quinta-feira, outubro 28, 2004

As mulheres não gostam de foder - Parte 2

O Ministério Público decidiu abrir um inquérito ao caso de um livro com título alegadamente obsceno que foi exposto, há cerca de mês e meio, na montra de uma livraria de um centro comercial de Viseu.

Após algumas queixas, a PSP de Viseu decidiu aconselhar os proprietários da livraria Polvo a retirarem da montra o livro «As Mulheres Não Gostam de Foder», um ensaio sexual em banda desenhada.

O Ministério Público podia ter arquivado o caso, mas decidiu levar o assunto por diante. Para avançar, o delegado do procurador de Viseu, baseou-se numa lei de 1976 que proíbe a exposição em montras de qualquer produto obscenô.

A decisão surpreendeu os dois proprietários da livraria. «Estou boquiaberto. Só posso dizer que estamos a regredir», disse à TSF um dos sócios, Jorge Deodato.

Em Setembro, uma denuncia levou a PSP de Viseu até à livraria Polvo aconselhando a retirada de determinado livro, que podia ser considerado ofensivo. Os agentes levaram o livro mas o caso não ficou esquecido.

A polémica serviu para fazer de «as mulheres não gostam de foder», uma pequena banda desenhada cómica que custa 2 euros e meio, um sucesso. De tal forma que o autor, Alvarez Rabo, vai estar este fim-de-semana em Viseu.


E o Durao continua a dar-nos alegrias!!!!!

Voces tem estado a seguir a carreira do nosso menino, o Durao, la fora? Eu acho hilario, hilario! E ele hoje, coitadinho, a dar explicacoes a um jornalista da BBC sobre a confusao que para la arranjou no Parlamento... Estou aqui que nem posso de tanto rir!
Olha, e ja agora, sempre vai o Cavaco a Presidente? Eta, povinho que nao aprende! Nao havera por la em Bruxelas um lugarzito tambem para esse? Aposto que o Cavaco e o Buttiglione se iam dar que nem duas ratas de sacristia...

quarta-feira, outubro 27, 2004

Antes de Anoitecer

Tem sido um filme levado ao colo pela crítica cinematográfica, e não só, por permitir a abertura de um “espaço de encantamento”, pelo “jogo de subtileza” aí presente, por constituir-se como um momento propício para “o espectador ser assaltado pelos seus fantasmas”, etc.
Envolto num envelope tão prendado, ao abri-lo e ao ver-se o filme inserto fica-se com a impressão de que a crítica, realmente, habita um universo muito singular, ensimesmado quanto baste, pois consegue descobrir subtileza onde existe a inanidade quase total, confundir encantamento com corriqueiro, e transpor os seus fantasmas pessoais para os espectadores.
“Antes de Anoitecer” é um filme passado quase em tempo real entre um par que se reencontra nove anos depois de se ter separado em Viena, com promessas mútuas de rápido reencontro mas que os desígnios insondáveis do destino entretanto impediram (onde é que eu já vi isto?). Reencontro cumprido, percorrem Paris recordando Viena, carpindo mágoas sobre as vicissitudes das suas vidas amorosas, divagando acerca da impotência dos homens franceses, por contraponto à tusa constante dos americanos.
No fim, Julie Delpi canta e encanta, Ethan Hawke vê a hora de apanhar o avião aproximar-se a contragosto e descem subitamente as cortinas sobre a história, concedendo-se ao espectador, ao jeito do você decide, o poder de imaginar um enredo feliz de ansiada união ou infeliz de repetida separação.
Ironicamente, a sensação que fica no final é a de que aqueles dois nunca chegam a lado nenhum, antes andam constantemente a engonhar, sendo aquilo que se costumar designar por uns grandes empata-fodas. Cá para mim, Julie Delpi só tem garganta e Ethan Hawke afinal é francês.

