sexta-feira, maio 27, 2005

Cidadania Local

Aqui há uns dias atrás os canteiros situados na rua Visconde de Santarém, junto ao Arco do Cego, em Lisboa, de um dia para o outro transfiguraram-se em termos do seu aspecto. Para alacridade de quem por lá muito perto diariamente se colocava para apanhar os transportes públicos, os canteiros anteriormente inundados de lixo e dejectos de animais transformaram-se, quase por passe de mágica, em espaços relvados e desprovidos de imundice.
Estranhei, mas entranhei positivamente, a súbita alteração da “paisagem”. Desconhecia, contudo, era que a nova cara dos canteiros tivesse contornos que quase se perdiam de antanho...
De acordo com a revista Única do fim de semana passado do jornal Espesso, a transfiguração ocorrida havia já sido solicitada pelos moradores por diversas vezes para ser embandeirada pelos serviços competentes da CM Lisboa. A resposta da Câmara aos apelos populares, todavia, foi um silêncio persistente.
Entretanto, preparava-se para se instalar neste mês um cartório notarial naquele local, e a sua proprietária, assustada com o panorama circundante, seguiu o exemplo dos moradores na busca de uma solução para a limpeza do espaço em redor. Segundo a versão narrada pela jornalista, a CM Lisboa pautou novamente a sua conduta pelo mutismo.
Cansada de silêncios persistentes e arrastados, a proprietária meteu mãos à obra e contratou uma empresa para ajardinar o espaço, empreitada pela qual pagou 2000 euros, a que acresce o preço da rega diária do mesmo que a funcionária do cartório leva a cabo logo pela manhã.
Confrontada pela jornalista com a resolução popular daquele imbróglio paisagístico, a vereadora que detém o pelouro do Urbanismo declarou que a CM de Lisboa encarava a solução adoptada com “tolerância simpatizante”...
Melhor do que a condescência forçada pelas evidências, ficaria melhor à senhora vereadora a interiorização da ideia de que se a paralisia funcional das instituições não fosse tão marcante, certamente as iniciativas populares desviantes da lógica de procedimentos burocrático-formais não tivessem de ser accionadas com tanta acuidade...
Neste caso, para quem conheceu o espaço até há bem pouco tempo e agora relança sobre ele novamente os olhos, só pode concluir que a cidadania local é uma qualidade que a todos deve assistir, é um direito inalienável de sensibilização e pressão sobre as instituições responsáveis pelo zelo e administração dos bens comuns e para terem esmero e rapidez no cumprimento das suas atribuições.

terça-feira, maio 24, 2005

Pequeno filme

Passem por esta pagina www.futebolwebtv.pt , no canto inferior direito, ha um link que nos oferece as imagens do golo de Luisao contra o Sporting. Ha uma primeira imagem num plano alargado, a que se segue uma imagem filmada atras da baliza. Vejam esta imagem e depois ajuizem.

Muito me vou eu rir...

Com o SLB a disputar a próxima Liga dos Campeões. Quando o campeão português - ainda me soa estranho escrever isto - chegar à Europa do futebol e perceber que:

- Mário Mendes, Bruno Paixão, Hélio Santos, António Costa e Paulo Paraty não vão poder apitar nenhum jogo da "instituição";

- Os árbitros europeus escolhidos para os seus jogos não se vão esquecer das suas chuteiras;

- Os adversários irão recusar jogar os seus jogos caseiros no Estádio Faro/Loulé.

Prevejo um score final de seis jogos, seis derrotas e algum Portugal muito envergonhado. Afinal de contas, não deixa de ser sintomático que o campeão português foi já colocado pela Uefa no pote 4 para o sorteio da fase de grupos. O pote das fracotas...

segunda-feira, maio 16, 2005

Da verdade

Pelo futebol jogado o Benfica nao merece ganhar o campeonato, embora nitidamente tenha merecido ganhar o jogo ao Sporting. Quanto a ter sido beneficiado, nao o foi nem mais nem menos do que os outros grandes. Todos os clubes tem o seu naipe de queixas. O do Benfica e extenso, e comeca pelo golo de Petit ao Porto na primeira volta. Alguem se lembra? De recordar ainda que, ate ver, o Benfica nao foi investigado por casos de corrupcao, ao contrario de alguns clubes da primeira-divisao: Porto, Boavista, Leiria, Maritimo. Todos inocentes, claro, ate provado o contrario. Mas da suspeita nao se livram. Se o Benfica for culpado de algo que seja condenado, que desca de divisao ou coisa que o valhe. Nao se pode e estar sempre a justificar os resultados por questoes externas ao jogo.

quinta-feira, maio 12, 2005

Novo Slogan BES

- Olha, preciso de abater 2000 sobreiros.
- Já falaste com o teu banco?
- Não, falei com o teu!

quarta-feira, maio 11, 2005

Quem merece ganhar o campeonato

A reposta mais imediata é ... ninguém. Nenhum dos três grandes realizou uma época regular e sólida. Braga, Boavista, Guimarães, Rio Ave, Marítimo fizeram bons campeonatos mas não o suficiente para alcançarem o título. Descartados os critérios da solidez e da regularidade, o eleito terá que ser encontrado pela forma como o seu futebol serviu, ou não, o jogo. Neste sentido o campeão só pode ser um: o Sporting. É me bastante mais simples tecer loas ao futebol Sporting no sossego londrino, longe da excitação da lagartada. Assim, parece-me evidente que José Peseiro foi a grande conquista do futebol português nesta época. O sistema do Sporting não está ainda afinado e às vezes é ambíguo. No entanto, nos jogos a que pude assistir, a equipa jogou um futebol de pé para pé, onde a troca de bola é o esteio do jogo e a forma de controlar o adversário. O jogador tipo deste futebol está primeiramente preocupado com o controlo da bola, com a recepção, com o olhar rápido, a desmarcação, o passo certeiro, as bases de um jogo colectivo envolvente, que retiram ao adversário a posse de bola. Peseiro apostou em artífices do jogo – Barbosa, Viana, Rochemback, Martins, Moutinho - enquanto outros reduzem os criativos a atletas robotizados. A equipa ainda não é sólida, tem momentos em que não funciona e que podem ser fatais, mas Peseiro resolveu arriscar num futebol positivo e, felizmente para o jogo, tem ganho. Lamentavelmente parece que muitos adeptos, seguindo uma onda verde de ingratidão que atingiu homens como Augusto Inácio, ainda não perceberam isto. Se José António Camacho não for o próximo treinador do Benfica, não me importava que Peseiro o fosse, servindo assim o clube do seu coração.

quinta-feira, maio 05, 2005

Espelho meu, espelho meu

Há um sketch do Gato Fedorento, em que um polícia manda parar o condutor de um veículo automóvel para ele se submeter ao teste da Bazófia, consistindo este teste num indivíduo percorrer uma pequena distância de alguns metros em linha recta. No sketch, assim que começa a andar logo o condutor começa a dar uns passos com uns trejeitos muito peculiares, típicos de um “pintas”, inconfundivelmente gabarolas.
Face a esta evidência, o polícia informa o condutor que não poderá seguir viagem devido a ter acusado elevados valores de Bazófia, sendo que por tal motivo não é aconselhável que prossiga em direcção ao seu destino ao volante de um automóvel naquele estado de jactância.
Vem isto a propósito da conferência de imprensa de José que se seguiu ao Liverpool vs. Chelsea desta semana. Instado a corroborar, ou não, uma pronúncia jornalística dubitativa de José ser um treinador especial, José prontamente ripostou e reafirmou novamente o seu dom exclusivo e inigualável para a orientação técnica de equipas de futebol, verberando depois o jornalista e convidando-o a prosseguir uma carreira profissional tão recheada de conquistas como a que ele possui.
A azia britânica de boa parte do mundo jornalístico contra o emigrante português José é por demais notória e vai sendo cuidadosamente exibida após os filmes em que os mesmos jornalistas mais gostam de ver José actuar, mas se o José depois daquela conferência de imprensa fosse fazer o teste da Bazófia, também ficava de certeza com a carta de condução imediatamente apreendida.

terça-feira, maio 03, 2005

Eleições a nível local

Temos sido brindados cá por casa por uma torrente de folhetos partidários que apela ao voto para os órgãos locais. Os Liberais-Democratas venceram as últimas eleições e são o único partido dos grandes que ainda não nos veio bater à porta. O Partido Trabalhista tem sido o mais esforçado. A sua candidata, a anafada Kirsty McNeil, enverga o mesmo sorriso forçado em todos os folhetos do partido. O seu slogan é claro: Lib-Dems soft on crime. O Partido Trabalhista, transformado numa espécie de Partido Justiçeiro, acusa os actuais autarcas no poder de, entre outras coisas, se terem oposto a leis contra o comportamento anti-social, de permitirem que jovens com 16 anos possam comprar revistas pornográficas e álcool, de se oporem a leis anti-grafiti, de não atribuírem penas de prisão por posse de droga, de não concordarem que se enviem criminosos adolescentes para a prisão, etc. A campanha do Labour é pouco mais do que isto. Perante este cenário de guerra, David Branch, o jovem candidato do Partido Conservador, não tem muito espaço para brilhar. Claro que ainda consegue juntar à lista do Labour mais algumas farpas contra a política laxista dos Liberais-Democratas: que poupam da prisão os ladrões que assaltam pela primeira vez, que introduzem educação sexual compulsória para crianças de sete anos, que querem retirar da Grã-Bretanha, para oferecer à Europa, os mecanismos de controlo da emigração, etc. Uns malvados estes Liberais-Democratas. David Branch, que aparece nos folhetos de camisa branca imaculada ao lado do facho que simboliza o seu partido, defende ainda a “livre iniciativa”, a “ambição e a coragem”, mostrando-se contra a intrusão do Estado no quotidiano dos cidadãos, com a excepção, claro, dos 40 000 polícias que os Conservadores querem atirar para as ruas do país. Restam os folhetos dos partidos mais pequenos. A Aliança dos Povos Cristãos aposta em Simi Lawanson, africana, mulher da comunidade. O movimento ganha na questão estética. O folheto transforma-se em poster onde está representada uma árvore onde estão inscritos os valores do movimento. No chão, jazem algumas maçãs podres: a guerra, as mentiras, os impostos altos, a ganância. Por detrás da árvore o cenário é idílico, um rio, umas montanhas, o sol, um céu azul pontuado por algumas nuvens. O desenho é tão simples que podia ter sido eu fazê-lo. Claro que teria que acrescentar aqui a ali, umas vacas, e quem sabe uns peixes no rio e uma montanha com um alpinista que podia ser o João Garcia. Os cristãos têm a vantagem de afirmar que acham que há uma profunda relação entre o crime, o abuso de drogas, o absentismo escolar e o desemprego. São ainda contra a guerra e a pobreza. Mas claro, na onda do bom moralismo britânico, criticam os Lib-Dems pelas suas políticas a favor da legalização da prostituição, da legalização de drogas, da abertura de sex-shops e outras artimanhas do demo. Apesar de tudo podia ser pior. Por fim os Verdes. Storm Poorun é o candidato Verde. Jovem, cabelo comprido, colar de missangas ao peito, está algures entre o jogador de futebol da segunda divisão B e o jovem executivo. Os Verdes apresentam um folheto repleto de fotografias de pradarias, do mar, de searas, maçãs e outros motivos típicos dum espaço urbano como este onde vivemos. As suas políticas são boas, embora relativamente ambiciosas. Depois de afirmar que o seu partido é a verdadeira alternativa ao capitalismo, Storm defende a construção de vias para bicicletas entre outras políticas de esquerda. Apenas os Verdes se escusam à ganga moralista o que os torna relativamente mais suportáveis.

sexta-feira, abril 29, 2005

A terra das oportunidades

O velho Edward Shills lá dizia que as sociedades mais justas não eram aquelas efectivamente mais justas mas as que conseguiam passar com maior eficácia a ideia de que o eram. Neste sentido, segundo ele, os Estados Unidos era a sociedade menos desigual porque conseguiu criar a crença generalizada de que era possível vencer. Esta crença é conhecida pelo sonho americano e faz parte de qualquer agenda ideológica liberal e neo-liberal. Um estudo sobre mobilidade social em países ocidentais publicado pela London School of Economics indica que os Estados Unidos, seguido pela Inglaterra, é o país ocidental em que a mobilidade social é mais baixa. Os investigadores dizem mesmo que nos Estados Unidos a mobilidade é quase estática. Sugerem ainda que o sistema de educação é o grande instrumento de manutenção das desigualdades, já que, como canal fundamental de mobilidade, pune aqueles económica e culturalmente mais fracos, protegendo os mais fortes. Isto é, citando um clássico da sociologia, o sistema de ensino actua como um instrumento de reprodução da estrutura social. Não surpreendentemente são os países que ainda mantêm serviços públicos relativamente fortes que apresentam taxas de mobilidade mais altas: Noruega, Suécia, Dinamarca e Canadá.

