nacional de futebol foram Durão Barroso e Ferro Rodrigues? Deixem o futebol em paz, deixem-nos para os seus intérpretes, jogadores, treinadores, árbitros.

quinta-feira, junho 24, 2004

Pacheco Pereira, o cinema e Cannes

Pacheco Pereira na sua incessante e risível cruzada na defesa da Guerra do Iraque, oferece-nos hoje na sua crónica do Público uma autêntica pérola de presunção sobre o cinema e o Festival de Cannes.
Diz ele que "o pensamento baixou ao nível do grande "cineasta" Michael Moore (o prémio de "cinema" que lhe foi atribuído chega para desclassificar de vez o festival e o jurí que o fez".
Sem nos elucidar se já viu o filme ou não, sem nos explicitar quem constituíu esse jurí tão desacreditado, sem nos dar a conhecer as razões que estão na base da desclassificação do Festival de Cannes, só podemos chegar à óbvia conclusão que, para Pacheco Pereira, o pensamento elevado é marca registada do próprio e dos, como ele classifica, "governos democráticos legítimos", mesmo que esses governos sejam liderados por presidentes que alcançam um milhão de votos a menos que os seus adversários da contenda eleitoral.
Todos aqueles que têm a veleidade e a desfaçatez de questionar o pensamento elevado de tais elites esclarecidas, mesmo que o façam através de mensagens veiculadas em campos artísticos e que mereçam o reconhecimento dos seus pares, são agora classificados como pertencentes a uma espécie inferior em capacidade intelectual e reflexiva, os Baixos Pensadores.

segunda-feira, junho 21, 2004

quarta-feira, junho 16, 2004

O Zé do PS

É compreensível que nas hostes socialistas se sinta alguma euforia em razão dos resultados eleitorais do passado fim de semana.
Todavia, pensava eu que esse estado de espírito de satisfação não seria motivo para algumas personagens do partido perderem a noção dos sentidos e entrarem em delírio. Mas está a acontecer!...
O vislumbre da hipótese de reconquista do poder em breve está a provocar umas certas psicoses nalgumas mentes do PS, conduzindo-as a atitudes esquizofrénicas.
O mais recente ilustre representante desta tendência para a senilidade é a do ex-representante de Portugal no Governo Provisório do Iraque, Zé Lamego.
Ora não é que Zé Lamego, depois de nobres e elevados feitos praticados no Iraque, pretende agora candidatar-se a Secretário-Geral do PS?!
Justifica ele a candidatura com a "defesa de princípios e para a criação de espaços de protagonismos a novas gerações e a novos elementos". A julgar pelo seu recente passado político antecipa-se facilmente qual a índole e a elevação dos princípios que pretende defender...
Felizmente, ou muito me engano eu ou a sua candidatura não será mais do que mero fogo fátuo!


sábado, junho 12, 2004

Liners e Bandeirinhas

Num país pejado de bandeirinhas ad nauseum (não é só na Velha Albion, "amigo" Global...), esperemos, apesar de tudo, que a equipa portuguesa não fique logo à tarde em posição de fora de jogo (off-side)...

Em resposta ao nosso Bruno II

Os 3 ocupantes do pódio, em ordem aleatória: França, Itália, Holanda.
Os 3 melhores marcadores: Henry, Nistelroy, Larsson
A equipa revelação: Suécia

sexta-feira, junho 11, 2004

Orgulho nacional?

Deixem-me ver se percebo? As bandeiras desfraldadas por toda a cidade de Lisboa, e imagino por todo o país, mais em bairros populares do que em bairros burgueses,revelam a paixão por uma das nações mais sub-desenvolvidas da Europa, que trata os seus cidadãos abaixo de cão. A bem da Nação. Viva a selecção.

