quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Realmente não se pode transigir com um novo totalitarismo

É bom saber que deixámos a espuma da liberdade de impressa e chegámos rapidamente ao cerne da questão. Há dois erros que não cometo. O primeiro é ser apanhado nesse maniqueísmo bipolar e ser tido como defensor de estados teocráticos que alimentam as mais crúeis injustiças. Prefiro, sem dúvida, o modelo secular. Mas reparem que denomino esses países de estados teocráticos, onde há responsáveis políticos e religiosos pela situação social que ai se vive. Os maiores desses responsáveis, acrescente-se, nem são locais. As situação actual têm por base processos históricos que convém conhecer. Isto é totalmente diferente de colocar o debate a nível da cultura, o que acaba por ser uma forma de racismo mascarado. Ninguém olha para a história, a política deixa de existir, a economia devanece-se, restando a cultura e a religião. O outro erro que não partilho é essa nova visão do mundo que um novo totalitarismo quer passar para as mundividências dos cidadãos do ocidente. O que se deseja é substituir a União Soviética como forma de acartelar as tropas, neste caso as opiniões públicas. Como foi aqui dito, é essencial combater todos os totalitarismos, e não há outro mais forte, pelo seu poder militar e económico, do que o que à força tenta dividir o mundo em dois. Falou-se de diversidade política, diversidade económica, diversidade cultural. Onde é que está essa diversidade se dividimos o mundo em dois. Lamento mas nesse plural cego, "nós isto", "nós aquilo" grande parte do mundo ocidental não entra. Basta pensar nas manifestações contra a guerra que varreram a Europa, um conflito que violou as regras mais básicas do direito internacional. Não é o cumprimento da lei uma característica das sociedades seculares? Parece que não. Porque antes dessa lei cultural que tanto apregoam, está a lei da economia e da política, esses sim os factores que dominam o mundo. Se o petróleo que existe no golfo pérsico estivesse na Bolívia o ocidente estava em guerra com a civilização índia. Totalitarismo é o modo como me obrigam a participar nesse "nós", um "nós" onde não há patrões nem empregados, homens nem mulheres, negros nem brancos, onde nem existem culturas diferentes, onde não existem sistemas económicos. Salvem-me deste totalitarismo. Não sei quem é digno de ser convidado para jantar, mas porventura não serão aqueles que torturam prisioneiros violando convenções internacionais, que já mataram dezenas de milhares de civis no Iraque, que começam uma guerra com uma mentira absolutamente descarada. A cartilha liberal, não menos descaradamente, diz que foram lá para derrubar um ditador. Mas quem é que apoiou esse ditador durante dezenas de anos? Nessa altura, os líderes da nossa civilização não tinham percebido que o homem, como muitos outros que foram vergonhosamente apoiados pelo ocidente, é um déspota sanguinário. Por que é que esta nossa superioridade não obriga o ocidente a cessar os acordos económicos com países como a Arábia Saudita? Onde é que estão as sanções que essas culturas tão atrasadas merecem? Hipocrisia de uma ponta à outra. Isto para dizer que a "pena" do ocidente não se fica pelas cruzadas, nem pela inquisição, nem tão pouco pelo holocausto. Essa "pena" é contemporânea. É tragicamente contemporânea. Esse "nós" coloca-me a mim ao lado dos maiores bandidos, e o nome é leve, que existem actualmente. Não entro nesse "nós" nem à custa de truques baixos sobre a liberdade de imprensa. O mundo islâmico não ameaça em nada a liberdade de imprensa no ocidente. O que a ameça verdadeiramente é a concentração dos media, é o controlo governamental sobre os media, que se nota, por exemplo, nos Estados Unidos. É verdade que sou um ocidental, mas não me ponham ao lado dessa gente. A esse "nós" não pertenço. Em relação às questões que foram levantadas sobre África, a resposta segue para a semana, já que o que foi dito é um branqueamento que necessita de ser desmascarado.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Tolerância

Obviamente que não é o sentido de humor que esta em questão, é a tolerância. A tolerância que permitiu que o António do preservativo do Papa não fosse perseguido, nem decapitado, a tolerância que permitiu que o programa do Herman continua-se a ser transmitido. A chave é a tolerância.
É obvio que nem sempre o fomos, nós, o “Ocidente”, mas tivemos a capacidade de mudar, de separar o estado da religião, e isso, curiosamente aconteceu por alguma razão (Nota: investigar se o factor religioso, ou melhor, se o cristianismo teve alguma coisa a ver com o assunto). Não aconteceu no Oriente, não aconteceu em Africa, não aconteceu nos países Islâmicos. Essa é a nossa vantagem, não quer dizer que sejamos perfeitos, nem de longe o somos, nós, o “Ocidente”. Mas julgo ser consensual que nenhum dos que aqui tem “postado” gostaria de viver num pais muçulmano, e não é tanto pela questão económica é pelo facto de não querermos abdicar da nossa liberdade (por mais manipulada e ilusória que ela seja, não deixa de ser “mais” liberdade do que a que existe nas sociedades maioritariamente islâmicas…) E eu sei que nem sempre foi assim, existe uma dinâmica civilizacional, durante vários séculos o mundo islâmico foi o expoente máximo da civilização (entende-se como os dinamizadores do conhecimento e do “progresso”) mas depois deixaram de o ser.
O Islão tem, de facto, um problema religioso para resolver. E não são só os radicais islâmicos que são um problema, são todas as sociedades que seguem uma matriz religiosa islâmica e que não conseguem superar a dicotomia Estado / Religião, Liberdade Individual / Ditames Religiosos.
Mas, às tantas, a moirama é que tem razão (tal como os grupos de fundamentalistas religiosos cristãos). Qual secularização, qual ciência, o ser humano não precisa dessas coisas para viver em paz consigo próprio. Precisa é de Deus, de ter a consciência tranquila, de viver segundo os mandamentos divinos. E como tal, acho que nos devemos converter e deixar esta vida de pecado e estas discussões que não levam a lado nenhum. Quem não o fizer merece ser apedrejado.

É apostar, é apostar!


PORTUGAL TELECOM - 2.80€ SONAE - 3.15€

Venham as pedras

A frase que mereceu a resposta foi esta: "Ora pois bem, não consigo respeitar uma civilização sem sentido de humor e sem a capacidade de rir de si própria."

1) Tu não fazes a mínima ideia se aquela civilização, seja lá isso o que for, tem ou não sentido de humor ou capacidade de se rir de si própria. Eu aposto que tem, embora assuma que existam assuntos muito sensíveis a partir dos quais seja quase impossível fazer humor. Mas como é que reagiu a "nossa civilização" ao cartoon do António com o preservativo no nariz do Papa, ou à Última Ceia do Herman José? Somos assim uma civilização tão tolerante. Há trinta e cinco anos podias neste país fazer o humor que fazes hoje? A questão é de civilização ou talvez a política tenha alguma importância? Não foi a nossa civilização, de matriz judaico-cristã, que queimou pessoas no Terreiro do Paço por pensarem de forma diferente do que nos dizia a Santa Madre Igreja? Não foi a nossa civilização que metodicamente meteu milhões de judeus nas câmaras de gás? Não foi a nossa civilização que, até meados do século XX, usou o esclavagismo mais primário para colonizar África? Não será um pouco abusivo falar em nome de civilizações contra outras civilizações. Será tão difícil perceber que a liberdade de imprensa está a servir as balelas do "choque de civilizações", por mais acrobacias argumentativas que tentem considerar a questão da liberdade de imprensa uma discussão autónoma. Gostei especialmente daquele argumento usado neste blogue das "pessoas que estão à minha volta pensam todas como eu" ... e acrescento que devem ouvir a mesma música e ler os mesmo livros e partilhar a mesma boa educação ... mas porventura não trabalharam na fábrica ... e talvez não leiam tablóides racistas ... e talvez não vejam reality shows ... .


2) Usar o pretenso sentido de humor para avaliar uma civilização, isto é, todos os milhões de seres humanos que vivem em determinado espaço, é relativamente bizarro. Mas concedo que é divertido. Talvez valesse a pena, digo eu, utilizar outros critérios de avaliação.


3) Resta considerar, se pensarmos, em tese, que o relativismo e a capacidade de evitar o preconceito são elementos próprios da nossa civilização, que estamos em processo rápido de decadência.

Só podes estar a brincar...

Informa-se que o João Baião, o Nicolau Breyner e aquele baixinho irritante que apresenta um concurso qualquer, também são considerados humoristas... Mas daí até terem piada...

Quanto à antologia de humor islâmico (de 1941) levava para ai uns 14 anos para ler o livro, 20 para o compreender e uns 30 para encontrar uma piada de jeito... Dando uma vista de olhos ao índice, tresanda a piadas da ultima página da celebre "Família Cristã"...

Eu estava a me referir a uma boa piada de cariz religioso...
Ora Sr. Cientista mostre lá uma piada islâmica sobre as barbas do Maomé, ou sobre o comportamento sexual da nora Fátima escrita por um muçulmano, a viver num pais islâmico e que tenha sobrevivido à piadola, que eu conto 10 anedotas sobre Cristo e 10 sobre a Fátima da Cova de Iria.
Assim podemos ver se são tolerantes ou não...

O Sr. Abu Abed... : )
Tou em crer que não há relativismo cultural que aguente humor islâmico.

E quanto a Africa, acho os pretinhos e as pretinhas gente com muita piada.
Os orientais acho que não são muito humorados.

E agora, podem me apedrejar!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

E não é que eles também riem ...

Seguem alguns sites de humor árabe. Mais abaixo há a indicação de uma antologia de humor árabe. Quem estiver interessado pode mandar vir o livro pela Amazon. E não é que eles têm humor ... e que gozam com eles próprios ... é extraordinário .. estou estupefacto ... pensava que só os povos de matriz cultural judaico-cristã, seja lá isso o que for, é que tinham comediantes ... qualquer dia ainda me dizem que os orientais também têm comediantes ... não, isso é impossível ..., Deus nos valha, essa gente não ri ... será que em África também se faz humor... não, não é possível ... eles são tão atrasados ...


http://www.abuabed.net/about.htm

www.arabicjoke.com

http://www.arabiano.com/entertainment/humor.shtml

www.sabda.org/humor/isi.php?id=246

Subject Book: An Anthology of Arab Humor In Arab LiteratureAuthor: Ali MrouehLanguage: ArabicPublisher: Riad El-Rayyes Books Ltd, LondonYear Published: First Printing 1947, Second Printing 1991Number of Pages: 8 volumes; Volume 1 – 182 pages The eight volumes that make up the Anthology of Humor and Arab Literature are: 1) The Peculiarities of Poets and Literary Writers2) The Peculiarities of Egyptians3) The Peculiarities of Driven Away Personalities4) The peculiarities of Judges5) The Peculiarities of Women and Concubines6) The Peculiarities of Geniuses and Fools7) The Peculiarities of Administrators/ Workers8) The Peculiarities of Odd People.

A recensão a este artigo segue em:

http://yementimes.com/article.shtml?i=878&p=culture&a=2

Qual é o problema?

O título do post foi muito em cima do joelho! (Sim, eu agora trabalho!). Mais rigorosamente deveria ter sido: Qual é o problema? ou, E depois? O que tem retratarem o "Profeta"? Como diz o Marçal: Onde está sentido de humor?

Em relação à mudança de aspecto do blog, confesso a minha falta em não ter questionado os restantes membros...Mas, este preto é lixado para os olhos!!!!

Extremismo

O que me alegra nisto tudo, é que finalmente este blog ganhou vida. Nem que seja por isso, gostei dos cartoons…

Humor

O que me chateia nisto, o que demonstra intolerância, é que nas sociedades de base cultural/religiosa cristãs, existe um leque enorme de pessoas que fazem, ou fizeram, humor com factos religiosos e lá por isso não veio desgraça maior ao mundo. No Judaísmo o Woody Allen e o Mel Brooks (ambos judeus) fartam-se de caricaturar os Judeus, sem que dai advenha uma catástrofe. No Islamismo existe um gajo que escreve um livrinho sem muita graça sobre o profeta e se não foge matam-no. Ora pois bem, não consigo respeitar uma civilização sem sentido de humor e sem a capacidade de rir de si própria.