terça-feira, abril 26, 2005

Fórmula 1

Porventura devido ao entusiasmo criado pela adesão recente às corridas de Karts, consegui visionar este fim de semana, mais de 10 anos depois, uma corrida de Fórmula 1, do princípio ao fim.
Desde os tempos em que Senna e Prost finalizaram os confrontos nos circuitos, que os grandes prémios foram perdendo para mim boa parte do encanto a que até então tinham estado associados.
Com a memória pessoal esticando-se ao início da década de oitenta, quando pontificavam o louco finlandês, Keke Rosberg, o falecido Gilles Villeneuve, Patrick Tambay, Nelson Piquet, Andrea de Cesaris, Michele Alboreto, Nigel Mansel, Thierry Boutsen, além dos citados Senna e Prost, ao volante de Ferraris, Mc Larens e do meu carro preferido, o Lotus, patrocinado pela John Players Special, em todas as quinzenas aquelas duas horas de Grande Prémio em frente do televisor eram praticamente sagradas.
Eram tempos em que as garantias de segurança que os carros ofereciam primavam por uma certa precaridade, fazendo os pilotos do risco e da audácia constantes consortes traiçoeiros da integridade física.
Mudaram os tempos, apareceram novos pilotos, novos circuitos, novas regras de segurança, e o entusiasmo refreou-se. Os laços afectivos com os ídolos de sempre extinguiram-se com o seu desaparecimento, os palcos de aceleração situavam-se nos mais insuspeitos e indiferentes locais (Malásia, Bahrein, Turquia), enquanto que outros eram apagados do mapa (Estoril), novas regras de segurança diluíram a margem de erro dos pilotos, e, sobretudo, surgiu Schumacher.
Tornado por mérito próprio a maior figura da disciplina automobilística, cerceou toda a concorrência durante anos a fio e provocou com a sua indesmentível superioridade o bocejo permanente sobre a incerteza quanto ao vencedor.
Até que este ano, ao que parece, a F1 volta novamente às grandes emoções, graças a um piloto espanhol, Alonso, que neste G.P de San Marino susteve o primeiro lugar acossado ininterruptamente pela maior lenda vida da F1, Schumacher, durante as últimas 15 voltas. Sem vacilar, sem se desconcentrar um centésimo, ganhou a corrida e fez com que os comentadores televisivos dissessem que há muito que não se via uma corrida assim.
Depois de tantos anos de afastamento, acho que escolhi o dia certo para ver novamente um Grande Prémio.

domingo, abril 24, 2005

Do livro e da venda

Ando a perguntar-me por que raio as pessoas se desfazem de livros. Por necessidade primária, claro. É preciso dinheiro, e toca a vender os pertences. E como as casas portuguesas estão cheias de livros e por aí que se começa. É no que dá a abundância. Mas há quem os ache um estorvo, como os jornais, desarrumam a casa, uma chatice. É no entanto evidente que uma casa fica bem desarrumada com livros e outras papeladas. É lindíssimo, a livralhada junta a combater as perseverantes mentalidades domésticas. As casas são pequenas, dirão alguns com razão. É certo, mas enquanto houver espaço para o serviço de casamento deixado pela bisavó, os inenarráveis bibelots da tia, a colecção de revistas Motor do pai, o enxoval da madrinha, os bares ao canto da sala, o cão de loiça e o urso de peluche do Benfica, haverá também lugar para os livros. E se quiserem comerciar, já que o país está carente de empreendedores, deixem os livros para penúltimo lugar, antes, naturalmente, de se livrarem do urso do Benfica - que aliás só deve ser alienado em caso de catástrofe nuclear, e mesmo assim só depois de vendermos a avó em leasing para a apanha do tomate na Estremadura espanhola. Já agora, em vez de venderem livros, podiam oferecê-los, ou deixá-los num café ou num banco de jardim, era mais fofo.

sexta-feira, abril 22, 2005

Prémio Carreira

Não sabia que também havia disto no Vaticano!

Bento 16 e o Patriarcalismo

Na matéria que se reporta à eleição do novo Papa, e independentemente da mais ou menos vetusta ambição do Papa Bento 16, este é reconhecido como tendo sido mais o mais influente mentor da doutrina perfilhada pelo papado anterior, aquele que morigerava as posições morais da Igreja Católica a respeito de diversos temas “fracturantes” das sociedades contemporâneas.
Não sendo portanto surpreendente a sua nomeação, considero que é mais honesto que a figura ideológica dominante do Vaticano há longos anos, saia finalmente dos bastidores e dê a cara no papel de principal actor do Vaticano.
Dos diversos temas controversos sobre os quais tomou conhecidas posições no passado , gostaria de opinar sobre uma questão que penso ser particularmente sintomática de um desfasamento obstinado da realidade social, adoptado pelas elites católicas dominantes, incluindo Ratzinger, ou seja, o patriarcalismo, enquanto sistema caracterizado pela autoridade, imposta institucionalmente, do homem sobre mulher e filhos no âmbito familiar, e que se enraiza na estrutura familiar e na reprodução socio-biológica da espécie.
A frontal e veemente oposição à ordenação das mulheres para as funções sacerdotais, que tem sido transmitida nas prédicas de Ratzinger, denota uma clara resistência às reivindicações para a concessão de um estatuto de igualdade às mulheres no seio da Igreja Católica.
Estas reivindicações cobrem-se de antanho mas acentuaram-se nas últimas décadas em paridade com um conjunto simultâneo de transformações sociais, tecnológicas e culturais que vão desde;
- o aumento da autonomia reprodutiva feminina através dos avanços tecnológicos na medicina reprodutiva e na farmacologia;
- o surgimento de uma grande variedade de estruturas domésticas, visíveis através da proliferação de lares de solteiros e habitados por apenas um dos pais;
- a crescente taxa de divórcios, que por sua vez se associa a outras tendências importantes: o adiamento da formação de casais e a formação de relacionamentos sem casamento.
- a incorporação massiva das mulheres no mercado de trabalho remunerado, traduzida quase sempre numa contribuição financeira decisiva para o orçamento doméstico;
- por fim, relacionado com os factores acima invocados, o aumento da influência social, política e cultural dos diversos movimentos feministas numa economia informacional global. Tais movimentos, não obstante a diversidade de objectivos e adversários, perfilam uma ideia comum: a abolição do patriarcalismo.
Negar estas evidências, enterrando a cabeça na areia, ou fazer de conta de que elas ocorrem numa qualquer superestrutura metafísica erigida por indívíduos que se inserem uma faixa populacional numericamente muito restrita, e portanto irrelevante, é um sintoma de intenso atavismo de que a Igreja Católica se faz valer publicamente e que prenuncia mais um afastamento incompreensível a medio prazo da comunidade de crentes.

quinta-feira, abril 21, 2005

Ecos de Weimar

A emigração tornou-se, por iniciativa do partido conservador, o grande tema das próximas eleições inglesas do dia 5 de Maio. A táctica é a do medo e da ignorância e o resultado é o incremento do racismo. Os conservadores, que utilizam a emigração porque perderam o centro político para Blair, subiram nas sondagens e estão perto dos trabalhistas. A utilização do fantasma da emigração é uma estratégia sem qualquer suporte factual, já que todos os números provam que o número de emigrantes a entrar em Inglaterra nos últimos anos tem vindo a decrescer. O país goza de uma considerável saúde financeira e o desemprego, apesar de recentes casos com o da Rover, mantém-se baixo e estável. É precisamente devido a este cenário que a eficácia da táctica do medo se torna mais impressionante. Imaginemos então uma situação de crise do sistema capitalista semelhante à que ocorreu em 1929, falências, inflação, aumento do desemprego. Em que é que se transformará esta retórica primária?

sexta-feira, abril 15, 2005

Aeroporto II

Chegada a Londres e uns senhores fardados revistavam malas no aeroporto, seleccionando as pessoas através de um mais que evidente critério étnico. O meu castanho semi-escuro devia estar na fronteira do suspeito e não me safei. A revista foi acompanhada com um inquérito mal disposto que se foi suavizando depois do senhor perceber que eu era estudante. Ainda pensei adoptar uma postura à Mourinho, mas fui interrompido pela curiosidade do caucasiano nos dois pães alentejanos que transportei para a ilha. Olhou, rodou-os e passou-os por aquela máquina que tira radiografias a malas e outras bagagens. Nenhuma arma de destruição maciça. De certa forma achei aquilo um elogio ao Alentejo e ao padeiro que os confeccionou, que o zeloso guarda inglês quis promover a membro da célula da Al-Qaeda na Amareleja. Mas há que ser compreensivo, o pobre homem come pão-de-forma desde que nasceu e isso não é saudável.

Aeroporto I

Os aeroportos estão em rápido processo de democratização. Claro que nem todos os portugueses viajam por avião, mas é evidente que muitos que não o faziam, fazem-no agora, tornando mais interclassista o espaço do aeroporto. Para isto terão contribuído decisivamente as viagens para a América do Sul e Caraíbas. Brasileiros e Caribenhos recebem os portugueses como nós recebemos no Algarve grupos de classes baixas e médias baixas provenientes da Inglaterra e da Alemanha. Para estes novos turistas portugueses, o Brasil dos resorts onde pululam palmeiras e lagostas são uma espécie de sonho de vida em saldo. Nestes espaços fabricados para turistas, protegidos do mundo perigoso dos “indígenas” e das suas vidas reais, ensaia-se uma vida de luxo que nunca se teve, gerida cuidadosamente pelas agências de viagem e pelos fabricantes do “very typical”. O bronze é capitalizado depois no regresso à pátria, durante o abusivo horário de trabalho e nas filas de trânsito.

terça-feira, abril 12, 2005

Jardim de Infância de Moselos

O Jardim de Infância de Moselos, uma aldeia do concelho de Viseu, deu ontem início a uma feira onde estão à venda artigos feitos pelas crianças daquele estabelecimento e recolhidos junto dos encarregados de educação.
O objectivo da feira consiste em angariar fundos para a aquisição de material didáctico, como jogos e livros e, eventualmente, um computador para o estabelecimento, já que, segundo a organizadora da iniciativa, “os apoios que vêem do Ministério da Educação não dão para quase nada”.
O Ministério da Educação, a quem compete a tutela pedagógica da instituição, devia, certamente, conhecer o perfil social da maioria das crianças que frequentam aquele estabelecimento de educação e as carências por que passam grande parte das famílias daquelas 49 crianças em termos de bens culturais que possam colocar ao dispor das aprendizagens e do desenvolvimento daquelas crianças desde tenra idade, à semelhança do que acontece com aquelas que nascem em lares economicamente mais bafejados.
Seria de elementar justiça num Estado que se quer redistribuidor de riquezas e oportunidades, que crianças tão novas não tivessem que estar envolvidas tão precocemente em estratégias mercantilistas para a dotação material do estabelecimento pré-escolar que frequentam e assim poderem usufruir de actividades educativas na justa medida de igualdade com as demais.
Se o grau de desenvolvimento civilizacional de um país se deve também medir pela existência de um rede tendencialmente gratuita de estabelecimentos de educação pré-escolar, territorialmente abrangente e financeiramente bem dotada, o exemplo que o jardim de infância de Moselos corporiza por estes dias não será propriamente o melhor indicador a este respeito.

terça-feira, abril 05, 2005

Shares

Para azar dos azares o Papa João Paulo II morreu à hora do Boavista-Sporting que iria ser transmitido em directo na TVI. A antiga televisão da igreja enfrentou o dilema e decidiu-se pelo futebol. No intervalo do jogo, quem esperasse alguma notícia sobre o Papa, para além dos infindáveis rodapés, ficou desapontado, já que tivemos 15 minutinhos de anúncios. Pois é. O share da TVI foi de 42,5%. Nada mau, para um país católico. Já ontem, a RTP, adiou um grande programa de informação sobre segunrança já que a Fátima Campos Ferreira estava no Vaticano a fazer reportagem. As reportagens que têm sido feitas do Vaticano, especialmente as que implicam entrevistas de rua, estão bastante próximas do ridículo absoluto. Toda a gente gostava do Papa, mas ninguém consegue explicar porquê, além claro, de referirem que o Papa era um homem muito bom e defendia os pobres. Claro que ninguém pergunta como é que o senhor defendia os pobres. A fé é uma crença, e se os católicos gostam de criar deuses na terra estão no seu direito. Parece claro, porém, que deviam estudar um pouco a história da Igreja e o modo como, em grande parte, a mensagem e a acção cristãs têm sido subvertidas. João Paulo II, instrumento do cardeal Ratzinger, o homem que controla realmente na Igreja, foi o Papa da contra-reforma, que pôs em causa os avanços conseguidos pelo Concílio Vaticano Segundo, que perseguiu católicos como os seguidores da Teologia da Libertação, que, em termos sociais, pugnou por um conservadorismo reaccionário, que condenava o capitalismo mas ao mesmo tempo favorecia a Opus Dei, braço económico da Igreja. Que o próximo Papa seja melhor do que o último.

