quarta-feira, novembro 30, 2005

Um Plano Tecnológico no país do ‘eu é que sei’

Saiu o tão esperado Plano Tecnológico do governo. Foi com uma certa apreensão que li o documento. Este é sem duvida um momento importante. Trata-se da iniciativa mais séria e importante que um governo alguma vez encetou para despoletar, finalmente, o desenvolvimento economico e social do país. Sempre pensei que este seria um passo arriscado, daqueles que embate em constantes pedras que obstruem o caminho. Pedras conservadores, pedras sem visão, pedras pouco criativas, ou pedras simplesmente pedras. Recordo-me de um encontro com João Sentieiro, do Ministério para a Ciência e Tecnologia, em que eu chamei a atenção para o facto de muitos cientistas portugueses, cuja formação é paga pelo Estado (i.e. impostos dos cidadãos portugueses), não terem a oportunidade de regressarem a Portugal para exercerem ciência. A isto o senhor respondeu que era um orgulho ter Damásios espalhados pelo mundo... Bom, ciência não é propriamente futebol e nos EUA poucos sabem que é o Damásio... Cientistas, nos países que realmente investem em ciência, são trabalhadores como quaisquer outros, e não vedetas-tipo-perús-inchados, como em Portugal. E aqueles que sabem quem é Damásio, consideram-no norte-americano, uma vez que esta é a sua nacionalidade, legalmente impressa no seu passaporte. Portanto, publicado o Plano Tecnológico, reservei um tempinho para o ler. Para já, li o relatório duas vezes e... Parece-me bem. Independentemente da quizília entre o Ministro da Ciência e da Economia, e que terá levado à demissão de José Tavares, o relatório é um documento estruturado e bem redigido (i.e. de uma forma simples e acessível, sem a normal verborréia própria dos acadêmicos do burgo). As medidas propostas funcionam em articulação e baseiam-se numa perspectiva holística do desenvolvimento tecnológico do país. Existe uma preocupação com a qualificação inter-geracional, propondo-se medidas de requalificação da população activa em simultâneo ao reforço do ensino básico. É reforçada a idéia e a intenção de expandir e melhorar as escolas tecnológicas e profissionais que qualificarão os alunos que não desejam seguir uma carreira universitária. Por outro lado, procura-se criar a ponte entre a investigação cientifica nas universidades e politécnicos, e a iniciativa privada, atraindo-se fundos para projectos de pesquisa até agora 100% financiados pelo Estado, ou simplesmente não financiados. Dois pontos a discutir mais demoradamente são:

a) o compromisso feito pelo Estado em apoiar a investigação na área do desenvolvimento de armamento, no contexto dos compromissos assumidos por Portugal na NATO. Ora, isto merece, quanto a mim, explicações muito claras, nomeadamente explicações de principio (será correcto o envolvimento do país neste tipo de actividade cientifica?) e econômico (i.e. qual a percentagem de investimento público que será devotada a este tipo de investigação, ou ainda, e justificável este tipo de envolvimento quando estruturas prévias de investigação nesta área são inexistentes).
b) até que ponto o Estado reconhece que certos ‘tipos’ de ciência não apresentam um grau de rentabilidade e comercialização tão elevado quanto outros. Isto porque são ramos científicos que poderão, nomeadamente, requerer mais tempo para a aquisição de aplicação prática. O reconhecimento do Estado nesta matéria e essencial pois à medida em que certos ramos científicos poderão começar a ser, gradualmente, co-financiados pela iniciativa privada, outros – nomeadamente aqueles não-rentáveis – deverão ser cada vez mais apoiados pelo Estado.

Um debate mais de detalhe, e construtivo, deverá então passar fundamentalmente pela a discussão dos dois pontos acima referidos. Um debate não construtivo é aquele que simplesmente corta a discussão pela rama. Estes são os debates do ‘eu é que sei’, e portanto ‘isto está tudo mal’. Está mal porque por principio a ciência não deverá ficar nas mãos da iniciativa privada, logo, não há pé para discussão. Bom, há sim senhor. Basta assegurar que o Estado seja sempre co-financiador, e assegurar sobretudo e legalmente, a independência intelectual e os direitos dos cientistas, bem como os direitos do Estado (óbvio que juntamente com os direitos da entidade privada também investidora) sobre a utilização ou produção de qualquer produto cientifico que sirva os interesses da população (exemplo: a produção da vacina contra a gripe das aves, se descoberta). Ou seja, sempre que o interesse público assim o justifique.
Debates não produtivos são também aqueles das associações de empresários-tipo-Vale-do-Ave, de indústrias pré-segunda revolução industrial, que vêem dizer que não se revêem no dito Plano Tecnológico e que não foram sequer ouvidos. Eh... Alô!!! Realmente a qualificação dos recursos humanos e a requalificação da população activa não se afigura vantajosa para estes empresários que vivem da produção de contrafacção, trabalho infantil, e trabalho feminino pouco ou nada qualificado. É óbvio que o Plano Tecnológico lança o repto a este tipo de indústrias: o desenvolvimento de um pais é colectivo e não sectorial. Se a mão-de-obra tem que se adaptar às existentes actividades economicas, estas terão de se adaptar também a uma mão-de-obra mais qualificada, reflexiva, e exigente.
A minha maior preocupação relativamente a este Plano concerne à sua implementação: como será que a burocracia do Estado vai articular a implementação deste ambicioso Plano? No país do ‘eu é que sei’, a resposta a esta questão é uma caixinha de surpresas... Na maioria das vezes, pouco agradáveis...
Mas seria bom que houvesse um debate mais aberto, que as pessoas realmente lessem o documento, e que construtivamente se lançassem mais idéias em praça publica, num ambiente de saudável discussão, ao invés de um ambiente marcado por ‘eu-é-seis’ ressabiados que raramente e quase nunca apresentam ideias. Se calhar talvez porque não as têm...