Antes de sair de casa

Rute

Concordo totalmente contigo na questão da liberdade de imprensa e também acerca das "vantagens do securalismo". Mas o que o estou a dizer desde o princípio é que, neste caso particular, essa questão está a servir outros fins. E que esses fins se relacionam com a banalização entre as populações ocidentais da ideia peregrina do "choque das civilizações". É apenas aqui que discordamos. Já agora quando me referi à travagem dos processos de secularização falava do que sucedeu após a descolonização e não ao tempo das cruzadas.

Rato, o Ocidental

Vasco Rato, para defender ontem a liberdade de imprensa, foi tão longe que esteve prestes a proibir o Sheik Munir de ter uma opinião contrária aos cartoons. - Mas você não tem nada que estar contra, você não tem o direito de impor os seus valores; - Mas eu não estou a impor, estou apenas a dizer que não gosto; - Mas vocês não podem achar que dominam as civilizações ocidentais; - Mas eu só estou a dizer que não gosto dos Cartoons e que posso protestar contra eles; - Mas vocês fazem-no violentamente; - Mas quem é que somos nós, eu estou a dizer-lhe que não concordo; - Lá está não concorda; - Mas não está no meu direito não concordar. Uma curiosa inversão de papéis. Munir foi o oposto de tudo o Fátima colocou nas imagens, um homem de "intocável razoabilidade ocidental" que rapidamente fez o professor de ciência política parecer um perigoso bombista. Mas Vasco Rato fez mais: sugeriu que os muçulmanos eram inerentemente violentos, disse que eram responsáveis por quase todos os actos terroristas, disse que as manifestações em Londres e a situação violenta em Beirute e Damasco eram a prova que todos os muçulmanos pensavam assim, e claro, que eram uma ameaça à nossa civilização. Um democrata ocidental em toda a sua excelência. Ao contrário de Fátima, Vasco Rato não é ignorante, apenas mal intencionado. O lamentável é que o seu pensamento primário, ao estilo de George Bush, a sua visão unilateral, reducionista, cobarde e extremamente perigosa, sempre em nome da liberdade de imprensa, conseguiu sacar uns aplausos da plateia. Confesso que quando vejo algumas pessoas informadas a ter opiniões tão primárias, suspeito que haja alguma coisa de errado naquilo tudo. Já se sabe, são as teorias (C)onspirativas (I)nternacionais (A)bundantes.

A Fátima

Conhecerá Fátima Campos Ferreira os limites do papel de um moderador. Não perceberá que se o moderador toma descaradamente um partido em certa discussão, parte importante do públicos toma a sua opinião como se a de um juíz se tratasse. Não haverá ninguém na RTP que lhe explique isso, que lhe diga que certas funções não são compatíveis com a ignorância. Não a acho mal intencionada, apenas ignorante. Um exemplo: quando um dos convidados do programa de ontem, o Sheik Munir, bastante civilizadamente afirmou que se deveria, sim senhor, discutir a situação da mulher nos países muçulmanos, Fátima virou-se para a plateia, colocou um daqueles sorrisos auto-confiantes, e disse: sim, sim mas sabe, nenhumas das mulheres desta plateia gostariam de viver num país muçulmano. Porventura isso é verdade. Mas ninguém foi capaz de dizer à Fátima que se tomassemos os resultados dos estudos sobre violência doméstica em Portugal, uma em cada três mulheres daquela plateia já tinha sido alvo de maus tratos, ou para ser mais gráfico, de murros, de pontapés, de violações dentro do casamento. É um assunto que não mereceu ainda um programa. Andará Fátima a dormir? Será que Fátima ainda não percebeu que sua religião, a quem, em outros programas, já prestou fretes que punham em fúria qualquer secularista moderado, não concede os mesmos direitos às mulheres que concede aos homens. Fátima, acorda.

Liberdade de imprensa? II

O programa da RTP Prós e Contras do dia de ontem, sobre os cartoons e a liberdade de imprensa, pago pelo dinheiro dos contribuintes portugueses, foi uma prova cabal que a questão dos cartoons não é fundamentalmente uma questão de liberdade de imprensa. A condução e elaboração do programa foi xenófoba do princípio ao fim. A apresentadora, Fátimas Campos Ferreira, passou o programa a tratar os "muçulmanos" por "eles", "eles fazem", "eles matam", "eles esfolam", "eles não querem", "como é que nós os fazemos mudar", "como é que nós podemos manter os nossos valores se até os Estados Unidos e a Grã-Bretanha cederam e não publicaram os cartoons"; chegou a tratar Maomé por "o Maomé", o gajo. Fátima diria "o Jesus"? Mas a coisa não se ficou pelos apartes idiotas que nem a evidente ignorância da senhora perdoam. As únicas imagem que o programa passou retratavam seres enfurecidos a queimar, a pilhar, a destruir; ou a rezar em grupo como máquinas irracionais. Fátima nunca foi a Fátima? As imagens passaram várias vezes em fundo como ilustrações do que se ia dizendo. Foi absolutamente vergonhoso. Os convidados, exceptuando o inenarrável Vasco Rato, foram bastante mais razoáveis. O público, tristemente, lá aplaudiu algumas tiradas xenófobas, em nome da liberdade de imprensa.

Liberdade de imprensa?

Rute
Lamento insisitir mas a questão da liberdade de imprensa está a ser usada para alcançar objectivos políticos. E é precisamente por isso, basta ter alguma atenção, que o debate já se tornou num debate civilizacional. Não vou repetir argumentos porque se torna cansativo. Mas rebato algumas afirmações. Os países ocidentais não foram apenas complacentes, foram cúmplices e muitas vezes responsáveis directos pela subida de déspotas ao poder. Foi assim no Médio Oriente, foi assim em África, foi assim na América do Sul: Saddam, Mobutu, Pinochet. Apenas 3 nomes. Há pelo menos 30 que podiam ser adiantados. No caso do Médio Oriente os países ocidentais foram absolutamente responsáveis pela forma como processos de secularização que estavam em curso foram travados e revertidos. Note-se o caso evidente de Nasser no Egipto. Não acredito que estejas a confundir o mundo islâmico com a meia-dúzia de pessoas que se manifestou em Londres. Isso é a conversa do Daily Mail. Por outro lado, custa-me ainda mais acreditar nessa perigosa deriva jurídica que parece rejeitar manifestações de rua. As conspirações políticas e os obscuros interesses económicos realmente não existem. Tens razão. A intervenção no Iraque foi feita em nome da defesa dos valores dos países seculares, para derrubar um ditador que os países seculares puseram lá. Faz todo o sentido.

Então?

Gostava de pedir às pessoas que constantemente mudam o aspecto do blogue, sem consultarem os respectivos parceiros, que o parem de fazer. Existe um e-mail colectivo 0nde democraticamente se pode discutir a questão.

Estreou em Portugal ...


... ou aconteceu-lhe o mesmo que a Última Ceia do Herman José?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Monty Python

O que eu queria mesmo era " A vida de Mustafá" pelos Monty Python... A ver o que acontecia...

Agendas políticas de quem?$$$$$$$$$$$$$$$$$

Comecei um post anterior da seguinte forma: "Fazer da questão da liberdade de imprensa, o foco principal dos cartoons do profeta Maomé é cair num erro." Não querendo impor ao leitor uma insterpretação única daquilo que escrevo, duvido que possam existir muitas formas de ler a frase. Assim de repente, apelando ao bom senso, não me parece ter afirmado a inexistência de um problema de liberdade de imprensa, mas apenas que, no contexto específico das relações entre essa coisa a que chamam "ocidente" e os países muçulmanos, os cartoons servem, fundamentalmente, outros propósitos. Um desses propósitos é a brutal redução das sociedades do Médio Oriente a um conjunto de estereótipos ignorantes, base das teorias do choque das civilizações. A situação nessas sociedades foi alimentada pelo apoio dos líderes das brilhantes sociedades seculares a toda a espécie de déspotas fundamentalistas, em nome de uma religião de Estado chamada nacionalismo, cujo interesse mais básico é a defesa de interesses económicos. Aliás, foi essencialmente para proteger esses interesses que os Estados Unidos condenou os cartoons. Resta lembrar que há limites, na minha opinião razoáveis, à liberdade de imprensa. A Constituição Portuguesa, por exemplo, proíbe propaganda racista. No contexto de um jornal de extrema-direita, não é totalmente claro que, junto com determinados textos de opinião xenófoba, não se possa considerar alguns dos cartoons perto de um patamar de intolerância que sei ser difícil definir. Considero-me um ocidental. Mas há muitas espécies de ocidentais, embora quase todos de sociedades seculares: os responsáveis pelo holocausto, os que colonizaram e escravizaram África, os que atiraram bombas atómicas, etc. O brilhante ocidente tem memória curta. Era bom que os seus cidadãos olhassem os fenómenos como questões complexas, em vez de os abordarem através de histerismos inconsequentes.

Gozar com Deus I

domingo, fevereiro 05, 2006

Agendas políticas de quem?

Fazer da questão da liberdade de imprensa, o foco principal dos cartoons do profeta Maomé é cair num erro. Independentemente do bom ou mau gosto dos cartoons, não havia razão para censura, embora, como alguém sugeriu, e de forma indirecta, possam ser considerados uma manifestação de xenofobia, realizada através de uma perigosa generalização: "todo o muçulmano é terrorista." Outra perigosa generalização é tomar o mundo islâmico pelas pessoas que se manifestaram violentamente nas ruas de Beirute e de Damasco. Foi assim, porém, que as televisões retrataram o acontecimento, reificando a famosa bipolarização entre "nós", o mundo ocidental, e eles, os muçulmanos. Noutra formulação, os racionais e os irracionais. A agenda extremista do ódio parece ter ganho mais uma batalha. Gostava de perceber, no entanto, o percurso que mediou a publicação de uma dúzia de cartoons num pequeno jornal da extrema-direita dinamarquesa e o incendiar da situação em alguns países muçulmanos. A quem interessa que as opiniões extremistas, que partem de uma ignorante bipolaridade, sejam banalizadas entre as populações dos dois pretensos blocos? A ocidente, a situação beneficia quem sabe ter perdido a opinião pública a propósito da importante questão da guerra. No mundo islâmico, serve o crescimento das bases do fundamentalismo. O extremismo, dos dois lados, tenta ganhar o centro político e a opinião pública. Receio que tenhamos caído na esparrela.

Fomos roubados ...


.... pelos deuses deste desporto infâme chamado futebol.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Direito Criativo

Pode discutir-se o sentido do casamento. Mas isso, por enquanto, é discussão de café. Dito isto, não vejo por que raio o Estado, ou a Santa Madre Igreja, tem que meter o bedelho nas opções privadas das pessoas, dando direitos a uns e tirando direitos a outros. Vai ser muito interessante ver os constitucionalistas cujas opções ideológicas e religiosas são contra uniões entre pessoas do mesmo sexo a tentarem reinterpretar originalmente pressupostos constitucionais que não oferecem muitas dúvidas a um leigo. Já conhecíamos o interessante fenómeno da contabilidade criativa, mas sem dúvida que há poucas áreas como o direito, em que a criatividade atinge níveis tão altos.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Leite matinal

A blogosfera nativa é um sítio interessante. E estranhamente pequeno.
E o 1.º prémio Grupo do Pato para o melhor blogue português vai para ... o Grupo do Pato.