segunda-feira, abril 04, 2005

Público on-line pago

Na senda do que alguns media escritos já tinham também feito o site do jornal Público passou a disponibilizar, a partir de hoje, os conteúdos da Edição Impressa on-line somente aos seus assinantes.
Continuo a achar muito discutível que as publicações que optam pelo condicionamento monetário da informação on-line retirem daí proveitos, actuais e futuros, significativos.
Desde logo, porque a lógica de fechar a sete chaves a informação vai completamente ao arrepio da cultura primordial da tecnologia de informação que é a Internet, ou seja, a cultura da livre distribuição e partilha da informação, como forma de democratizar o seu acesso. E porque essa continua ser a cultura dominante, a batalha pela elitização dos acessos não será facilmente vencida, principalmente quando à excepção dos artigos de opinião, todos os outros temas dos jornais são alvo de tratamento noticioso por parte de uma miríade de media e publicações on-line, nacionais e internacionais, isentos de assinaturas.
Depois, porque concentrando-se os adoptantes principais da prática da Internet nas faixas mais jovens, restringir o acesso aos conteúdos virtuais do jornal não será concerteza a melhor forma de atrair e cativar futuros leitores para o jornal.
Por outro lado, para quem não aderir à assinatura, será expectável um menor tempo de permanência no site, logo também um menor tempo de exposição a mensagens publicitárias, sendo portanto provável que ocorra um abaixamento do preço que as marcas pagam pela publicidade, dando azo ao famoso mecanismo de auto-regulação de mercado, tão prezado pelo Director do Público.
Ainda neste capítulo, os efeitos da diminuição de acessos e do menor tempo de permanência on-line não se farão sentir simplesmente na publicidade externa. Também o impacto da publicidade interna acerca da imensa panóplia de publicações apêndice que os próprios jornais de há algum tempo a esta parte tem vindo a aderir, e que segundo consta, são responsáveis por uma fatia considerável das receitas dos mesmos, será reduzido.
É por isso que para o apuramento final do saldo desta opção não bastará somar os créditos das assinaturas conseguidas. Terá que haver uma contabilidade bem mais abrangente.

sexta-feira, abril 01, 2005

Afinal temos um bom ministro

Alguns tiques de certas cliques portuguesas cintilam na crónica que Prado Coelho assina hoje no Público. Homem de cultura, Prado Coelho avalia o mundo e os indivíduos pela posse de competências culturais, situadas, está bem de ver, no mundo da arte dominante. Assim, Manuel Pinho, Ministro da Economia, porque é coleccionador de arte, alcançou o zénite da escala prado-coelhana. Cavaco, por seu turno, trocando Thomas Mann por Tomas Morus, e não sabendo quantos cantos tinham os Lusíadas - escândalo nacional - já não servia, por esses factos, para primeiro-ministro. Se são bons ou maus economistas, se partilham modelos de intervenção ou têm pensamentos diferentes, não interessa. A casaca cultural é que avalia os seus méritos. Talvez não fosse mau que estas metralhadoras de referências artísticas, para equilibrar, demonstrassem conhecimento noutras áreas socialmente menos charmosas: um pouco de física, umas noções de química, concepções básicas de engenharia, matemática, e talvez mesmo algum saber prático, em marcenaria, agronomia e metalúrgica. Mas não, continuamos a fazer loas à aparente excelência do nosso provincianismo.

quarta-feira, março 30, 2005

Demasiado Humano

O Cardeal Patriarca anda preocupado com as interpretações demasiado humanas da vida de Jesus Cristo. Para a igreja, Cristo vale enquanto símbolo do divino cuja verdade exemplar vence por estar acima do Homem, por inspirar reverência e mesmo um certo temor. Ora isto não interessa ao menino Jesus. É precisamente pelo lado humano que o exemplo de Cristo pode ter algum valor, não pelas histórias da carochinha que explicam o real pelo metafísico. Se a Igreja tivesse mais preocupações com o humano da vida, poupava-nos à exibição cruel da via sacra a que o seu líder é sujeito diariamente. Mas para a Igreja, e também para os activistas anti-aborto, a vida não é mais que um acto mecânico de inspiração divina: o período entre a concepção e a morte já não interessa para nada.

Greenpeace vs Vicaima

A acção que ontem a Greenpeace liderou junto da empresa Vicaima, alertando para a necessidade de combater o comércio ilegal resultante do abate destrutivo de espécies arbóreas na Amazónia brasileira, e que esteve na origem da “libertação de energia braçal” por parte do sénior que administra a empresa contra o operador de câmara da SIC, descarga essa que os complacentes agentes da GNR declararam não terem presenciado “em flagrante” - depois do episódio Avelino Ferreira Torres, alguns elementos da GNR, pelos vistos, continuam a gostar de fazer figuras reverentes e tristes para Portugal ver..., insere-se no “modus operandi” habitual deste movimento ambientalista, ao qual o temperamental administrador da Vicaima, não só em sentido estrito, mas também simbólico, deu um valente empurrão para o sucesso da operação.
Esse “modus operandi” dos “guerreiros do arco-íris” da Greenpeace deriva do seu perfil altamente distintivo como movimento ambientalista.
A partir da identificação das principais questões através de informações e técnicas de investigação em todo o planeta, da organização de campanhas específicas em torno de metas palpáveis, o movimento ambientalista internacional leva ao conhecimento do grande público uma determinada questão, através de acções espectaculares com o fito de atrair a atenção dos media, visando forçar empresas, governos ou instituições a tomarem medidas credíveis ou então a terem de enfrentar uma futura publicidade negativa.
Soubesse tal o bravio administrador da Vicaima, - um exemplo de que nem sempre a idade traz sapiência nem juízo - e a acção contestatária poderia ter-se desenrolado com bastante mais urbanidade.

segunda-feira, março 28, 2005

O PS e as Presidenciais

Ao anunciar solicitamente o apoio do Governo Português para a nomeação de Guterres para o cargo de alto comissário da ONU para os refugiados, Sócrates conjuga duas intenções de natureza distinta: uma dum plano mais idealista (o apoio e a solidariedade ao ex-líder), outra dum plano pragmático (a machadada final ao anteriormente dado como adquirido pelo partido).
Essas duas intenções ambivalentes resultam do imbróglio que a maioria dos dirigentes do PS, incluindo o próprio Sócrates, criou com a vetusta litania de que Guterres seria o candidato natural e mais adequado à Presidência da República por parte do PS.
Alertado para as dificuldades praticamente insolúveis da imposição popular da candidatura de Guterres, não tanto na área de influência política do PS, mas no espectro partidário mais vasto de esquerda, das quais o próprio Guterres também tem noção, ao adiar quase ad eternum uma pronúncia pessoal a confirmar ou refutar a candidatura, e consciente de que para enfrentar Cavaco o partido terá que apresentar um candidato que acolha opiniões mais favoráveis do eleitores do PCP e do Bloco, pois que estes poderão ser decisivos na refrega presidencial, Sócrates, com a publicitação deste apoio, subtilmente manifestou já a sua pretensão de revogar a preferência inicial.
Com Guterres atirado para fora de jogo ainda no período de aquecimento por falta de atributos eleitorais, quem avançar pelo PS, para além dos votos dos eleitores do PS, terá de ser um candidato que congregue uma forte adesão de todo o espectro partidário de esquerda e que não provoque uma fragmentação excessiva do voto dos eleitores que com a mesma se identificam.
Nesta altura, a única personalidade que pode aspirar a tal chama-se Ferro Rodrigues.

terça-feira, março 22, 2005

Lisboa para os lisboetas?

Mandar os emigrantes e os negros - mesmo os que já têm passaporte português - para a terra deles é quase tão estúpido como dizer que Lisboa deve ser para os lisboetas.
Imaginem a lógica: não é admissível que existam lisboetas desempregados em Lisboa quando há pessoas de outros regiões do país a ocuparem o seu lugar. Vão para a vossa terra e para a vossa cultura, voltem para a terra dos vossos pais, voltem para as Beiras, para o Alentejo, para a Madeira, para o Norte, para o Minho, para Trás-os-Montes, vão e deixem Lisboa para os lisboetas. Rua. Pirem-se da capital.

Amadora

A Amadora passa neste momento por ser o concelho mais perigoso do país onde em cada esquina há um criminoso, normalmente emigrante, negro ou cigano. Estou para saber se as estatísticas confirmam o que os media nos têm dito nos últimos dias.
Era bom, no entanto, que os media e a população portuguesa se preocupassem com outros crimes e criminosos.
Notariam, então, que em sítios resguardados dos meliantes mencionados em cima, onde não há velhinhas assaltadas por esticão, e se vive numa paz de classe média, muitas vezes protegida pela cancela do condomínio fechado, existem cidadãos brancos e portugueses, com frota automóvel vasta, casas na praia e no campo, carteira de acções recheada, quiçá mesmo um helicopterozinho ou um barquito de recreio, que declaram às Finanças o bom do ordenado mínimo. A estes não podemos nós mandá-los para a terra deles.

A emigração outra vez

O cozinhado é conhecido. De forma um pouco simplista sabemos que o desemprego gera criminalidade e que os emigrantes são responsabilizados pelas duas coisas. O arrepiante nisto tudo é que o discurso racista anti-emigrante não vem de cima, da superestrutura política. Em Portugal, mesmo os partidos mais à direita não se aproximam do tipo de discurso que ouço diariamente em Inglaterra. O problema vem de baixo, tem origem na ignorância e começa a ser alimentado, por alguns jornais populares. É fácil culpar o emigrante, produzir generalizações idiotas, tomar o indivíduo pelo grupo, não compreender que os emigrantes, na sua grande parte, são explorados e não exploradores.
Alguém devia procurar explicar aos portugueses que foram e são eles, sobretudo os que estão perto do poder económico, político e cultural, os responsáveis pelo país que temos. Em suma, Portugal não peca por excesso de emigrantes, mas tem com certeza alguns portugueses a mais.

quinta-feira, março 17, 2005

Lubbock

Lubbock é uma cidade do Texas que detém o recorde de igrejas por m2 nos EUA. Para além das igrejas, há também um dos maiores centros comerciais do país e um campo de mini-golfe. Quanto a equipamentos aptos para proporcionarem momentos colectivos, fica-se por aqui.
Foi alvo de destaque do Odisseia pelo apelo que as três instituições mais importantes da comunidade (família, igreja e escola) têm vindo a fazer desde há algum tempo sobre os jovens para a abstinência sexual até ao casamento.
Os pais incitam e confiam na carestia dos rebentos até ao altar, pois só assim os futuros esposos e esposas dos seus filhos lhes agradecerão a dádiva que os castos filhos lhes irão proporcionar na noite do casamento (a assinatura conjunta de pais e filhos de um contrato-promessa, sob patrocínio do senhor padre que atesta esta manifestação de vontade, reforça-lhes a crença).
A igreja doutrina os adolescentes para o valor supremo da abstinência sexual, incorporado e valorizado pelos ensinamentos bíblicos, sob a pena de em cima deles cair uma maldição que os condene para toda a eternidade ao limbo. Para isso oferece-lhes sessões de evangelização tendo em vista a rectidão moral das condutas que estes devem adoptar. O auge atinge-se quando o pregador apresenta aos adolescentes o exemplo da escova de dentes. Tal como a escova de dentes, que não deve ser partilhada porque não se sabe quem a usou, quantas vezes e onde, a experiência sexual deve restringir-se ao cônjuge.
A escola transmite aos jovens o nome das doenças sexuais mais vulgares, dá-lhes a conhecer quais as consequências que para eles advirão se não adoptarem uma conduta abstémia. Quanto à “educação sexual” o limite é este. Os jovens locais mais afoitos chamam-lhe “fear education”.
Os jovens esforçam-se por contrariar os impulsos, arranjam estratagemas para sublimar os apetites, como os concertos de “rock cristão” todas as sextas-feiras no auditório, mas as hormonas ditam leis e os jovens lá acabam por prevaricar...
Com isso dão origem a interessantes fenómenos, não do Entroncamento, mas de Lubbock. Os mais vulgares chamam-se “Virgens Técnicas” e “Virgens Espirituais” (este último é o meu preferido).
A acompanhar estas designações campeãs da originalidade que utilizam para se definir, os adolescentes de Lubbock ocupam também um lugar cimeiro nas estatísticas americanas de dois indicadores: a percentagem de gravidezes juvenis e de doenças sexualmente transmissíveis em menores de idade.
A comunidade de Lubbock não consegue perceber estes indicadores com o afã que põe na pureza e na castidade sexual. Realmente, vá lá imaginar-se como é que as estatísticas revelam aqueles indicadores...