terça-feira, novembro 29, 2005

Chef

O indivíduo entrava nas habitações, durante a noite e, quase como ponto de honra, "matava a fome". Não raras ocasiões, de acordo com as autoridades, terá mesmo ido a ponto de confeccionar as refeições, usando os ingredientes e a cozinha alheios. Depois de alimentado, "aproveitava" para assaltar essas mesmas residências, levando tudo quanto pudesse e lhe parecesse valioso.

Com a carência de "chefs" no país capazes de aguçar o paladar dos portugueses a preços em conta, aprisionar versáteis cozinheiros não creio que seja a solução. O homem ainda por cima "limpava" tachos, panelas e muitos outros objectos de cozinha que o comum dos mortais não tem paciência para limpar e desengordurar no final das refeições...Gente mal agradecida é o que é.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Estupidez e retardamento mental é...

Quando certos políticos vêem dizer que só um sistema presidencialista poderá tirar o país da crise...

Populismo é…

Quando num Estado constitucionalmente laico o governo manda, e muito bem, que se retirem os crucifixos das escolas e instituições estatais, e os políticos em campanha eleitoral, à falta de idéias pertinentes, fazem disto um cavalo de Tróia...
http://www.geocities.com/republaicidade/index.html

A UE, a PAC, e a nova 'guerra' franco-inglesa

O impasse da União Europeia (UE) era esperado. O problema é a forma como a questão está a ser colocada: a nova guerra entre o Reino Unido (RU) e a França. O RU quer diminuir o peso dos gastos com a PAC (Pacote de Agricultura Comum) nos impostos dos cidadãos Europeus. Segundo o governo britânico, o sector industrial nunca foi tão fortemente subsidiado e por isso mesmo, assim vai o argumento, soube adaptar-se ao dinâmico mercado global. Este argumento é coerente com a política britânica e a sua tendência patogenica para a liberalização dos mercados, independentemente das consequências adversas que daí poderão advir. O moto é: se singrares tudo bem, se não singrares paciência... Do outro lado da trincheira temos a França, a economia mais subsidiada do conjunto dos paises ditos desenvolvidos. A França recusa-se inclusive a negociar uma pequena redução na PAC. Afinal, o coutryside francês mantém-se prístino, inalterado, e rico porque subsidiado. Christine Legarde, a ministra francesa para o comercio com o exterior, defende, num tom arrogante e cínico, que a importância de uma agricultura subsidiada é a de sabermos a origem da comida que temos no nosso prato e a preservação da identidade cultural francesa. Ao ouvir a senhora falar fiquei com a sensação que a França realmente não se enxerga! Ter o desplante de dizer tal coisa quando os paises mais pobres da UE são forçados a desmantelar o seu countryside, obrigados a parar de cultivar certos e determinados produtos, diminuindo assim a variedade das culturas em seu território nacional, com todas as consequências ambientais que daí advêm! O que a França não percebe é que a UE não existe para a servir e que os direitos deverão ser iguais para todos. O RU entende que os direitos deverão ser iguais para todos mas sobre uma perspectiva cruelmente neo-liberal. Esta ‘guerra’ no interior da UE deveria opor os pequenos paises da União às chamadas economias fortes. O paises menos desenvolvidos da União deveriam exigir uma maior igualdade de qualidade vida. Sim porque o que se passa em França é que enquanto na Roménia e em Portugal os camponeses emigram para limpar as latrinas dos franceses, os camponeses franceses passam o dia a cheirar vinho e queijo sponsored by the EU... Esta igualdade passa ainda por uma reforma das instituições Europeias, uma maior democratização destas mesmas instituições a par da sua desburocratização, limpando das suas secretarias centenas de burocratas cuja a única utilidade é a de aumentarem o trafego aéreo... A guerra que opõe o RU a França opõe dois pontos de vista errados. O único mérito do RU é obrigar os paises da União a repensarem a estrutura política e económica da mesma. É talvez uma oportunidade de ouro para os paises mais fracos se unirem e aproveitarem a luta dos Golias para forçarem, finalmente, a integração das suas reivindicações.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Pacheco Pereira, just do your homework & have a port...