Economês versão XIS

A revista de economia que o jornal Público faz sair às segundas-feiras procura fugir ao cinzentismo, termo comum para designar tudo o que não seja moderno e sobretudo não venda, típico dos suplementos de economia. A ideia de traduzir o economês para os leigos é meritória, mas o modo como foi ensaiada na revista DiaD é pouco mais do que lamentável. A leveza desejada tornou-se num facilitismo idiota que trabalha através de um grafismo colorido, muitas fotografias e rubricas de mau gosto. Pior do que a forma, só mesmo o conteúdo. A DiaD representa uma visão unilateral da economia, onde não há discussão de ideias mas apenas o vomitar de uma cartilha, ainda por cima pouco imaginativa. Em todos os números se faz o funeral dos serviços do Estado, apontando-se a sua rápida privatização. Faz-se uma publicidade descarada a investimentos financeiros privados. Publicidade não paga. Apontam-se exemplos de jovens liberais de sucesso, com histórias de vida preenchidas pela passagem por boas universidades e a posse de bens materiais. É pena, porque era realmente necessário bom que se conseguisse divulgar e discutir de forma inteligente o economês.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Um jogador "à antiga"


A "era dos extremos" que actualmente se vive no futebol português, com 1 ou 2 clubes endinheirados, ou pelo menos a dar essa aparência, com alguns a mostrarem-se, por fim, em asisada contenção, e com outros a falirem ou a caminho disso, aparecendo nos media como habituées incumpridores das obrigações salarais para com os seus atletas, pode trazer consigo uma virtualidade: um "regresso ao passado", entendido como retorno a uma busca da procura do jogo enquanto actividade prazenteira, capaz mesmo de obrigar a alguns sacrifícios pessoais na vida em prol do gozo extraído da sua prática.
Exemplo do que foi acabado de dizer pôde ver-se ontem, ao final da tarde, na estação de camionagem de Viseu, onde, recém-chegado de Vila Nova de Paiva, local de disputa nessa tarde de mais um jogo a contar para o Campeonato Distrital da 1ª divisão, estava um jovem envergando um equipamento desportivo do novo Academico de Viseu, Semedo Domigos de seu nome, e que havia alinhado na equipa viseense como defesa central nessa partida.
Até aqui nada de extraordinário, a bem dizer, se pode retirar da história. Todavia, se soubermos que o citado jogador é natural e residente em Lisboa, percorrendo por isso 600km sozinho todos os fins de semana para disputar uma partida de futebol, recebendo como compensação monetária uma singela quantia, empregue já noite fora numa sandes adquirida numa máquina de serviço na estação de metro para onde se desloca quando chega à capital, damos conta que a prática do jogo ainda tem encantos que inebriam os seus protagonistas centrais e que os consegue impelir a devotar a si uma boa parte das suas vidas, sem que daí tenha de advir uma retribuição financeira minimamente significativa por essa concessão .
Se ainda há esperança no futuro do jogo, enquanto sinónimo de entrega apaixonada e desinteressada, é em jogadores como Semedo Domingos que ela reside.

domingo, janeiro 29, 2006

Branqueamento

A neve veio em boa altura. Atirou o jogo de sábado para o meio do telejornal. Esperemos que não seja preciso que neve outra vez. É abusar de Deus nosso senhor.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Sobre as eleições no ex-cavaquistão


As recentes eleições presidenciais fizeram cair o mito do "cavaquistão", já ele bastante chamuscado nas recentes eleições legislativas...Bragança fartou-se das faustosas votações laranjas de Viseu e decidiu assumir a dianteira nessa matéria.
Também ao nível mais micro, o concelhio, as tendências partidárias são agora mais dinâmicas e menos concentradas na tradicional opção política que tem feito história. Olhando para os resultados destas eleições ao nível das freguesias do concelho, lembramo-nos que a velhinha teoria dos círculos concêntricos de desenvolvimento das cidades, de Burgess, no caso de Viseu ganha foros de actualidade.
A votação presidencial no concelho de Viseu, e nomeadamente a adesão eleitoral ao candidato Cavaco Silva decalca quase na perfeição uma topografia radial. Ao centro, nas três freguesias da cidade o novo Presidente da República alcançou 55% dos votos em todas elas. Num segundo círculo, em freguesias semi-centrais, como Ranhados (53%), São Salvador (55%), Orgens (57%), Torredeita (58%), a identificação foi ligeiramente superior.
Quando nos afastamos das zonas mais centrais e tocamos na freguesias que estão nos limites espaciais concelhios, constatamos as maiores taxas de entusiasmo popular com a candidatura vencedora. Ribafeita (77%), S. Pedro France (77%), Calde (76%) ou Silgueiros (73%), são exemplos claros desta tendência.
Identificando-se esses círculos espaciais, em razão do progressivo processo de urbanização do concelho nos últimos anos, com o desenvolvimento de actividade económicas diferenciadas, com a circulação espacial de diferentes públicos e com a vivência de indivíduos com distintas posses em termos de capitais escolares e culturais, a adesão cavaquista nas eleições presidenciais mostra que a clássica dicotomia rural-urbano, em Viseu, começa agora a notar-se mais do que nunca.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Faca nas costas

Já se sabe que Santana Lopes foi derrubado pelas pessoas que agora apoiam Cavaco Silva. Aquelas que resolvem os destinos do país com meia-dúzia de telefonemas. O professor Cavaco é apoiado unanimente ao centro, onde está Sócrates, e em toda a direita, lembrando a espaços a defunta União Nacional do Dr. Salazar. O irrequieto e valente Jardim meteu a viola no saco e reduziu-se à sua insignificância. Claro que Jardim espera receber algo pela vassalagem feita ao até há pouco tempo infame Sr. Silva. Jardim, o gabarola, de joelhos. O Mendes foi chutado para fora da campanha, embora faça a vénia servil sempre que lhe pedem. Deus no céu e Cavaco na terra. Ribeiro e Castro, depois de dizer que a culpa do terrorismo era da esquerda, calou-se, porque tais afirmações não interessam ao unânime Cavaco. Até Paulo Portas resolveu dar a sua bênção ao seu arqui-inimigo. Isto tudo para cumprimentar, apesar de tudo, Santana Lopes, realmente a primeira pessoa que conseguiu incomodar Cavaco. Pacheco Pereira diz que é uma vingança primária, mas Santana lá saberá.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

O que seria se o Superman fosse africano...

"O regresso do Super-Homen, ao grande ecrã, está marcado para o mês de Junho de 2006. A Warner Bros já revelou que Brandon Routh vai ser o actor que irá substituir o falecido Christopher Reeve. As gravações já começaram, na Austrália, e o facto de o actor, de 26 anos, ter o órgão sexual grande de mais está a causar problemas aos produtores do filme. Segundo o site Entertainment Wise, como o fato do Super-Homem é muito justo ao corpo, os produtores estão a pensar em usar tecnologia digital para suavizar o pénis de Brandon".

Jornal Tribuna de Macau

sexta-feira, dezembro 23, 2005

barcos gregos

O país anda distraído com as presidenciais, cuja campanha tem um nível ligeiramente mais elevado do que os reality shows da TVI. Sócrates deve estar satisfeito. Entretanto as estatísticas, imperiais, vão dando mostras do percurso da nossa modernização. Portugal nunca deixou de ser um país de emigrantes. O facto de agora recebermos muita gente parece ter ocultado essa permanência. A emigração voltou, no entanto, a crescer. Não se trata de uma emigração qualificada, mas a mesma de sempre, a da pobreza, originária em grande parte da região norte do país.
Cantavam os Xutos, no auge da sua criatividade: "Já estou farto de procurar Um sítio para me encaixar Mas não pode ser Está tudo cheio, tão cheio, cheio, cheio Mas o que é que eu vou fazer Eu vou para longe, para muito longe Fazer-me ao mar, num dia negro Vou embarcar, num barco grego Falta-me o ar, falta-me emprego Para cá ficar Já estou farto de descobrir Tantas portas por abrir Mas não pode ser, é tudo feio, tão feio, feio Mas o que é que eu vou fazer"

domingo, dezembro 18, 2005

Clubite II

O escândalo continua. Mais uma vez, de forma desassombrada, sem o respeito devido a uma centenária instituição, o Benfica foi dramaticamente prejudicado pela arbitragem. O sistema não dorme, as suas forças trabalham nas trevas. Penalties contei dois. E a conta é feita por baixo, que é para não haver dúvidas. Mas o mais trágico foi mesmo o lance do golo do Benfica. Foi visível, para toda a gente, que o nosso jogador Luisão foi brutalmente agredido pelo guarda redes da equipa adversária. Reparem com justiça na imagem e observem o modo como a fronha ameaçadora e peluda do guarda-redes daquele clube brasileiro da Madeira embateu com violência desmesurada no braço terno e honesto de Luisão, provocando-lhe inúmeras contusões que lhe podem ficar para o resto da vida (consta que o homem nem dormiu bem esta noite e que se levantou às 3.25 da manhã para escrever o testamento não vá, como se espera, a situação piorar). Perante esta barbaridade, que fez o juiz? Nada. Deixou a jogada decorrer até ao fim e nada. Já não digo que irradiassem o homem do Nacional do futebol, mas pelo menos que o suspendessem por uns anos. Mas não; nem um amarelo levou. Com estes exemplos não se admirem que as crianças de hoje se tornem os terroristas de amanhã, que se expludam em estações de comboios e que ponham etnias inteiras em câmaras de gás. Uma vergonha.

Clubite I

Um dos grandes problemas da esquerda portuguesa é a clubite. A clubite, como fenómeno global, manifesta-se por várias razões. É útil para manter relações pessoais. Partilham-se conhecimentos e opiniões, alimentam-se inúmeras discussões, perde-se tempo, reforça-se espírito de grupo, ganha-se sentido de vida pelo reconhecimento do adversário (sem o qual a vida era bastante mais aborrecida). Quase que é possível dizer que a clubite à esquerda é uma espécie de estilo de vida, organizado tribalmente. Mas há outro lado, bastante mais trágico. A clubite política, como as clubites em geral, é quase sempre irmã do desconhecimento, da imparcialidade, da incapacidade de fazer propostas e de discernir quem são os verdadeiros adversários e quais os seus métodos. Sobretudo em relação à elaboração de propostas, algo que exige uma análise do real - e dá trabalho e actualização - a clubite é cega. A clubite não é outra coisa senão a imagem da incapacidade. Num contexto da pequena política, a opinão da clubite não é, por vezes, falha de razão, conseguindo fazer críticas acertadas e justas. Mas a esquerda não pode continuar a entreter-se com a pequena política. Não é apenas uma questão de justeza, é uma questão de opções. Mas é a esquerda que vamos tendo.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Mais um debate

Era o debate presidencial entre os candidatos da área ideológica com que mais me identifico, e, à priori, mais uma boa oportunidade para os dois candidatos esgrimirem perícias. Todavia, o que ressalta evidente no final de mais uma jornada de debates, à imagem das jornadas anteriores deste campeonato presidencial, continua a ser a distorção sobre a suposta importância decisiva da eleição que se avizinha para o futuro do país e dos portugueses.
Quanto mais realce se dá à audição dos candidatos, mais se constata à ilharga a impotência que mesmo uma figura central de topo de um país está votada, tal como se configura a actual organização económica, social e simbólica do planeta. Tal impotência não é determinada pelo asséptico modelo de debate, mas pelas visíveis mãos atadas de todos os candidatos, uns mais presos a crenças doutrinárias vetustas do que outros, perante o destino e o presente que lhes foge e não conseguirão controlar.
Esse presente é o presente dos fluxos. Os fluxos de capital, fluxos da informação, fluxos da tecnologia, fluxos de imagens, sons e símbolos. Mais do que um elemento integrante da nossa organização social, esses fluxos são a expressão dos processos que dominam a nossa vida económica, social e política.
Num presente marcado pelos circuitos electrónicos (microelectrónica, telecomunicações, processamento computacional, sistemas de transmissão e transporte em alta velocidade), onde os lugares não desaparecem, mas a sua lógica e o seu significado são absorvidos em rede, rede essa que conecta lugares específicos com características sociais, culturais, físicas e funcionais bem-definidas, através de cidades globais, são as elites globais que dominam.
O problema é que a articulação de tais elites é global e são essas elites que por intermédio da rede constituída pelos sistemas de processos da economia global, especialmente os do sistema financeiro, que estabecelem e reorganizam as práticas sociais dominantes. Perante este espaço de fluxos, não há Presidente da República que consiga ter poder e autonomia para impor vontades e futuros para os cidadãos do seu país.
Quem não se ligar aos nós de ligação dessa rede e não conseguir que os seus interesses sejam representados dentro da estrutura desse espaço de fluxos bem pode debater incessantemente, que o seu futuro não será deveras risonho....

terça-feira, dezembro 06, 2005

Os poderes do presidente

Não sendo propriamente o incrível Hulk, nem o Homem-Aranha, nem tão pouco o Batman ou o Super-Homem, o presidente português tem os poderes que lhe são consagrados pela Constituição. A coisa é tão clara que a discussão nacional sobre o assunto, que nenhum jornalista se coíbe de introduzir em debates e entrevistas, é inútil. O presidente não pode legislar, não tem governo, ministérios nem secretarias de estado. Não gere orçamentos. Pode vetar leis, enviá-las para o Tribunal Constitucional. Em caso disso, e este disso é avaliação relativamente subjectiva, pode dissolver o Parlamento. Pode fazer comunicações ao país, reunir com o governo, partidos, sindicatos, igrejas, etc. Pode fazer "presidências abertas". Mais do que tudo, tem um poderoso poder de intervenção mediática, o que lhe garante uma influência eleitoral considerável, isto, claro, se aquilo que disser não for apenas percebido por 5% dos portugueses, como foi timbre das intervenções públicas do actual titular do cargo. Nesta campanha eleitoral, se algum dos candidatos dá a sua opinião sobre uma questão concreta: o desemprego, o défice, a segurança social, logo lhe perguntam se isso não é matéria de governo? É, no sentido da execução legislativa, não o é, porque um presidente tem que ter ideias sobre as matérias que preocupam o país, tendo inclusivé o dever de as expressar.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O Juíz decidiu, tá decidido