terça-feira, outubro 26, 2004

Michael Moore

Três meses depois da sua estreia nacional finalmente chegou o mais recente documentário de Michael Moore, Fahrenheit 9/11, aos cinemas madeirenses. Confesso que ia com uma ideia um pouco pré-concebida (mea culpa, não gosto de Moore nem daquilo que ele representa) e que por isso o filme-documentário não me despertou grandes apetites nem despropositadas esperanças. Nada de novo, portanto. Quem viu Bowling for Columbine conhece a treta e percebe logo os truques de Fahrenheit 9/11. Louve-se a encenação, que é boa, e a montagem, que é muito boa. Moore não esconde o seu propósito, mas ardilosamente omite factos importantes simplesmente porque para ele a verdade é um mero acessório de retórica ao serviço dos seus interesses e das suas patéticas tergiversações. Estilos.
O documentário, nota-se e sente-se, é feito para consumo interno, mas foi um sucesso também na Europa onde entretanto se descobriu, um ódio maciço ao Sr. Bush e à sua administração. Todos os europeus (parece que sem excepção) querem corrê-lo e pô-lo fora da Casa Branca de acordo com estudos recentes de indubitável credibilidade. Percebe-se a agonia e o drama: eu também não gosto do Sr. Zapatero, mas nem por isso deixo de dormir descansado ou vivo preocupado com a vida interna espanhola. Prioridades diferentes.
Por último, só para dizer que a coisa diverte e faz passar o tempo. Damos sonoras gargalhadas e soltamos uns uis empedernidos sempre que o acima-de-qualquer-suspeita Moore nos desvenda a marosca e o golpe que frequentemente envolve uns árabes muito perigosos. Só que o filme de Moore é igual ao Código da Vinci de Dan Brown: é para divertir; não é para levar a sério.

O poder dos pesadelos

A BBC iniciou a transmissão de uma série de três documentários sobre o processo político que conduziu ao sistema de poder e de confrontações a que assistimos hoje no mundo. O documentário chama-se The Power of Nightmares e a sua ideia base é a de que o poder actual está intimamente relacionado com a criação de mitos e fantasmas, formas de convencer as pessoas de ameaças que na realidade não existem. Confesso que tenho algumas dúvidas em relação ao modo como a história é contada. No entanto, o trabalho merece atenção. O autor segue duas histórias. A primeira começa com Leo Strauss, filósofo que deu aulas na escola de Chicago durante os anos 50. A segunda, com Sayyid Qutb, um teórico egípcio que estudou nos EUA e que se tornou, mais tarde, o ideólogo de associações fundamentalistas que lutavam contra o Egipto secular pós-independência. Strauss era um anti-liberal, anti-individualista que desejava que os EUA seguissem um modelo social colectivista e comunitário, assente na religião e em princípios conservadores, e alimentado por mitos que atribuíam à América o papel de democratizador do mundo. Strauss foi professor e criou uma espécie de escol. O seu escol esteve sempre ligado a uma facção minoritária da extrema-direita do partido republicano. Com a chegada de Reagan ao poder, os seguidores de Strauss foram-se impondo, ficando conhecidos, entre outras coisas, por fabricar relatórios que atribuíam à União Soviética um poder militar que esta na realidade não possuía. Não é difícil perceber quem são estes homens, hoje denominados por neo-conservadores: Wolfowitz (um dos alunos de Strauss), Rumsfeld, Cheney, entre outros menos conhecidos. O documentário mostra imagens de discursos de Wolfowitz e Rumsfelf realizados nos anos setenta. Se colocarmos Al-Qaeda, ou Saddam, no lugar de União Soviética reconhecemos facilmente que os discursos são muito similares: a mesma forma simplista de falar no bem e no mal, a mesma concepção justiceira da América. A única diferença, significativa, é que a União Soviética era uma realidade mais palpável do que o terrorismo difuso, sem cara e sem Estado, que hoje se tornou no grande inimigo do ocidente. Serão estes homens que, ainda nos anos oitenta, vão levar os EUA a unir-se aos mais primários movimentos islâmicos, para lutar contra o domínio soviético no Afeganistão. Na outra história vemos como o fundamentalismo islâmico se alimentou do ódio aos regimes que dominavam os novos estados independentes no Médio Oriente governados por marionetes do ocidente. Dois casos emblemáticos. O Xá do Irão, que caiu em 1979 às mãos da revolução islâmica de Khomeni, e o caso de Sadat, no Egipto. O fundamentalismo islâmico transformou-se, aos poucos, numa força de defesa dos oprimidos pelas injustiças das novas economias liberais. A sua solução: voltar às interpretações mais rígidas e literais do islão e esmagar o individualismo. Também eles criaram um grande fantasma: o ocidente egoísta que desvia os homens da religião, que transforma as mulheres, que cria mil encantos que destróem a herança islâmica. As histórias são demasiado centradas numa concepção idealista do mundo e da acção humana, pouco articuladas com o processo económico e o saque aos recursos energéticos. Porém, estas genealogias ideológicas do presente geo-político não deixam de ser importantes para acrescentar mais algumas peças ao puzzle.