Em resposta ao nosso Bruno

Então cá vai: campeão República Checa; final: República Checa-Espanha (2-1); melhor marcador Morientes;

Xutos

Foi com enorme prazer que vi os cinco elementos dos Xutos e Pontapés serem condecorados pelo Presidente Sampaio. Numa lógica de atribuição de prémios eminentemente classista, que esquece quase todas as profissões e actividades distantes do campo do poder, é um óptimo sinal alguém se ter lembrado destes indiscutíveis baluartes da cultura popular portuguesa. Vivam os Xutos.

quarta-feira, junho 09, 2004

A campanha dos cartazes e placards em Viseu

Percorrendo as diversas artérias e rotundas da cidade de Viriato, constata-se, com surpresa, que, em matéria de afixação de material partidário, os espaços públicos viseenses são largamente dominados nestas eleições, pasme-se, pelo Bloco de Esquerda e pela CDU!...
Numa cidade e num concelho onde obtêm percentagens eleitorais marginais, não deixa de ser curiosa a aposta destas duas forças partidárias em polvilharem a cidade com adereços publicitários (cartazes, placards) das suas cores, a contrastar com uma presença muito mais discreta e quase invisível dos partidos que recolhem a maioria das preferências locais..., os quais, certamente, preferem dispender as verbas que estão guardadas nos seus cofres nas refregas eleitorais que se avizinham.
É apenas mais um sintoma da desvalorização que os principais partidos políticos fazem destas eleições, cristalino de se ver diariamente, quando estando nós perante uma eleições para o Parlamento Europeu, os discursos políticos nos intervalos dos insultos mútuos, se dedicam, sobretudo, a sondar e a ventilar para os media os nomes de putativos candidatos presidenciais...

segunda-feira, junho 07, 2004

Metal connection

No mesmo café do e-mail anterior, no dia anterior, reinaram os reis do Metal. À minha frente estavam dez jovens vestidos de preto, cerveja na mão, sotaque indiscutivelmente alentejano, a berrarem todos os clássicos da banda de Hetfielf, Hammet e Ulrich. O metal devia ser estudado, não digo essas novas bandas fabricados em estúdios de Los Angeles para adolescentes pseudo-rebeldes, mas do metal do underground que passa de cassete em cassete, ouvida em grupos, predominantemente masculinos, multiplicados por todo o país, nas grandes cidades e nos sítios mais recônditos. Embora o show dos Metallica seja muito produzido, muito profissional, no mau sentido destas expressões, o seu poder ainda se sente. Foi bom voltar a ouvir alguns hinos antigos. Mantendo uma posição de observador distanciado e reflexivo ainda abanei muitas vezes a cabeça.

A alegria do povo

Garrincha foi o mais conhecido extremo-direito brasileiro. Alguns consideram-no ainda melhor do que Pelé. Os seus dribles fenomenais, dançantes, inebriantes, encantavam o adepto do futebol. Garrincha, como ficou eternizado num dos mais importantes documentários do cinema novo brasileiro - obra da autoria de Joaquim Pedro de Andrade - era a alegria do povo. Não pude deixar de pensar nesta frase quando vi, num café de Sines chamado SMURSS (as quatro últimas letras não são um acaso) o concerto de Daniela Mercury no Rock in Rio lisboeta. Há qualquer coisa de profundamente honesto no concerto da Daniela. A produção é festivaleira, profissional, a música é muito fácil, mas prevalece uma ligação poderosa com o público, que dificilmente conseguimos observar nos McCartneys, nos Stings e dinossauros afins.

quarta-feira, maio 26, 2004

10.000

Olha, o Pato já tomou mais de 10.000 banhos no lago...