quarta-feira, março 16, 2005

Entre artes

Gosto desta troca de ideias entre poetas e jogadores de futebol. Simão também devia opiniar sobre a poesia de Alegre. Quem sabe se a moda pega e ainda temos o Jorge Costa a escrever prefácios para o Herberto Helder.

segunda-feira, março 14, 2005

CAF

Assistir na “Superior” a um jogo local do Académico de Viseu, ainda hoje, permite uma experiência de regresso ao passado. Revêem-se muitas caras de antanho e reconhecem-se bastantes palavras de ordem de apoio à equipa de um público fiel, cujo perfil social, essencialmente, se enquadra em classes sociais mais desfavorecidas em termos económicos.
Para além dos afectos que os ligam ao clube há décadas, outros motivos conduzem à sua presença quinzenal no Estádio do Fontelo. A possibilidade de accionarem mecanismos de catarse das rotinas de um dia-dia envolvido em tarefas profissionais desgastantes e mal remuneradas e o encontro e convívio com os amigos de longa data, são razões a não menosprezar na “romaria” que empreendem duas vezes por mês ao Estádio.
Ontem, com o cartaz a colocar frente a frente Académico de Viseu e Sanjoanense, lá estavam eles quase todos juntos na mesma bancada. Chegando aos pares, dão facilmente conta dos comparsas no locais que têm para si cativos desde longa data. Depois dos cumprimentos iniciais, a conversa começa por girar em torno das competições futebolistas do principal escalão e à alusão aos deslizes dos “grandes”. Ontem foi dia de um simpatizante benfiquista andar a distribuir bolachas Maria da fábrica Nacional aos parceiros portistas. O mais famoso simpatizante local do FCP, o Barba Ruiva, lá as aceitou, não sem antes indagar junto do adepto benfiquista se o adversário que iria competir com o Benfica na jornada europeia da próxima semana se confirmava ser o Carvalhais.
Iniciado o jogo, logo um dos clássicos adeptos academistas, de pilhinhas ao ouvido, desceu dos degraus de topo da bancada para se situar mais próximo do relvado e assim fazer chegar ao árbitro aquilo que tinha para lhe dizer sempre que a ocasião a tal obrigava. Finda a pronúncia, invariavelmente virava-se para os amigos que haviam ficado no topo da bancada e esboçava um sorriso trocista, tentando medir e avaliar junto deles a qualidade do impropério debitado ao árbitro. A esposa, essa, optou por continuar no cimo da bancada a fazer o seu crochet.
Ao mesmo tempo, outro fervoroso adepto local mantinha a tradição pessoal de bradar um sonoro “Acadéééémico”, qual grito de alerta, no instante imediato ao esférico invadir o meio-campo defensivo da equipa local.
Ao intervalo, o espectador que estava ao meu lado, e que durante a primeira parte até tinha elogiado a isenção da equipa de arbitragem, ouvia os comentários dos jornalistas de uma das rádios locais que cobria o jogo. Dizia o jornalista que o árbitro estava a apitar por tudo e por nada e assim estava a quebrar o ritmo de jogo da partida.
No reinicio da partida, à primeira infracção assinalada pelo árbitro logo o meu vizinho opinava para os demais adeptos que o árbitro estava sempre a apitar por tudo e por nada. À segunda infracção, uma falta à entrada da área da Sanjoanense a beneficiar o infractor, pois tinha inviabilizado que o avançado da equipa local ficasse isolado perante o guarda-redes, de pronto fez ecoar para o árbitro de que teria sido melhor para todos que o juiz de campo tivesse seguido a profissão de maquinista da CP se tanto adorava apitar. Acaso dos acasos, a marcação certeira do livre proporciou o segundo golo da tarde ao Académico, o que levou a que o citado adepto tivesse considerado que a decisão do árbitro talvez não tivesse sido tão infeliz quanto isso...
Até ao fim do jogo, com o jogo claramente dominado pela equipa da casa e com o marcador favorável, os adeptos locais ainda discutiram a pretensão do novo Governo de autorizar a venda de medicamentos não sujeitos a receita médica fora das farmácias, a indigitação de Freitas do Amaral para MNE e as próximas eleições autárquicas...

À esquerda

Tudo leva a querer que, apesar de tal actividade não constar dos seus programas eleitorais, os dois partidos à esquerda do PS vão gastar parte das suas energias a confrontar-se. Os militantes devia queixar-se mas não o vão fazer. E porquê? Porque dizer mal do concorrente próximo é muito mais divertido do que chatear os que estão mais longe. O mercado ideológico de esquerda não é assim tão grande e todos querem ser os seus legítimos representantes. Representar a esquerda, neste caso, implica três exercícios, afirmação de uma identidade, a categorização do outro e a sua subsequente exclusão. Um partido defenderá, contra os que invadiram o seu espaço eleitoral, o seu vasto currículo de lutas. Dirá que o outro é uma manta de retalhos sem unidade ideológica e intervenção prática, que os seus eleitores ou são pequeno burgueses urbanos, intelectuais sem rumo, ou tontos alienados que nas próximas eleições podem votar no PP. Os mais refinados dirão que o outro partido é uma invenção do grande capital ou mesmo da CIA. Do outro lado, afirmar-se-á a novidade. Tentará mostrar-se um currículo limpo de relações históricas muito duvidosas, de símbolos usados e gastos e apelar-se-á a uma pluralização das causas. De seguida classificar-se-ão os eleitores do outro partido como seres sem individualidade, que vêem o mundo por aquilo que o partido decide que o mundo é: a velha teoria da cassete. Os estereótipos, tal como se ouve amiúdes vezes em relação às sondagens, valem o que valem. O problema é que a razão dos partidos acaba para passar para as atitudes dos seus simpatizantes. Da mesma forma que em relação às pessoas que votam à direita se aplicam indiscriminadamente categorias genéricas que correspondem sobretudo a um ideal político e não a uma existência social concreta: fascista, burguês, conservador, etc, (o que não significa, claro, que os fascistas, os burgueses e os conservadores não existam e que seu número não seja relevante), também as categorizações dentro da esquerda acabam por exercer uma violência sobre as pessoas que as sofrem. Não há melhor forma de criar um fascista do que chamá-lo de fascista. Aplicar uma grelha estritamente política ao mundo é abdicar de perceber a razão pela qual as pessoas fazem as escolhas que fazem. Em suma, é abdicar de tentar perceber as pessoas. Isso tem custado e vai continuar a custar muitos votos a uma esquerda que, em parte, deixou de perceber as pessoas. À esquerda do PS os próximos anos vão ser assim, a repetição até à náusea de jargões políticos, a busca da pureza ideológica, da verdade da casta, a privatização do protesto e do direito a reivindicar. Não é muito interessante, mas é o que se pode arranjar. É, apesar de tudo, a esquerda com que contamos.

sexta-feira, março 11, 2005

Relatos de uma noite feliz...

O Sporting Clube de Portugal foi a Inglaterra bater o Middlesbrough por 3-2 para a Taça Uefa. Já está com um pezinho nos quartos de final.

Os Keane de Inglaterra vieram a Portugal dar um concerto num Coliseu esgotado. Simplesmente memorável...

quarta-feira, março 09, 2005

Tráfego

O “das nove às cinco” já era. As horas de ponta nas grandes cidades atingem o seu pico às oito da noite. Londres claro, confirma a regra. Como diria o outro, é fazer as contas e avaliar onde já vai a semana de trabalho.

terça-feira, março 08, 2005

Mourinho

Arsene Wenger, Alex Ferguson and José Mourinho all perish in a plane crash and went to meet their maker.

The supreme deity turned to Wenger and asked, tell what is important about yourself.
Wenger responded that he felt that the earth was the ultimate importance and that protecting
the earth's ecological system was most important. God looked to Wenger and said, " I like
the way you think, come and sit at my left hand".

God then asked Ferguson what he revered most. Ferguson responded that he felt people and
their personal choices were most important. God responded, "I like the way you think, come
and sit at my right hand".

God then turned to Mourinho, who was staring at him indignantly. God asked "What is your
problem Mourinho?"
Mourinho responded " I think you are sitting in my chair".

Birra...

Em democracia tem de se saber ganhar e de se saber perder. Lá pelos lados do Largo do Caldas perdeu-se a noção do ridículo. As consequências já se fazem sentir. Bastantes militantes do CDS-PP de Coimbra estão a desfiliar-se, como protesto pela imbecil decisão de retirar o retrato de Freitas do Amaral da sede do partido e enviá-lo (quiçá por correio azul, tal é a pressa) para o Largo do Rato.

A História não se apaga, seus meninos birrentos...

segunda-feira, março 07, 2005

Smart

Agora que começa a cair a máscara de respeitáveis guardiões dos valores aos meninos de bem do PP e se vislumbra por trás dela apenas a cara de uns pueris caceteiros, quer-me parecer, a continuarem assim, que futuramente até um táxi será grande demais para albergar os deputados do PP. Bastará um Mini Smart.

sexta-feira, março 04, 2005

Libertem o futebol pelo lados da Luz!

Alguém devia explicar ao senhor Trapattoni que há diferenças significativas entre o jogo de futebol e a contabilidade de uma empresa. Um jogo do Benfica, com algumas excepções de permeio, parece o trabalho de um ministro das finanças a controlar o défice. As segundas partes então assemelham-se a um ministério desorçamentado desesperado para que o próximo ano chegue rapidamente, poupar, poupar, poupar. Libertem os jogadores do Benfica, deixem-nos correr e marcar golos.

quarta-feira, março 02, 2005

Não há hóstias nem tinto para ninguém

Um padre católico português anunciou hoje a sua recusa em dar a comunhão aos católicos que usam métodos contraceptivos, que recorrem à reprodução assistida ou que aceitam a actual lei em vigor sobre o aborto.

O padre Nuno Serras Pereira invoca o cânone 915 do Código de Direito Canónico para, "na impossibilidade de contactar pessoalmente as pessoas envolvidas", lhes dar conhecimento público de que "está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes".

Votar ou participar em campanhas a favor da legalização do aborto, aceitar ou concordar com a actual lei em vigor e defender a eutanásia também são motivos que impedem o padre de dar a comunhão.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Martina Topley-Bird

Companheira de Tricky desde "Maxinquaye", era ela que se encarregava de suavizar as sonoridades mais cruas do artista britânico. Nesta missão de polimento musical se manteve durante vários anos, até que, em 2003, Martina Topley-Bird publicou o seu primeiro álbum a solo, "Quixotic" de seu nome.
Só agora, por cortesia do camarada João Santos, ouvi o álbum, e o resultado final é francamente de enaltecer. Por entre uma míriade de estilos - do metal à eletrónica, dos blues ao jazz, da soul ao rock- o único elemento transversal de todo o albúm, realmente, é a versátil mas sempre inconfundível presença vocal de Martina.
Ainda que o albúm possa "pecar" um pouco em termos de coesão devido à incursão por estilos tão ecléticos, essa circunstância não deixa de ser um defeito menor quando nos confrontamos perante a qualidade global das canções.
Com Beth Gibbons e Martina Topley-Bird o universo musical de Bristol continua a dizer presente.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Da politização

O efeitos políticos da Internet não são fáceis de medir. (Continuamos a esperar pela grande obra do camarada Vasco Palouro) Há, no entanto, diversos movimentos digitais extremamente positivos. Tenho recebido vários e-mails, provenientes de círculos que não se confundem com universos educados de classe média ou mundos universitários, mas que normalmente são originários de redes de trabalhadores do terciário, onde se faz um verdadeiro exercício de politização e cidadania. O mais interessante nestes e-mails é o modo como utilizam a informação para explicar de forma simples mas bastante eficaz inúmeros processos quotidianos, como por exemplo a questão fiscal no nosso país (recebi, por exemplo, via um trabalhador de uma conhecida empresa privada, um e-mail com origem na Comissão para a Equidade Fiscal onde, de forma bastante pedagógica, se falava da importância política de pedir um recibo aquando de uma transação). Este tipo de politização é bastante animador. Os seus métodos são em certo sentido contrários a formas de politização que não passam pelo conhecimento sobre os assuntos mas por uma adesão dogmática a slogans e palavras de ordem. Não há actividade política esclarecida sem conhecimento. Infelizmente mesmo alguma esquerda dita moderna e mais viajada utiliza, através de slogans sofisticados, métodos antigos. Continuamos com o mundo dividido primariamente entre os bons e os maus, prosseguem os berreiros estridentes das grandes frases retóricas que não oferecem ao receptor informação sobre os assuntos mas que lhe exigem uma adesão emocional (com alguns casos individuais pelo meio, género noticiário da TVI), que não o tornam capaz de pensar pelas sua própria cabeça e que afastam das boas causas qualquer pessoa com dúvidas sobre o assunto. Por estas e por outras é que os rapazes que foram de extrema-direita e que hoje até são de esquerda são muito menos que os operários que eram de esquerda e que hoje celebram os movimentos racistas e nacionalistas por toda a Europa.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Dúvida

Passou despercebido nas análises eleitorais, mas a verdade é não foi apenas o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda que viram subir o número de preferências eleitorais, no passado domingo.
O partido Garcia Pereira, vulgo PCTP-MRPP, passou de 36183 votos (0,66%), em 2002, para 47745 (0,84), em 2005.
Sempre gostava de saber destes 47 mil e picos votos, quantos correspondem a séniores que apõem a cruzinha no quadradinho da foice e do martelo do partido Garcia Pereira, pensando que estão a votar no PCP...

