terça-feira, fevereiro 07, 2006

A Fátima

Conhecerá Fátima Campos Ferreira os limites do papel de um moderador. Não perceberá que se o moderador toma descaradamente um partido em certa discussão, parte importante do públicos toma a sua opinião como se a de um juíz se tratasse. Não haverá ninguém na RTP que lhe explique isso, que lhe diga que certas funções não são compatíveis com a ignorância. Não a acho mal intencionada, apenas ignorante. Um exemplo: quando um dos convidados do programa de ontem, o Sheik Munir, bastante civilizadamente afirmou que se deveria, sim senhor, discutir a situação da mulher nos países muçulmanos, Fátima virou-se para a plateia, colocou um daqueles sorrisos auto-confiantes, e disse: sim, sim mas sabe, nenhumas das mulheres desta plateia gostariam de viver num país muçulmano. Porventura isso é verdade. Mas ninguém foi capaz de dizer à Fátima que se tomassemos os resultados dos estudos sobre violência doméstica em Portugal, uma em cada três mulheres daquela plateia já tinha sido alvo de maus tratos, ou para ser mais gráfico, de murros, de pontapés, de violações dentro do casamento. É um assunto que não mereceu ainda um programa. Andará Fátima a dormir? Será que Fátima ainda não percebeu que sua religião, a quem, em outros programas, já prestou fretes que punham em fúria qualquer secularista moderado, não concede os mesmos direitos às mulheres que concede aos homens. Fátima, acorda.

Liberdade de imprensa? II

O programa da RTP Prós e Contras do dia de ontem, sobre os cartoons e a liberdade de imprensa, pago pelo dinheiro dos contribuintes portugueses, foi uma prova cabal que a questão dos cartoons não é fundamentalmente uma questão de liberdade de imprensa. A condução e elaboração do programa foi xenófoba do princípio ao fim. A apresentadora, Fátimas Campos Ferreira, passou o programa a tratar os "muçulmanos" por "eles", "eles fazem", "eles matam", "eles esfolam", "eles não querem", "como é que nós os fazemos mudar", "como é que nós podemos manter os nossos valores se até os Estados Unidos e a Grã-Bretanha cederam e não publicaram os cartoons"; chegou a tratar Maomé por "o Maomé", o gajo. Fátima diria "o Jesus"? Mas a coisa não se ficou pelos apartes idiotas que nem a evidente ignorância da senhora perdoam. As únicas imagem que o programa passou retratavam seres enfurecidos a queimar, a pilhar, a destruir; ou a rezar em grupo como máquinas irracionais. Fátima nunca foi a Fátima? As imagens passaram várias vezes em fundo como ilustrações do que se ia dizendo. Foi absolutamente vergonhoso. Os convidados, exceptuando o inenarrável Vasco Rato, foram bastante mais razoáveis. O público, tristemente, lá aplaudiu algumas tiradas xenófobas, em nome da liberdade de imprensa.

Liberdade de imprensa?

Rute
Lamento insisitir mas a questão da liberdade de imprensa está a ser usada para alcançar objectivos políticos. E é precisamente por isso, basta ter alguma atenção, que o debate já se tornou num debate civilizacional. Não vou repetir argumentos porque se torna cansativo. Mas rebato algumas afirmações. Os países ocidentais não foram apenas complacentes, foram cúmplices e muitas vezes responsáveis directos pela subida de déspotas ao poder. Foi assim no Médio Oriente, foi assim em África, foi assim na América do Sul: Saddam, Mobutu, Pinochet. Apenas 3 nomes. Há pelo menos 30 que podiam ser adiantados. No caso do Médio Oriente os países ocidentais foram absolutamente responsáveis pela forma como processos de secularização que estavam em curso foram travados e revertidos. Note-se o caso evidente de Nasser no Egipto. Não acredito que estejas a confundir o mundo islâmico com a meia-dúzia de pessoas que se manifestou em Londres. Isso é a conversa do Daily Mail. Por outro lado, custa-me ainda mais acreditar nessa perigosa deriva jurídica que parece rejeitar manifestações de rua. As conspirações políticas e os obscuros interesses económicos realmente não existem. Tens razão. A intervenção no Iraque foi feita em nome da defesa dos valores dos países seculares, para derrubar um ditador que os países seculares puseram lá. Faz todo o sentido.