Jim Carrey - Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Foi a segunda vez que tive oportunidade de ver Carrey num ecrã de cinema, depois de Homem na Lua, um registo em que a sua conhecida hiper-expressividade e o tom desbragado estavam circuncritos a limites mais estreitos do que o conhecido pela natureza da personagem representada, o comediante Andy Kaufman, e pela oscilação entre a comédia e o drama que a biografia deste implicava.
Sinteticamente, em "Eternal Sunshine of the Spotless Mind", temos agora um Carrey dar largas ao génio criativo do argumentista Charlie Kaufman, o mesmo de "Queres ser John Malkovich", ao vestir a pele de um indivíduo que sobrevive numa existência amorfa e desinteressante, segundo o próprio, e que ao descobrir que foi apagado da memória da rapariga que havia encontrado à beira-mar, decide retribuir à rapariga a supressão da sua mente, desígnio esse que será mal sucedido em virtude dos seus sentimentos não o permitirem.
Se ainda alguém tinha dúvidas do talento de Carrey, elas dissipam-se aceleradamente com a visualização do filme, digo eu...

segunda-feira, maio 24, 2004

Durão Barroso responsabiliza PCP por eventuais problemas de segurança no Euro 2004

Depois dos telemóveis com imagem no Iraque, foi descoberta mais uma força subversiva a por em causa a "nossa" segurança, o PCP.
Relativamente ao apoio incondicional e reverente à refrega iraquiana, ao não pagamento dos honorários devidos aos inspectores do SEF pelo trabalho desenvolvido e ao incumprimento do regulamento de promoções das forças policiais, o primeiro-ministro, curiosamente, foi omisso...

Rumsfeld proíbe telemóveis com câmara digital no Iraque

"De acordo com a publicação, o departamento da Defesa está convencido de que as fotos postas a circular nos Estados Unidos, que mostram os abusos cometidos pelos militares norte-americanos sobre os iraquianos detidos na prisão de Abu Ghraib, foram tiradas por este tipo de aparelhos".
Portanto, ficamos a saber que em vez de proibirem a prática dos abusos, para o departamento de defesa yankee o mais importante é confiscar os telemóveis, esses instrumentos subversivos que estão a minar a vontade de implantar a democracia ocidental na antiga Babilónia.

sexta-feira, maio 21, 2004

Portugal Positivo

O movimento Portugal Positivo, tentativa do PSD, via sociedade civil, combater os malefícos do discurso da «tanga», organizou uma conferência sobre a nossa (dos portugueses) auto-estima. Vasco Pulido Valente foi a grande atracção do evento. Convidar VPV para uma conferência sobre auto-estima organizada por um movimento chamado Portugal Positivo é das melhores piadas que ouvi nos últimos tempos. A coisa correu, bem se vê, bastante mal. Algumas frases do amargurado Vasco. Sobre a modernização do país por imitação de modelos estrangeiros: "Se uma pessoa define o seu programa político como imitação o que está a dizer é que a sua identidade é ser atrasado." Sobre as nossas elites: "Portugal está cheio de nulidades nas mais altas instâncias em que ninguém toca." Perante a estupefacção de um público optimista, Vasco apontou a solução para a depressão nacional: "Se houver mais dinheiro as pessoas começam logo a sentir-se melhor, nem precisam deste tipo de conferências."

A capital do trabalho

Desculpem o futebol outra vez. Dos 14 mil e tal bilhetes atribuídos ao FC Porto para a final da Liga dos Campeões apenas pouco mais de 3 mil foram vendidos ao público. Os restantes foram distribuídos por patrocinadores, empresas e por notáveis do país e da cidade. Quando olharmos para a bancada central do Estádio alemão onde se vai disputar a final e encontrármos políticos, empresários, artistas e outras figuras mais ou menos públicas sabemos que estes personagens, ao contrário da plebe, não tiveram que ir para a frente das bilheteiras dois dias antes. O clube da região, do imaginado "povo do norte" que enche permanentemente a Av. dos Aliados contra o centralismo lisboeta, distribuí os seus bens e serviços pelos mesmos de sempre, os barões do capital regional, as redes de interesses e de tráfico de influências, a mesma «classe» de sempre, que dirige impunemente este país. É neste ponto que estabelecem os limites do populismo, da paixão clubista, da mobilização da capital do trabalho. A capital do trabalho continua muito mais próxima do capital do que do trabalho.