Depois da celeuma no ano transacto levantada o Ministério Público (MP) do Tribunal Judicial de Viseu arquivou o processo de inquérito à exposição do livro polémico - "As mulheres não gostam de foder" - na montra da livraria das Edições Polvo, em Viseu.
No despacho de arquivamento, o procurador do MP, além de alegar a inexistência de matéria para sustentar uma eventual irregularidade, lamenta a controvérsia que surgiu em torno do ensaio sexual em banda desenhada, do espanhol Alvarez Rabo, admitindo que, se porventura o autor da obra tivesse o peso e a importância literária de um Lobo Antunes (que escreveu "Os cus de Judas") ou Miguel Esteves Cardoso (que editou "O amor é fodido"), a contestação não teria tido lugar.
Depois disto fica a sugestão aos livreiros das Edições Polvo: Colocar na montra da livraria as três obras em exibição lado a lado.

domingo, dezembro 04, 2005

Outra vez

No prosseguimento de justas análises sobre o momento futebolístico português que têm brindado aqui o nosso espaço de conversa, venho protestar pelos acontecimentos desta jornada. Mais uma vez, as forças negras e ímpias que há muito dominam o futebol português congeminaram ardilosamente para prejudicar o glorioso SLB. Quem beneficiou com tal empresa? Os mais directos e históricos adversários do clube da águia. Senão vejamos: ao Sporting foi-lhe perdoado pelo menos um penalty, além de ter sofrido um golo limpo que foi mal anulado. No jogo do F.C. Porto, a mesma coisa: perdoaram-lhe um clara grande penalidade e o valoroso adversário dos dragões marcou um belo tento prontamente anulado pelas forças ocultas. Isto é, em vez de ganharmos três pontos aos directos adversários só conquistamos 2, depois da vitória contra aquele clube brasileiro do Funchal. Um escândalo.

terça-feira, novembro 29, 2005

Chef

O indivíduo entrava nas habitações, durante a noite e, quase como ponto de honra, "matava a fome". Não raras ocasiões, de acordo com as autoridades, terá mesmo ido a ponto de confeccionar as refeições, usando os ingredientes e a cozinha alheios. Depois de alimentado, "aproveitava" para assaltar essas mesmas residências, levando tudo quanto pudesse e lhe parecesse valioso.

Com a carência de "chefs" no país capazes de aguçar o paladar dos portugueses a preços em conta, aprisionar versáteis cozinheiros não creio que seja a solução. O homem ainda por cima "limpava" tachos, panelas e muitos outros objectos de cozinha que o comum dos mortais não tem paciência para limpar e desengordurar no final das refeições...Gente mal agradecida é o que é.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Guns of Brixton

Os defensores da excelência do modelo de integração britânico sofrem de amnésia histórica e quando falam da excelência de Londres é porque nunca foram muito para sul do Tamisa. Independentemente da origem cultural, como agora se diz, basta um desemprego alto e a usual discriminação racial para inflamar a situação. Em 1981, quando o sul de Londres explodiu, a multidão foi apelidada de "black crowd". Não houve grande conversa sobre a origem religiosa ou mesmo cultural dos que protestaram, filhos e netos de jamaicanos, nigerianos e de outras proveniências. O relatório oficial falava de "serious social and economic problems affecting Britain's inner cities" e ainda de "racial disadvantage that is a fact of British life". Nem sombra do grande satã muçulmano. Os The Clash escreveram sobre Brixton. Seguem as primeiras estrofes.

Guns of Brixton

When they kick at your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun

When the law break in
How you gonna go?
Shot down on the pavement
Or waiting on death row

You can crush us
You can bruise us
But you'll have to answer to
Oh, the guns of Brixton

terça-feira, novembro 15, 2005

Ainda as culturas

Por alturas em que o "Público" tomou a iniciativa de fechar grande parte dos seus conteúdos on-line a todos aqueles que não aderissem à assinatura mensal paga, levantou-se uma onda de cizânia aqui no ciberespaço. Inclusivé, à data, tive oportunidade de deixar aqui umas palavras de forte desconfiança quanto ao sucesso da operação.
Devido às características da génese da criação da Internet e do caldo de culturas que desde o início lhe deram forma e nela estão enraízadas, pareceu-me que seria uma iniciativa condenado ao fracasso.
A Internet foi moldada desde cedo, entre outras, pela cultura hacker, que, ao contrário da imagem tradicionalmente veiculada pelos media, valoriza os quadros informais de transmissão gratuita da informação, a livre partilha da descoberta e a cooperação em rede.
Obviamente, este modus de acção está nos antípodas da iniciativa do "Público", que apostou no custeamento do acesso à informação. Até hoje, que eu tenha conhecimento, o jornal nunca deu a conhecer o state of art da sua iniciativa. Contudo, a julgar pelos indicadores apurados recentemente por uma empresas de sondagens sobre a Web, o panorama não deve ser muito risonho quanto ao número de adesões à assinatura paga da edição on-line...
A confirmar-se esta tendência (tudo o leva a crer) na assinatura do "Público on-line", não deixa de ser uma pena que o seu director, actualmente tão envolto na destrinça das questões culturais, tenha descurado uma análise mais aprofundada da(s) cultura(s) da Internet...

segunda-feira, novembro 14, 2005

O último e mais esperado candidato

A coisa está ainda no começo mas uma onda imparável poderá varrer as próximas eleições. Vieira is back.
www.vieira2006.com

quinta-feira, novembro 10, 2005

A "invenção" dos muçulmanos

Existindo há uns bons séculos os muçulmanos foram dramaticamente reinventados nas últimas duas décadas. Antigamente os muçulmanos eram designados de forma diferente. Havia os regimes amigos a quem se podia vender armas porque tinham uma posição estratégica, como o Iraque de Saddam, ou os regimes perigosos, focos de potenciais comunismos, como O Egipto de Nasser ou a Síria ou mesmo na altura o Afeganistão. É certo que a revolução islâmica no Irão lembrou que havia muçulmanos, mas quem se lembrava da religião quando o mundo era disputado, território a território, entre dois tabuleiros políticos. Mesmo o conflito entre Israel e a Palestina era, antes de tudo, político, ou se quisermos, geo-estratégico. Hoje as divisões políticas parecem pouco importantes, trata-se, como advogam os grandes defensores do factor de explicação cultural/religioso, de uma batalha entre civilizações. É certo que esta visão implica uma amnésia em relação certas amizades, a mais evidente das quais a da Arábia Saudita. O quadro cultural/religioso redefiniu a representação do mapa mundo, com algumas limitações, substituindo o proeminente quadro político/económico. Mas não o fez apenas a um nível macro-estrutural. No que respeita a indivíduos com determinada origem nacional, como se passa neste momento em França, eles deixaram de ser operários, agricultores, desempregados, consumidores de bens e serviços ou mesmo cidadãos, para passarem a ser muçulmanos. Do outro lado da barreira estão os ocidentais, também eles violentamente uniformizados.
Antes da queda do muro de Berlim ser muçulmano era uma coisa diferente. O império soviético veio dar lugar, nas imaginações do "ocidente", ao império muçulmano. O hiper-racionalizado Homem soviético, frito e falho de emoções, veio dar lugar ao irracionalismo religioso do barbudo bombista suicida. E é assim que nos vão contando histórias.

Cromos da Bola

Não tenho por hábito deixar aqui referências de outros blogs. Mas como a regra comporta por vezes a excepção, ainda para mais somos portugueses, e esse arrojo transgressor faz parte do nosso ethos, vou aproveitar para habilitar todos aqueles que assim o queiram com a possibilidade de arrematar o prémio de uma nostálgica e bem disposta viagem às memórias do nosso desporto-rei.
Cromos da Bola, assim se chama o blog no qual dei por mim a reviver lembranças de antigas "glórias do futebol português", sob o patrocínio de espirituosos textos de dissertação a acompanhar. Desde Eskilsson a Zé d'Angola, de Bandeirinha a Folha, de Vata a Vlk, passando por já vetustos players do saudoso Académico de Viseu, como o inquebrável defesa jugoslavo Mirko Soc ou o prolífico avançado brasileiro Marcelo Sofia, sósia de Lionel Richie para os autores do texto, diversas são as referências que nos fazem sorrir acerca de personagens "clássicas" que fizeram história, nem que tenha sido apenas com letra pequena e deixaram recordações a somente alguns, no futebol português.
Eis os cromos da bola

terça-feira, novembro 08, 2005

O Estúpido

O director do jornal Público escreveu hoje, a propósito dos acontecimentos em França, um editorial intitulado, Não é o social, estúpido: é a cultura. Enfiei o barrete. Sou precisamente desses estúpidos que, considerando a importância de algumas variáveis culturais, atribuo ao que Fernandes chama de "social" a origem do sucedido. Gostava de argumentar que o estúpido é ele. Confesso, porém, que não o acho estúpido, mas simplesmente perigoso. Atribuir a manifestações violentas uma origem cultural é absurdo. Claro que Fernandes, como outros, não diz isto directamente, eufemiza a questão, fala das dificuldades de integração, mascara um discurso que, sem máscara, quer fazer regressar a ideia de combate civilizacional. Eles são muçulmanos, emigrantes de segunda geração, mas nunca "franceses" socializados na sociedade francesa. O seu problema é que não se conseguem adaptar à "nossa cultura". As culturas tornam-se assim dois blocos unificados, sem fracturas, apenas intermutáveis quando eles, os outros, abdicam do que é seu e se integram. A coisa lembra um pouco as políticas coloniais de assimilação. Esta abdicação implica, se não formos hipócritas como Fernandes, aceitar a vida sem futuro das classes baixas ocidentais, acrescentando-se a isso o estigma proveniente da discriminação de origem cultural. Mas a questão da cultura não resiste a análise mais atenta. Desde logo, pelas informações mais cuidadas, se percebe que não se tratam em grande parte de jovens muçulmanos, que nem todos são de origem emigrante e que o que realmente partilham é o subúrbio francês, esse espaço de desemprego, esse espaço que o Estado abandonou aos poucos. O discurso da "cultura" mascara o discurso da "classe". Não que a classe resolva tudo. Há variáveis culturais e mesmo geracionais que interessa observar, mas a origem de classe é factor determinante. O que sucede, tal como acontece nos Estados Unidos, é que em certas áreas urbanas a classe etnicizou-se.
O discurso de Fernandes é perigoso socialmente porque a "cultura" não é mais do que uma forma sofisticada de regressarmos ao racismo mais primário e à ideia de que os Homens não depende das condições em que são criados mas de uma qualquer essência cultural que, note-se, nunca é explicada senão através de um conjunto de estereótipos ignorantes sobre o "outro".
Mas a grande discussão por detrás da "cultura" é claramente económica. Atribuindo à cultura a responsabilidade de muitos problemas quotidianos, anula-se qualquer ideia de repensar os serviços sociais do Estado. Ao Estado, deste modo, cabe defender a "boa cultura", o que implica quase sempre a lei e a ordem. Não tendo os problemas uma origem social não há razão para parar a progressiva erosão da participação do Estado social na vida dos cidadãos.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Paris

Os senhores que controlam a economia do mundo e seus modelos dominantes deviam olhar para a história e começar rapidamente a acabar com a conversa sobre o colapso do Estado Social e de suas instituições. Se não o fizerem, pode ser que a coisa comece aos poucos a correr realmente mal. Nisto, os franceses costumam ter algum pioneirismo. É esperar.

