terça-feira, agosto 01, 2006

O novo paradigma estético do futebolista


Nos primórdios do jogo era a brilhantina que ditava leis na aparência física. Player que se prezasse tinha que embeber o cabelo em óleo essencial e vaselina, porque assim “ditavam” as leis da apresentação em público em recintos desportivos, mas não só. Para dominar as clássicas Shoot, Fussball e Dupont, repletas de costuras salientes, havia primeiro que dominar as hastes capilares. Mais do que um jogo para homens de barba rija, era uma altura em que o futebol se destinava a homens de cabeça dura.
Esses tempos dourados da brilhantina e fotografados a preto e branco, engavetados já num passado distante, deram progressivamente lugar às diversas imposições das diversas correntes da moda, que os futebolistas, com maior ou menor empenho, se esforçaram por acompanhar no seu look.
Foi assim ao longo dos tempos até que chegámos aos dias de hoje, e eis-nos perante o novo paradigma visual do futebolista moderno: a tatuagem.
Símbolo de rebeldia e de bravura da juventude, essa arte egípcia é agora a arte corporal predilecta dos artistas da bola. Entusiasmados com os novos formatos das camisolas de treino, sem mangas, é ver os artistas da bola, seja nos relvados, seja nas conferências de Imprensa, a exibir orgulhosamente os mais diversos desenhos tatuados, que vão desde o abstraccionismo dos símbolos tribais e dos motivos orientais até aos dragões.
A febre é geral, atravessa nacionalidades, talentos e destrezas. Olhamos para os dois artistas da imagem e lá estão elas nos ombros de um fantasista Rui Costa ou de um irrequieto Miccoli.
Mas acima de tudo a tatuagem é um símbolo democrático, no sentido em que tão depressa a vemos em príncipes, como os da imagem, como logo a seguir nos deparamos com elas nos ombros da plebe, como Bruno Alves ou Beto. Nestes últimos, diga-se, para além de preferência estética massificada, a tatuagem cumpre uma função de relevo: a de factor de prolongamento da carreira no meio futebolístico.
Distraímo-nos a olhar para os motivos tatuados e assim lá nos passa despercebido mais um passe errado, mais uma perda de bola, ou, quiçá, ou entrada violenta sobre um adversário, prática corrente nestes jogadores.
A adopção das tatuagens é, portanto, um sintoma de inteligência por parte dos mesmos. E nós só temos de saudar a iniciativa, porque assim deixamos de nos focar tanto na prática futebolística destes “jogadores”.

terça-feira, maio 30, 2006

Espanto só para quem quer

O cenário “arrasador” das escolas traçado pela Ministra da Educação acerca da orientação para o sucesso que elas vertem nas suas práticas de organização, só surpreende quem tem estado completamente desatento ou involuntariamente mal-informado do modo de funcionamento de muitas escolas.
A imagem idealista da escola como instância equalizadora de oportunidades sociais, e por conseguinte, mecanismo nivelador das desigualdades sociais, económicas e culturais herdadas, não conseguiu ainda arrancar na maioria das vezes do papel, em Portugal.
Pese embora a melhoria indiscutível do panorama educativo ao longo das últimas décadas, traduzida em indicadores como as taxas de escolaridade da população e de abandono escolar, continuam a permanecer práticas e comportamentos ao nível da sua organização que obstaculizam a sua assumpção plena em termos do cumprimento da sua missão de cidadania.
Um dos principais, senão mesmo o principal escolho nesta matéria, foi agora ventilado, por fim, por alguém com funções ministeriais: a “distinção” social, económica e cultural de muitos alunos exercida pela Escola.
Essa “distinção” vai no sentido de ser assegurada uma homogamia das condições materiais de existência, no que diz respeito à configuração das turmas e aos horários atribuídos. Estudantes com capitais similares são agrupados em turmas quase estanques ao longo do percurso escolar, beneficiam de horários compatíveis com a abertura de um campo de possibilidades de estudo que se estende para além daquele que é definido pela escola, e, numa relação dialética de interesse comum, são tutelados pelos professores mais experientes, os quais por sua vez fazem recair a sua preferência lectiva, na altura do “desenho” das turmas, naquelas que lhes asseguram uma actividade lectiva mais direccionada para o seu focus de actividade e menos para questões estudantis mais problemáticas e que extravasam a realidade escolar mais concreta.
O resultado destas práticas generalizadas tendentes a estigmatizar os alunos menos habilitados em matéria de status herdado, traduz-se, inevitavelmente, na reprodução social caucionada e legitimada pela Escola, ou seja, na inversão daquilo que seria a sua função enquanto instância suprema de equalização de oportunidades.
Daí não perceber o espanto dos professores quando a ministra tocou por fim na ferida... Quem lá anda e quem lá andou, como eu, e não há muito tempo, facilmente se apercebe de que o cenário “arrasador” posto a descoberto pela ministra, limita-se a revelar um fundo de verdade inegável, infelizmente para prejuízo de muitos alunos, que vêem assim o futuro cerceado pelo usufruto de condições escolares desiguais.