quarta-feira, maio 19, 2004

Túnel do Rego - As obras estão já em andamento

Depois das mensagens de boas vindas dirigidas ao Sr. Benvindo, é este o novo cartaz afixado pela Câmara Municipal de Lisboa em diversos locais...
No Comments!

terça-feira, maio 18, 2004

A criação da Universidade Pública de Viseu

O primeiro-ministro anunciou, ontem, a criação de uma Universidade Pública em Viseu, cumprindo um dos seus compromissos eleitorais e uma promessa feita pelos sucessivos governos nos últimos 14 anos.
Como viseense, não posso deixar de me congratular com a decisão tomada pelo Governo, "premiando" uma cidade que tem evidenciado uma dinâmica económica e cultural assinalável ao longo das últimas duas décadas.
Pode ser este um impulso fulcral para a criação de centros de excelência ao nível da inovação e do conhecimento, que funcionem como alavancas para o desenvolvimento local e regional.
Para tal torna-se imprescíndivel, não só a aposta na investigação com fortes ligações a outras unidades no país e no estrangeiro, mas também a criação de uma rede de suporte de empresas que forneçam serviços à Universidade e às unidades de investigação, designadamente ao nível do equipamento tecnológico, e o investimento empresarial no chamado capital de risco em áreas de actividade desenvolvidas pelas unidades de investigação da Universidade.
Caso tal não se verifique, arrisca-se a ser mais uma Universidade Pública, incapaz de fazer face
a outras que geograficamente a circundam e de aportar os contributos relevantes que dela se aguardam como motor indispensável para o desenvolvimento de toda aquela região e do País.

segunda-feira, maio 17, 2004

11) Maradona

Quando desenhou a tatuagem de Che Guevara no seu braço direito Maradona disse que finalmente os dois mais importantes argentinos estavam juntos no mesmo corpo.

10) Formalismos

Só apoio a selecção nacional no próximo Europeu se eles jogarem alguma coisa.

9) Rui Rio

É de elementar justiça salientar a postura de Rui Rio em relação ao mundo do futebol. Porventura houve alguns exageros por parte do autarca. Mas as notícias que vieram a lume sobre os financiamentos ilegais da Câmara ao FC Porto provam que tinha efectivamente razão. O Rio é uma lança em África.

8) Os representantes da Nação

Vamos ter outra vez a rábula de Sevilha. Alguns deputados já admitiram que não se importam de faltar à sessão, não recebendo o dinheiro correspondente ao dia de trabalho. Os deputados deviam ter consciência que estão a representar os cidadãos e que a Assembleia não é o cabaret da coxa. Algures no México alguém deve estar surpreendido como é que alguém cancela uma visita de Estado para ir a um jogo de futebol.

7) Patriotas

Há alguma razão para um não portista apoiar o Porto na final da Liga dos Campeões? Consigo encontrar apenas uma. A cultura do ódio é repelente. Também dispenso o argumento patrioteiro. A única forma de apoiar esta equipa depende do que ela conseguir demonstrar em campo, interpretanto o jogo. Como o fez, exemplarmente, na Corunha.

6) Deco

Deco é o melhor jogador a actuar em Portugal. Um espectáculo dentro do espectáculo. No entanto, não consegue, tal como Mourinho, envolver o seu génio numa postura positiva. Deco é violento e é o mais simulador de faltas que tenho visto (bem mais que Liedson. Sé entou inventou uma mão-cheia delas. Deco engana os adversários, o árbitro, os colegas e o público. Os ingleses chamam-lhe diver. É pena.