Forum Social Europeu

O Forum Social Europeu realizou-se entre os dias 15 a 17 de Outubro em Londres. E perguntam voces, o que e o Forum Social Europeu? E um espaco de convivio Social entre pessoas que se dizem de esquerda, amigas dos pobrezinhos, e bem pensantes. E essencialmente um espaco de masturbacao intelectual. A ‘malta’ vai para ouvir os outros a concordar com o que nos dizemos e pensamos, e vice-versa. E para isto ‘a malta’ paga a modica quantia de £30 libras. Isto, se viver em Londres. Caso nao viva em Londres, 'a malta' teria de pagar a deslocacao, estadia, e comida. Aposto que enquanto as mentes brilhantes estiveram a pensar sobre a vida e futuro dos ‘pobrezinhos’, os ‘pobrezinhos’ quer de Chelas quer de Wythenshawe pouco ou nada devem saber sobre Forum Social. Estarao pois demasiado alienados. As proprias associacoes comunitarias que trabalham nestas areas, como nao recebem (directamente) subsidios da CE, nunca na vida poderiam enviar um representante, dado ao custo que envolvia participar no evento. Mas pronto, a ‘malta’ la vai, convive uns com os outros, ouve uns grupos etnicos e tal (alguns deles por acaso nao vivem em Sao Salvador mas em Manchester, mas pronto isso e so um pormenor), acha-se cool, activista, esta com os seus pares e da assim sentido a sua existencia. E perguntam voces, o que e o Forum Social Europeu? E um espaco que infelizmente foi transformado num espaco de terapia colectiva para uma esquerda classe media / media alta, intelectual, e que se leva demasiado a serio.

domingo, outubro 24, 2004

@ e duas chamadas não atendidas

Um chinês quis registar o seu primogénito com o original nome de @. As autoridades locais lamentavelmente não foram na conversa e não permitiram o feito que, no fundo, pouco teria de inovador. Nestas coisas nada como ter abertura de espírito e tolerância suficiente para entender e acolher estas novas modas. Mas enquanto a coisa não é possível e ninguém se lembra de chamar ao filho www ou mesmo João Internet de Email Pereira, nada como navegar um pouco pelas living rooms dos jogos de computador. Lá tudo isto (e muito mais) é possível e, garanto, viável. A imaginação do nickname (nome que esconde a verdadeira identidade e que pode ter mil e uma conotações) não tem limites, regras ou simplicidades. Desde o sTre337 Kill3r, fbi.pt, Corto Maltese, Frizen@TT, skunkblast, passando pelo [vírus] bossT, facas, baby BLUE, AKBrothers, KGB, e terminando no Krusk the Barbarian, City Hunter, black HAWK, jansolo.nl ou _AL_sadr, há de tudo e para todos os gostos e feitios. Incluindo um tipo (ou tipa) com a sugestiva alcunha de… duas chamadas não atendidas. Quem sabe o que o futuro nos reserva? Quem pode garantir que este chinês não é um visionário?

