Fazendo jus ao título escolhido, Havana Blues gira a câmara de filmar em torno dos sons actualmente produzidos em Cuba, que vão desde as sonoridades mais características da ilha, até ao rock, aos blues, ao hip-hop, ao rap ou ao metal.
São estas também as sonoridades que, misturadas, são abraçadas pelos principais protagonistas da história. Dois jovens e inseparáveis músicos, Ruy e Tito, marcados pela ânsia de transporem os mares que os rodeiam e os enclausuram cumplicemente com as determinações políticas, aspiram pelos palcos europeus, pelo alcance da fama musical para lá das fronteiras da ilha e das salas de espectáculo degradadas.
A oportunidade tem uma face galega, a face visível de dois produtores assalariados de uma editora multinacional, que concede ao grupo musical liderado por Ruy e Tito um salvo conduto para a produção e distribuição internacional de registos discográficos.
Para lá desta aparente correspondência de vontades escondem-se as contrapartidas do mundo do business musical. O salvo conduto, representado pelo contrato discográfico, pressupõe a exteriorização mediática de discursos flamejantes sobre a conjuntura cubana, em paridade com uma imposição artística e usurpação financeira excessiva dos ganhos que advirem das vendas discográficas e dos concertos.
A leitura do contrato faz estremecer a solidariedade entre os membros do grupo. De súbito, o inconformismo unido dos protagonistas perante as amarras políticas e culturais cubana estremece, agora divididos entre a perseguição de um sonho e o preço do mesmo, traduzido no provável fechamento fronteiriço e decorrente separação familiar quase irremediável.
A (re) conquista espanhola estava consumada, agora pela música, e embora não suficientemente forte para impedir o concerto da reconciliação, trouxe para a antiga colónia mais algumas vozes para fazer moeda. O desespero e os sonhos a tal podem obrigar.
quarta-feira, abril 05, 2006
quinta-feira, março 30, 2006
Os prazeres da rádio
Provavelmente, a maior parte das pessoas que por aqui passam não têm a mínima pachorra para ouvir rádio.E, quando digo ouvir, é escutar, divagar, passear com as palavras. Aos Sábados de manhã, vale a pena escutá-la.Na Antena 1, Lugar ao Sul,das 9 às 10.Na TSF, Terra a Terra.O primeiro com Rafael Correia, que entra quase literalmente pela porta dentro, puxando a conversa com um Portugal cada vez mais desruralizado.O segundo,com vários moderadores, mostra-nos um pouco da gastronomia, da história de diversas localidades.
Portanto,ouvidos atentos...
Portanto,ouvidos atentos...
quarta-feira, março 22, 2006
PSD Madeira
Jaime Ramos, lider parlamentar dos sociais-democratas madeirenses, apresentou um requerimento à Assembleia Legislativa no sentido de este ano não haver sessão comemorativa da Revolução de 1974, por "não ser oportuno"
Jaime Ramos adiantou ainda que a comemoração do 25 de Abril, através de uma sessão comemorativa no Parlamento Regional, colocava entraves ao normal desenrolar dos trabalhos parlamentares desse dia, em virtude de já ter agendado para o dia 25 de Abril, da parte da manhã, uma sessão de insultos, impropérios e ameaças com sifões de retrete à integridade física dos líderes da oposição e, da parte da tarde, a entrega de vários requerimentos ao Presidente da Assembleia Regional para a avaliação compulsiva do estado de sanidade mental de vários deputados da oposição regional.
"E se o PSD nacional ainda há 2 anos quis reescrever a História, perdão, ensinar todos os portugueses que aquilo que se passou naquele dia foi uma mera "Evolução", como afixou nos cartazes, é também nosso dever iluminar o povo madeirense acerca do que realmente (não) significa essa data!", acrescentou, antes de atirar para o chão um cravo vermelho, em solidariedade com o gesto do ano passado cometido pelo seu colega parlamentar Coito Pita.
Jaime Ramos adiantou ainda que a comemoração do 25 de Abril, através de uma sessão comemorativa no Parlamento Regional, colocava entraves ao normal desenrolar dos trabalhos parlamentares desse dia, em virtude de já ter agendado para o dia 25 de Abril, da parte da manhã, uma sessão de insultos, impropérios e ameaças com sifões de retrete à integridade física dos líderes da oposição e, da parte da tarde, a entrega de vários requerimentos ao Presidente da Assembleia Regional para a avaliação compulsiva do estado de sanidade mental de vários deputados da oposição regional.