Conflito na Terra Santa - Até quando?

Há alguns dias atrás acabei de ler as "Entrevistas no Centro do Mundo", do Henrique Cymerman, jornalista correspondente da SIC que há muitos anos vive em Israel. O livro dá-nos a oportunidade de conhecer os pontos de vista de figuras da esfera política mas também de cidadãos anónimos, de ambos os lados da barricada.

Constatei através da minha leitura que, felizmente, a questão religiosa não é a essencial para todos aqueles que habitam aqueles escassos quilómetros quadrados, excepção feita aos fundamentalistas que existem nos dois lados. Se é verdade que há quem leve o Corão e a Torah demasiado a sério, impedindo que a tolerância pelo próximo possa florescer, também é verdade que há muçulmanos que declaram claramente que não odeiam os israelitas por estes serem judeus, mas sim por estes estarem a ocupar os territórios que habitavam (um dos líderes das Brigadas de Al Aqsa refere inclusivé que não só não odeia os israelitas como até tem amigos em Israel por quem tem muita estima). Da mesma forma, há israelitas que compreendem perfeitamente o drama dos palestinianos.

Pais muçulmanos e pais judeus que perderam filhos em atentados e operações militares, declaram abertamente que não desejam a morte a nenhuma criança, seja de que credo for.

Por um lado é o sinal de que algo poderá efectivamente mudar, embora não saibamos quanto tempo mais teremos de esperar para que a paz se implante de vez no berço das três principais religiões que existem à face da Terra. Quanto tempo mais até haver uma Palestina e um Israel, com fronteiras bem definidas e governos soberanos a coexistirem pacificamente? Em que o Mohamed e o Abraham poderão reunir os seus amigos e, juntos, disputar uma futebolada sem receio de coisa nenhuma?

Ópticas

A história das realidades estatísticas dos resultados eleitorais da Madeira assemelha-se com a história do copo meio cheio ou meio vazio.
Pode o PS ter tido na Madeira o seu pior resultado no todo nacional e o PSD o seu melhor, mas também pode o PS ter tido na Madeira o seu melhor resultado em 30 anos e o PSD o pior, como pode o PS pela primeira vez ter tido o mesmo número de deputados eleitos que o PSD, and so on...

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Fantasias

O Correio da Manhã tem afixado em muitas paragens dos autocarros em Lisboa uns placards publicitários que tentam persuadir os progenitores a adquirirem para os seus rebentos o último brinde que acompanha o respectivo jornal, uma Bíblia em animação, para que assim os pobres pequenos "não acreditem apenas em monstros felpudos”.
Como prova do carácter não-ficcional desta Bíblia, em contraponto com o mundo irreal da fantasia infantil, os anúncios mostram a capa do DVD ou do vídeo que estará à venda, nada mais nada menos do que Moisés com um cajado a dividir o Mar Vermelho ao meio!...

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Eleições III

O positivo nestas eleições foi a rejeição de certo tipo de populismo, do boato, da maledicência, do culto insuportável da personalidade, do aproveitamento religioso etc. Em contrapartida, percebemos que para obter uma maioria absoluta basta apenas ser vago, pouco preciso, e não ter ideias fracturantes, ou mesmo ideias algumas.

Eleições II

Infelizmente não se deve esperar muito da maioria absoluta do PS. É expectável que o Estado seja novamente tomado pelo critério da clientela e não pelo do mérito. Algumas excepções serão animadoras. Aqui e ali teremos um bom ministro, um secretário-de-estado competente, algumas boas medidas. Isso é bom e o PS tem condições de ser melhor que o PSD. No entanto, sem querer pedir emprestada a amargura ao Vasco Pulido Valente, quem conhece a história do país, as suas estruturas profundas e persistentes, não fica muito esperançado. Sabe-se que hoje, as burocracias políticas do PSD e do PS não andam muito longe de olhar o mundo da mesma maneira.

Eleições I

Para manter viva a discussão, de certa forma a essência do Grupo do Pato, avanço com algumas considerações sobre o argumento escolhido pelo PSD para justificar a derrota: a decisão de Jorge Sampaio. Tomar Sampaio como um indivíduo separado do mundo que, por capricho, toma uma decisão não serve de explicação. Há várias forma de perceber a atitude de Sampaio e, porventura, todas elas tiveram o seu peso. Uma primeira parte das próprias explicações por ele avançadas: o governo dava mostras de não conseguir governar. Dissidência interna, má gestão pública de alguns assuntos. Esta foi a explicação pública, de certa forma uma explicação débil. Uma teoria mais conspiratória sugere que Sampaio quis entregar o governo ao seu partido. Mas se foi assim por que não convocar eleições quando Durão Barroso saiu? Porque, dirão alguns, Sampaio escolheu o momento em que o governo de coligação estava mais frágil, ferindo-o de morte. Talvez. Outras razões existiram fora do domínio público. E essas serão, tendo em conta o país em que vivemos, as mais importantes. Falo do que passou no seio de um restrito número de pessoas que gere, nas mais diversas áreas, Portugal. Entre estas pessoas, políticos, banqueiros, empresários, representantes de empresas estrangeiras, o alto funcionalismo público, algum poder local, a comunicação social, e outros interesses corporativos etc, decorreram jantares, reuniões, comunicações telefónicas, etc. De tudo isto resultou a ideia de que o governo de Santana Lopes não estava a funcionar. Esta ideia foi tão forte que mesmo dentro do PSD surgiram inúmeras frentes contra Santana, algo que se revelou fatal para o primeiro-ministro. Claro que os inúmeros interesses intermédios, médias clientelas, não concordaram com o afastamento do PSD do aparelho de estado, maná de tachos e tachinhos. São estes que estão a protestar. Mas outros valores mais altos se levantaram. Quem decidiu que Santana tinha que sair foram os interesses que o PSD sempre defendeu e vai continuar a defender.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Aí vem a Chuva!

Olho para as previsões meteorológicas do Weather.co.uk para os próximos dias e reparo que Viseu vai fazer finalmente jus ao seu epíteto de "peniquinho do céu" já a partir de amanhã e pelo menos até ao dia 2 de Março.
Note-se que isto acontece logo após o distrito ter quebrado o mito do Cavaquistão ou do Laranjistão! Simples coincidência eleitoral? Não creio.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Palpite

Palpita assim o centro de sondagens de Elephant and Castle.

PS: 42%; PSD: 34%; PP: 8%; CDU: 7.5%; BE: 5%. PCTP: 1.2%, etc
Há ainda que interpretar com atenção os resultados da abstenção e do voto Saramago. A ver.

O Rei do Sinónimo

Quase tão saliente como o excelente resultado que o Benfica alcançou ontem em Krasnodar – desta vez levámos só dois – foi o comentário da RTP. De entre algumas pérolas da banalidade levada a quinta-essência, recordo-me com carinho de uma tirada do distinto comentador (acabei por não conseguir perceber de quem se tratava). Disse então o senhor, reflectindo sobre as dificuldades que o Benfica irá atravessar nos jogos de Março: “Para o Benfica, mais do que decisivo, Março vai ser determinante.” Bonito.

Qual Seinfeld qual carapuça

João César das Neves, dixit, no Independente:
"Hoje temos livros de educação sexual que incitam as crianças do ensino básico à masturbação".
"Com o preservativo a relação sexual passa a ser mesma coisa que comer um pastel de nata".
"A Igreja não condena o presevativo. Condena o deboche".
"Antes da Igreja era o deboche, com regras muito sortidas".
"Estamos a viver os problemas da droga, do suícidio, da desorganização das famílias, do abandono dos mais velhos...Uma enorme quantidade de estudos sociológicos mostram que estão relacionados com a destruição da família e com a sede de prazer!".
...

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

POUS!!!!

É verdade!!! A Carmelinda Pereira tem jovens seguidoras!!!! O POUS tem jovens!!!!

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

O Choque de Civilizações

ATHENS (Reuters) - A clutch of complaints by U.S. viewers that the Athens Olympics opening ceremony featured lewd nudity has incensed the Games chief, who warned American regulators to back off from policing ancient Greek culture.Male nudity, a woman's breast and simulated sex were the subjects of shrill complaints about the opening ceremony on Aug. 13 which were posted by the FCC on its Web site.

"Far from being indecent, the opening ceremonies were beautiful, enlightening, uplifting and enjoyable," Angelopoulos, President ATHENS 2004 Organising Committee for the Olympic Games, wrote in a weekend letter to the Los Angeles Times.

"Greece does not wish to be drawn into an American culture war. Yet that is exactly what is happening," she said.

Complaints focused on a parade of actors portraying naked statues. Among them were the Satyr and the nude Kouros male statues, both emblems of ancient Greece's golden age.

Angelopoulos, who said the handful of U.S. complaints were dwarfed by the 3.9 billion people who watched the ceremony, had a blunt message.

"As Americans surely are aware, there is great hostility in the world today to cultural domination in which a single value system created elsewhere diminishes and degrades local cultures," she said in her letter.

"In this context, it is astonishingly unwise for an agency of the U.S. government to engage in an investigation that could label a presentation of the Greek origins of civilization as unfit for television viewing."

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

100 anos de luto

Um dia e pouco. Facam-se cem anos de luto, adiem-se as eleicoes e entregue-se o rectangulo a um comissao administrativa chefiada pelo Valentim Loureiro e o padre Melicias. Depois do pais estar em ordem restauramos a monarquia e invadimos Ceuta. Ta feito. Viva a irma Lucia, que tanto deu ao nosso pais. Amen.

A Irmã Lúcia

A melhor prova de que não está a haver aproveitamento político foi dada por Santana Lapes, ontem à noite, em declarações à Radio Renascença:
"Estive há meia hora a falar sobre ela", foi "a última conversa que tive antes de vir para aqui", disse Santana Lopes à saída de um comício em Guimarães.
Depois de Portas aparecer em público com os olhos lacrimejantes, Santana remata desta maneira sublime só ao alcance de uns poucos predestinados...

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Assim se vê a força do PP

Tem sido quase unanimemente reconhecido que esta campanha eleitoral tem proporcionado como nunca antes momentos inolvidáveis de galhofa. O ritmo das estultices, sejam em cartazes, em frases proferidas nos comícios, nas aparições televisivas dos candidatos, nas poses de estado forçadas, etc, etc., é tão elevado que somos virtualmente ultrapassados por elas.
Por isso vou agora apenas aqui falar do mais recente momento de assombro a que fui acometido nesta campanha e que tem como seu autor, sem espanto, um putativo candidato a ministro de um elenco governativo chefiado pelo PP, Pires de Lima de seu nome.
Primeiro, certamente inspirado no apelo à sublevação popular das gentes de Coimbra e ao fecho dos portões da cidade defendido por um seu colega de partido na passada semana, considerou que o PP é o partido revolucionário do século XXI! Bem que me tinha parecido que o tinha visto a ele e ao seu presidente de partido na semana passada no Porto a cantar alegremente o clássico slogan do PCP, adaptado agora por estes novos revolucionários, para “Assim se vê a força do PP”.
Logo de seguida, veio opinar que a causa dos salários baixos dos trabalhadores portugueses deve ser imputada às forças de esquerda do PREC. Só para confirmar esta asserção (a minha memória podia já não ser o que era...) fui ao site da CNE para verificar a vigência governativa destas obscurantistas forças ao longo da história da democracia portuguesa.
Segundo o CNE, que pode estar a desvirtuar a verdade, a maior parcela de tempo da democracia portuguesa passou-se sob a vigência governativa de partidos de direita, incluindo o CDS/PP do doutor Pires de Lima, que formou a AD no governo entre 79 e 83 e depois entre 2002 e 2004, quando esteve coligado com o PSD.
Mas concerteza, a julgar pelo vice do PP, que tais partidos não devem ter responsabilidade nenhuma no panorama reinante, no que diz respeito aos baixos salários dos trabalhadores portugueses, pois a culpa aqui morre solteira com as forças do PREC...