sexta-feira, outubro 22, 2004

Energia nuclear

As vezes digo-vos, nao ha paciencia para estar aqui com grandes retoricas e jargoes. Este e um dos casos: mas esta tudo doido? Afinal o que e que se passa nesse pais?! Entao agora o governo anda a falar de 'energia nuclear' por forma a reduzir a dependencia do petroleo! Mas esta tudo a dormir ai o que? Tenham la paciencia, bem sei que 40 anos de ditadura habitua o corpo e a mente a preguica de fazer algo mas a nossa geracao sinceramente, nao se mexe! Nao facam nada agora nao e vao ver que ainda comem com uma centralzinha ali para os lados do Alentejo... A classe politica nesse pais e uma bosta mas a sociedade civil, Cristo! Parece que andam todos a fumar da mesma erva...

quinta-feira, outubro 21, 2004

O sistema

Alguns sócios do Benfica tiveram a ideia peregrina de processar o árbitro do último jogo contra o Porto. O próximo passo será processar os jogadores, os treinadores, os médicos. Tanta fúria mal direccionada. O nível do debate futebolístico em Portugal voltou a descer a níveis impensáveis. A escola, reconheça-se, é a do Porto, mas os dirigentes do Benfica seguem fielmente a cartilha, conseguindo, por vezes, bater recordes na arte da sarjeta. É lamentável que ninguém conseguisse tirar ilações do sucedido neste último jogo. É evidente que o Benfica foi prejudicado. O golo não assinalado é um erro objectivo, diferente das intermináveis e subjectivas discussões sobre a intensidade das faltas. Um clube foi prejudicado, o público foi enganado, a questão tem consequências económicas. O que fazer? A resposta está na criação de um novo sistema. Dois, ou três técnicos conhecedores das regras do futebol em comunicação com o árbitro, umas quantas televisões e um ou outro programa informático. Decisão em breves segundos: não quebra o ritmo de jogo. Estou plenamente convencido que, embora o sistema seja ineficaz para medir a existência de algumas faltas, podia ser decisivo para avaliar se a falta foi realmente cometida dentro da área e, mais importante, se o jogador se encontra, ou não, em situação de fora de jogo. Para além, obviamente, de situações idênticas à que se passou neste último domingo na Luz. Se fossemos mais longe, seria ainda útil para avaliar questões disciplinares: se houve, ou não, uma agressão, se o jogador simulou, ou não, uma falta.

Os estudantes em Coimbra

Esta coisa de Cuba esta-me a fazer pensar nas semelhancas e nas diferencas entre Cuba, a ditadura dos que comem criancinhas, e Portugal, a democracia dos que prendem criancinhas…
Abro os sites das noticias em Portugal e leio que um estudante em Coimbra foi preso, alegadamente por ter agredido um agente da PSP. E deixo-me entao transportar para o tempo das manifs contra a PGA (a minha primeira experiencia em manifestacoes colectivas) em que nos eramos putos e um dia bloqueamos uma estrada. Sentamo-nos no meio do chao e para ali ficamos, orgulhosos de nos, por lutarmos contra algo que consideravamos injusto, por nos sentirmos grandes, adultos, com direitos. E a policia la veio, com mangueiras, empurrando os nossos corpos adolescentes com a violenta pressao da agua. Sentiamo-nos protegidos porque estavamos em grupo. O colectivo conforta o individual. Mas tambem sentiamos medo. Eu espero que o Joao, o estudante preso, nao esteja a sentir medo. Espero que ele saiba que nao so os colegas dele, mas tambem eu e muitos outros, ja ‘grandes’ e adultos mas nao cinicos, somos o seu ‘colectivo’. Que ele saiba que eu e muitos outros temos orgulho nele por se sentir um cidadao de plenos direitos, e por lutar pelo aquilo em que acredita. Eu acredito que um Governo deve preocupar-se sobretudo e fundamentalmente com 3 coisas e garantir que todos os seus cidadaos tenham acesso livre e gratuito a essas mesmas coisas: Saude, Educacao, e Bem Estar Social. Nao e uma tarefa dificil, a partir do momento em que se aperfeicoa e revoluciona (e nao reforma) o sistema de contribuicao de impostos e por ai vai. Um governo que nao se pauta por este principio e uma verdadeira merda. O Governo Portugues e uma merda e eu so gostava e que houvessem mais ‘Joaos’ por entre esse povo, com a cara e a coragem de cobrarem do Estado o que e seu de direito!