"E se o PSD nacional ainda há 2 anos quis reescrever a História, perdão, ensinar todos os portugueses que aquilo que se passou naquele dia foi uma mera "Evolução", como afixou nos cartazes, é também nosso dever iluminar o povo madeirense acerca do que realmente (não) significa essa data!", acrescentou, antes de atirar para o chão um cravo vermelho, em solidariedade com o gesto do ano passado cometido pelo seu colega parlamentar Coito Pita.
terça-feira, março 14, 2006
segunda-feira, março 13, 2006
Os paraquedistas...
No jornal Record :"José Veiga disparou hoje com um alvo bem definido. O administrador da SAD encarnada falou do empate a zero cedido ontem frente à Naval na Luz, dizendo que o Benfica está a ser prejudicado pelas arbitragens desde que denunciou a reunião entre Luís Guilherme e Pinto da Costa".E se uns tais de Anderson e de Marcel não falhassem de baliza aberta?
domingo, março 12, 2006
Poesia
"A poesia do patronato
Há semanas, num jornal francês, dei com uma declaração extraordinária de um responsável do patronato. Qualquer coisa como isto: o amor é precário, a alegria é precária, o casamento é precário, a vida é precária; então porque é que o trabalho não pode ser precário? Quando o patronato argumenta com poesia, já nada é como dantes. "
Acabei de ler isto no blog do Pedro Mexia:
http://estadocivil.blogspot.com/
Realmente, dá que pensar...
Há semanas, num jornal francês, dei com uma declaração extraordinária de um responsável do patronato. Qualquer coisa como isto: o amor é precário, a alegria é precária, o casamento é precário, a vida é precária; então porque é que o trabalho não pode ser precário? Quando o patronato argumenta com poesia, já nada é como dantes. "
Acabei de ler isto no blog do Pedro Mexia:
http://estadocivil.blogspot.com/
Realmente, dá que pensar...
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Quem são as vítimas?
É relativamente divertido, mas também trágico, ver aqueles que defendem os poderes dominantes do mundo a fazerem-se de vítimas, pobres marginalizados sociais que vivem longe do conhecimento. Não, não resulta. Algumas posições aqui defendidas sobre África foram desumanas e partem de uma visão do mundo que olha de cima, típica de certa ciência política que é mais política que científica. Aliás toda a última resposta foi a tentativa de colocar qualquer opinião dentro de um enquadramento político, é o senhor Louçã para lá, o partido único para cá, etc. Não, não funciona. O mundo é mais complexo do que esse xadrez político. Quando falei da necessidade de utilizar argumentos sustentados não me estava a defender, nem a referir-me a mim próprio, mas apenas a apelar a uma discussão que não partisse precisamente de uma lógica “clubista”, cega da realidade e clara defensora de interesses ideológicos. Lamento, mas não fui eu que disse que defender o contrário da minha opinião era indefensável. Quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele. Quando se toma “a democracia absoluta” por uma bitola de exigência, quando se apregoa o respeito pelo outro, tem que se estar aberto às críticas, porque se não, como infelizmente acontece, a democracia é muito bonita mas é só para alguns. É evidente que as pessoas ficam mais bem informadas através de indivíduos que conhecem o terreno e a história específica de certos países e regiões, (e ao referir-me a estas pessoas não me estou a incluir no grupo, mas sim a utilizá-las como fontes de informação para os meus argumentos, o que é diferente), do que por geo-estrategas junto de certos governos cujo modo cínico de encarar a vida provocou 100 vezes mais mortes do que qualquer ditador africano. É essencial referir, por outro lado, que não se trata, como foi tentado passar, de um debate entre uma arrogância bem informada e alguém vítima do desconhecimento. Os argumentos utilizados para defender aqui certas opiniões não são nada originais nem ignorantes. A vitimação não resulta. Essas opiniões são defendidas em Portugal por pessoas bem instaladas nos meios de comunicação social, poderosos, alguém que tem forte poder de influência; encontramo-los na pena de José Manuel Fernandes, Luís Delgado, Helena Matos, Vasco Rato, Rui Ramos, etc; Pobres ignorantes? Não me parece.
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Gisberto
Pouco depois do conhecimento público do homicídio de um sem abrigo, no Porto, perpetrado por adolescentes, os media concederam-lhe prontamente um reforçado enfoque narrativo, colocando uma acentuada tónica na caracterização dos autores do crime que, invariavelmente, deslizava para a condição familiar e económica dos mesmos, herança maldita que os rapazes partilhavam desde o berço.
Nados em famílias “desestruturadas”, desprovidos por isso de referências parentais centrais para a sua conduta e sem modelos de conduta relacional, sobre os adolescentes procurava-se traçar essencialmente um quadro de contextualização sócio-económico que supostamente teria facilitado o desfecho ocorrido.