Karagounis

Jornalistas e comentadores de futebol esquecem-se por vezes do poder que têm como intermediários da informação sobre o jogo para um público vasto. Partindo muitas vezes da sua ignorância crassa sobre os fundamentos do jogo, proferem sentenças sobre jogador A ou jogador B, arriscam interpretações sobre o modo como jogam as equipas e sobre as opções dos treinadores e as exibições dos árbitros. Muitos vezes terão razão, mas há outras em que não têm. Discordo quase totalmente do que se tem dito sobre o jogador do Benfica Karagounis. Embora esteja fora de forma física e por vezes faça uma finta a mais, Karagounis é dos poucos jogadores que levanta a cabeça para analisar o espaço, que hesita antes de passar porque quer fazer a melhor opção, que ataca os jogadores contrários de frente e que faz quebras de movimento que abrem espaços e confundem os adversários. Neste aspecto é um jogador raro. Há o perigo, já evidenciado no estádio da Luz, do jogador ser queimado pelo público, como muitos já foram, e como outros, como Geovanni ou João Pereira, estão a ser. Se os jornalistas e comentadores continuam a incendiar os espectadores não faltará tempo para que a vida de Karagounis se torne um inferno. Infelizmente, por ignorância.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Riquelme

Na ressaca da derrota, entre o desgosto do resultado e a má exibição do Benfica, que nunca conseguiu encaixar no esquema dinâmico do adversário, resta a alegria de ver jogar Riquelme, o argentino do Villareal . Atleta estranho, atípico nos tempo que correm, sem a competitividade de um campeão, algo lento, Riquelme olha o jogo de cima, diverte-se a fazer passes difíceis, gosta de adornar as jogadas, de executar mais uma finta, de provocar os adversários com a sua imbatível destreza técnica, de tocar na bola e de dançar como ela como poucos conseguem. Um número dez numa altura em que vão rareando. Não é, obviamente, o mestre Diego, mas tivemos um cheirinho.

quinta-feira, outubro 27, 2005

A Manta

A teoria da manta, pese embora toda a sua simplicidade, adapta-se bem para a explicação de certos fenómenos. Um bom exemplo destes últimos são os lucros bancários.
Em Portugal, graças à liberalização e desregulamentação do sistema financeiro português, e o aumento da concorrência no mercado de crédito, ocorreu uma substancial especialização da actividade bancária na concessão de crédito ao segmento dos particulares.
O aumento do rendimento disponível das famílas e a mudança dos padrões de consumo esteve na génese do crescente endividamento das famílias portuguesas. Sobretudo através do crédito à habitação e do crédito ao consumo de bens e serviços, as principais instituições bancárias já nos habituaram a notícias destas (a julgar pelas supeitas veiculadas dos últimos tempos, a fraude e o branqueamento de capitais também dão uma ajudinha para compor o retrato...).
É aqui que a teoria da manta nos surge útil, pois a mesma teoria preconiza que se se tapa com a manta um lado, destapa-se o outro.
A realidade tem comprovado a teoria da manta, com o nível de endividamento das famílias a superar já, em média (118%), o seu rendimento disponível.
Chega-se à conclusão que no confronto das racionalidades, a racionalidade bancária está a ganhar cada vez mais centímetros de manta, e afirma-se com força crescente, mesmo perante as dúvidas crescentes sobre se os agregados familiares não correm o risco de estarem já excessivamente vulneráveis às alterações das variáveis que determinam a sua capacidade financeira (subida das taxas de juro, desemprego e precarização do emprego, dissolução da estrutura económica de suporte do endividado por divórcio, doença ou morte de um familiar, etc.).
Um dos mais recentes exemplos que tive oportunidade de verificar desta tal racionalidade trata-se do envio, por carta, para o cliente bancário de um cheque já preenchido com um valor determinado para o cliente assim fazer uso dele como bem entender, mediante o pagamento de uma prestação mensal durante 60 ou 84 meses.
Tratando-se de um estratagema deveras acutilante e facilitador do endividamento, quer-me parecer que se a entidade responsável pela regulação da actividade bancária do país, Banco de Portugal, não obviar legalmente estas agressivas formas de assédio ao endividamento, bem pode apregoar a muitos, como São Tomé, para a realização de poupanças, que a julgar pelas evidências estatísticas, a manta vai continuar a cobrir cada vez mais o mesmo lado…

segunda-feira, outubro 10, 2005

1ª página


Ora aí está uma 1ª página, que é como quem diz "hoje, não tínhamos mesmo mais nada para dizer"...

sábado, outubro 01, 2005

Teorias da conspiração

1) Alegre é o candidato invisível do PS às presidenciais. Resguarda o partido da aproximação das forças à sua esquerda e cria, para a segunda volta, uma onda soarista.

2) Fátima Felgueiras é a candidata invisível do PS à Câmara de Felgueiras, aquele concelho que, fruto da boa gestão autárquica, tem 44% da população com saneamento básico. Afinal a senhora sempre saca umas massas para o partido. Deve haver pelo país uma relação inversamente proporcional entre o saneamento básico e o número de Ferraris por habitante.

3) Os Super-Dragões estão bem activos na campanha pela Câmara do Porto.

4) Jorge Coelho é o político mais poderoso do país. O homem e a sua máquina.

5) Os jogadores do Sporting andam a boicotar o Peseiro. Os adeptos da valorosa agremiação leonina preparam-se mais uma vez para destruir o clube. Despeçam o homem que fico contente. Felizmente o país anda tão mau que já não há nada que nos envergonhe no estrangeiro. E a Suécia sempre é um país decente, com uma boa segurança social, florestas viçosas, os Abba, etc

6) Cavaco afinal não se vai candidatar.

7) Santana avança

8) Santana ganha

Chega de férias

Só um blog sem patrão para ter quase dois meses de férias. Nada mau nos tempos que correm

quarta-feira, agosto 17, 2005

Respondo pelo que Faço

É comum no períodos das campanhas eleitorais levantarem-se as vozes de discordância com os gastos propagandísticos que os partidos políticos esbanjam para a eleição dos seus candidatos. Sendo aparentemente legítima esta inferência, também é verdade que, por vezes, sob o fundo mais visível de gastos aparentemente supérfluos, uma campanha eleitoral pode constituir-se como uma decisiva alavanca de crescimento económico.
A quem tal asserção lhe parece despropositada e mesmo ridícula, aconselha-se uma visita por estes dias à capital da Beira Alta, Viseu.
Na senda de acompanhar o forte ritmo de jogo imprimido pelo candidato socialista à câmara local, em termos propagandísticos, o actual presidente da edilidade, Fernando Ruas, e candidato a mais um mandato, decidiu responder ao pontapé de saída socialista e avançou com a colocação de cartazes em todo o concelho, sob o slogan “Respondo pelo que Faço!”.
Naturalmente, o dever da disseminação deste slogan por uma miríade de rotundas construídas ao longo dos mandatos pelo candidato fez subir imediatamente as resmas de papel produzido pela Portucel, e os consequentes lucros desta empresa, traduzíveis no aumento imediato da sua cotação em Bolsa.
Deu ainda um impulso fundamental à industria metalomecânica local para o fabrico de barras metálicas de suporte aos mesmos cartazes e conseguiu, simultaneamente, reduzir os números do desemprego, ao presidir à contratação de 12 trabalhadores locais, os quais divididos por dois turnos de 8h tentam assegurar com a maior brevidade possível a cobertura de todas as rotundas com pelo menos um cartaz afixado em redor. Prevê-se que até final do mês de Agosto os seus esforços sejam coroados de êxito.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Escoteiros

Está tudo doido. Uma greve de uma empresa de refeições no aeroporto de Heathrow. Alguns voos foram atrasados. Uma comitiva de escoteiros portugueses. Devido à situação, os escoteiros tiveram que dormir no aeroporto e regressar no outro dia de camioneta. A RTP fez várias reportagens sobre o sucedido e foi ainda esperar a camioneta à fronteira. Lá estava também a mãe de um escoteiro. A jornalista perguntou-lhe pelas horas de angústia e sofrimento e a senhora com um ar pesaroso confirmou. O chefe dos escoteiros também disse que havia uma pessoa que precisou de ser medicada. Lá se viu o plano de um mocetão com um ar saudável a tomar comprimidos. Há pachorra para isto? Sofrimento é dormir na rua e levar com um tijolo na cabeça. Angústia é continuar à espera do ponta-de-lança. Os escoteiros deviam estar mas é a fazer sandes de queijo para as pessoas no aeroporto; aposto que nas imediações estavam várias velhas a querer passar uma estrada provavelmente perigosa. Os escoteiros são um pouco como as tunas, não se percebem para que é que servem.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Marco e os outros

É verdade que Marco Chagas é um excelente comentador. A apreciação às suas qualidades é mais do que justa. Há uma volta à França com Marco Chagas e outra volta à França sem o Marco Chagas. Refira-se ainda que a RTP sempre teve um excelente naipe de comentadores desportivos, com a óbvia excepção do futebol. No vólei o Fiúza Fraga, no basket o João Coutinho, o da selecção da Jugosnávia, e o mais discutível Carlos Barroca, com o seu estilo NBA, no andebol o João Barata e outro indivíduo de que não me lembro o nome, no rugby o incomparável Cordeiro do Vale sempre em directo de Murrayfield ou de Twickenham, no atletismo o Jorge Lopes e o excelente Luís Lopes (podemos ouvi-los na RTP e Eurosport, respectivamente, na cobertura dos mundiais de atletismo que se realizam em Helsínquia) no hipismo o coronel Jorge Mathias e, apesar de não me lembrar outra vez dos nomes, recordo-me dos bons comentários do ténis (Moura Diniz, será?) e da ginástica desportiva. Estes comentadores têm quase todos uma característica: sabem do que estão a falar. Porventura uns serão mais especializados do que os outros, mas todos conseguem estabelecer a preciosa ligação entre um conhecimento especializado e o espectador leigo. Curiosa e tristemente nunca tal coisa sucedeu com o futebol. O desporto-rei continua entregue a curiosos, jornalistas pouco competentes para a função, personalidades mediáticas e outros membros de uma fauna que raramente conseguem ligar duas frases seguidas. Alguns executam o trabalho positivamente, mas sempre sem o brilho dos comentadores das modalidades que a RTP nos habituou a ouvir.

quarta-feira, agosto 03, 2005

A página arrancada do antigamente

Continua no jornal Público a novela relativamente ridícula das páginas arrancadas e dos livros queimados. Qualquer dia, seguindo este politicamente correcto cozinhado numa calma dos trinta anos depois, ainda alguém sugere excitado que se deveria ter preservado, para pesquisa histórica, o próprio regime.

A espera

E o ponta-de-lança senhores, o ponta-de-lança? Quantas manhãs mais os seis milhões vão ter que acordar numa expectativa eternamente defraudada?

sexta-feira, julho 29, 2005

Partidos e Media

Com a aproximação das eleições autárquicas, tem sido possível constatar o aumento de frenesim na actividade dos vários candidatos e partidos, primeiro na disputa do melhor “boneco” para os cartazes, depois na divulgação das mensagens nos espaços de antena que as televisões concedem e em breve nos decisivos debates televisivos entre candidatos, nomeadamente das duas principais cidades.
Para os eleitores indecisos de Lisboa e Porto, será essencialmente na ágora televisiva que se irão dissipar as dúvidas quanto ao sentido de voto no candidato a escolher. Representante maior dos media, a televisão, simultaneamente, é o principal instrumento difusor de informações das nossas sociedades e o campo de batalha principal pelo poder.
Quem está fora dos media, apenas reside num limbo político. Sem os media, e principalmente a televisão, não é possível adquirir ou exercer poder, daí estes se terem vindo a tornar nas últimas décadas o espaço privilegiado da luta política.
Graças ao efeito convergente da crise dos sistemas políticos tradicionais e do acréscimo do grau de penetrabilidade dos media, a informação e a comunicação políticas têm sido crescentemente dirigidas aos destinatários através dos media, daqui sucedendo que sendo o acontecimento político um processo aberto, a sua organização esteja enquadrada pela lógica pelos media.
Em virtude dos media privilegiarem a comunicação simplificada, o efeito desta convergência traduz-se inevitavelmente na personalização das opções políticas e partidárias, dificultando acesso dos partidos aos media. Os partidos deixam de ser a principal fonte de influência de opinião dos cidadãos, em prol de fontes externas ao sistema político, como os media, e, consequentemente, o fosso entre partidos e cidadãos aumenta.
Com o aprofundamento desta distância, é tanto o exercício de cidadania quanto a vivência democrática que ficam seriamente abaladas.

quarta-feira, julho 20, 2005

A Justiça bicéfala

Numa excelente peça jornalística, Sofia Pinto Coelho, na SIC, procurou perceber se existia, ou não, uma justiça bicéfala, que trata ricos e pobres de forma diferente. Falou com um cidadão que foi condenado a seis anos de prisão por um desfalque de 600 mil euros (ou coisa parecida). Comparou, depois, o caso deste homem com os mediáticos processos da Universidade Moderna e de Vale e Azevedo. Concluiu que embora os montantes dos desfalques nestes últimos casos tenham sido muito maiores do que na situação precedente, as penas foram mais leves. Mesmo crime, penas diferentes. A diferença, claro, passa por um bom aconselhamento jurídico, pago a peso de ouro. O homem que desviou os 600 mil euros afirmou à jornalista que, se soubesse, tinha roubado muito mais, poderia assim pagar a um bom advogado e ainda ficar com uma simpática reforma ao fim de três ou quatro anos.