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Just do it

Gary Neville pôs o dedo na ferida. O defesa do Manchester United desconfia que a campanha anti-racismo que caracterizou os jogos entre selecções que ontem tiveram lugar por toda a Europa foi, mais do que outra coisa qualquer, um inteligente golpe publicitário. A Nike, à custa de uma ideia e umas quantas camisolas, conseguiu publicidade gratuita em milhares de meios de comunicação social. Dirão os mais cépticos em relação a este argumento: mas será que não é possível que uma multinacional tenha princípios humanistas independentes do lucro imediato? A verdade é que o resultado positivo nas mentes adequa-se bem ao resultado positivo no balanço da contabilidade. Lembrei-me do documentário que Mariana Otero realizou sobre a SIC. Numa reunião de direcção a que a realizadora teve acesso, Rangel idealizava a relação produtiva entre os telejornais do operador televisivo e um conjunto de notícias sobre a luta contra o cancro. O cancro vendia, argumentava Rangel

Os clientes

Os distraídos que continuam a acreditar que o ensino universitário é um mundo definido pela transmissão desinteressada dos saberes deveriam passar os olhos por um artigo que o Guardian publicou nesta última segunda-feira (que encontrarão com facilidade na edição on-line do diário inglês). As universidades inglesas recebem por ano 300 mil estudantes estrangeiros, parte considerável oriunda de países de fora da União Europeia. O contingente estrangeiro permeia a economia inglesa com 5 biliões de libras por ano. Como devem imaginar este tipo de «emigrantes» é bem-vindo por cá. Afortunados árabes, japoneses, malaios, tailandeses, coreanos, africanos e, acima de tudo, chineses, enviam os filhos para «o centro do mundo» e pagam três a quatro vezes mais propinas que alunos ingleses e de outros países da União Europeia. Os reitores das faculdades preparam-se para reduzir as vagas destinadas aos alunos locais em detrimento dos rebentos das referidas fortunas internacionais. Argumentam eles que o ambiente multicultural e cosmopolita é muito positivo e que todos têm aprendido imenso com a experiência. Claro que aos ingleses, além da experiência e das loas ao multiculturalismo, também agradam as propinas, o alojamento, e todo o dinheiro que, indirectamente, é investido na economia: transportes, comunicações, alimentação, industrias culturais, etc. Diga-se que os ingleses têm apenas 23% do comércio da educação na sua língua. Os americanos dominam 58% do mercado. Se é certo que as universidades, nomeadamente as mais prestigiadas, são espaços multiculturais, não é menos real que são lugares extremamente homogéneos em relação à origem social dos alunos, mundos de classe média e média alta, para não falar de algumas fortunas inacreditáveis. Perante este contexto de comercialização do ensino, os critérios de selecção dos alunos são muito frágeis e o mérito é cada vez mais o do extracto bancário. A universidade é uma indústria e os alunos, os que podem claro, os seus clientes.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

O Código Da Vinci à lupa

Durante duas horas de documentário, o já aqui aclamado Tony Robinson, procedeu, para desgosto de livrarias e editores, a uma análise precisa do maior best-seller dos nossos tempos: o Código da Vinci, escrito por Dan Brown. O método foi simples: Robinson isolou os mais importantes argumentos do livro e resolveu testar a sua verosimilhança. O resultado foi um divertido desfilar de bengaladas que, peça por peça, foi derrubando a trama de Brown até nada restar de pé. Como Robinson acabou por aconselhar, quem desejar uma abordagem surreal à lenda do cálice sagrado fica melhor servido com o exercício cinematográfico dos Monty Phyton sobre o tema. O documentário começou com uma afirmação do próprio Dan Brown – que parece um daqueles senhores que vendem máquinas para os abdominais no teleshop às três da manhã – asseverando que o seu livro se baseava em evidências históricas. Pois bem, desde o facto de provar não existirem registos da existência de um qualquer enigma original envolvendo o cálice, problema que só terá nascido numa ficção no século XI, tornando-se tema literário, até à desmontagem de fantasias sobre a acção de grupos e seitas religiosas, um deles, o Priorado do Sião, que foi inventado nos anos sessenta por alguém que também queria vender livros, passando pela exclamação quanto às explicações imaginativas de quadros do Da Vinci, o documentário é claro quanto ao excesso de interpretação do livro de Brown. Sobra a dúvida, embora sustentada por outras fontes, do possível papel de Maria Madalena na história da cristandade e da possível omissão de textos sagrados pela hierarquia da igreja católica. Não li o livro de Brown nem pretendo avaliar o seu talento. Acho, porém, que tratando-se de uma ficção, a obra não está sujeita a qualquer tipo de constrangimento, podendo o autor dizer o que bem quiser e entender. O problema reside no facto de a obra estar a ser vendida e consumida como uma verdade histórica minimamente sustentada. Neste aspecto, Brown é um vendedor de banha da cobra que se limitou a romancear um livro do princípio dos anos oitenta (Holy grail, Holy blood) onde a tese foi arquitectada por dois aldrabões que também podiam estar vender máquinas para os abdominais. O autor utilizou a história – que lembre-se é uma ciência empírica que exige fiabilidade nas provas e nas fontes - como Paulo Coelho cozinha a sua psicologia barata com o esoterismo e o misticismo, sustentando assim uma indústria. Ficção por ficção, prefiro a Bíblia.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Liga dos Últimos

Já aqui me referi, há algum tempo, a um dos exemplos de excelência e vanguarda televisiva transmitido pela RTPN, de seu nome “Na Roça com os Tachos”. No entanto, seria injusto deixar passar em claro e não fazer qualquer referência a outros dos expoentes da pantalha televisiva, também ele emitido pela mesma estação, o programa desportivo “Liga dos Últimos”.
Dedicado ao futebol amador, o programa focaliza a sua atenção nos últimos classificados dos campeonatos das divisões mais distantes da Superliga, ou seja, no Baguim do Monte, no Montezelos, no Lamas, no Arguedeira, no Nespereira, no Minhocas, entre muitas outras nobres agremiações desportivas.
Ontem, um dos destaques foi para o derby gondomarense, Montezelo vs Baguim do Monte, respectivamente penúltimo e último classificados da campeonato da 3ª divisão distrital do Porto.
Disputado num pelado marciano, debaixo de uma forte ventania, na reportagem efectuada a este derby tivemos oportunidade de deslindar o complexo processo de tomada de decisões ao nível da equipa técnica, através de momentos únicos, como aquele em que o Técnico Adjunto do Montezelos ordenava ao jogador Nuno para avançar rapidamente no terreno e o Técnico Principal ao lado pedia ao Nuno para ter calma...
Também ao nível directivo ali apercebemo-nos que a comunicação de uma Direcção com os associados ocorre muitas vezes com ruído. Assim se explica a divergência dos adeptos do Montezelos acerca da profundidade do furo hertziano mandado construir pela Direcção para aplacar as nuvens de pó que assolam o pelado terreno de jogo, sempre que o vento se levanta para aqueles lados. 22 metros dizia um adepto, 58 metros asseverava outro, 98 corrigia o terceiro. Por fim, o Presidente lá informou que o furo chegava aos 108 metros, tinha custado 500 contos, mas ainda precisavam de uma bomba de água para elevá-la até à superfície.
No que diz respeito ao processo de explanação táctica, em nenhum lado como ali é possível ver tão claramente um treinador a gritar para os pupilos ao intervalo, na cabine, que o empate, ainda por cima com aquela equipa do Montezelos era uma vergonha para todos, carago, incluindo para ele próprio. Ironia das ironias, o Montezelos, na segunda parte, mesmo reduzido a 9 briosos jogadores conseguiu aguentar o empate a uma bola!
Se a essência do futebol mora em algum lado, é ali naqueles pelados marcianos como o do Montezelos. É mantida por jogadores e dirigentes que se movem apenas e exclusivamente por amor ao jogo e aos clubes, e que não se dobram nem quebram perante as adversidades. Como dizia o Presidente do Lamas de Macedo de Cavaleiros: “Aqui a gente nunca desiste, até já vamos em penúltimo!”

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Portugal, 2005

Como é possível, trinta anos depois do 25 de Abril, que uma campanha eleitoral visando a eleição de um parlamento e de um governo esteja centrada na vida privada dos candidatos? Já há muito que grande parte da esquerda, quando quer açoitar Santana, prefere as questões do estilo às de conteúdo. Agora, assistimos a uma campanha inqualificável da direcção do PSD em relação ao cabeça de lista do PS e à sua pretensa homossexualidade. O populismo na sua forma racista. Alguns dirão que é o desespero. No entanto, continuo a pensar que o cuidado é sempre pouco com esta espécie de populistas, especialmente quando dominam com mestria o mundo da linguagem mediática e pouco se importam de mergulhar na sarjeta para chegar aos seus objectivos.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Emigração outra vez

Por cá, o Partido Conservador, a tentar desesperadamente recuperar os votos que perdeu para a extrema-direita, lá avançou com mais uma proposta de lei para combater a emigração, seja esta causada por motivos económicos ou por motivos políticos. O noticiário da BBC2 resolveu debater a questão. O senhor do partido conservador lá disse que a lei era viável, mesmo que quebrasse convenções internacionais sobre refugiados e leis europeias; disse mesmo que se estava nas tintas para a Europa. Bravo. Uma senhora que defendia os interesses dos refugiados não foi brilhante, já que se preocupou apenas com os refugiados políticos deixando o problema dos refugiados económicos ao critério dos governos. Mas foi uma terceira figura que mais chamou a atenção. Este último cavalheiro, que não consigo perceber por que raio foi convidado para o debate, ficou conhecido por ter ganho um concurso num outro canal televisivo. O concurso, intitulado “vote for me”, consistia, se bem percebi, num género de disputa política fictícia entre vários concorrentes, cabendo aos telespectadores ingleses a decisão quanto ao vencedor. Pois bem, este senhor, que ganhou o tal concurso de popularidade, afirmou que o país “estava fechado para o negócio”, “close for business”, isto é, que ninguém, mas ninguém, deveria poder entrar na Inglaterra. Mas disse mais, perante as provocações do jornalista, o excelente Jeremy Paxman, disse que mesmo numa situação idêntica à resultante dos campos de extermínio nazi, a Inglaterra não deveria receber um único refugiado. Disse-o com convicção e sem qualquer vergonha. Perante a constatação de que são precisos estrangeiros para realizar certos trabalhos em Inglaterra, o senhor afirmou que deveriam ficar até que ingleses fossem especialmente formados para esses trabalhos, mas depois teriam que sair. Perante o nível do debate, o governo trabalhista o mais que consegue dizer, pela boca de Blair, é que o plano dos tories é pouco prático e burocrático. Diga-se que enquanto os conservadores querem impor um quota de 15 000 refugiados por ano na Inglaterra, há países africanos e asiáticos, pouco mais que miseráveis, que recebem milhões de refugiados provenientes de países ainda mais miseráveis do que eles. Assim vai o mundo.

O golo para acabar com o jogo

Estou em crer que quando um jogador marca um golo como o que Paíto marcou ontem no derby da Luz o jogo devia acabar de seguida. O mesmo deveria ter sucedido quando Rui Costa colocou Portugal a vencer a Inglaterra no último Europeu. Acabava. Não havia muito mais a dizer. Ontem na Luz confirmou-se mais uma vez que o futebol é um jogo injusto. E às vezes, como ontem, ainda bem que é assim. Os golos do Benfica surgiram quase todos de lances fortuitos, não há uma ideia, uma jogada combinada, uma estrutura de jogo, nada. Defender, e mal, e pontapé para a frente, são os dois mandamentos de Trapattoni. Salvou-se a narrativa emocional do jogo e o seu final exemplar. Menos mau.

terça-feira, janeiro 25, 2005

FCP

A invasão russa do futebol português parece ser uma realidade incontornável nos dias de hoje. Depois do Dínamo de Moscovo, é agora a vez do Spartak de Boxe de Moscovo e do Locomotiv de Boxe de S. Petersburgo que avançam sem medo para novas contratações, em Portugal.
Extasiados perante as últimas exibições de Benni Mcarthy e Luís Fabiano ao serviço do FC Porto, os responsáveis dos dois clubes russos já estabeleceram os primeiros contactos com os responsáveis da SAD Azul e Branca, no sentido de poderem contratar os dois atletas ainda antes do fecho deste período de inscrições. A intenção dos dirigentes russos é poder contar ainda com os seus valorosos préstimos na segunda fase do campeonato russo de boxe, actualmente muito disputado entre estas duas agremiações.
Entretanto, noutro âmbito, o FC Porto emitiu esta tarde o comunicado tipo em defesa daqueles que, habitualmente, por valorosos actos, pugnam pelas vitórias portistas. Depois de ainda na semana passada o ter feito em prol de Nuno Cardoso, agora é a vez de o fazer em defesa do brio profissional de Luís Tavares, o bandeirinha que não viu a bola a ultrapassar a linha de golo no Estádio de Luz, e que neste fim de semana, coerentemente, também não viu o festival de socos e cotovelos dos avançados do FCP sobre os defesas leirienses mesmo à sua frente.
Assim, num comunicado divulgado no sítio na Internet do clube, o F.C. Porto "assegura, inequivocamente, que a postura do auxiliar Luís Tavares foi rigorosa e exemplar, em nada tendo beneficiado, quer do ponto de vista pessoal, quer patrimonial, com este lapso".
Acrescenta ainda, "o que parece ser penalizante, quer para a pessoa de Luís Tavares, cuja seriedade está neste momento a ser posta em causa, quer para os representantes do F.C. Porto, é que a competência e eficácia sejam sempre motivo de inveja ou de especulação", refere o comunicado do clube "azul-e-branco".

sábado, janeiro 22, 2005

Por mares nunca dantes navegados...