Manifestamente, era uma linha claramente redutora e que mitigava outras variáveis de relevo para se compreender o móbil do crime. Muitos outros rapazes têm dificuldades económicas, não estão enraízados num núcleo familiar tradicional e não é por isso que cometem tais actos criminosos. A pobreza é uma condição já suficientemente maldita e difícil de superar, para não se fazer recair o estigma duplamente nessa condição. Havia necessariamente que alargar o âmbito de abordagem noticiosa e investigar outros vectores de entendimento da situação, em suma, advogar uma reflexividade mais alargada do que as propaladas condições materiais de existência, tão centrais nas narrativas jornalísticas.
Entretanto, no fim de semana, uma estação televisiva exibiu uma reportagem efectuada a propósito de uma competição futebolística internacional entre padres. A certa altura, aquando da apresentação dos “craques”, a reportagem visitou um jornal minhoto de inspiração católica, onde a certa altura foi dada voz ao editor do mesmo a dirigir informalmente uma questão a um jornalista do jornal a propósito do “casamento daquelas duas fulanas de Lisboa”…
Matéria jornalística de interesse, não pela aspiração em si, mas pelo carácter de novidade da mesma, envolta por isso ainda em questões jurídicas de jurisprudência, a interrogação do editor do diário minhoto, afinal, não tinha como fito a obtenção de mais elementos informativos com vista à sua inclusão nas páginas do órgão escrito, porque, como se aprestou o editor a revelar, os critérios jornalísticos não tinham eleito esse acontecimento como digno de ser alvo de tratamento noticioso no jornal.
Todavia, aquela “caixa jornalística” momentânea constituiu um momento esclarecedor de como a instituição católica continua a lidar com as orientações sexuais minoritárias. De repente, a “pessoa humana”, tão fulcral nas alegações católicas a respeito de outros assuntos na ordem do dia, transformou-se em “fulana”, expressão provida de uma consideração social menor.
As duas mulheres, por afrontarem valores historicamente estabelecidos a respeito do entendimento da chamada instituição do casamento e por denotarem comportamentos distintivos em relação à moral defendida eclesiaticamente, já não eram duas pessoas, mas sim duas fulanas.
Se dissermos que os rapazes do Porto estavam há muito internados na Oficina de S. José, instituição da diocese do Porto, e que a vítima do crime e das perseguições era um transexual, começamos a ponderar que a aclaração da deficiente socialização primária a que os rapazes foram sujeitos não se deverá única e exclusivamente à sua condição sócio-económica. Analise-se também a actual instituição de integração social dos rapazes e verifique-se em conformidade quais os valores e os pensamentos que ela transmite aos seus internados sobre o "outro". Se calhar alguma da luz para a explicação do sucedido está aí…
Nados em famílias “desestruturadas”, desprovidos por isso de referências parentais centrais para a sua conduta e sem modelos de conduta relacional, sobre os adolescentes procurava-se traçar essencialmente um quadro de contextualização sócio-económico que supostamente teria facilitado o desfecho ocorrido.
Manifestamente, era uma linha claramente redutora e que mitigava outras variáveis de relevo para se compreender o móbil do crime. Muitos outros rapazes têm dificuldades económicas, não estão enraízados num núcleo familiar tradicional e não é por isso que cometem tais actos criminosos. A pobreza é uma condição já suficientemente maldita e difícil de superar, para não se fazer recair o estigma duplamente nessa condição. Havia necessariamente que alargar o âmbito de abordagem noticiosa e investigar outros vectores de entendimento da situação, em suma, advogar uma reflexividade mais alargada do que as propaladas condições materiais de existência, tão centrais nas narrativas jornalísticas.
Entretanto, no fim de semana, uma estação televisiva exibiu uma reportagem efectuada a propósito de uma competição futebolística internacional entre padres. A certa altura, aquando da apresentação dos “craques”, a reportagem visitou um jornal minhoto de inspiração católica, onde a certa altura foi dada voz ao editor do mesmo a dirigir informalmente uma questão a um jornalista do jornal a propósito do “casamento daquelas duas fulanas de Lisboa”…
Matéria jornalística de interesse, não pela aspiração em si, mas pelo carácter de novidade da mesma, envolta por isso ainda em questões jurídicas de jurisprudência, a interrogação do editor do diário minhoto, afinal, não tinha como fito a obtenção de mais elementos informativos com vista à sua inclusão nas páginas do órgão escrito, porque, como se aprestou o editor a revelar, os critérios jornalísticos não tinham eleito esse acontecimento como digno de ser alvo de tratamento noticioso no jornal.