Dois artigos e uma leitura

1- André Freire, no Público (15/7), analisou as desigualdades na distribuição dos sacrifícios que estão a ser feitos para domesticar o défice público. O primeiro grande instrumento de combate ao défice foi o aumento do IVA: toca a todos. Aumentou também o imposto sobre o tabaco e sobre os combustíveis. Depois houve um esforço para reduzir alguns benefícios sociais, nomeadamente na função pública. Seguiu-se o aumento da idade de reforma. Freire nota, porém, que alguns grupos de interesse dentro do funcionalismo público, essencialmente alguns altos quadros de empresas públicas e algumas corporações mais fortes, saíram quase intocados por este esforço colectivo. Mais escandaloso é o modo como o governo remete ao factor trabalho a tarefa solitária do equilíbrio do défice. O PS chumbou, refere Freire, no dia 2/6/2005, uma proposta de lei que limitava o sígilo bancário, arma fundamental da administração fiscal. Os benefícios fiscais para as grandes empresas continuam a pulular impunemente, o que implica cortes drásticos nas receitas do IRC. Portugal tem, no quadro europeu, a maior diferença entre as taxas nominais e as reais no que respeita à cobrança do IRC. Isto é, o factor capital foi grandemente poupado nos esforços para equilibrar o défice. Isto leva-me a outro artigo.

2 - António Barreto, também no Público (17/7/2005), escreveu, em resposta a considerações feitas por Vasco Pulido Valente, um artigo sobre as elites nacionais. Para Barreto as elites são grupos dirigentes do país que podem assumir várias formas: "Há elites cultas e incultas; autónomas e dependentes do Estado; democráticas ou autocráticas; esclarecidas ou predadoras; activas ou parasitárias; e de esquerda ou de direita." Acrescenta que as elites não se confundem com as classes altas mas normalmente provêm delas. Continua Barreto: "Com a excepção de grande parte dos intelectuais e artistas, assim como de uma porção de políticos, as elites portuguesas são geralmente de direita. E muito dependentes. Precisam do Estado, não da população. Fizeram fortuna, têm negócios, compram e vendem, aprendem e exprimem-se graças ao Estado, não à população ou a si próprios." Barreto não poupa também o que chama de elites de esquerda, embora, pela sua posição social, lhes atribua menos responsabilidades.

Claro que podemos contestar a linha de divisão entre esquerda e direita proposta por Barreto. Concordemos, porém, que é o capital económico que genericamente domina a elite de um país com uma economia liberalizada.
É este capital económico, vastamente ignorante, 500 vezes mais parisitário e nocivo do que qualquer funcionalismo público pretensamente preguiçoso, capital incompetente (no sentido das próprias leis de mercado e da concorrência), que escapa praticamente incólume ao sacrifício do défice. Temos uma classe política autónoma, minimamente independente do poder económico? Não. Como se costuma utilizar na gíria do futebol, estamos sempre a beneficiar o infractor.

segunda-feira, julho 11, 2005

olhó comboio

No segundo canal, no programa Clube de Jornalistas, Luís Osório acabou de afirmar que é um tormento horrososo andar de comboio na linha de Sintra. Vou mudar para a Fátima Campos Ferreira.

A alma lusitana descodificada

No fim da primeira parte do décimo-nono "Prós e Contras" dedicado ao estado da nação, Fátima Campos Ferreira anunciou que na segunda parte, daqui a poucos minutos, vamos chegar à essência do ser português. Estou com alguma esperança de que não haja segunda parte, mas infelizmente tudo indica que o disparate vai continuar.

sexta-feira, julho 08, 2005

Golfe

Há por vezes situações em que os sintomas manifestados são de molde a fazer qualquer comum mortal baixar os braços. Este aqui , então, é demasiado pungente!
Quando se lê que o Golfe é a modalidade desportiva que denuncia a maior percentagem de casos postivos de doping (1,67% de casos positivos), conquanto possua um baixo índice de controlos efectuados, superando as violações dos regulamentos anti-doping do Atletismo, Ciclismo e Halteriofilismo, o espanto assola-nos de imediato o espírito sobre os caminhos da verdade desportiva na contemporaneidade!
Por que carga de água se dopam os golfistas? Para darem as tacadas com mais força? Para andarem pelos greens mais depressa? Para saltarem mais alto as vedações dos campos para irem buscar a bola quando esta excede os limites do campo?
Como alguém costuma dizer, enfim, só coisas que me atormentam!

quarta-feira, julho 06, 2005

O arrastão do cimento

O jornalista Alexandre Vale publicou, na última edição do Notícias da Amadora, uma excelente análise sobre as movimentações imobiliárias no concelho amadorense durante a regência do socialista Joaquim Raposo. Com 175.872 habitantes, contas de 2001, a Amadora tem a maior densidade populacional do conjunto dos oito concelhos da Grande Lisboa, com 7.586,6 indivíduos por km2. (Segue-se Lisboa, com 6.496,5 habitantes por km2). Apesar desta situação, a Câmara da Amadora já aprovou projectos que, nos próximos anos, vão trazer para o concelho mais 60 000 pessoas. Nalgumas regiões começam a existir problemas de poluição. Em quase todas as freguesias já não há espaço para um jardim, apesar das juntas socialistas chamarem de "espaço verde" qualquer rectângulo de erva com 3m2. A imaginação poderosa do nosso construtor civil, com o aval camarário, transforma qualquer espaço exíguo em terreno urbanizável: em cima de estradas, cortando jardins, fazendo subir prédios encavalitados sobre prédios, etc. A última da Câmara da Amadora é anuir a construção de mais alguns fogos no espaço que hoje é ocupado pelo Estádio do Estrela. Alexandre Vale destrinça todos os negócios e avança com o nome dos construtores civis. Estima ainda que o lucro destes negócios possa atingir os 100 milhões de contos. Claro que a discussão nas próximas eleições vai-se centrar nos roubos por esticão, no furto do telemóvel, na ameça proveniente dos bairros problemáticos. O habitual.

segunda-feira, julho 04, 2005

A internacionalização do político português

Depois do taxista, do pedreiro, das auxiliares de limpeza (como agora se diz), do assalariado agrícola e do futebolista, o país começou a exportar políticos. A coisa corre mal por duas razões. Primeiro, nós precisamos é de importar políticos: se sobrar alguém na Suécia, ou na Dinamarca, mandem cá para baixo para o rectângulo. Imaginem um sueco à frente de Marco de Canavezes ou de Felgueiras. Segundo, a performance do político português tem sido decepcionante. Do caso Barroso todos sabemos. Mais recentemente há o Guterres nos refugiados. Alguém consegue explicar quais são as credenciais de Guterres para estar à frente de uma Comissão que trata dos problemas dos refugiados. Só Deus e os seus representantes na terra podem explicar tão estranha nomeação. Os jornalistas internacionais estão espantados com a fluência verbal do novo alto comissário. Os refugiados devem andar preocupados.

Monteiro superstar

Tiago Monteiro lá terminou brilhantemente o Grande Prémio de França no 13.º lugar. Note-se que, se tivesse sucedido nesta corrida algo parecido com o que se passou na corrida anterior, isto é, se 14 carros tivessem desistido, Tiago teria ficado em -1, o que seria inédito e verdadeiramente extraordinário. Mais uma prova que somos um povo de eleitos.

Índice de asneira

"Se houvesse um índice que medisse a quantidade de asneiras que saem nos jornais, não havia quem batesse os jornais desportivos."

Há que considerar o Expresso.

domingo, julho 03, 2005

Os liberais

O Congresso dos EUA demonstrou o seu desagrado pela tentativa de compra, por parte de uma empresa estatal chinesa, da empresa petrolífera americana Unical. Consideraram os congressitas que a proposta do oriente constituía um perigo para a soberania dos EUA. Um olhar mais cuidado sobre a economia americana é suficiente para perceber que este caso não é único. Um sem número de medidas proteccionistas favorece as empresas americanas e o agente destas políticas é o Estado americano. Apesar da propaganda liberal, os EUA crescem à custa da intervenção estatal. É seguro apregoar o liberalismo quando as vantagens nas trocas estão protegidas. É por isso que o governo brasileiro pede a liberalização das trocas de produtos agrícolas. A intervenção do Estado americano está longe de ser apenas económica. Repare-se nos processos políticos recentes em algumas repúblicas da antiga URSS, repare-se, mais nitidamente, nos processos militares no Médio Oriente. É o Estado que abre o caminho aos desejos insaciáveis da economia. Liberal, mas não tanto.

quinta-feira, junho 30, 2005

O Adeus de mais um Resistente

«A liberdade nasce com a aurora da Humanidade, é uma necessidade intrínseca do progresso e caminha a par da dignidade humana. Sem dignidade não há liberdade e por isso as ditaduras não se sustentam a não ser pela força».
Emídio Guerreiro

A aquisição

Sem a arte do sorvete caseiro criado pela mão do artífice, o novo corneto manga/cenoura da Olá é uma aposta segura da indústria dos gelados para este ano. Esperemos que se aguente para a próxima temporada, não prosseguindo na senda do triste calvário do Fizz Limão.

quarta-feira, junho 22, 2005

Football Club United of Manchester

A recente criação de um novo clube por parte de um grupo de adeptos dissidentes do Manchester United, em sinal de desagrado provocado pela compra da maioria do capital do famoso clube das Midlands pelo magnata norte-americano Malcolm Glazer, surge, indiscutivelmente, como um grito de alerta e revolta para o perigo de desvirtuação da identidade clubística e de valores do jogo que ameaça corroer algumas agremiações futebolísticas espalhadas por essa Europa fora.
Tornado o clube mais rico do planeta na década de 90, e historicamente expoente máximo da globalização da indústria futebolística, o United tornou-se recentemente alvo de atracção por parte daquele multimilionário norte-americano, o que não sendo uma novidade nos dias de hoje, distancia-se ainda assim de casos semelhantes, como o Chelsea, por ter sido accionado por parte de um indivíduo garantidamente sem qualquer vínculo emocional ao jogo ou ao clube. Creio ter sido a partir daqui que boa parte da revolta se instalou entre os adeptos dissidentes.
Ao invés do que sucedeu com o Chelsea de Abrahamovic, por exemplo, um clube de bairro, habitualmente arredado de feitos de relevo alcançados nos relvados, que não desperta grande fervor na velha Albion, o United é um clube com expressão por toda a ilha, recheado de proezas futebolísticas ao longo do seu tempo de vida e detentor de um rico historial de atletas célebres, alguns deles a quem a vida foi tragicamente ceifada nos céus de Munique.
A sua eclosão primordial deve-se à vontade de um grupo de trabalhadores dos caminhos de ferro, operários ferroviários, que no século 19 viam no jogo uma forma não violenta de enfrentar de igual para igual a agremiação das elites locais, o City. A marca genética do clube em termos do perfil social dos seus adeptos de base manteve-se com o correr dos anos, não obstante as necessárias nuances introduzidas pela crescente popularidade nacional e internacional do mesmo.
Sabiam os adeptos que o clube era comandado por dirigentes que, apesar da pretensão de progressiva mercantilização da marca e obtenção de lucros, o United continuava a ter à sua frente indivíduos, se não todos, pelo menos alguns, que além de deterem uma visão estratégica do clube como instrumento de receitas globais, possuíam simultaneamente uma adesão emocional incondicional ao clube.
A circunstância de Glazer ser originário de um país que não possui uma tradição histórica no jogo, de nunca ter partilhado a memória colectiva de vitórias, derrotas e tragédias que formatou muitos dos fãs do United, e de provavelmente subestimar esse passado em prol exclusivamente da rentabilidade financeira do seu investimento, terá sido uma gota de água muito grande para a imagem dos ideais de agremiação clubística que seriam intocáveis aos 2600 antigos adeptos do United.
A ver vamos se em breve serão seguidos por outros adeptos, numa tentativa de recuperação da pureza perdida do jogo.