Os Lusíadas são uma das obras-primas da literatura portuguesa e mundial. Há poucos dias atrás concluí finalmente a sua leitura. Só à segunda tentativa visto que, há mais ou menos três anos, fiz uma primeira incursão para ler a obra épica de Camões. Infelizmente,e ao contrário do que é habitual nos meus hábitos de leitura - onde sou incapaz de deixar um livro a meio, mesmo que o ache intragável - interrompi no quinto canto, curiosamente com as naus de Vasco da Gama a aproximarem-se do Cabo da Boa Esperança. Não consegui dobrar o Cabo. O Adamastor não deve ter gostado da minha cara e voltei a pôr o livro na prateleira.

À segunda foi de vez e os dez cantos foram rapidamente percorridos (talvez seja mais correcto dizer navegados), estrofe por estrofe. E aqui deixo o meu elogio a Luís Vaz de Camões porque é de facto notável como se consegue produzir uma obra deste calibre, sempre em oitavas, sempre com o mesmo esquema rimático e sempre com o mesmo número de sílabas métricas. Verdadeiramente assombroso o talento e o engenho deste génio universal que o pequeno rectângulo produziu. E que, tal como outros Portugueses de valor, não viu ainda em vida serem reconhecidos os seus méritos.

Os Lusíadas são muito mais que uma obra em poesia. São o relato de uma viagem, numa época que deve ter sido verdadeiramente fascinante de viver, são um manual de História de Portugal (desde os primórdios até à actualidade do autor) e são igualmente um retrato da sociedade portuguesa do séc. XVI. Só me interrogo como é que o censor do Santo Ofício deixou passar a autêntica sessão de sexo em grupo que decorre na Ilha dos Amores, sublime recompensa dos marinheiros portugueses, desgastados e esgotados de mil e uma peripécias. Eu escrevi desgastados e esgostados? Esqueçam o que eu escrevi.

À laia de reflexão deixo aqui a transcrição da estrofe 145 do canto décimo:

"Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza."

Intemporal, não é?

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Segunda parte, do lado de dentro

O presidente americano conquistou a última eleição porque falou a um país que, na sua grande parte, é um espaço provinciano, no sentido físico e mental da palavra. Mas a sua eleição é, antes de mais, um aviso para a esquerda, essa esquerda que deixou de conseguir falar com as pessoas “simples”. O que se passou foi extraordinário: Bush conseguiu ganhar em regiões empobrecidas, onde os trabalhadores perdem direitos todos os dias; Bush ganhou retirando direitos de saúde, de educação, destruindo aos poucos a segurança social. Este processo vai continuar, o presidente já o anunciou. Para lutar contra os efeitos eleitorais de tais políticas, Bush usou o nacionalismo, o medo e a ideia de que em cada esquina, em cada casa, em cada rua, pode estar um terrorista a trabalhar para destruir a América. Tudo embrulhado num discurso primário mas absolutamente eficaz. Quem goza com Bush, devia ter atenção à eficácia da sua estupidez. Bush não é estúpido, é um vencedor. A “comunidade internacional”, já se notou, pouco interessa ao presidente e aos seus Homens de mão. Resta então, infelizmente, a política interna americana. Muito do que se passará no mundo passa pela luta que os americanos conseguirem fazer ao seu presidente.

Segunda parte, do lado de fora

George Bush iniciou ontem o seu segundo mandato afirmando que a América iria lutar por levar a liberdade a todo o mundo. Conhecendo o método americano a frase só pode preocupar o mundo. As explicações para o novo imperialismo americano têm sido diversas. Muito se tem falado do idealismo dos neo-conservadores, da recuperação dos valores morais, da influência da sua matriz religiosa radical. Tudo isto é verdade, mas talvez faça sentido juntar a estes factores o preocupante estado da economia americana. Os americanos gastam muito mais do que produzem, importam muito mais do exportam. Parte do dinheiro utilizado para equilibrar a situação é proveniente de títulos da dívida pública que têm sido comprados, em grande parte, por capital saudita e chinês. A situação é artificial e instável. Mas os Estados Unidos sabem que mesmo que percam na economia têm sempre a hipótese coerciva. Infelizmente tudo leva a crer que o futuro próximo passe pelo saque de matérias-primas e recursos naturais. Sabe-se, claro, em que região do mundo estes recursos abundam. Sabe-se, também, qual é o método americano. A máquina de propaganda, claro, irá apregoar os valores da liberdade, do cristianismo e da sociedade da posse.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Máxima Sociologia

Mérito do habitual incumprimento de horários, uma espera de umas boas dezenas de minutos num consultório médico possibilita-nos, em face da inexistência de alternativas, dar uma vista de olhos pela literatura colocada ao dispor dos pacientes, designadamente às revistas ditas femininas, Máxima e Activa.
Foi aí que, entre páginas que alternam entre os anúncios de perfumes da Gucci, lingerie La Perla ou cremes anti-rugas da Vichy, com artigos versando os ciúmes, a fidelidade conjugal ou novas formas de sedução, pude constatar que não havia nestes artigos publicados um só que não apresentasse um ou mais sociólogos a debitarem completas vulgaridades sobre a temática mencionada.
Sabemos que a sociologia é uma disciplina recente em termos da sua institucionalização académica, e de ser alvo de um relativo desconhecimento acerca da utilidade do seu contributo em diversas áreas de actividade. Sintoma disso mesmo é a difícil inserção profissional no mercado de trabalho dos sociólogos.
Por outro lado, e não obstante o reconhecimento social e mediático de alguns sociólogos, também é verdade que a transmissão da descoberta científica e reflexividade produzida pela disciplina gira ainda muito no circuito inter-pares, frequentemente veiculada em discursos herméticos e dificilmente descodificáveis pelos leigos.
Diga-se ainda, em abono da verdade, que o trabalho do sociólogo nem sempre é visto com bons olhos por aqueles que receiam a capacidade de intervenção crítica de que muitas vezes a disciplina se faz valer para tentar aclarar determinado fenómeno social.
Agora o que eu duvido muito é que perante este estado de coisas e face ao colete de forças imposto por alguns poderes (político e económico) ao espaço de manobra da disciplina, a melhor forma que alguns sociólogos encontraram para tentar aumentar o reconhecimento social da disciplina seja aquela que ontem me pude aperceber estar a ser basto praticada...

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Sobre a estética

Em relação ao último grande momento estético do nosso blogue só posso aconselhar o sensato autor a transformar a brilhante ideia em rubrica semanal. Não sendo uma ruptura radical, aproximamo-nos do ideal estético de separação total da forma e do conteúdo. Estou a imaginar o judeu a entrar para a câmara de gás e perguntar ao simpático nazi – Senhor nazi, que belo fato, têm um costureiro próprio ou vão ao armazém espanhol? – Meu amigo judeu, nós aqui, no terceiro Reich, além de não gostarmos de judeus, também não vamos à bola com latinos e outras raças assim mais pró escuro. Herr Wolf, um génio do corte e costura, é quem faz os fatos, nada de espanholadas. – Senhor nazi, são realmente extraordinários, e as calças estão vincadas e tudo, e que bonita suástica, das melhores que tenho visto – É verdade, nós aqui temos um sentido estético elevado em todas as realizações humanas, é pena que você já não tenha tempo de apreciar um filmezinho da Leni Riefenstahl, senão iria ver como a nossa estética racista, antes de ser racista, já era modernista, olhe mas já que estamos aqui na câmara de gás você, amigo judeu, pode apreciar estas fantásticas linhas arquitectónicas, repare na relação das formas com a luz, e o modo racional como as entradas do gás estão colocadas para você e os seus amigos judeus morrerem democraticamente ao mesmo tempo, não é sublime? – É mesmo sublime senhor nazi.

Sobre a argumentação

Há inúmeras formas de argumentar. A um dos tipos de argumentação podemos chamar de argumentação eucalipto, porque seca tudo à volta. Com esta espécie de argumentação não fica nada de pé, não há ideia aproveitável, não há análise que se salve, não há acumulação de interpretações ou cooperação crítica, tudo fica reduzido a escombros. O especialista no argumento eucalipto utiliza várias técnicas. A mais extraordinária é a de acusar o outro de não se ter referido a algo que o próprio nunca tinha, na sua boa vontade, tencionado referir. Se falamos em batatas, devíamos ter falado de cebolas, se falamos de andorinhas, cai o Carmo e a Trindade, porque omitimos as gaivotas. O utilizador da argumentação eucalipto até pode estar de acordo com o argumento inicial, no entanto o seu objectivo é mostrar que nada daquilo faz sentido porque há sempre um facto qualquer mais relevante para a questão, um imperador romano, um facto histórico esquecido, uma criancinha que ficou por salvar. Alguém escreve alguma coisa sobre o sol e, às duas por três, já lhe foram colados uns quinze rótulos, os mais suaves dos quais balançam entre o colaboracionista e o ignorante. No fundo é divertido.



sexta-feira, janeiro 14, 2005

Adenda factual

Fidel Castro e Che Guevara podem ser acusados de muitas coisas. Ha um terreno grande de discussao que defensores e detractores podem percorrer. No entanto, nao e historicamente correcto considerar que fossem alguma vez assassinos em massa.

O principe burro V

Talvez criar uma comissao de etica para avaliar mascaras e outras indumentarias festivas.
O politicamente correcto e realmente discriminatorio e so dispara para alguns lados. Verdade indiscutivel. No entanto, o que a utilizacao desse argumento - que em teoria esta correcto - acaba por provocar neste caso concreto e considerar-se normal que alguem com responsabilidade publicas e politicas - que sao obviamente avaliadas de acordo com o papel que monarquia desempenha, para o bem ou para o ma,l em Inglaterra - vista um fato de oficial das SS. Nao me parece muito produtivo fazer um ranking dos torcionarios e considerar que afinal o Harry ate podia se ter vestido de coisas muito piores. O contexto do nazismo e algo com uma importancia social extraordinaria, atinge pessoas que estao vivas, foi provocado por seres humanos que, temporal e socialmente, nos sao proximos. Alguem hoje responde pelas mortes provocadas por Nero ou por Caligula. Imaginemos o filho do Sampaio numa festa com mascaras. Podia vestir-se de Afonso Henriques, o nosso primeiro Rei que fartou-se de matar mouros pelo rectangulo abaixo, e ninguem se importaria. Mas se vestisse um fato da mocidade portuguesa, cujos membros, como membros, nao mataram ninguem, o caso fiava mais fino. E obviamente com toda a justificacao.

O Principe burro III

E certo que os media raramente discutem o que importa. O caso Harry e mais um fait-divers para vender jornais. No entanto, apesar de a nossa posicao informada exigir que outros assuntos assumam a actualidade, o facto e que a questao passou para a agenda publica e tornou-se num acontecimento politico, uma optima oportunidade para largar mais umas ferroadas na digna instituicao monarquica. Neste sentido, saudo a oportunidade de O Principe Burro I.
Despindo o filtro sociologico que vive pegado ao meu corpo arrisco uma explicacao genetica. Os geneticistas, que todos os dias descobrem genes para tudo e mais alguma coisa - a homossexualidade, a violencia, a pedofilia, etc - deviam estudar o gene monarquico, o gene por excelencia, nao estivesse em contacto directo com o sagrado. O gene monarquico ingles, por exemplo, esta acometido pelo virus da patetice. E evidente neste sentido, que Harry sai ao pai. Outra persistencia mais preocupante no gene monarquico ingles sao as derivas nazis. O saudoso Eduardo VIII, tio-avo do Harry, conhecido por ter abdicado do trono pelo amor de uma plebeia americana, Wallis Simpson, tinha fortes simpatias pela causa do terceiro Reich razao pela qual, triste versao alternativa ao caso de amor, foi posto a andar.
Diga-se que o choque da foto de Harry reside no facto de o jovem principe nao surgir mascarado, no sentido ironico, ou divertido da mascara (uma caricatura de Hitler nao seria tao ofensiva), mas surgiu uniformizado, tal e qual, um oficial das SS. O rapaz tem vinte anos, nao tem oito nem doze, e descende directamente da rainha Victoria, a mulher que governou quase todo o mundo. E uma responsabilidade.