5) Mourinho

Mourinho é provavelmente o melhor treinador de futebol do Mundo. Ainda ontem ficou provado. O Porto foi superior ao Benfica, tal como o Sporting o havia sido no último derby. Mas o futebol não é matemática. O treinador do Porto encaixou com perfeição na cultura do clube. Regra número um: só se elogia o adversário quando ganhamos, por que isso nos valoriza. Regra número dois: nunca, mas nunca, se reconhece uma derrota considerando que o adversário jogou melhor. Regra número três: tem que haver um responsável externo pela derrota, um agente do centralismo. Este agente é normalmente o árbitro. Qualquer pessoa com o mínimo de imparcialidade reconhecerá que as afirmações de Mourinho sobre o árbitro são tonterias. A massa adepta, de Gondomar, de Gaia, de Espinho, de Ermesinde, acredita, no entanto, na tese da cabala. É isto que é perigoso.

4) As regras do jogo

A cultura do ódio utiliza como arma de coesão interna a invenção do adversário: somos mais fortes e unidos com um inimigo forte. A lógica pegou bem na colagem do FC Porto à cidade do Porto, supostamente esmagada pelo poder centralista representado pelos clubes da capital, especialmente pelo Benfica. O Benfica não era apenas um clube de futebol mas o representante da injustiça centralista. Claro que os porta-vozes que reivindicam a justiça para o Porto não são as pessoas que vivem em condições precárias, em subúrbios miseráveis liderados por caciques autárquicos, mas os barões do Norte, espécie de senhores feudais que à custa do futebol e de electrodomésticos constróem exércitos de adeptos, que à falta de alegria material, sobrevivem do êxito dos seus clubes, bem longe dos palacetes da Foz.

3) A outra vitória

O Benfica não ganhou apenas uma Taça de Portugal, ganhou ao Porto. Mas não é o facto do Porto ser provavelmente a melhor equipa do mundo que torna a vitória mais importante. O que lhe dá um verdadeiro significado é o facto de ela ter sido edificada contra uma cultura do ódio. Esta cultura detestável não deve ser confundida com uma cultura de uma região, de uma cidade, ou das pessoas que por lá moram e trabalham, ela deve-se apenas aqueles que construíram, ao longo dos anos, um clube que se caracteriza por ser contra, que se define pela negativa.

2) A festa

Dizia ontem alguém, visivelmente aborrecido, que parecia que o Benfica tinha ganho a Liga dos Campeões, tal era a festa em Lisboa. Alguns consideraram a comemoração exarcebada a prova de que o clube está decadente. O Benfica deve assumir a sua história recente, uma história de fracassos. Neste contexto compreende-se a alegria, um sentimento extraordinário que ultrapassa em muito o mundo do futebol. O erro daqueles que não gostam, não percebem, e são sobranceiros de mais para procurar perceber o que significa o jogo, é que o futebol é um meio para expressar algumas das coisas essnciais da vida.

11 posts sobre o futebol - 1) Camacho

A vitória que o Benfica alcançou na final da taça de Portugal é o culminar justo do trabalho excepcional de José António Camacho. Reorganizador do futebol do Benfica, exemplo de rigor e frontalidade, o espanhol enfrentou o caos, os treinos em campos emprestados, os ordenados em atraso, as mortes em campo, uma equipa com fragilidades evidentes. Não é apenas o Benfica que perde com a mais que provável saída de Camacho, mas todo o futebol português que, no fundo, não o merece.

sexta-feira, maio 14, 2004

A Frase do Dia

"Quando se dá uma malga de sopa a alguém que está na rua, não se está a contribuir para o recuperar, mas para o manter naquela situação"
Paulo Morais - Vice-presidente da Câmara do Porto

quinta-feira, maio 13, 2004

Herança

Embora o seu posicionamento ideológico e doutrinário ao longo da vida estivesse quase sempre longe, para não dizer completamente nos antípodas daquele que eu perfilho, ainda assim parece-me justo reconhecer que o homem da expressão "25 do A", teve uma atitude nobre ao legar 500 milhões de euros da sua avultadíssima fortuna pessoal para a realização de investigação científica na área da medicina, através da criação de uma Fundação, apenas depois da sua morte, e não em vida para aproveitar e beneficiar somente de gratificações e subvenções monetárias que o regime júridico atinente à criação de fundações faculta, tal como muitos o fazem (embora o seu espólio também dispensasse com comodidade este tipo de artíficios...)