terça-feira, junho 14, 2005

Sobre Álvaro Cunhal

Nos discursos produzidos acerca de Álvaro Cunhal nestas horas após a sua morte nos e pelos media, principalmente por figuras políticas mais ou menos relevantes e pelos agentes dos media, continuam a ser visíveis as marcas da discórdia que a figura de Cunhal foi despertando ao longo dos anos.
Personalidade controversa, não imune a muitas críticas sobre determinados posicionamentos políticos, que, do meu ponto de vista são justas e precisas, entendo que não deve ser na sua morte que se deve vedar a capacidade crítica dos outros se pronunciarem sobre a sua pessoa.
Mas a condição individual de se poder exercer o direito à palavra, em frente a um microfone, num ecrã televisivo ou nas páginas de um jornal, para se apontar o dedo a alguém, atribuindo-lhe acções nefastas e perversas para um determinado processo, deveria pressupor duas obrigações éticas:
- a primeira, pressupõe que cada indivíduo, antes de verberar outro indivíduo, fizesse um juízo pessoal de auto-consciência acerca do seu papel pessoal na situação que critica;
- a segunda, que se tivesse presente na memória toda a cronologia desse alguém, de molde a erradicar selectivivades temporais e comportamentais.
São estes dois preceitos que algumas pessoas não têm tido presente quando se abalançam a tecer comentários acintosos sobre a figura de Álvaro Cunhal. Quando elas invocam unicamente a predisposição do histórico líder comunista no período do PREC para a abolição dos direitos, liberdades e garantias do povo português, devem elas julgar-se a si próprias sobre o comportamento por que se pautaram no passado, porque muitas delas já eram bem crescidinhas no Antigo Regime, e portanto conheciam a "massa" de que este era feito.
Se há julgamento maniqueísta que pode ser feito com à vontade, certamente que deve ser sobre a posição, a atitude e o comportamento individual exercido durante a mais longa ditadura da história nas sociedades ocidentais.
Aí, Cunhal, tem as costas muito largas, como muitos anónimos neste país. Lutou e combateu incansavelmente um regime predador, como nenhum outro na história deste país, dos tais direitos, liberdades e garantias. Arriscou a vida inúmeras vezes e pagou um preço muito caro durante mais de uma década, em que esteve aprisionado.
Ao invés, a História não reconhece aos Ribeiros e Castros e às Marias Josés Nogueira Pintos, a miníma atitude contestária ao regime fascista português. Se a ele se opuseram alguma vez, fizeram-no sentados de poltrona, certamente...
A análise histórica dos acontecimentos, dos factos ou das pessoas postula uma observação diacrónica e total, para não ferir de morte a legitimidade de quem a produz. Relevar no passado apenas aquilo que mais nos convém, ao sabor das conveniências pessoais, além de intelectualmente desonesto, contraria o velho ditado de atribuir a "César o que é de César". E a Álvaro Cunhal não devem ser colados apenas os aspectos mais justamente criticáveis, mas igualmente o papel ímpar e incontornável para que hoje os indispensáveis direitos, liberdades e garantias, estejam constitucionalmente consignados em Portugal.
Felizmente, a maioria dos portugueses, sendo comunista ou não, reconhece justiça a quem a merece.

quinta-feira, junho 09, 2005

Da ofensa

A condicao de ofendido ja serviu melhor a humanidade. Tempos houve em que se ficava ofendido pela iniquidade de regimes politicos, pelas mas condicoes de trabalho, pelo aumento de impostos, pela privatizacao da seguranca social, pela injustica das guerras , pela permanencia das fomes, pela divisao de herancas familiares, pela honra de alguma dama. Mas hoje nao, ha quem se sinta ofendido por causa dos onze rapazes que correm atras de uma bola. E legitimo. Mas qual e a causa da ofensa, se me permitem ser mais especifico? A agremiacao desportiva que apoio, os rapazes de vermelho que apesar de nao jogarem pevide la ganharam o campeonato, foi acusada neste blogue, entre outras coisas, de corrupcao, trafico de influencias, de conluio com regimes fascistas, branqueamento das politicas do novo governo, roubo de patentes (todas com origem no MIT portugues de Alvalade, onde, alias, tambem se inventou a roda), de ser apoiada pelo povo ignaro e alienado e de ser a vergonha de Portugal (como se o Benfica tivesse por obrigacao representar alguem alem dos seus adeptos e associados). Perante este rol digno dos Julgamentos de Nuremberga, a que falta porventura alguma ligacao a Al-Qaeda, eu apenas afirmei, metaforicamente, que os adeptos do Sporting se parecem com melancias, alias um fruto com o qual simpatizo. Convinhamos que nao e assim tao contundente. Claro que a afirmacao peca por generalizacao. Ha adeptos do Sporting que gostam de futebol, que gostam do futebol da sua equipa e que nao definem a sua identidade social por odiarem o outro. As minhas desculpas a essa minoria.

quarta-feira, junho 08, 2005

Chega!

De psicologia e de escrever neste blog. A partir do momento em que se entra no campo das ofensas pessoais - e eu considero ter sido insultado - não faz mais sentido andar por aqui. Cumprimentos.

terça-feira, junho 07, 2005

A Psicologia da Segunda Circular III

Assim de repente, so me interessa falar do Sporting em relacao a um aspecto : o brilhante futebol que o clube do Leao praticou na ultima epoca. Ora ai esta algo que nao me importava fosse imitado no outro lado da Segunda Circular. Curiosamente, nao ouvi a um sportinguista uma palavra, ou li uma linha de texto, sobre este assunto, que, porventura, por raiva ou ignorancia, devem considerar menor. Nas suas cabecas, que se assemelham a melancias, ostenta-se o verde, mas por dentro so se ve o vermelho. Um caso psiquiatrico a que so posso desejar melhoras rapidas.

A psicologia da Segunda Circular II

Emulação...

Quem decidiu primeiro constituir uma Sociedade Anónima Desportiva para o futebol do seu clube? Quem o imitou?

Quem decidiu primeiro construir um novo estádio, ainda antes de se saber que haveria um Campeonato da Europa em Portugal? Quem o imitou?

Quem decidiu primeiro construir um Centro de Estágio para a equipa principal e para as camadas jovens do seu clube? Quem o imitou? (Esta premissa até está a mais, visto que uma 1ª pedra não pode rivalizar com uma obra já construída e inaugurada há três anos. As minhas desculpas.)

Após onze anos de míngua, quiçá já perdido num recanto obscuro da memória o local onde se comemoravam os títulos, onde se comemorou o título 2004/05? No local de comemoração por excelência do clube rival. Sob o olhar do majestoso leão do Marquês.

Conclusão: Afinal parece não ser tão inimaginável assim que também para os lados do Colombo, se perca até mais do que um minuto em considerações sobre o que se faz do outro lado da rua...

segunda-feira, junho 06, 2005

A psicologia da Segunda Circular

No outro dia, uma apresentadora de radio inglesa anunciava com alguma emocao que uma sondagem sobre a opiniao que os europeus tinham dos franceses indicava que estes eram considerados arrogantes, chauvinistas, malcriados etc, etc. Descendo na escala da sondagem, a locutora passou a enunciar aquilo que os ingleses achavam dos franceses. Os adjectivos tornaram-se mais carregados. De seguida, perguntou a uma representante da embaixada francesa em Londres o que achava da dita sondagem. A senhora, num ingles com sotaque vincado, sorriu, e agradeceu espantada a dedicacao que os ingleses prestavam ao seu povo, garantindo ainda que em Franca era inimaginavel que se perdesse um minuto em consideracoes sobre os ingleses.

sexta-feira, junho 03, 2005

Já à venda... numa loja perto de si.

A colectividade à qual foi entregue o título de campeão nacional de futebol já colocou à venda os equipamentos para a próxima temporada. Estão disponíveis as indumentárias de jogador de campo, guarda-redes, árbitro e fiscal-de-linha. Os dois últimos não têm chuteiras incluídas.

quinta-feira, junho 02, 2005

Dias Mundiais

Desengane-se quem pensou que a proposta de criação do "Dia mundial da criança por nascer", foi a única novidade dada a conhecer pelo CDS-PP, ontem em conferência de imprensa.
Inspirado pelo suplemento satírico "Inimigo Público", este partido pretende implementar doravante a comemoração institucional de mais algumas efemérides, que "se não aconteceram podiam perfeitamente ter acontecido". São elas:
- o dia da vitória da equipa de ciclismo do Sporting, no dia 14 de Abril de 1947, na clássica do ciclismo nacional, Alenquer-Mafra;
- o dia da descoberta de Penicilina, pelos irmãos Correia, residentes no Sabúgal, no dia 19 de Novembro de 1928;
- o dia da derrota das forças malignas comandada por Darth Vader, na Batalha de Melgaço, em 8 de Janeiro de1989;
- e por fim, o dia da fundação do CDS, no dia 19 de Julho de 1974, por Basílio Horta.

quarta-feira, junho 01, 2005

Sô Nicolau

Desde há longos anos é uma aparição nocturna habitual na Estrada Nacional 337/1. Não é um vulto estranho naquele período, pois que a sua actividade profissional exige que ele se faça à estrada durante a noite. Padeiro há muito anos, o Sô Nicolau pedala diariamente, pelas bordas do alcatrão, uns bons quilómetros na sua eterna e inconfundível bicicleta amarela, desde a aldeia de Tondelinha até Viseu, ainda que perigosamente o faça sem iluminação no seu veículo...
É um percurso relativamente sinuoso, com um subida considerável quando se vai em direcção a Viseu, mas quando a força para pedalar esmorece o Sô Nicolau continua sempre, caminhando e levando a bicicleta à mão, à chuva, ao frio ou ao calor. Se há algo que não se pode acusar o Sô Nicolau é de fazer gazeta aos seus compromissos profissionais.
Para sempre marcado por uma doença que em criança o atacou (consta que terá sido a meningite) e que nele deixou sequelas permanentes, o Sô Nicolau precocemente viu morrer o seu pai, ficando a cargo da mãe até à falecimento desta. Com o desaparecimento da progenitora, o Sô Nicolau ficou entregue a si próprio numa época em que o apoio e a assistência médica e material eram um privilégio ao qual a sua condição social não permitia aspirar.
Alguém que acreditou na sua capacidade, não obstante a perda de faculdades mentais que assolou o Sô Nicolau após a doença, empregou-o como padeiro. Até hoje, continua a abraçar a mesma profissão que o ocupa na maior parte do tempo, seja na actividade propriamente dita, seja nos tempos de deslocação para o local de trabalho. O resto do seu tempo é passado em confraternização com os seus conterrâneos e cumprindo rigorosamente dois rituais, que, passe o pleonasmo, são o pão de muitos dos seus dia-a-dias:
Marcar presença em todos os funerais de da freguesia, ainda que o faça, por vezes, com alguns minutos de atraso, que o obrigam a acelerar vertiginosamente a velocidade com que se desloca, proporcionando a execução de manobras na bicicleta somente ao alcance de poucos, cabriolando por entre magotes de pessoas e fazendo rápidos piões para saltar da bicicleta em movimento e assim mais rapidamente chegar à Igreja, e vestir o seu fato domingueiro no respectivo dia.

segunda-feira, maio 30, 2005

Ontem houve uma... dobradinha!

Mas esta não merece parangonas nos periódicos ou abertura de telejornais. O Sporting Clube de Portugal conquistou pela terceira vez consecutiva a Taça de Portugal em Andebol, ao bater o Francisco de Holanda por 27-26, em Tondela. Junta assim a Taça de Portugal ao título de Campeão Nacional conquistado há duas semanas atrás, cimentando o seu palmarés na modalidade.

domingo, maio 29, 2005

Panem et Circenses

Não demorei muito a compreender a função social da encomenda do título nacional ao SLB. Surpreendentemente (ou talvez não) dois telejornais das 20h00m, no dia 23 de Maio abriram com os 6,83% do déficit, em vez de mostrarem a festa dos 14 milhões de adeptos da "instituição", isto de acordo com um estudo recente, rigoroso e científico, onde fiquei a saber que existem 100.000 benfiquistas na Indochina.