Metal rules

Uma suave educação sonora, mais ou menos distinta, afasta muitas pessoas dos sons produzidos pelas bandas que compõem o universo multifacetado do heavy metal. Numerosos ouvidos, cuja sensibilidade é socialmente produzida, reagem, opinam, protestam, quando confrontados com um conjunto de sons que reconhecem genericamente como fazendo parte deste universo musical. A cansativa frase “é só barulho” torna-se numa avaliação comum que irrita sobremaneira o militante do metal. Todo o amante de música, independentemente do estilo, se aborrece quando o apreciador não iniciado realiza generalizações abusivas e quase sempre ignorantes. Fortemente enraizado nas práticas culturais de classes sociais baixas, o heavy metal cresceu em grande medida fora dos grandes circuitos da indústria musical. A sua divulgação faz-se quase sempre através do contacto pessoal, por redes imensas através das quais se trocam cassetes, discos e outro material relativo às bandas. Pouco se sabe da grandeza deste universo. Os media passam-lhe ao lado, embora a sua dimensão não seja despicienda.
Na universidade, a cultura popular continua a ser um objecto pouco apreciado, que se encontra na base da pirâmide das hierarquias académicas. O heavy metal é indiscutivelmente substância de cultura popular e merecia um estudo urgente. Infelizmente, pelas regras da reprodução social, não há muitos amantes do género com poder de o estudar nos níveis de investigação mais altos da academia.
Deixo uma sugestão de não especialista que se dirige apenas, obviamente, a não iniciados: o intemporal primeiro álbum dos Metallica carinhosamente intitulado Kill ‘Em All. Uma obra-prima da cultura popular.

O Príncipe Burro

É comum os monárquicos invocarem, com jactância, a precoce e exclusiva preparação dos monarcas para o desempenho do seu cargo, como a característica distintiva que os separa do comum dos restantes mortais. Desde pequeninos lhes é torcido o pepino, desde tenra idade são embebidos numa esmerada e polida educação, desde pequeninos são socializados tendo em vista o superior exercício das suas funções.
Tal argumento, quando historicamente verificado, revela-se francamente falacioso. Figuras reais, como o imberbe e tolinho D. Sebastião, o medroso e fugitivo D. João VI, o esbanjador D. João V, ou o aspirante a absolutista D. Miguel, só para dar alguns exemplos, deixaram muito a desejar no capítulo da preparação superior para o exercício das funções governativas que exerceram ou a que aspiraram..
Mas as falhas na preparação não são um exclusivo da realeza portuguesa. Famílias reais europeias mais famosas e mediáticas possuem entre os seus membros indivíduos ainda mais acéfalos. O melhor exemplo vem da família real inglesa, mais concretamente do Príncipe Harry.
O Princípe Harry, depois ter sido submetido durante uma vintena de anos a uma sublime preparação tendo em vista o desempenho potencial de monarca da Coroa Britânica, conseguiu cometer o feito, que apenas está ao alcance dos eleitos pelo divino, de acorrer a uma festa envergando um uniforme nazi e uma braçadeira com a respectiva cruz suástica...
Depois da droga, do álcool, o príncipe remata em grande, insultando de forma execrável, e sem perdão, milhões de súbditos que sofreram as agruras daqueles que envergaram a indumentária que o rapaz pelos vistos tanto aprecia. Imagine-se o que poderia fazer o rapaz se não tivesse sido bafejado por uma educação superior, apenas possível a um grande dignitário da Coroa.

terça-feira, janeiro 11, 2005

A alegria do povo

O futebol é cada vez mais uma actividade pensada a regra e esquadro. Isto é e não é verdade ao mesmo tempo. O erro da contratação de Trapattoni foi ninguém ter percebido que o “seu futebol”, pensado a regra e esquadro, não encaixa no mundo do Benfica. Mesmo que o italiano vencesse, não servia o Benfica. O Benfica cresceu a ganhar e a jogar para a frente. É assim que os adeptos o entendem e é assim que apreciam as exibições da equipa. Um tipo de jogo cobarde - alguns dirão pensado, racional - como o que o Benfica praticou em Alvalade, é insuportável para o adepto do clube. Absolutamente insuportável. Os adeptos do Benfica não vão perder um minuto a protestar contra as sucessivas simulações de Liedson porque a sua ira está voltada contra a cobardia do seu clube, contra aquele número inconcebível de passes laterais, contra os jogadores que abdicam de qualquer ousadia porque têm que defender, de respeitar a táctica do mestre italiano. Jogadores diminuídos, profissionais diminuídos que deviam fazer queixa ao sindicato. Era preferível perder por 7-1 do que fazer um jogo cobarde. É por isso que Camacho deixou saudades. Porque o clube até podia defender mal, cometer erros estúpidos, jogar contra o Inter em San Siro como se estivesse a jogar contra o Alverca na Luz, com os laterais loucos a subirem como extremos, mas ao menos jogava de cabeça erguida, para a frente e marcava golos e rematava e quase sempre foi melhor do que adversário e ainda teve tempo de ganhar ao Mourinho. E Camacho berrava, esbracejava e defendia os seus jogadores. O Sporting mereceu ganhar em Alvalade e devia ter sido por mais.
Trapattoni para perceber o Benfica devia interpretar a relação do adepto com Mantorras. Mantorras é, como indica a expressão que adjectivava o brasileiro Garrincha, a alegria do povo. Bastaram dez minutos e os milhões de benfiquistas estavam dispostos a perdoar todos os disparates anteriores, bastou o angolano, com o seu jeito gingão, o drible rápido, a cabeça dirigida à baliza, a perna pronta a rematar. Mas vá lá o italiano perceber isto.

Futebol Zen

A quem repete constantemente que Mourinho é o melhor treinador do mundo falta a sensibilidade para perscrutar a verdadeira revolução. Arrisco afirmar que Giovanni Trapattoni é o maior génio de futebol de todos os tempos. Ao contrário de Mourinho, que se limita a afinar uma lógica já centenária, o italiano propõe que se olhe o futebol de uma perspectiva completamente diferente. Copérnico pôs a terra a girar à volta do Sol, Marx virou Hegel de cabeça para baixo e Trapattoni inventou um novo futebol. E fê-lo com uma simples frase: “perder não é um mau resultado”. Parece ridículo, mas é extraordinário. Retirando a importância da vitória ao jogo, Trapattoni impõe uma nova lógica ao desporto-rei. Como perder não é um mau resultado deixam de existir maus resultados. É um verdadeiro ovo de Colombo: os adeptos ficam sempre contentes, os jogadores felizes por não serem pressionados, os árbitros deixam de interessar. Fiquem os adversários com as emoções, as tristezas, os vedetismos, os egoísmos. No fundo, é uma espécie de futebol Zen, tudo flui, perder é fixe, somos todos amigos, destrói o teu orgulho, dá cá um bacalhau, passe senhor avançado, atacar para quê, está-se bem, a vida é bela. O Benfica sempre na vanguarda.

Como o vinho do Porto...

Os R.E.M. tocaram em Lisboa, no Pavilhão Atlântico, na noite de 7 de Janeiro. Uma noite fria num reencontro quente com os fãs. De todas as idades. Vi desde crianças de 9 ou 10 anos até homens e mulheres na casa dos quarenta ou cinquenta anos. Os pais levaram os filhos. É lógico. Porque os R.E.M. são daquelas bandas universais e transversais. Agradam a quase toda a gente. Até os que não gostam dizem sempre que há um ou dois temas do seu vasto catálogo que lhes agradam.
O concerto foi bom, muito bom mesmo. Muito melhor do que o de há cinco anos e meio atrás. Mike Mills, Peter Buck e Michael Stipe (um verdadeiro animal de palco) continuam em grande forma e a mostrar o porquê da sua longevidade no sucesso. São como o vinho do Porto. E continuam fortemente empenhados em lutar por um mundo melhor, apesar dos esforços da administração Bush em sentido contrário.
No que à música diz respeito, há dez anos atrás, eu consumia avidamente tudo o que estes simpáticos rapazes de Athens, no estado da Geórgia, produziam. Hoje, mercê da passagem inexorável do tempo, sou um ouvinte mais maduro mas sempre atento. Mas a qualidade continua lá e não engana. Não sou crítico de música nem nunca tive ambição a tal. Sei apenas aquilo que gosto. E eu gostei muito.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Teté - Uma Mulher em Acção?

A propósito da recente tragédia ocorrida na Ásia, interrogava-me aqui há uns dias acerca do paradeiro das Tetés, Titis e Tótos deste país. Via os Médicos sem Fronteiras, a Cruz Vermelha, a AMI, etc, a voluntariarem-se para se deslocarem de imediato para os funestos locais atingidos e aí prestarem o seu auxílio descomprometido às populações, mas quanto aos mais ilustres defensores da vida humana nesta pátria, um manto cerrado de nuvens cobria a visibilidade da sua acção.
Ainda coloquei como hipótese que os media, no meio da voragem das sucessivas notícias, teriam, inadvertidamente, esquecido de dar cobertura às acções desenvolvidas por tais distintas personalidades em prol daquilo que mais gostam de se apregoar como paladinos, i.e, a vida humana.
Todavia, a julgar por um artigo inserto no “Público” de hoje, as Tétes, as Titis e as Tótos, “Mulheres em Acção” deste Portugal (acção só de nome, pelos vistos...), afinal sempre devem ter ficado cá pela terrinha, a escrever textos para os jornais.
E que textos redigem tão esclarecidas personalidades? Textos sobre a catástrofe natural, a condição humana, as vidas humanas perdidas? Não. Dissertam nacos de prosa maviosa sobre os “valores” em perigo no mundo ocidental, a saber, a família heterossexual monogâmica, a superioridade das religiões monoteístas, designadamente o cristianismo, o divino património judaico-cristão, e claro, a vida humana.
Ela vergasta “o recrudescimento agressivo do laicismo anticristão”, a "recusa da referência ao património cultural judaico-cristão no Preâmbulo do Tratado Constitucional”, “o triste episódio de raiva sectária contra Rocco Buttiglione que não augura nada de bom”, divaga sobre o ódio do PCP e do Bloco às “sociedades democráticas liberais de tipo ocidental”, asseverando que estes dois partidos “não gostam da pessoa humana tal como ela é - acham que o homem e a mulher estão mal feitos”, crítica quem defende “a sacralidade da mãe-terra e os "direitos" dos animais (de todos, menos um).”
Em síntese, a “Mulher em Acção” Alexandra Teté consegue fazer corar de inveja qualquer digno representante inquisitorial do século XVII, pelo rico obscurantismo que povoa aquela mente, pela intolerância fulminante que a caracteriza.
Tão grande é o chorilho de dislates históricos que inundam a escrita daquela moça castrada, que se algum dia quiserem atribuir um nome aos algozes da Modernidade, chamem-lhes Tetés, por elementar justiça.

Quinta das Celebridades

O PSD pensou em colocar como número dois da sua lista do Porto o advogado Pôncio Monteiro. O país conheceu esta personagem num programa de televisão sobre futebol. Neste programa, o amigo Pôncio defendia as suas causas através de argumentos impensáveis, que por serem tão idiotas proporcionavam ao telespectador incrédulo um riso desbragado. Estas características especiais, e o facto do senhor ser adepto do FC Porto, clube com o qual o PSD não está de boas relações, são suficientes para o partido considerar Pôncio Monteiro um homem ideal para servir os cidadãos portugueses e o país. O PSD, depois de muitas congeminações, considerou também que a escritora Margarida Rebelo Pinto daria uma boa deputada. Porventura seria tão boa como o Saramago ou o Lobo Antunes ou aqueles deputados dos grandes partidos que nunca põem os pés na Assembleia. Sabemos, porém, qual a razão que levou Santana a pensar nela. A Margarida rejeitou. Mas Santana que não fique triste, porque a cultura popular portuguesa made in TVI criou dezenas de possíveis parlamentares. Talvez o burro Pavarotti possa ele mesmo liderar uma lista qualquer ou aparecer numa fotografia ao lado do Cavaco.