terça-feira, dezembro 19, 2006

Cinema ímpar - Eisenstein

sexta-feira, outubro 20, 2006

Vox Populi

Com a data da realização do referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, cuja proposta foi ontem aprovada no Parlamento, a divisar-se no horizonte próximo, a pena de muitos escribas tem recomeçado a verter tinta acerca da temática.
Lançado de novo para os destaques e primeiras páginas dos media, o assunto presta-se à salutar diversidade de opiniões e pontos de vista. Uma dessas opiniões hoje publicada, vertida por Ana Sá Lopes, sustenta boa parte da sua argumentação na crítica à praxis parlamentar seguida, a partir da invocação de uma lei de Murphy, aplicável a muitas situações da natureza mas também extrapolável para o processo em curso.
Invoca a escriba que "se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma resultar em catástrofe, então alguém a fará", e, portanto, uma vez que um dos porta-vozes de uma das partes intervenientes garante que os resultados de um referendo não vinculativo onde o "não" seja maioritário serão respeitados, estão, deste modo, reunidas todas as condições para a catástrofe.
Apregoando o postulado de que "o povo maioritário não quer decidir sobre isto e agradece a quem o fizer por si" , a escriba congrega em si um declarado conhecimento da voz do povo que lhe fica muito bem, denotando que possui uma vivência real alinhada com a do povo maioritário.
Qual mix personalizado de agente sindical, representante de uma associação de pais, sócia de associação cultural e recreativa, adepta do Benfica, frequentadora de espaços verdes e centros comerciais, automobilista dos subúrbios, assinante de um passe mensal da Carris, endividada bancária, espectadora televisiva da Floribella e veraneante algarvia, Ana Sá Lopes conhece a vontade do povo maioritário. Decifra-lhe as ânsias, antecipa-lhe as análises, fala por si.
Todo este conhecimento popular só abona a pessoa de Ana Sá Lopes. Mais fossem como ela e a veiculação do tradicional distanciamento entre as elites e o povo maioritário não passava de mera propaganda académica.
O crédito cego que lhe havia fiado foi, todavia, também hoje mesmo abalado por um outro destaque jornalístico sobre a interrupção voluntária da gravidez, sob a forma de uma sondagem, realizada por entidade especializada que se arroga de também pretender conhecer a vontade do povo maioritário sobre esta matéria.
Diz esta entidade, Universidade Católica, numa sondagem que "81 por cento dos inquiridos consideram que uma alteração da lei do aborto tem de passar por um referendo, contra 12 por cento que defendem alteração simples na Assembleia da República".
Perante esta informação resta-nos inferir que a sondagem padece de graves incorrecções metodólogicas na sua aplicação. Pois que a Ana Sá Lopes não nos garantia exactamente o contrário? E não conhece ela a vox populi como poucos?
Pierre Bourdieu certa vez afirmou que os jornalistas têm "óculos especiais, a partir dos quais vêem certas coisas e não outras; e vêem de certa maneira as coisas que vêem, operando uma selecção e uma construção do que é seleccionado".
Apazigua-nos o espírito saber que Ana Sá Lopes não usa óculos.