Começo a ler o artigo de um homem aflito, em que a tinta discorre letras num turbilhão. Se me concentrasse apenas na forma e não no significado de tais símbolos, pensaria estar a ler um artigo de um evangelista do sétimo dia, que escreve que o mundo afinal terminara ao sexto, e que o sexto e já amanha... Mas não. Estou a ler um artigo do Jose Pacheco Pereira (JPP), no Publico. E JPP esta realmente aflito. Aflige-se ele com as declarações de Freitas do Amaral em relação a resistência do Reino Unido em fazer passar o orçamento Europeu. Teatralmente escreve JPP que estas foram “as mais violentas acusações que qualquer governante europeu da EU fez contra outro governo da EU”. Chocado, JPP, que deve ter escrito o artigo ainda de queixo caído, afirma que Portugal alienou um dos seus maiores aliados. Bom, que dizer... JPP do your homework... Em primeiro lugar, nenhum jornal britânico focou o assunto. A celeuma levantada por JPP, que toma as dores do Reino de Isabel, não se verifica por cá, nem a Isabel esta com dores algumas. Isto espelha exactamente o respeito e a importância que a Inglaterra atribui a Portugal, pais que certamente não considera como o seu melhor aliado. A estratégia do Reino Unido (RU) passa pelas boas relações com os paises do Leste, esses sim, seus aliados preferenciais, uma vez que estes paises se mostram mais favoráveis a política dos EUA. Ser a ponte entre os dois continentes e o que o RU ambiciona. Mediar, ser um player no trafico de influencias políticas internacionais e, sem sombra de duvida, o papel que o RU quer para si, na Europa e no Mundo. Portugal não interessa. O vinho do Porto faz parte do comercio livre e têxteis já os ingleses não produzem. Portanto...
Em segundo lugar, se bem que concorde com a pressão que o governo britânico exerce sobre os interesses instituídos da Franca e da Alemanha no conjunto da EU, concordo também que a diplomacia Portuguesa não tem necessariamente de ser sinônimo de servilismo. Declarações agressivas são comuns em negociações. Fazem parte do jogo. Quem vê Mandelson a negociar com certeza que não chamara aquilo de diplomacia, mas mais de bullying. Ou então basta lembrar a conferencia de imprensa do ministro dos negócios estrangeiros brasileiro após as negociações entre a EU e os representantes dos paises em vias de desenvolvimento sobre o comercio e agricultura. Luiz Fernando Furlan disse na altura que ou o seu inglês era muito mau ou Mandelson era surdo... Nao consta que o RU deixasse de importar cafe ao Brasil, ou mesmo que diminuisse a quota de importacao de produtos brasileiros.
Portanto, JPP, no calor da indignação, não escrevas artigos tontos... Espera, just sit back, drink an Earl Grey, and relax. Or have a port, have a port...

quinta-feira, novembro 17, 2005

Guns of Brixton

Os defensores da excelência do modelo de integração britânico sofrem de amnésia histórica e quando falam da excelência de Londres é porque nunca foram muito para sul do Tamisa. Independentemente da origem cultural, como agora se diz, basta um desemprego alto e a usual discriminação racial para inflamar a situação. Em 1981, quando o sul de Londres explodiu, a multidão foi apelidada de "black crowd". Não houve grande conversa sobre a origem religiosa ou mesmo cultural dos que protestaram, filhos e netos de jamaicanos, nigerianos e de outras proveniências. O relatório oficial falava de "serious social and economic problems affecting Britain's inner cities" e ainda de "racial disadvantage that is a fact of British life". Nem sombra do grande satã muçulmano. Os The Clash escreveram sobre Brixton. Seguem as primeiras estrofes.

Guns of Brixton

When they kick at your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun

When the law break in
How you gonna go?
Shot down on the pavement
Or waiting on death row

You can crush us
You can bruise us
But you'll have to answer to
Oh, the guns of Brixton

A Igreja e o sexo

Na tradicional e Catolica cidade de Viseu foi assassinada uma prostituta Brasileira, portadora do vírus HIV. Parte-se do principio que o facto desta mulher estar infectada esteve na origem deste deplorável acto. Para já, há duas questões que aqui se levantam:

1. A ‘bela italiana’, como era apelidada a mulher assassinada, terá feito o teste no Centro de Rastreio Anonimo do Hospital de Viseu. Parece-me a mim que provavelmente a informação acerca da infecção desta mulher terá vindo desta unidade.

2. Por outro lado, no circuito da prostituição em Viseu, esta mulher era a mais procurada e a que mais facturava porque não obrigava os seus clientes ao uso do preservativo.