Então?

Gostava de pedir às pessoas que constantemente mudam o aspecto do blogue, sem consultarem os respectivos parceiros, que o parem de fazer. Existe um e-mail colectivo 0nde democraticamente se pode discutir a questão.

Estreou em Portugal ...


... ou aconteceu-lhe o mesmo que a Última Ceia do Herman José?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Monty Python

O que eu queria mesmo era " A vida de Mustafá" pelos Monty Python... A ver o que acontecia...

Agendas políticas de quem?$$$$$$$$$$$$$$$$$

Comecei um post anterior da seguinte forma: "Fazer da questão da liberdade de imprensa, o foco principal dos cartoons do profeta Maomé é cair num erro." Não querendo impor ao leitor uma insterpretação única daquilo que escrevo, duvido que possam existir muitas formas de ler a frase. Assim de repente, apelando ao bom senso, não me parece ter afirmado a inexistência de um problema de liberdade de imprensa, mas apenas que, no contexto específico das relações entre essa coisa a que chamam "ocidente" e os países muçulmanos, os cartoons servem, fundamentalmente, outros propósitos. Um desses propósitos é a brutal redução das sociedades do Médio Oriente a um conjunto de estereótipos ignorantes, base das teorias do choque das civilizações. A situação nessas sociedades foi alimentada pelo apoio dos líderes das brilhantes sociedades seculares a toda a espécie de déspotas fundamentalistas, em nome de uma religião de Estado chamada nacionalismo, cujo interesse mais básico é a defesa de interesses económicos. Aliás, foi essencialmente para proteger esses interesses que os Estados Unidos condenou os cartoons. Resta lembrar que há limites, na minha opinião razoáveis, à liberdade de imprensa. A Constituição Portuguesa, por exemplo, proíbe propaganda racista. No contexto de um jornal de extrema-direita, não é totalmente claro que, junto com determinados textos de opinião xenófoba, não se possa considerar alguns dos cartoons perto de um patamar de intolerância que sei ser difícil definir. Considero-me um ocidental. Mas há muitas espécies de ocidentais, embora quase todos de sociedades seculares: os responsáveis pelo holocausto, os que colonizaram e escravizaram África, os que atiraram bombas atómicas, etc. O brilhante ocidente tem memória curta. Era bom que os seus cidadãos olhassem os fenómenos como questões complexas, em vez de os abordarem através de histerismos inconsequentes.

Gozar com Deus I

domingo, fevereiro 05, 2006

Agendas políticas de quem?

Fazer da questão da liberdade de imprensa, o foco principal dos cartoons do profeta Maomé é cair num erro. Independentemente do bom ou mau gosto dos cartoons, não havia razão para censura, embora, como alguém sugeriu, e de forma indirecta, possam ser considerados uma manifestação de xenofobia, realizada através de uma perigosa generalização: "todo o muçulmano é terrorista." Outra perigosa generalização é tomar o mundo islâmico pelas pessoas que se manifestaram violentamente nas ruas de Beirute e de Damasco. Foi assim, porém, que as televisões retrataram o acontecimento, reificando a famosa bipolarização entre "nós", o mundo ocidental, e eles, os muçulmanos. Noutra formulação, os racionais e os irracionais. A agenda extremista do ódio parece ter ganho mais uma batalha. Gostava de perceber, no entanto, o percurso que mediou a publicação de uma dúzia de cartoons num pequeno jornal da extrema-direita dinamarquesa e o incendiar da situação em alguns países muçulmanos. A quem interessa que as opiniões extremistas, que partem de uma ignorante bipolaridade, sejam banalizadas entre as populações dos dois pretensos blocos? A ocidente, a situação beneficia quem sabe ter perdido a opinião pública a propósito da importante questão da guerra. No mundo islâmico, serve o crescimento das bases do fundamentalismo. O extremismo, dos dois lados, tenta ganhar o centro político e a opinião pública. Receio que tenhamos caído na esparrela.