O povão está feliz e contente e, por essa razão, Sócrates pode sentir-se à vontade para pedir os maiores sacrifícios às bolsas dos portugueses que não vão dar muito por isso. Afinal de contas, o "enfique" é campeão. Panem et Cirsenses. Nem os Romanos o fariam melhor.

PS - O penalty que dá o 1-0 ao SLB na final do Jamor é mais um para juntar ao rol das "encomendas expresso". No tempo de Salazar ainda se tentava disfarçar um bocadinho... Viva o "enfique"!!

sexta-feira, maio 27, 2005

Cidadania Local

Aqui há uns dias atrás os canteiros situados na rua Visconde de Santarém, junto ao Arco do Cego, em Lisboa, de um dia para o outro transfiguraram-se em termos do seu aspecto. Para alacridade de quem por lá muito perto diariamente se colocava para apanhar os transportes públicos, os canteiros anteriormente inundados de lixo e dejectos de animais transformaram-se, quase por passe de mágica, em espaços relvados e desprovidos de imundice.
Estranhei, mas entranhei positivamente, a súbita alteração da “paisagem”. Desconhecia, contudo, era que a nova cara dos canteiros tivesse contornos que quase se perdiam de antanho...
De acordo com a revista Única do fim de semana passado do jornal Espesso, a transfiguração ocorrida havia já sido solicitada pelos moradores por diversas vezes para ser embandeirada pelos serviços competentes da CM Lisboa. A resposta da Câmara aos apelos populares, todavia, foi um silêncio persistente.
Entretanto, preparava-se para se instalar neste mês um cartório notarial naquele local, e a sua proprietária, assustada com o panorama circundante, seguiu o exemplo dos moradores na busca de uma solução para a limpeza do espaço em redor. Segundo a versão narrada pela jornalista, a CM Lisboa pautou novamente a sua conduta pelo mutismo.
Cansada de silêncios persistentes e arrastados, a proprietária meteu mãos à obra e contratou uma empresa para ajardinar o espaço, empreitada pela qual pagou 2000 euros, a que acresce o preço da rega diária do mesmo que a funcionária do cartório leva a cabo logo pela manhã.
Confrontada pela jornalista com a resolução popular daquele imbróglio paisagístico, a vereadora que detém o pelouro do Urbanismo declarou que a CM de Lisboa encarava a solução adoptada com “tolerância simpatizante”...
Melhor do que a condescência forçada pelas evidências, ficaria melhor à senhora vereadora a interiorização da ideia de que se a paralisia funcional das instituições não fosse tão marcante, certamente as iniciativas populares desviantes da lógica de procedimentos burocrático-formais não tivessem de ser accionadas com tanta acuidade...
Neste caso, para quem conheceu o espaço até há bem pouco tempo e agora relança sobre ele novamente os olhos, só pode concluir que a cidadania local é uma qualidade que a todos deve assistir, é um direito inalienável de sensibilização e pressão sobre as instituições responsáveis pelo zelo e administração dos bens comuns e para terem esmero e rapidez no cumprimento das suas atribuições.

terça-feira, maio 24, 2005

Pequeno filme

Passem por esta pagina www.futebolwebtv.pt , no canto inferior direito, ha um link que nos oferece as imagens do golo de Luisao contra o Sporting. Ha uma primeira imagem num plano alargado, a que se segue uma imagem filmada atras da baliza. Vejam esta imagem e depois ajuizem.

Muito me vou eu rir...

Com o SLB a disputar a próxima Liga dos Campeões. Quando o campeão português - ainda me soa estranho escrever isto - chegar à Europa do futebol e perceber que:

- Mário Mendes, Bruno Paixão, Hélio Santos, António Costa e Paulo Paraty não vão poder apitar nenhum jogo da "instituição";

- Os árbitros europeus escolhidos para os seus jogos não se vão esquecer das suas chuteiras;

- Os adversários irão recusar jogar os seus jogos caseiros no Estádio Faro/Loulé.

Prevejo um score final de seis jogos, seis derrotas e algum Portugal muito envergonhado. Afinal de contas, não deixa de ser sintomático que o campeão português foi já colocado pela Uefa no pote 4 para o sorteio da fase de grupos. O pote das fracotas...

segunda-feira, maio 16, 2005

Da verdade

Pelo futebol jogado o Benfica nao merece ganhar o campeonato, embora nitidamente tenha merecido ganhar o jogo ao Sporting. Quanto a ter sido beneficiado, nao o foi nem mais nem menos do que os outros grandes. Todos os clubes tem o seu naipe de queixas. O do Benfica e extenso, e comeca pelo golo de Petit ao Porto na primeira volta. Alguem se lembra? De recordar ainda que, ate ver, o Benfica nao foi investigado por casos de corrupcao, ao contrario de alguns clubes da primeira-divisao: Porto, Boavista, Leiria, Maritimo. Todos inocentes, claro, ate provado o contrario. Mas da suspeita nao se livram. Se o Benfica for culpado de algo que seja condenado, que desca de divisao ou coisa que o valhe. Nao se pode e estar sempre a justificar os resultados por questoes externas ao jogo.

quinta-feira, maio 12, 2005

Novo Slogan BES

- Olha, preciso de abater 2000 sobreiros.
- Já falaste com o teu banco?
- Não, falei com o teu!

quarta-feira, maio 11, 2005

Quem merece ganhar o campeonato

A reposta mais imediata é ... ninguém. Nenhum dos três grandes realizou uma época regular e sólida. Braga, Boavista, Guimarães, Rio Ave, Marítimo fizeram bons campeonatos mas não o suficiente para alcançarem o título. Descartados os critérios da solidez e da regularidade, o eleito terá que ser encontrado pela forma como o seu futebol serviu, ou não, o jogo. Neste sentido o campeão só pode ser um: o Sporting. É me bastante mais simples tecer loas ao futebol Sporting no sossego londrino, longe da excitação da lagartada. Assim, parece-me evidente que José Peseiro foi a grande conquista do futebol português nesta época. O sistema do Sporting não está ainda afinado e às vezes é ambíguo. No entanto, nos jogos a que pude assistir, a equipa jogou um futebol de pé para pé, onde a troca de bola é o esteio do jogo e a forma de controlar o adversário. O jogador tipo deste futebol está primeiramente preocupado com o controlo da bola, com a recepção, com o olhar rápido, a desmarcação, o passo certeiro, as bases de um jogo colectivo envolvente, que retiram ao adversário a posse de bola. Peseiro apostou em artífices do jogo – Barbosa, Viana, Rochemback, Martins, Moutinho - enquanto outros reduzem os criativos a atletas robotizados. A equipa ainda não é sólida, tem momentos em que não funciona e que podem ser fatais, mas Peseiro resolveu arriscar num futebol positivo e, felizmente para o jogo, tem ganho. Lamentavelmente parece que muitos adeptos, seguindo uma onda verde de ingratidão que atingiu homens como Augusto Inácio, ainda não perceberam isto. Se José António Camacho não for o próximo treinador do Benfica, não me importava que Peseiro o fosse, servindo assim o clube do seu coração.

quinta-feira, maio 05, 2005

Espelho meu, espelho meu

Há um sketch do Gato Fedorento, em que um polícia manda parar o condutor de um veículo automóvel para ele se submeter ao teste da Bazófia, consistindo este teste num indivíduo percorrer uma pequena distância de alguns metros em linha recta. No sketch, assim que começa a andar logo o condutor começa a dar uns passos com uns trejeitos muito peculiares, típicos de um “pintas”, inconfundivelmente gabarolas.
Face a esta evidência, o polícia informa o condutor que não poderá seguir viagem devido a ter acusado elevados valores de Bazófia, sendo que por tal motivo não é aconselhável que prossiga em direcção ao seu destino ao volante de um automóvel naquele estado de jactância.
Vem isto a propósito da conferência de imprensa de José que se seguiu ao Liverpool vs. Chelsea desta semana. Instado a corroborar, ou não, uma pronúncia jornalística dubitativa de José ser um treinador especial, José prontamente ripostou e reafirmou novamente o seu dom exclusivo e inigualável para a orientação técnica de equipas de futebol, verberando depois o jornalista e convidando-o a prosseguir uma carreira profissional tão recheada de conquistas como a que ele possui.
A azia britânica de boa parte do mundo jornalístico contra o emigrante português José é por demais notória e vai sendo cuidadosamente exibida após os filmes em que os mesmos jornalistas mais gostam de ver José actuar, mas se o José depois daquela conferência de imprensa fosse fazer o teste da Bazófia, também ficava de certeza com a carta de condução imediatamente apreendida.

terça-feira, maio 03, 2005

Eleições a nível local

Temos sido brindados cá por casa por uma torrente de folhetos partidários que apela ao voto para os órgãos locais. Os Liberais-Democratas venceram as últimas eleições e são o único partido dos grandes que ainda não nos veio bater à porta. O Partido Trabalhista tem sido o mais esforçado. A sua candidata, a anafada Kirsty McNeil, enverga o mesmo sorriso forçado em todos os folhetos do partido. O seu slogan é claro: Lib-Dems soft on crime. O Partido Trabalhista, transformado numa espécie de Partido Justiçeiro, acusa os actuais autarcas no poder de, entre outras coisas, se terem oposto a leis contra o comportamento anti-social, de permitirem que jovens com 16 anos possam comprar revistas pornográficas e álcool, de se oporem a leis anti-grafiti, de não atribuírem penas de prisão por posse de droga, de não concordarem que se enviem criminosos adolescentes para a prisão, etc. A campanha do Labour é pouco mais do que isto. Perante este cenário de guerra, David Branch, o jovem candidato do Partido Conservador, não tem muito espaço para brilhar. Claro que ainda consegue juntar à lista do Labour mais algumas farpas contra a política laxista dos Liberais-Democratas: que poupam da prisão os ladrões que assaltam pela primeira vez, que introduzem educação sexual compulsória para crianças de sete anos, que querem retirar da Grã-Bretanha, para oferecer à Europa, os mecanismos de controlo da emigração, etc. Uns malvados estes Liberais-Democratas. David Branch, que aparece nos folhetos de camisa branca imaculada ao lado do facho que simboliza o seu partido, defende ainda a “livre iniciativa”, a “ambição e a coragem”, mostrando-se contra a intrusão do Estado no quotidiano dos cidadãos, com a excepção, claro, dos 40 000 polícias que os Conservadores querem atirar para as ruas do país. Restam os folhetos dos partidos mais pequenos. A Aliança dos Povos Cristãos aposta em Simi Lawanson, africana, mulher da comunidade. O movimento ganha na questão estética. O folheto transforma-se em poster onde está representada uma árvore onde estão inscritos os valores do movimento. No chão, jazem algumas maçãs podres: a guerra, as mentiras, os impostos altos, a ganância. Por detrás da árvore o cenário é idílico, um rio, umas montanhas, o sol, um céu azul pontuado por algumas nuvens. O desenho é tão simples que podia ter sido eu fazê-lo. Claro que teria que acrescentar aqui a ali, umas vacas, e quem sabe uns peixes no rio e uma montanha com um alpinista que podia ser o João Garcia. Os cristãos têm a vantagem de afirmar que acham que há uma profunda relação entre o crime, o abuso de drogas, o absentismo escolar e o desemprego. São ainda contra a guerra e a pobreza. Mas claro, na onda do bom moralismo britânico, criticam os Lib-Dems pelas suas políticas a favor da legalização da prostituição, da legalização de drogas, da abertura de sex-shops e outras artimanhas do demo. Apesar de tudo podia ser pior. Por fim os Verdes. Storm Poorun é o candidato Verde. Jovem, cabelo comprido, colar de missangas ao peito, está algures entre o jogador de futebol da segunda divisão B e o jovem executivo. Os Verdes apresentam um folheto repleto de fotografias de pradarias, do mar, de searas, maçãs e outros motivos típicos dum espaço urbano como este onde vivemos. As suas políticas são boas, embora relativamente ambiciosas. Depois de afirmar que o seu partido é a verdadeira alternativa ao capitalismo, Storm defende a construção de vias para bicicletas entre outras políticas de esquerda. Apenas os Verdes se escusam à ganga moralista o que os torna relativamente mais suportáveis.