quarta-feira, outubro 20, 2004

Académico de Viseu - Fim à Vista?

Só o facto de a assembleia geral do próximo dia 24 contemplar na ordem de trabalhos a possibilidade concreta de acabar com o Clube Académico de Futebol e fazer renascer o clube com outro nome, em consequência da falta de uma direcção e de 300.000 euros para resolver os problemas de tesouraria do clube, é preocupante para aqueles que simpatizam com este clube quase centenário, e que detém a competir pelo seu emblema mais de 500 jovens em diversas modalidades (futebol, atletismo, natação e andebol, principalmente).
Mesmo que a ventilação da possibilidade de extinção tenha como móbil latente o apelo aos associados e simpatizantes no sentido da pronta concertação para se debelar rapidamente os entraves actuais à governação sadia do clube, nunca tal eventualidade deveria sequer constar assumidamente num processo de intenção.
O Clube Académico de Futebol é mais do que um clube descartável devido à dívida de 242000 euros a um antigo jogador ou por alguns dirigentes considerarem que tem uma estrutura pesada, e da qual são parte integrante.
O Clube Académico de Futebol é há muitas décadas a referência máxima de afectos desportivos de uma cidade e de toda uma região e um factor crucial de auto-definição em termos de pertença clubística, ou seja, constitui-se como uma referência identitária indiscutível ao nível do desporto local que nenhum outro clube que agora porventura viesse a ser criado em sua substituição conseguiria alguma vez fazer esquecer, mesmo que esse clube surgisse sem passivo financeiro como o actual...
Tem um passado e um historial de feitos e atletas desportivos que engrandeceram a cidade e é também essa cidade que tem a obrigação de encontrar as soluções para inverter o panorama actual e não deixar cair levianamente um século de história da entidade que dá significado maior à prática desportiva em Viseu.

Sugestao do dia

A industria dos raptos la no Iraque esta a prosperar. Vai na volta, ja tem ligacoes transnacionais as FARC na Colombia e ao Comando da Capital no Brasil. Logo, tenho uma sugestao a fazer aos contribuintes portugueses: porque nao um esforcozinho este mes e pagar a TODA a classe politica portuguesa umas ferias nestes tres destinos turisticos: Iraque, Colombia, Brasil (de preferencia Sao Paulo). E que la para Bruxelas nao me parece que nos voltem a fazer o favor de levarem mais incompetentes como o que ja la tem: o nosso Durao. E para quem duvida da incompetencia que grassa pelo nosso rectangulo basta ler o relatorio da Associação Promotora dos Direitos Humanos (APRODIH) que revela que 1 em cada 5 portugueses vive na pobreza e que o fosso entre os mais ricos e os mais pobres esta a aumentar assustadoramente em Portugal. Mesmo assim ainda ha quem escreva que por ca se vive melhor do que em Cuba (pronto, esta bem, ninguem nos prende mas olha que na Madeira, como em Cuba, a liberdade de expressao tambem parece nao ser nada por ai alem...).