Segundo informacoes do Centro de Rastreio Anonimo do Hospital de Viseu, o numero de utentes desta unidade não sofreu nenhum aumento. Significa pois que, e segundo fontes não oficiais, os presumíveis clientes da ‘bela italiana’ se dirigem a outras unidades de rastreio, nomeadamente as situadas nas grandes cidades, para fazerem o teste de despiste do HIV. E realmente deplorável que os cidadãos não sintam confiança numa estrutura de Saúde que legalmente e obrigada a manter o anonimato. Mais deplorável ainda e o assassinato desta mulher. Tudo isto so vem provar que em termos de mentalidades, Portugal ainda esta na Idade das Trevas. Pior, revela igualmente que as campanhas de prevenção do HIV/Sida tem falhado redondamente. Os homens portugueses, a grande maioria, recusa-se a usar preservativo. A grande maioria das mulheres, amordaçadas por uma cultura ainda altamente conservadora, não e suficientemente emancipada para exigir o uso do preservativo, remetendo essa decisão para homem. Assim sendo, Portugal e o pais da Europa com um dos mais elevados índices do vírus de HVI. A julgar pela a confiança que os cidadaos tem nas estruturas de Saúde, este indice será ate, porventura, mais elevado.
Para tornar esta questão ainda mais surreal, a educação sexual nas escolas parece engatada em marcha atrás. A Igreja, incapaz de resolver os seus proprios problemas internos no que concerne ao comportamento sexual dos seus apóstolos padres, da-se ao luxo de fazer comentários públicos completamente desajustados a situação do pais. Acusa o Estado de se preocupar somente com a prevenção da "gravidez não planeada, (d)as doenças sexualmente transmissíveis e abusos e exploração sexual" e expressa o seu descontentamento relativamente "a colaboração de estudantes mais velhos que frequentam o ensino superior" nas aulas que abordem estas tematicas com os adolescentes. A Igreja, parece-me a mim, quer ensinar o ‘amor’. Os veiculos humanos para divulgarem este ensinamento serao, presumo, os padres (que ganharao assim um salario do Estado, com todas as regalias que isso implica). Sendo uma organizacao dita da sociedade civil, a Igreja tem todo o direito de expressar a sua opiniao. No entanto, num estado constitucionalmente laico, a ultima coisa que eu gostaria de ver era padres nas escolas. Os padres tem que se acostumar ao seu espaco – a igreja, a capela, e o adro. O ‘amor’ nao se ensina, sente-se. Nao ha moral nenhuma, catolica ou outra, que possa vir ensinar, inculcar o amor, as formas de amar, e os preceitos do amor. Sexo por sexo, sexo com amor ou sem amor, devera ficar ao criterio de cada um. Isto desde que ambas as pessoas envolvidas no acto estejam plenamente conscientes do que estao a fazer, desde que nenhuma delas seja forcada a faze-lo e/ou humilhada no processo. Sexo com amor por si so nao evita doencas sexualmente transmissiveis, que vao desde a Sida, a hepatite, a clamidia que leva a infertilidade, ao papiloma virus que se desenvolve em cancro do cervix. Como em questoes do amor cada um sabe de si, uma educacao sexual correcta devera passar sobretudo pela emancipacao feminina. O inculcar nas mentalidades das adolescentes que sexo so quando elas quiserem, sem pressoes sociais, quando se sentirem preparadas, e com preservativo. Aos homens, e educacao sexual passara pela desconstrucao dos mitos da virilidade e masculinidade, e por uma maior responsabilizacao pelo acto sexual. A Igreja, que reze pais-nossos e que ame os outros, de tal forma que nao os condene moral e fisicamente.

terça-feira, novembro 15, 2005

Ainda as culturas

Por alturas em que o "Público" tomou a iniciativa de fechar grande parte dos seus conteúdos on-line a todos aqueles que não aderissem à assinatura mensal paga, levantou-se uma onda de cizânia aqui no ciberespaço. Inclusivé, à data, tive oportunidade de deixar aqui umas palavras de forte desconfiança quanto ao sucesso da operação.
Devido às características da génese da criação da Internet e do caldo de culturas que desde o início lhe deram forma e nela estão enraízadas, pareceu-me que seria uma iniciativa condenado ao fracasso.
A Internet foi moldada desde cedo, entre outras, pela cultura hacker, que, ao contrário da imagem tradicionalmente veiculada pelos media, valoriza os quadros informais de transmissão gratuita da informação, a livre partilha da descoberta e a cooperação em rede.
Obviamente, este modus de acção está nos antípodas da iniciativa do "Público", que apostou no custeamento do acesso à informação. Até hoje, que eu tenha conhecimento, o jornal nunca deu a conhecer o state of art da sua iniciativa. Contudo, a julgar pelos indicadores apurados recentemente por uma empresas de sondagens sobre a Web, o panorama não deve ser muito risonho quanto ao número de adesões à assinatura paga da edição on-line...
A confirmar-se esta tendência (tudo o leva a crer) na assinatura do "Público on-line", não deixa de ser uma pena que o seu director, actualmente tão envolto na destrinça das questões culturais, tenha descurado uma análise mais aprofundada da(s) cultura(s) da Internet...

segunda-feira, novembro 14, 2005

Estranhamente, concordo

Ele ha coisas...