quinta-feira, abril 27, 2006

Que vivas tempos interessantes (maldição chinesa)

Um dos problemas que mais se sente na ainda jovem democracia portuguesa é um insofismável paradoxo: os que querem mudar de facto as coisas são os conservadores; os que querem deixar tudo exactamente na mesma são os progressistas. E eu que pensava que devia ser exactamente o contrário...

O excesso de feriados

Leio algures que o eterno problema da produtividade portuguesa também passa pelo excesso de feriados automaticamente aproveitados para faustosas pontes e férias. Pego na minha agenda de secretária e vejo lá, claro como água, a negação absurda de semelhante afirmação, graças a um muito interessante quadro onde é possível aferir os feriados existentes em cada um dos 25 países da actual União Europeia. Assim, este ano Portugal tem 12 feriados – 1 de Janeiro, 14 de Abril (sexta-feira santa), 25 de Abril, 1 de Maio, 10 e 15 de Junho, 15 de Agosto, 5 de Outubro, 1 de Novembro, 1, 8 e 25 de Dezembro – contra, por exemplo, 15 da Áustria, 16 de Chipre e da Eslováquia, 14 da Eslovénia, da Finlândia, de Malta e da República Checa, 13 da Dinamarca, da Suécia e da Grécia. No mesmo patamar, ou seja com os mesmos 12, temos ainda a Bélgica, a Espanha, a França e a Itália. No extremo, está a Grã-Bretanha com 8 e a Lituânia com 10. Em qualquer um dos casos, sem excepção de país, é necessário somar os feriados municipais que como se sabe são variáveis. Perante este cenário, não consigo vislumbrar que extraordinária relação pode haver entre feriados e produtividade. Como se vê, eis como é fácil desmontar um mito repetidamente usado. Aliás, ainda há bem pouco tempo, constatou-se exactamente o contrário: os portugueses até trabalham muito. Ou pelo menos, trabalham muitas horas. O problema reside, por isso, no se trabalhar mal e não no trabalhar pouco. O que é diferente. Isto só por si iliba boa parte dos trabalhadores que se limita a fazer e a cumprir com o que é pedido. mas obriga, num outro prisma, a fazer entrar na arena outras duas variáveis: os empresários de mercearia e de pouca visão e o próprio Estado incapaz de mudar a situação.

quarta-feira, abril 26, 2006

Classe Média

Não se pense, contudo, a avaliar pelo programa anterior, que a SIC não possui humoristas com talento...
Por exemplo, na mesma estação televisiva, Pacheco Pereira, sob a capa de atento e hirto comentador político, conseguiu há pouco provocar mais lágrimas de riso do que uma cebola cortada, ao afirmar, virando-se para os seus colegas comentadores de serviço, Lobo Xavier e Jorge Coelho, "Eu, nós, que pertencemos à classe média...".
Eis a hilaridade a exibir-se com grande intensidade!