Todavia, aquela “caixa jornalística” momentânea constituiu um momento esclarecedor de como a instituição católica continua a lidar com as orientações sexuais minoritárias. De repente, a “pessoa humana”, tão fulcral nas alegações católicas a respeito de outros assuntos na ordem do dia, transformou-se em “fulana”, expressão provida de uma consideração social menor.
As duas mulheres, por afrontarem valores historicamente estabelecidos a respeito do entendimento da chamada instituição do casamento e por denotarem comportamentos distintivos em relação à moral defendida eclesiaticamente, já não eram duas pessoas, mas sim duas fulanas.
Se dissermos que os rapazes do Porto estavam há muito internados na Oficina de S. José, instituição da diocese do Porto, e que a vítima do crime e das perseguições era um transexual, começamos a ponderar que a aclaração da deficiente socialização primária a que os rapazes foram sujeitos não se deverá única e exclusivamente à sua condição sócio-económica. Analise-se também a actual instituição de integração social dos rapazes e verifique-se em conformidade quais os valores e os pensamentos que ela transmite aos seus internados sobre o "outro". Se calhar alguma da luz para a explicação do sucedido está aí…
sábado, fevereiro 25, 2006
Para que fique registado
O Benfica, na última terça-feira, ganhou ao campeão europeu. Para quem ia envergonhar o país não está nada mau.
Em jeito de comentário
Sobre África. Não vou repetir os argumentos que utilizei porque continuo a acreditar neles. Seja como for, é de assinalar que do lado dos pretensos defensores das liberdades e democracias continue a surgir argumentos democráticos como "Tudo o resto, é defender o indefensável". A prova de que as sociedades ocidentais ainda não se livraram de todos as expressões autoritárias. Neste "tudo o resto" incluem-se parte importante de estudos e trabalhos feitos por pessoas que em vez de papaguearem cartilhas ideológicas, estudaram, foram para o terreno, para os arquivos e procuraram, o que não os torna imunes à crítica, chegar a algumas conclusões. Quem é que informa melhor?
Sobre o comunicado do PCP, partido do qual não sou emissário, acho-o, no essencial do seu conteúdo, bastante razoável e certeiro. Demonstrando, aliás, um elementar bom senso que escapou a muito outros. Diga-se que, no meio disto tudo, pesando as circunstâncias, o ministro dos Negócios Estrangeiros foi também bastante razoável, embora a forma como o fez seja algo discutível.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Berthelot
Caro(a)s Sócio(a)s
Entramos em contacto convosco para, infelizmente, vos transmitirmos a notícia, recebida da AISLF, do falecimento de Jean-Michel Berthelot. Desejamos deixar aqui expresso também o nosso pesar por esta perda significativa tanto para os sociólogos em geral como para os colegas que com ele privaram. Em baixo enviamos a notícia recebida da AISLF e um resumo biográfico de Jean-Michel Berthelot (obtido através da página electrónica do Centred’Études Sociologiques de La Sorbonne).
AtentamenteAssociação Portuguesa de Sociologia
A Direcção
Mensagem recebida hoje às 12h15
Entramos em contacto convosco para, infelizmente, vos transmitirmos a notícia, recebida da AISLF, do falecimento de Jean-Michel Berthelot. Desejamos deixar aqui expresso também o nosso pesar por esta perda significativa tanto para os sociólogos em geral como para os colegas que com ele privaram. Em baixo enviamos a notícia recebida da AISLF e um resumo biográfico de Jean-Michel Berthelot (obtido através da página electrónica do Centred’Études Sociologiques de La Sorbonne).