O Durao Barroso prometeu uma quantia razoavel ao governo Frances para resolver os problemas sociais nos suburbios. Ora, se o governo Frances distribuisse racionalmente e equitativamente o dinheiro que ja recebe da UE nada disto seria necessario. O estilo 'O-la-la, le bon vin' da agricultura francesa, tem sido hiper subsidiado, anos a fio, pela a UE. Isto sem quaisquer beneficios para o resto da Uniao... Neste assunto, lamentavelmente, estou com o Blair. E inadmissivel que 40% do orcamento da Uniao Europeia seja canalizado para a agricultura, sendo o grosso deste dinheiro destinado a paises como a Franca e Alemanha. Entretanto, nos suburbios urbanos, o 'lunpen proletariat', agora apelidado de 'imigrantes', vivem acocados como animais nos matadouros. Boa Durao, ficaras com certeza para a Historia conhecido como o melhor Presidente na Uniao, fama que acumularas com a de melhor Primeiro Ministro Portugues!

O último e mais esperado candidato

A coisa está ainda no começo mas uma onda imparável poderá varrer as próximas eleições. Vieira is back.
www.vieira2006.com

domingo, novembro 13, 2005

Liberte, Egalite, Fraternite

Liberte: recolher obrigatorio, proibicao de concentracoes de pessoas;

Egalite: cidadaos com visto de residencia, com as mesmas obrigacoes que os cidadaos franceses, serao expulsos do pais na eventualidade de infraccao da lei (o que revela direitos substancialmente diferentes);

Fraternite: onde?!

Et vive la Republic!
PS:
Qualquer semelhanca entre este tipo de regime republicano e um regime autocratico (daqueles que normalmente acabam por ser bombardeados), e pura coicidencia.

quinta-feira, novembro 10, 2005

A "invenção" dos muçulmanos

Existindo há uns bons séculos os muçulmanos foram dramaticamente reinventados nas últimas duas décadas. Antigamente os muçulmanos eram designados de forma diferente. Havia os regimes amigos a quem se podia vender armas porque tinham uma posição estratégica, como o Iraque de Saddam, ou os regimes perigosos, focos de potenciais comunismos, como O Egipto de Nasser ou a Síria ou mesmo na altura o Afeganistão. É certo que a revolução islâmica no Irão lembrou que havia muçulmanos, mas quem se lembrava da religião quando o mundo era disputado, território a território, entre dois tabuleiros políticos. Mesmo o conflito entre Israel e a Palestina era, antes de tudo, político, ou se quisermos, geo-estratégico. Hoje as divisões políticas parecem pouco importantes, trata-se, como advogam os grandes defensores do factor de explicação cultural/religioso, de uma batalha entre civilizações. É certo que esta visão implica uma amnésia em relação certas amizades, a mais evidente das quais a da Arábia Saudita. O quadro cultural/religioso redefiniu a representação do mapa mundo, com algumas limitações, substituindo o proeminente quadro político/económico. Mas não o fez apenas a um nível macro-estrutural. No que respeita a indivíduos com determinada origem nacional, como se passa neste momento em França, eles deixaram de ser operários, agricultores, desempregados, consumidores de bens e serviços ou mesmo cidadãos, para passarem a ser muçulmanos. Do outro lado da barreira estão os ocidentais, também eles violentamente uniformizados.
Antes da queda do muro de Berlim ser muçulmano era uma coisa diferente. O império soviético veio dar lugar, nas imaginações do "ocidente", ao império muçulmano. O hiper-racionalizado Homem soviético, frito e falho de emoções, veio dar lugar ao irracionalismo religioso do barbudo bombista suicida. E é assim que nos vão contando histórias.

Cromos da Bola

Não tenho por hábito deixar aqui referências de outros blogs. Mas como a regra comporta por vezes a excepção, ainda para mais somos portugueses, e esse arrojo transgressor faz parte do nosso ethos, vou aproveitar para habilitar todos aqueles que assim o queiram com a possibilidade de arrematar o prémio de uma nostálgica e bem disposta viagem às memórias do nosso desporto-rei.
Cromos da Bola, assim se chama o blog no qual dei por mim a reviver lembranças de antigas "glórias do futebol português", sob o patrocínio de espirituosos textos de dissertação a acompanhar. Desde Eskilsson a Zé d'Angola, de Bandeirinha a Folha, de Vata a Vlk, passando por já vetustos players do saudoso Académico de Viseu, como o inquebrável defesa jugoslavo Mirko Soc ou o prolífico avançado brasileiro Marcelo Sofia, sósia de Lionel Richie para os autores do texto, diversas são as referências que nos fazem sorrir acerca de personagens "clássicas" que fizeram história, nem que tenha sido apenas com letra pequena e deixaram recordações a somente alguns, no futebol português.
Eis os cromos da bola