Fomos roubados ...


.... pelos deuses deste desporto infâme chamado futebol.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Direito Criativo

Pode discutir-se o sentido do casamento. Mas isso, por enquanto, é discussão de café. Dito isto, não vejo por que raio o Estado, ou a Santa Madre Igreja, tem que meter o bedelho nas opções privadas das pessoas, dando direitos a uns e tirando direitos a outros. Vai ser muito interessante ver os constitucionalistas cujas opções ideológicas e religiosas são contra uniões entre pessoas do mesmo sexo a tentarem reinterpretar originalmente pressupostos constitucionais que não oferecem muitas dúvidas a um leigo. Já conhecíamos o interessante fenómeno da contabilidade criativa, mas sem dúvida que há poucas áreas como o direito, em que a criatividade atinge níveis tão altos.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Leite matinal

A blogosfera nativa é um sítio interessante. E estranhamente pequeno.
E o 1.º prémio Grupo do Pato para o melhor blogue português vai para ... o Grupo do Pato.

Economês versão XIS

A revista de economia que o jornal Público faz sair às segundas-feiras procura fugir ao cinzentismo, termo comum para designar tudo o que não seja moderno e sobretudo não venda, típico dos suplementos de economia. A ideia de traduzir o economês para os leigos é meritória, mas o modo como foi ensaiada na revista DiaD é pouco mais do que lamentável. A leveza desejada tornou-se num facilitismo idiota que trabalha através de um grafismo colorido, muitas fotografias e rubricas de mau gosto. Pior do que a forma, só mesmo o conteúdo. A DiaD representa uma visão unilateral da economia, onde não há discussão de ideias mas apenas o vomitar de uma cartilha, ainda por cima pouco imaginativa. Em todos os números se faz o funeral dos serviços do Estado, apontando-se a sua rápida privatização. Faz-se uma publicidade descarada a investimentos financeiros privados. Publicidade não paga. Apontam-se exemplos de jovens liberais de sucesso, com histórias de vida preenchidas pela passagem por boas universidades e a posse de bens materiais. É pena, porque era realmente necessário bom que se conseguisse divulgar e discutir de forma inteligente o economês.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Um jogador "à antiga"


A "era dos extremos" que actualmente se vive no futebol português, com 1 ou 2 clubes endinheirados, ou pelo menos a dar essa aparência, com alguns a mostrarem-se, por fim, em asisada contenção, e com outros a falirem ou a caminho disso, aparecendo nos media como habituées incumpridores das obrigações salarais para com os seus atletas, pode trazer consigo uma virtualidade: um "regresso ao passado", entendido como retorno a uma busca da procura do jogo enquanto actividade prazenteira, capaz mesmo de obrigar a alguns sacrifícios pessoais na vida em prol do gozo extraído da sua prática.
Exemplo do que foi acabado de dizer pôde ver-se ontem, ao final da tarde, na estação de camionagem de Viseu, onde, recém-chegado de Vila Nova de Paiva, local de disputa nessa tarde de mais um jogo a contar para o Campeonato Distrital da 1ª divisão, estava um jovem envergando um equipamento desportivo do novo Academico de Viseu, Semedo Domigos de seu nome, e que havia alinhado na equipa viseense como defesa central nessa partida.
Até aqui nada de extraordinário, a bem dizer, se pode retirar da história. Todavia, se soubermos que o citado jogador é natural e residente em Lisboa, percorrendo por isso 600km sozinho todos os fins de semana para disputar uma partida de futebol, recebendo como compensação monetária uma singela quantia, empregue já noite fora numa sandes adquirida numa máquina de serviço na estação de metro para onde se desloca quando chega à capital, damos conta que a prática do jogo ainda tem encantos que inebriam os seus protagonistas centrais e que os consegue impelir a devotar a si uma boa parte das suas vidas, sem que daí tenha de advir uma retribuição financeira minimamente significativa por essa concessão .
Se ainda há esperança no futuro do jogo, enquanto sinónimo de entrega apaixonada e desinteressada, é em jogadores como Semedo Domingos que ela reside.