AtentamenteAssociação Portuguesa de Sociologia
A Direcção
Mensagem recebida hoje às 12h15
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Alguma coisa sobre África
Retirar ao ocidente as graves responsabilidades que tem na actual situação africana, para insistir apenas nas teorias dos choques tribais e dos chefes corruptos é produzir esquecimento histórico. Infelizmente, com a civilização, o ocidente trouxe a barbárie. Sim, é certo que já existiam práticas esclavagistas, sim, existiriam guerras tribais, sim, as relações sociais reproduziam fortes desigualdades. Mas todas estas características foram aumentadas incomensuravelmente com o colonialismo. As políticas de governação indirecta, a cooptação de líderes tribais e o reforço das hierarquias anteriores criaram um quadro político de violência e de injustiça generalizado. A marcação étnica foi reforçada pelo poder europeu: armas poderosas e eficazes, políticas generalizadas de trabalho forçado. Nasceram assim as sementes de um ódio étnico nunca antes visto. Em certo sentido, foram os sistemas de dominação colonial que "criaram" as bases das divisões étnicas tais quais hoje as conhecemos. À parte disto, como se sabe, as sociedades coloniais eram racialmente organizadas. Foi dessas injustiças que nasceu o ódio. A independências dos países africanos foi encontrar o mundo em plena guerra-fria. Com a frieza típica do geo-estratega, encarnado hoje pela figura de alguns cientistas políticos, foram efectuadas políticas de aliança, para um lado ou para o outro. Os Estados Unidos, sob a direcção política de homens como Chester Crocket, secretário de Estado da administração Reagan, suportaram política e militarmente homens como Mobutu no Zaire (hoje República Democrática do Congo), Samuel Doe e Charles Taylor na Liberia, Siad Barre na Somália, o governo do Apartheid na África do Sul, a Unita em Angola, a Renamo em Moçambique, o governo árabe do Norte do Sudão, que passaram a combater depois do fim da guerra-fria (o mesmo que fizeram com Saddam no Iraque, ou com os Mudjahedeens no Afeganistão), a administração Clinton bloqueou a intervenção da ONU no sentido de evitar o genocídio no Ruanda, etc, etc, etc, etc. Parte dos líderes africanos são mestres e doutores por universidades inglesas e americanas. As mortes causadas pelos conflitos étnicos foram sobretudo o resultado de uma diplomacia absolutamente irresponsável que em nome do "mundo livre" armou tiranos e déspotas que transformaram os ódios raciais firmados durante o colonialismos em genocídios em série. Não estou a negar a existência de líderes corruptos e assassínos ou a tirar-lhe as imensas responsabilidades que têm. Mas vamos perceber as condições da sua emergência e a natureza dos seus métodos. Um conselho de leitura para os interessados: The Graves are not yet full, race, tribe and power in the heart of Africa, de Bill Berkeley, editorialista desse perigoso jornal vermelho chamado New York Times; e já agora, claro Joseph Conrad, Heart of Darkness, cuja história, originalmente africana, inspirou o Apocalipse Now de Coppola
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Realmente não se pode transigir com um novo totalitarismo
É bom saber que deixámos a espuma da liberdade de impressa e chegámos rapidamente ao cerne da questão. Há dois erros que não cometo. O primeiro é ser apanhado nesse maniqueísmo bipolar e ser tido como defensor de estados teocráticos que alimentam as mais crúeis injustiças. Prefiro, sem dúvida, o modelo secular. Mas reparem que denomino esses países de estados teocráticos, onde há responsáveis políticos e religiosos pela situação social que ai se vive. Os maiores desses responsáveis, acrescente-se, nem são locais. As situação actual têm por base processos históricos que convém conhecer. Isto é totalmente diferente de colocar o debate a nível da cultura, o que acaba por ser uma forma de racismo mascarado. Ninguém olha para a história, a política deixa de existir, a economia devanece-se, restando a cultura e a religião. O outro erro que não partilho é essa nova visão do mundo que um novo totalitarismo quer passar para as mundividências dos cidadãos do ocidente. O que se deseja é substituir a União Soviética como forma de acartelar as tropas, neste caso as opiniões públicas. Como foi aqui dito, é essencial combater todos os totalitarismos, e não há outro mais forte, pelo seu poder militar e económico, do que o que à força tenta dividir o mundo em dois. Falou-se de diversidade política, diversidade económica, diversidade cultural. Onde é que está essa diversidade se dividimos o mundo em dois. Lamento mas nesse plural cego, "nós isto", "nós aquilo" grande parte do mundo ocidental não entra. Basta pensar nas manifestações contra a guerra que varreram a Europa, um conflito que violou as regras mais básicas do direito internacional. Não é o cumprimento da lei uma característica das sociedades seculares? Parece que não. Porque antes dessa lei cultural que tanto apregoam, está a lei da economia e da política, esses sim os factores que dominam o mundo. Se o petróleo que existe no golfo pérsico estivesse na Bolívia o ocidente estava em guerra com a civilização índia. Totalitarismo é o modo como me obrigam a participar nesse "nós", um "nós" onde não há patrões nem empregados, homens