quarta-feira, novembro 09, 2005

Na periferia

Conheço Cinfães como a palma da minha mão. Os meus Verões eram passados numa pequena aldeia, Paradela. Aqueles Verões que se estendiam por Setembro e que me permitiam ficar para as vindimas. A ‘praia’ era a Espiunca, que fica na rota do então límpido rio Paiva. A piscina o ‘poço negro’, uma das nascentes do rio acantonada num dos profundos vales de Paradela antes de se juntar ao leito do Paiva. Lembro-me ainda pequena de ouvir as minhas tias falarem nos ‘brasileiros’, aqueles que no inicio do século XX cruzaram o Atlântico em busca de melhores dias. Ou dos foragidos a I Guerra mundial. Uma guerra em que os historiadores Portugueses teimam em negar a participação de Portugal. Na aldeia falava-se da ‘venda’ de homens ao exército inglês. Homens esses que rumavam ao Brasil, precisamente no sentido oposto a uma Europa em armas. Falavam também dos ‘aliados’ do regime, que vinham ‘confiscar’ as colheitas e das paredes falsas, por detrás das lareiras, para esconder o milho. Aos ‘brasileiros’, juntavam-se os ‘suíços’, os ‘alemães’, e os ‘franceses’, em Agosto para a festa da padroeira Santa Ana. Dos emigrados na ‘Europa’ recordo-me dos carros e das bolachas! Bolachas a que ainda não tínhamos acesso em Portugal, muito menos em Paradela, onde só havia uma ‘loja’ com produtos locais e pastilhas elásticas ‘Gorila’. Em Paradela, a água acartava-se da fonte, a roupa lavava-se nos tanques comunitários. As televisões, para quem as tinha, eram a bateria. As casas eram iluminadas a ‘petromax’. A água do banho era aquecida a lareira, fosse Verão ou Inverno, e a banheira era uma ‘celha’ enorme. As casas de banho eram construídas por cima das cortes dos animais e consistiam numa tábua disposta como se fosse um banco de madeira mas com um círculo recortado. A vida em Paradela assemelhava-se à vida de tantas outras aldeias do concelho de Cinfães, onde mulheres de negro estavam claramente em maioria e carregavam as costas os molhes de milho amparados pelas ‘sacholas’. Recordo-me quando a luz eléctrica chegou à aldeia. Não me recordo de quando o saneamento básico, ou a água canalizada foram introduzidos. Talvez porque nunca o foram... Mas vi este ano, este Verão, que mais campos e campos se amontoam sem serem trabalhados, que as mulheres de negro morreram e que muitos poucos restam numa aldeia que ainda assim teima em permanecer acolhedora e bucólica. A emigração, tal como a imigração, e um fenómeno que deve ser levado a sério. Em Cinfães, os sucessivos fluxos migratórios e a progressiva desertificação humana das suas aldeias e lugares revela o abandono a que o interior foi votado pelos sucessivos governos que, mal, concentram a sua atenção somente no litoral do pais. Governos que optaram por um tipo de desenvolvimento económico apressado, trôpego, sem nada de estrutural. Um desenvolvimento económico que ignorou a necessidade do desenvolvimento agrícola e criou ‘novos-ricos’ a rodos, engenheiros aos molhos, politiqueiros Armani, licenciados as pás, e, claro está, muitos e muitos ‘executivos’. Cinfães é o subúrbio dos subúrbios. Ou melhor, o subúrbio da periferia, ignorado, esquecido. Pela esquerda e pela direita. Paradela lá esta, aguardando por novo Agosto, mês em que os filhos da terra regressam. Mas agora, os carros já não impressionam e as bolachas já são as mesmas.
Leitura interessante:
http://dn.sapo.pt/2005/11/09/sociedade/aqui_ha_trabalho_malta_para_fora.html

terça-feira, novembro 08, 2005

O Estúpido

O director do jornal Público escreveu hoje, a propósito dos acontecimentos em França, um editorial intitulado, Não é o social, estúpido: é a cultura. Enfiei o barrete. Sou precisamente desses estúpidos que, considerando a importância de algumas variáveis culturais, atribuo ao que Fernandes chama de "social" a origem do sucedido. Gostava de argumentar que o estúpido é ele. Confesso, porém, que não o acho estúpido, mas simplesmente perigoso. Atribuir a manifestações violentas uma origem cultural é absurdo. Claro que Fernandes, como outros, não diz isto directamente, eufemiza a questão, fala das dificuldades de integração, mascara um discurso que, sem máscara, quer fazer regressar a ideia de combate civilizacional. Eles são muçulmanos, emigrantes de segunda geração, mas nunca "franceses" socializados na sociedade francesa. O seu problema é que não se conseguem adaptar à "nossa cultura". As culturas tornam-se assim dois blocos unificados, sem fracturas, apenas intermutáveis quando eles, os outros, abdicam do que é seu e se integram. A coisa lembra um pouco as políticas coloniais de assimilação. Esta abdicação implica, se não formos hipócritas como Fernandes, aceitar a vida sem futuro das classes baixas ocidentais, acrescentando-se a isso o estigma proveniente da discriminação de origem cultural. Mas a questão da cultura não resiste a análise mais atenta. Desde logo, pelas informações mais cuidadas, se percebe que não se tratam em grande parte de jovens muçulmanos, que nem todos são de origem emigrante e que o que realmente partilham é o subúrbio francês, esse espaço de desemprego, esse espaço que o Estado abandonou aos poucos. O discurso da "cultura" mascara o discurso da "classe". Não que a classe resolva tudo. Há variáveis culturais e mesmo geracionais que interessa observar, mas a origem de classe é factor determinante. O que sucede, tal como acontece nos Estados Unidos, é que em certas áreas urbanas a classe etnicizou-se.
O discurso de Fernandes é perigoso socialmente porque a "cultura" não é mais do que uma forma sofisticada de regressarmos ao racismo mais primário e à ideia de que os Homens não depende das condições em que são criados mas de uma qualquer essência cultural que, note-se, nunca é explicada senão através de um conjunto de estereótipos ignorantes sobre o "outro".
Mas a grande discussão por detrás da "cultura" é claramente económica. Atribuindo à cultura a responsabilidade de muitos problemas quotidianos, anula-se qualquer ideia de repensar os serviços sociais do Estado. Ao Estado, deste modo, cabe defender a "boa cultura", o que implica quase sempre a lei e a ordem. Não tendo os problemas uma origem social não há razão para parar a progressiva erosão da participação do Estado social na vida dos cidadãos.