sexta-feira, maio 07, 2004

Múm

Os islandeses Múm deram ontem a conhecer ao vivo o seu novo albúm, "Summer make Good", na Aula Magna, num concerto intimista e verdadeiramente inebriante.
Com uma uma voz sussurante, a da vocalista Kristín Anna Valtýsdóttir's a liderar uma eclética digressão musical de 100 minutos, em termos instrumentais, foi o exemplo perfeito de como converter um espectáculo musical numa vibrante viagem pelo espaço sideral.
Inesquecível!



terça-feira, maio 04, 2004

Mais um advogado versado na "realidade sociológica"

Numa prosa deliciosa, o deputado Pinheiro Torres do PSD, num artigo de opinião publicado no jornal Público, vem hoje verberar contra o facto de ter sido exarado na recente revisão constitucional o preceito de nenhum cidadão poder ser privilegiado ou privado de qualquer direito em virtude da sua “orientação sexual”, invocando o facto de que a afixação constitucional desta norma por parte da coligação foi decidida, nas suas palavras, “em oposição com aquele que é o sentimento da realidade sociológica que costuma votar nos partidos da maioria”.
Ora, seria de elementar rigor científico, já para não dizer de bom senso, que este deputado jurista nos desse a conhecer em que abordagens sociológicas sobre o tema é que se foi apoiar para legitimar a sua asserção.
Pode ser uma lacuna minha, mas desconheço qualquer investigação sociológica credível recente acerca do posicionamento daqueles que votam nos partidos de direita que suporte a obliteração da constituição daquele preceito que agora foi incluído.
Pelos vistos, este causídico está mais bem documentado sobre o tema...As coisas que se aprendem sobre a "realidade sociológica" com juristas...

segunda-feira, maio 03, 2004

Juve Leo

Muito gostaria de saber como é que ao fim de anos e anos a provocar desacatos e a enfileirar atentados às mais elementares normas de uma postura minimamente civilizada, o líder da Juventude Leonina (e não só desta claque..) continua a poder frequentar recintos desportivos sem que qualquer tipo de escolho judicial lhe seja imposto pelas autoridades competentes...

domingo, maio 02, 2004

A Frase do Dia

"A mim ele nunca me levou ao teatro"
Carla Pinto, ex-esposa de João Pinto

sexta-feira, abril 30, 2004

Netsaúdeº

Após aquele autêntico massacre parlamentar transmitido pelas televisões, ontem no horário nobre, onde foi possível constatar um gestor de um grupo bancário português, e agora ao que parece também representante de uma empresa internacional de telecomunicações, de seu nome Luís Filipe Pereira, a ser violentamente fustigado pelo líder de um pequeno partido, que o deixou completamente atordoado e com uma capacidade de resposta risível, para bem do crescimento futuro e desprovido de traumas das crianças portuguesas, acho que chegou a altura das televisões começarem a ter alguma temperança e contenção na transmissão de actos daquele manifesto calibre violento, como, aliás, são quase todos aqueles onde participa o anedótico ministro da saúde...

O Túnel

"Manifestação de Apoio ao Túnel do Marquês contou com 4 participantes"
A Capital, 30-04-04

Embora tenha ficado um pouco abaixo das expectativas da organização em termos da presença de apoiantes (a organização esperava ao todo 7 participantes), esta manifestação em prol da política de Santana Lopes teve a virtude de ter permitido aos serviços de vigilância do Hospital Júlio de Matos encontrar os 4 pacientes que de manhã haviam fugido das suas instalações e cujo paradeiro permanecia incerto até à hora da manifestação, altura em que foram então encontrados no Marquês de Pombal.