nem mulheres, negros nem brancos, onde nem existem culturas diferentes, onde não existem sistemas económicos. Salvem-me deste totalitarismo. Não sei quem é digno de ser convidado para jantar, mas porventura não serão aqueles que torturam prisioneiros violando convenções internacionais, que já mataram dezenas de milhares de civis no Iraque, que começam uma guerra com uma mentira absolutamente descarada. A cartilha liberal, não menos descaradamente, diz que foram lá para derrubar um ditador. Mas quem é que apoiou esse ditador durante dezenas de anos? Nessa altura, os líderes da nossa civilização não tinham percebido que o homem, como muitos outros que foram vergonhosamente apoiados pelo ocidente, é um déspota sanguinário. Por que é que esta nossa superioridade não obriga o ocidente a cessar os acordos económicos com países como a Arábia Saudita? Onde é que estão as sanções que essas culturas tão atrasadas merecem? Hipocrisia de uma ponta à outra. Isto para dizer que a "pena" do ocidente não se fica pelas cruzadas, nem pela inquisição, nem tão pouco pelo holocausto. Essa "pena" é contemporânea. É tragicamente contemporânea. Esse "nós" coloca-me a mim ao lado dos maiores bandidos, e o nome é leve, que existem actualmente. Não entro nesse "nós" nem à custa de truques baixos sobre a liberdade de imprensa. O mundo islâmico não ameaça em nada a liberdade de imprensa no ocidente. O que a ameça verdadeiramente é a concentração dos media, é o controlo governamental sobre os media, que se nota, por exemplo, nos Estados Unidos. É verdade que sou um ocidental, mas não me ponham ao lado dessa gente. A esse "nós" não pertenço. Em relação às questões que foram levantadas sobre África, a resposta segue para a semana, já que o que foi dito é um branqueamento que necessita de ser desmascarado.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Tolerância
Obviamente que não é o sentido de humor que esta em questão, é a tolerância. A tolerância que permitiu que o António do preservativo do Papa não fosse perseguido, nem decapitado, a tolerância que permitiu que o programa do Herman continua-se a ser transmitido. A chave é a tolerância.
É obvio que nem sempre o fomos, nós, o “Ocidente”, mas tivemos a capacidade de mudar, de separar o estado da religião, e isso, curiosamente aconteceu por alguma razão (Nota: investigar se o factor religioso, ou melhor, se o cristianismo teve alguma coisa a ver com o assunto). Não aconteceu no Oriente, não aconteceu em Africa, não aconteceu nos países Islâmicos. Essa é a nossa vantagem, não quer dizer que sejamos perfeitos, nem de longe o somos, nós, o “Ocidente”. Mas julgo ser consensual que nenhum dos que aqui tem “postado” gostaria de viver num pais muçulmano, e não é tanto pela questão económica é pelo facto de não querermos abdicar da nossa liberdade (por mais manipulada e ilusória que ela seja, não deixa de ser “mais” liberdade do que a que existe nas sociedades maioritariamente islâmicas…) E eu sei que nem sempre foi assim, existe uma dinâmica civilizacional, durante vários séculos o mundo islâmico foi o expoente máximo da civilização (entende-se como os dinamizadores do conhecimento e do “progresso”) mas depois deixaram de o ser.
O Islão tem, de facto, um problema religioso para resolver. E não são só os radicais islâmicos que são um problema, são todas as sociedades que seguem uma matriz religiosa islâmica e que não conseguem superar a dicotomia Estado / Religião, Liberdade Individual / Ditames Religiosos.
Mas, às tantas, a moirama é que tem razão (tal como os grupos de fundamentalistas religiosos cristãos). Qual secularização, qual ciência, o ser humano não precisa dessas coisas para viver em paz consigo próprio. Precisa é de Deus, de ter a consciência tranquila, de viver segundo os mandamentos divinos. E como tal, acho que nos devemos converter e deixar esta vida de pecado e estas discussões que não levam a lado nenhum. Quem não o fizer merece ser apedrejado.
É obvio que nem sempre o fomos, nós, o “Ocidente”, mas tivemos a capacidade de mudar, de separar o estado da religião, e isso, curiosamente aconteceu por alguma razão (Nota: investigar se o factor religioso, ou melhor, se o cristianismo teve alguma coisa a ver com o assunto). Não aconteceu no Oriente, não aconteceu em Africa, não aconteceu nos países Islâmicos. Essa é a nossa vantagem, não quer dizer que sejamos perfeitos, nem de longe o somos, nós, o “Ocidente”. Mas julgo ser consensual que nenhum dos que aqui tem “postado” gostaria de viver num pais muçulmano, e não é tanto pela questão económica é pelo facto de não querermos abdicar da nossa liberdade (por mais manipulada e ilusória que ela seja, não deixa de ser “mais” liberdade do que a que existe nas sociedades maioritariamente islâmicas…) E eu sei que nem sempre foi assim, existe uma dinâmica civilizacional, durante vários séculos o mundo islâmico foi o expoente máximo da civilização (entende-se como os dinamizadores do conhecimento e do “progresso”) mas depois deixaram de o ser.
O Islão tem, de facto, um problema religioso para resolver. E não são só os radicais islâmicos que são um problema, são todas as sociedades que seguem uma matriz religiosa islâmica e que não conseguem superar a dicotomia Estado / Religião, Liberdade Individual / Ditames Religiosos.