Ensino e mobilidade

Em Portugal discute-se neste momento a introducao de emprestimos bancarios a estudantes universitarios. Esta medida abjecta e inspirada nos modelos Britanico e dos EUA alega uma maior democratizacao do acesso ao ensino superior e consequentemente uma maior e elevada mobilidade social inter/intra-geracional. Bom, aqui fica entao um estudo comparativo da London School of Economics que vem demonstrar que tanto os EUA como o Reino Unido estao entre os paises com menor indice de mobilidade social no contexto dos chamados paises desenvolvidos... E interessante a leitura deste documento. Talvez os politicos Portugueses devessem informar-se melhor ao inves de avancarem com propostas comprovadamente falidas. Resta realcar que os paises mais bem cotados, muitos deles, como a Filandia, tem um sistema de ensino publico completamente 'gratis'.
http://www.lse.ac.uk/collections/pressAndInformationOffice/newsAndEvents/
archives/2005/LSE_SuttonTrust_report.htm

Nos subúrbios

A França assiste ha mais de 10 dias ao que se pode designar de uma ‘micro-guerra civil’. Jovens, apelidados de segundas e terceiras gerações de imigrantes, tem expressado o seu descontentamento, a sua revolta, relativamente às condições sociais em que vivem e a que estão sujeitos. O facto de estes jovens, nascidos e criados em Franca, serem ainda apelidados de segundas e terceiras gerações, e não simplesmente de um grupo de cidadãos, e bastante revelador da forma como os ditos ‘autóctones’ franceses lidam com a questão da imigração. Quantas gerações serão necessárias para que jovens como estes sejam considerados cidadãos de pleno direito?
Estes bairros, muito à semelhança do que se vem fazendo em Portugal, são verdadeiros depósitos de imigrantes e de ‘autóctones’ socialmente excluídos. Para aqui são empurrados os não-desejáveis, aqueles cujo funcionamento do mercado imobiliário exclui das zonas mais centrais das grandes cidades, de terem acesso às mesmas escolas que os desejáveis têm. Nestes depósitos, famílias amontoam-se em andares, esquecidas que estão por se manterem (ou serem mantidas) longe da vista... A integração não passa nunca pela mistura, daí a falácia do ‘multiculturalismo’ e/ou da ‘multisocialização’. Passa sim, pela hipócrita transferência de recursos ‘apropriados’ ao tipo de população residente: uma população ‘especial’, porque afinal trata-se de gerações de segunda e terceira... Apoiam-se assim a criação nestas áreas de centros de recursos ‘multiculturais’, associações de todo o tipo, ONGs e afins. O estado delega a intervenção social num ‘corpo especializado’ da chamada sociedade civil. Este modelo está visivelmente esgotado e claramente não resulta. Sem perspectivas e confinados ao seu bairro, estes grupos de jovens não só se sentem frustrados, aborrecidos de morte, mas também territoriais: o perímetro do bairro e afinal o seu perímetro de vida. Em França, estes jovens FRANCESES, apenas demonstram que existem, que o seu território existe, numa existência diferente...
Por outro lado, há ainda a questão do ‘emprego’ ou do ‘trabalho’. Dizia um luso-francês que em Franca há trabalho, não será como há 30 anos, mas trabalho há. Ninguém quer é trabalho, mas sim empregos. Bom, ‘who can blame them?’. A corrente neo-liberal, estranhamente e talvez inconscientemente apoiada na ‘gouche avant-garde’ pós-moderna e pós tudo, instituiu, e contaminou as mentalidades, a idéia de que trabalho é prazer. Trabalho é vida. Vida é trabalho. Trabalho é diversão, é tudo... Acima de tudo, trabalho é ‘lifestyle’. Um estilo de vida ‘fluido’, ‘flutuante’, ‘informático’, cosmopolitano, cool. Ser trolha não é cool. Ser padeiro, carpinteiro, não é cool. Tanta coisa não é cool. A desvalorização de tantas e tantas profissões tem sido uma constante nos últimos 30, 20 anos. Esta desvalorização é acentuada pelo próprio, e tão celebrado, processo tecnológico, que retira criatividade aos ofícios. Os ‘ofícios’ passam de ofícios a ‘trabalho’, mas trabalhos não-cools. Já não mais se equaciona trabalho a creatividade, ou simplesmente a sobrevivência, ao conceito de ‘livelihoods’ ou modos de vida, que permitem viver não per se, mas viver para outras coisas, outros interesses fora da esfera do trabalho cool. O tal luso-francês tinha um trabalho cool. Daí talvez a sua incapacidade de perceber ‘o outro’, o que vive ‘ali’, no subúrbio...