domingo, janeiro 29, 2006

Branqueamento

A neve veio em boa altura. Atirou o jogo de sábado para o meio do telejornal. Esperemos que não seja preciso que neve outra vez. É abusar de Deus nosso senhor.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Sobre as eleições no ex-cavaquistão


As recentes eleições presidenciais fizeram cair o mito do "cavaquistão", já ele bastante chamuscado nas recentes eleições legislativas...Bragança fartou-se das faustosas votações laranjas de Viseu e decidiu assumir a dianteira nessa matéria.
Também ao nível mais micro, o concelhio, as tendências partidárias são agora mais dinâmicas e menos concentradas na tradicional opção política que tem feito história. Olhando para os resultados destas eleições ao nível das freguesias do concelho, lembramo-nos que a velhinha teoria dos círculos concêntricos de desenvolvimento das cidades, de Burgess, no caso de Viseu ganha foros de actualidade.
A votação presidencial no concelho de Viseu, e nomeadamente a adesão eleitoral ao candidato Cavaco Silva decalca quase na perfeição uma topografia radial. Ao centro, nas três freguesias da cidade o novo Presidente da República alcançou 55% dos votos em todas elas. Num segundo círculo, em freguesias semi-centrais, como Ranhados (53%), São Salvador (55%), Orgens (57%), Torredeita (58%), a identificação foi ligeiramente superior.
Quando nos afastamos das zonas mais centrais e tocamos na freguesias que estão nos limites espaciais concelhios, constatamos as maiores taxas de entusiasmo popular com a candidatura vencedora. Ribafeita (77%), S. Pedro France (77%), Calde (76%) ou Silgueiros (73%), são exemplos claros desta tendência.
Identificando-se esses círculos espaciais, em razão do progressivo processo de urbanização do concelho nos últimos anos, com o desenvolvimento de actividade económicas diferenciadas, com a circulação espacial de diferentes públicos e com a vivência de indivíduos com distintas posses em termos de capitais escolares e culturais, a adesão cavaquista nas eleições presidenciais mostra que a clássica dicotomia rural-urbano, em Viseu, começa agora a notar-se mais do que nunca.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Faca nas costas

Já se sabe que Santana Lopes foi derrubado pelas pessoas que agora apoiam Cavaco Silva. Aquelas que resolvem os destinos do país com meia-dúzia de telefonemas. O professor Cavaco é apoiado unanimente ao centro, onde está Sócrates, e em toda a direita, lembrando a espaços a defunta União Nacional do Dr. Salazar. O irrequieto e valente Jardim meteu a viola no saco e reduziu-se à sua insignificância. Claro que Jardim espera receber algo pela vassalagem feita ao até há pouco tempo infame Sr. Silva. Jardim, o gabarola, de joelhos. O Mendes foi chutado para fora da campanha, embora faça a vénia servil sempre que lhe pedem. Deus no céu e Cavaco na terra. Ribeiro e Castro, depois de dizer que a culpa do terrorismo era da esquerda, calou-se, porque tais afirmações não interessam ao unânime Cavaco. Até Paulo Portas resolveu dar a sua bênção ao seu arqui-inimigo. Isto tudo para cumprimentar, apesar de tudo, Santana Lopes, realmente a primeira pessoa que conseguiu incomodar Cavaco. Pacheco Pereira diz que é uma vingança primária, mas Santana lá saberá.