domingo, setembro 24, 2006

Para um retrato das raízes do fundamentalismo radical islâmico

terça-feira, agosto 01, 2006

O novo paradigma estético do futebolista


Nos primórdios do jogo era a brilhantina que ditava leis na aparência física. Player que se prezasse tinha que embeber o cabelo em óleo essencial e vaselina, porque assim “ditavam” as leis da apresentação em público em recintos desportivos, mas não só. Para dominar as clássicas Shoot, Fussball e Dupont, repletas de costuras salientes, havia primeiro que dominar as hastes capilares. Mais do que um jogo para homens de barba rija, era uma altura em que o futebol se destinava a homens de cabeça dura.
Esses tempos dourados da brilhantina e fotografados a preto e branco, engavetados já num passado distante, deram progressivamente lugar às diversas imposições das diversas correntes da moda, que os futebolistas, com maior ou menor empenho, se esforçaram por acompanhar no seu look.
Foi assim ao longo dos tempos até que chegámos aos dias de hoje, e eis-nos perante o novo paradigma visual do futebolista moderno: a tatuagem.
Símbolo de rebeldia e de bravura da juventude, essa arte egípcia é agora a arte corporal predilecta dos artistas da bola. Entusiasmados com os novos formatos das camisolas de treino, sem mangas, é ver os artistas da bola, seja nos relvados, seja nas conferências de Imprensa, a exibir orgulhosamente os mais diversos desenhos tatuados, que vão desde o abstraccionismo dos símbolos tribais e dos motivos orientais até aos dragões.
A febre é geral, atravessa nacionalidades, talentos e destrezas. Olhamos para os dois artistas da imagem e lá estão elas nos ombros de um fantasista Rui Costa ou de um irrequieto Miccoli.
Mas acima de tudo a tatuagem é um símbolo democrático, no sentido em que tão depressa a vemos em príncipes, como os da imagem, como logo a seguir nos deparamos com elas nos ombros da plebe, como Bruno Alves ou Beto. Nestes últimos, diga-se, para além de preferência estética massificada, a tatuagem cumpre uma função de relevo: a de factor de prolongamento da carreira no meio futebolístico.
Distraímo-nos a olhar para os motivos tatuados e assim lá nos passa despercebido mais um passe errado, mais uma perda de bola, ou, quiçá, ou entrada violenta sobre um adversário, prática corrente nestes jogadores.
A adopção das tatuagens é, portanto, um sintoma de inteligência por parte dos mesmos (quem diria...). E nós só temos de saudar a iniciativa, porque assim deixamos de nos focar tanto na prática futebolística destes “jogadores”.

segunda-feira, junho 12, 2006

A Final

terça-feira, maio 30, 2006

Espanto só para quem quer

O cenário “arrasador” das escolas traçado pela Ministra da Educação acerca da orientação para o sucesso que elas vertem nas suas práticas de organização, só surpreende quem tem estado completamente desatento ou involuntariamente mal-informado do modo de funcionamento de muitas escolas.
A imagem idealista da escola como instância equalizadora de oportunidades sociais, e por conseguinte, mecanismo nivelador das desigualdades sociais, económicas e culturais herdadas, não conseguiu ainda arrancar na maioria das vezes do papel, em Portugal.
Pese embora a melhoria indiscutível do panorama educativo ao longo das últimas décadas, traduzida em indicadores como as taxas de escolaridade da população e de abandono escolar, continuam a permanecer práticas e comportamentos ao nível da sua organização que obstaculizam a sua assumpção plena em termos do cumprimento da sua missão de cidadania.
Um dos principais, senão mesmo o principal escolho nesta matéria, foi agora ventilado, por fim, por alguém com funções ministeriais: a “distinção” social, económica e cultural de muitos alunos exercida pela Escola.
Essa “distinção” vai no sentido de ser assegurada uma homogamia das condições materiais de existência, no que diz respeito à configuração das turmas e aos horários atribuídos. Estudantes com capitais similares são agrupados em turmas quase estanques ao longo do percurso escolar, beneficiam de horários compatíveis com a abertura de um campo de possibilidades de estudo que se estende para além daquele que é definido pela escola, e, numa relação dialética de interesse comum, são tutelados pelos professores mais experientes, os quais por sua vez fazem recair a sua preferência lectiva, na altura do “desenho” das turmas, naquelas que lhes asseguram uma actividade lectiva mais direccionada para o seu focus de actividade e menos para questões estudantis mais problemáticas e que extravasam a realidade escolar mais concreta.
O resultado destas práticas generalizadas tendentes a estigmatizar os alunos menos habilitados em matéria de status herdado, traduz-se, inevitavelmente, na reprodução social caucionada e legitimada pela Escola, ou seja, na inversão daquilo que seria a sua função enquanto instância suprema de equalização de oportunidades.
Daí não perceber o espanto dos professores quando a ministra tocou por fim na ferida... Quem lá anda e quem lá andou, como eu, e não há muito tempo, facilmente se apercebe de que o cenário “arrasador” posto a descoberto pela ministra, limita-se a revelar um fundo de verdade inegável, infelizmente para prejuízo de muitos alunos, que vêem assim o futuro cerceado pelo usufruto de condições escolares desiguais.

sexta-feira, abril 28, 2006

Senna, Prost & Schumacher - Silverstone 93