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O nosso não está nada mal cotado. Se houvesse alguém que nos comprasse, como é evidente...

segunda-feira, novembro 07, 2005

Paris

Os senhores que controlam a economia do mundo e seus modelos dominantes deviam olhar para a história e começar rapidamente a acabar com a conversa sobre o colapso do Estado Social e de suas instituições. Se não o fizerem, pode ser que a coisa comece aos poucos a correr realmente mal. Nisto, os franceses costumam ter algum pioneirismo. É esperar.

Karagounis

Jornalistas e comentadores de futebol esquecem-se por vezes do poder que têm como intermediários da informação sobre o jogo para um público vasto. Partindo muitas vezes da sua ignorância crassa sobre os fundamentos do jogo, proferem sentenças sobre jogador A ou jogador B, arriscam interpretações sobre o modo como jogam as equipas e sobre as opções dos treinadores e as exibições dos árbitros. Muitos vezes terão razão, mas há outras em que não têm. Discordo quase totalmente do que se tem dito sobre o jogador do Benfica Karagounis. Embora esteja fora de forma física e por vezes faça uma finta a mais, Karagounis é dos poucos jogadores que levanta a cabeça para analisar o espaço, que hesita antes de passar porque quer fazer a melhor opção, que ataca os jogadores contrários de frente e que faz quebras de movimento que abrem espaços e confundem os adversários. Neste aspecto é um jogador raro. Há o perigo, já evidenciado no estádio da Luz, do jogador ser queimado pelo público, como muitos já foram, e como outros, como Geovanni ou João Pereira, estão a ser. Se os jornalistas e comentadores continuam a incendiar os espectadores não faltará tempo para que a vida de Karagounis se torne um inferno. Infelizmente, por ignorância.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Fundamentalismos mundanos da pós-modernidade...

O titulo é pomposo, mas a questão é bem simples. Falo-vos da paranóia pós-moderna em relação aos fumadores. Assisto com curiosidade ao debate actual que demoniza os fumadores, fazendo pesar sobre os seus ombros as culpas de todos os males e maleitas de saúde. Esta seita de gente que se fuma até ao cancro deverá ser banida, colocada sob uma espécie de quarentena diária, sujeita a um novo tipo de ‘apartheid’ que impedirá a contaminação dos saudáveis e felizes não fumadores. Bastas vezes escuto com curiosidade os acesos argumentos dos saudáveis. Um discurso ponteado de possessivos: ‘sim porque eu e os meus filhos não temos de estar a sofrer as conseqüências dos vícios privados dos outros. Trata-se da minha saúde’. Bom, só para vos dizer que considero este discurso uma hipocrisia. Mais. Resolvi até não mais me chatear com o deixar de fumar, só para meter nojo. Muitos do saudáveis fazem-me a mim sofrer devido aos vícios privados deles, entre os quais, o vicio do petróleo. A poluição por veículos motorizados esta intimamente relacionada (muito mais do que a frágil relação entre tabaco/cancro no pulmão) com o aumento de leucemias, e problemas respiratórios, nomeadamente nas crianças. Ora eu não tenho carro, não ambiciono ter carro, e desprezo (sim, desprezo tanto quanto me desprezam a mim por fumar) quem e dependente do carro e demasiado burguês para andar de transportes públicos. Se argumentam que a rede de transportes públicos não e boa, então o mesmo vigor que colocam na luta contra o tabaco, coloquem numa nobre luta cívica pelo desenvolvimento da dita rede. Do mesmo modo, eu defendo a criação de uma taxa acrescentada sobre o preço das passagens de avião, a chamada taxa da poluição, bem como concordo com a aplicação desta mesma taxa aos veículos motorizados num valor proporcional à cilindrada. O lucro destas acções deverá reverter para instituições publicas que fazem investigação na área das energias alternativas. É que os saudáveis fundamentalistas, que se enchem de ‘fast-foods’, esquecem-se que pelo menos em Inglaterra, cada vez que eu compro um maço de cigarros estou a pagar uma taxa que reverte para o ‘Cancer Research Institute’. Portanto, eu como fumadora faço muito mais por eles do que eles por mim. Eu pago o tratamento das leucemias deles, por assim dizer...

Riquelme

Na ressaca da derrota, entre o desgosto do resultado e a má exibição do Benfica, que nunca conseguiu encaixar no esquema dinâmico do adversário, resta a alegria de ver jogar Riquelme, o argentino do Villareal . Atleta estranho, atípico nos tempo que correm, sem a competitividade de um campeão, algo lento, Riquelme olha o jogo de cima, diverte-se a fazer passes difíceis, gosta de adornar as jogadas, de executar mais uma finta, de provocar os adversários com a sua imbatível destreza técnica, de tocar na bola e de dançar como ela como poucos conseguem. Um número dez numa altura em que vão rareando. Não é, obviamente, o mestre Diego, mas tivemos um cheirinho.