Mas, às tantas, a moirama é que tem razão (tal como os grupos de fundamentalistas religiosos cristãos). Qual secularização, qual ciência, o ser humano não precisa dessas coisas para viver em paz consigo próprio. Precisa é de Deus, de ter a consciência tranquila, de viver segundo os mandamentos divinos. E como tal, acho que nos devemos converter e deixar esta vida de pecado e estas discussões que não levam a lado nenhum. Quem não o fizer merece ser apedrejado.
Venham as pedras
A frase que mereceu a resposta foi esta: "Ora pois bem, não consigo respeitar uma civilização sem sentido de humor e sem a capacidade de rir de si própria."
1) Tu não fazes a mínima ideia se aquela civilização, seja lá isso o que for, tem ou não sentido de humor ou capacidade de se rir de si própria. Eu aposto que tem, embora assuma que existam assuntos muito sensíveis a partir dos quais seja quase impossível fazer humor. Mas como é que reagiu a "nossa civilização" ao cartoon do António com o preservativo no nariz do Papa, ou à Última Ceia do Herman José? Somos assim uma civilização tão tolerante. Há trinta e cinco anos podias neste país fazer o humor que fazes hoje? A questão é de civilização ou talvez a política tenha alguma importância? Não foi a nossa civilização, de matriz judaico-cristã, que queimou pessoas no Terreiro do Paço por pensarem de forma diferente do que nos dizia a Santa Madre Igreja? Não foi a nossa civilização que metodicamente meteu milhões de judeus nas câmaras de gás? Não foi a nossa civilização que, até meados do século XX, usou o esclavagismo mais primário para colonizar África? Não será um pouco abusivo falar em nome de civilizações contra outras civilizações. Será tão difícil perceber que a liberdade de imprensa está a servir as balelas do "choque de civilizações", por mais acrobacias argumentativas que tentem considerar a questão da liberdade de imprensa uma discussão autónoma. Gostei especialmente daquele argumento usado neste blogue das "pessoas que estão à minha volta pensam todas como eu" ... e acrescento que devem ouvir a mesma música e ler os mesmo livros e partilhar a mesma boa educação ... mas porventura não trabalharam na fábrica ... e talvez não leiam tablóides racistas ... e talvez não vejam reality shows ... .
2) Usar o pretenso sentido de humor para avaliar uma civilização, isto é, todos os milhões de seres humanos que vivem em determinado espaço, é relativamente bizarro. Mas concedo que é divertido. Talvez valesse a pena, digo eu, utilizar outros critérios de avaliação.
3) Resta considerar, se pensarmos, em tese, que o relativismo e a capacidade de evitar o preconceito são elementos próprios da nossa civilização, que estamos em processo rápido de decadência.
1) Tu não fazes a mínima ideia se aquela civilização, seja lá isso o que for, tem ou não sentido de humor ou capacidade de se rir de si própria. Eu aposto que tem, embora assuma que existam assuntos muito sensíveis a partir dos quais seja quase impossível fazer humor. Mas como é que reagiu a "nossa civilização" ao cartoon do António com o preservativo no nariz do Papa, ou à Última Ceia do Herman José? Somos assim uma civilização tão tolerante. Há trinta e cinco anos podias neste país fazer o humor que fazes hoje? A questão é de civilização ou talvez a política tenha alguma importância? Não foi a nossa civilização, de matriz judaico-cristã, que queimou pessoas no Terreiro do Paço por pensarem de forma diferente do que nos dizia a Santa Madre Igreja? Não foi a nossa civilização que metodicamente meteu milhões de judeus nas câmaras de gás? Não foi a nossa civilização que, até meados do século XX, usou o esclavagismo mais primário para colonizar África? Não será um pouco abusivo falar em nome de civilizações contra outras civilizações. Será tão difícil perceber que a liberdade de imprensa está a servir as balelas do "choque de civilizações", por mais acrobacias argumentativas que tentem considerar a questão da liberdade de imprensa uma discussão autónoma. Gostei especialmente daquele argumento usado neste blogue das "pessoas que estão à minha volta pensam todas como eu" ... e acrescento que devem ouvir a mesma música e ler os mesmo livros e partilhar a mesma boa educação ... mas porventura não trabalharam na fábrica ... e talvez não leiam tablóides racistas ... e talvez não vejam reality shows ... .
2) Usar o pretenso sentido de humor para avaliar uma civilização, isto é, todos os milhões de seres humanos que vivem em determinado espaço, é relativamente bizarro. Mas concedo que é divertido. Talvez valesse a pena, digo eu, utilizar outros critérios de avaliação.
3) Resta considerar, se pensarmos, em tese, que o relativismo e a capacidade de evitar o preconceito são elementos próprios da nossa civilização, que estamos em processo rápido de decadência.
Só podes estar a brincar...
Informa-se que o João Baião, o Nicolau Breyner e aquele baixinho irritante que apresenta um concurso qualquer, também são considerados humoristas... Mas daí até terem piada...
Quanto à antologia de humor islâmico (de 1941) levava para ai uns 14 anos para ler o livro, 20 para o compreender e uns 30 para encontrar uma piada de jeito... Dando uma vista de olhos ao índice, tresanda a piadas da ultima página da celebre "Família Cristã"...
Eu estava a me referir a uma boa piada de cariz religioso...
Ora Sr. Cientista mostre lá uma piada islâmica sobre as barbas do Maomé, ou sobre o comportamento sexual da nora Fátima escrita por um muçulmano, a viver num pais islâmico e que tenha sobrevivido à piadola, que eu conto 10 anedotas sobre Cristo e 10 sobre a Fátima da Cova de Iria.
Assim podemos ver se são tolerantes ou não...
O Sr. Abu Abed... : )
Tou em crer que não há relativismo cultural que aguente humor islâmico.
E quanto a Africa, acho os pretinhos e as pretinhas gente com muita piada.
Os orientais acho que não são muito humorados.
E agora, podem me apedrejar!
Quanto à antologia de humor islâmico (de 1941) levava para ai uns 14 anos para ler o livro, 20 para o compreender e uns 30 para encontrar uma piada de jeito... Dando uma vista de olhos ao índice, tresanda a piadas da ultima página da celebre "Família Cristã"...
Eu estava a me referir a uma boa piada de cariz religioso...
Ora Sr. Cientista mostre lá uma piada islâmica sobre as barbas do Maomé, ou sobre o comportamento sexual da nora Fátima escrita por um muçulmano, a viver num pais islâmico e que tenha sobrevivido à piadola, que eu conto 10 anedotas sobre Cristo e 10 sobre a Fátima da Cova de Iria.
Assim podemos ver se são tolerantes ou não...
O Sr. Abu Abed... : )
Tou em crer que não há relativismo cultural que aguente humor islâmico.
E quanto a Africa, acho os pretinhos e as pretinhas gente com muita piada.
Os orientais acho que não são muito humorados.
E agora, podem me apedrejar!
terça-feira, fevereiro 07, 2006
E não é que eles também riem ...
Seguem alguns sites de humor árabe. Mais abaixo há a indicação de uma antologia de humor árabe. Quem estiver interessado pode mandar vir o livro pela Amazon. E não é que eles têm humor ... e que gozam com eles próprios ... é extraordinário .. estou estupefacto ... pensava que só os povos de matriz cultural judaico-cristã, seja lá isso o que for, é que tinham comediantes ... qualquer dia ainda me dizem que os orientais também têm comediantes ... não, isso é impossível ..., Deus nos valha, essa gente não ri ... será que em África também se faz humor... não, não é possível ... eles são tão atrasados ...
http://www.abuabed.net/about.htm
www.arabicjoke.com
http://www.arabiano.com/entertainment/humor.shtml
www.sabda.org/humor/isi.php?id=246
Subject Book: An Anthology of Arab Humor In Arab LiteratureAuthor: Ali MrouehLanguage: ArabicPublisher: Riad El-Rayyes Books Ltd, LondonYear Published: First Printing 1947, Second Printing 1991Number of Pages: 8 volumes; Volume 1 – 182 pages The eight volumes that make up the Anthology of Humor and Arab Literature are: 1) The Peculiarities of Poets and Literary Writers2) The Peculiarities of Egyptians3) The Peculiarities of Driven Away Personalities4) The peculiarities of Judges5) The Peculiarities of Women and Concubines6) The Peculiarities of Geniuses and Fools7) The Peculiarities of Administrators/ Workers8) The Peculiarities of Odd People.
A recensão a este artigo segue em:
http://yementimes.com/article.shtml?i=878&p=culture&a=2
Qual é o problema?
O título do post foi muito em cima do joelho! (Sim, eu agora trabalho!). Mais rigorosamente deveria ter sido: Qual é o problema? ou, E depois? O que tem retratarem o "Profeta"? Como diz o Marçal: Onde está sentido de humor?
Em relação à mudança de aspecto do blog, confesso a minha falta em não ter questionado os restantes membros...Mas, este preto é lixado para os olhos!!!!
Em relação à mudança de aspecto do blog, confesso a minha falta em não ter questionado os restantes membros...Mas, este preto é lixado para os olhos!!!!
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