terça-feira, outubro 19, 2004

Os Diários de Che Guevara

Retrato fílmico da incursão de Ernesto Guevara e do seu amigo Alberto Granado pelos confins da América Latina, ao comandos de uma “Poderosa” Hudson 500, em 1952, é também o espelho que reflecte o germinar de uma consciência crítica em Ernesto perante a miséria humana e as flagrantes injustiças presenciadas durante a aventura, fossem elas a expulsão dos camponeses das terras de onde retiravam o seu sustento, a repressão exercida sobre os mineiros ou o apartheid imposto aos doentes leprosos.
Frequentemente envoltos em episódios bastante caricatos, os dois inseparáveis amigos vão descobrindo empiricamente ao longo viagem a realidade social, económica e política do seu continente, até então desconhecida da maioria das pessoas que partilhavam a sua (favorável) condição social.
Esta descoberta provoca em Ernesto uma nostalgia de um mundo que nunca conheceu, aferrando-lhe galhardamente até ao final da viagem um conjunto de ideais outrora adormecidos e que o irão impelir na tentativa de mudar o status quo, porque doravante também o seu Eu passaria a ser um outro Eu, aquele que o iria transformar em ícone e deixar para a posteridade.

Madeira

Alberto João conseguiu mais uma expressiva vitória. Certo? Errado no dizer dos especialistas que viram na perda de dois pontos percentuais indícios de mudança e uma quase-derrota do PSD (faltou o quase que é como quem diz o quase tudo). O PS subiu 6 pontos, tem metade dos votos do PSD (53%), perdeu em 53 das 54 freguesias e nos 11 concelhos, mas é aparentemente o vencedor da contenda. Espantados? Não fiquem. A coisa continua e é delirante: o PS ficou com 19 deputados, o PSD com 44. Nas minhas fracas contas de cabeça 44 é maior do que 19 e é ainda mais de metade dos 68 (número de mandatos em disputa nestas eleições) exigidos para obter nova maioria absoluta. Alguém me explique como é que é possível sequer pensar (os números são arrasadores) numa vitória do PS?

domingo, outubro 17, 2004

Sporting

Ter ou não ter Rochemback, eis a questão.

sábado, outubro 16, 2004

Poesia Brasileira

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai pela frente do corpo.
A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda –
esses garotos ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio.
Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte por conta própria.
E ama.
Na cama agita-se.

Montanhas avolumam-se, descem.
Ondas batendo numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda.
Vai feliz na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda, rebunda.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, outubro 14, 2004

Bailado em Alvalade

Um dos problemas do futebol como espectáculo é a sua indeterminação. Neste aspecto é muito diferente de outros géneros artísticos. Antes de ver um filme ou uma peça de teatro podemos ler as críticas, inteirarmo-nos sobre o seu conteúdo e sobre a forma como este é apresentado. No futebol, como no cinema ou no teatro, conhecemos o elenco mas não podemos prever como será o espectáculo. Temos que ir esperando que algo de especial aconteça. Ontem houve bailado em Alvalade. O elenco português esteva bem montado. Não é difícil perceber quais as opções do encenador, são claras e fazem sentido. Mas depois tudo depende das circunstâncias e dos intérpretes de ambos os lados. Ontem a equipa de Portugal, recorrendo à gíria futebolística, “abriu o livro”, contra uma selecção russa bem acima da média. É certo que as bolas pareciam telecomandadas e que tanta exactidão é quase impensável. Não é menos verdade, porém, que a equipa foi muito para além dos golos marcados. O realizador da RTP foi feliz, no final do jogo, ao revelar os bailados executados pelos principais artistas – movimentos que podem, ou não, estar relacionados com os golos. Acima de todos Deco. É lindíssimo vê-lo jogar assim. O controlo que tem sobre o corpo, a sua noção de espaço, de passe, tornam-no quase perfeito. A seguir Ronaldo. O modo como avança para a defesa é sublime, como que dizendo ao adversário que nada pode fazer contra a sua arte. Deve meter muito medo defender alguém como Ronaldo. Tenho assistido a alguns jogos dos seus jogos no Manchester e é sempre assim. Os ingleses preferem falar de Rooney. Por último Carvalho: de uma elegância única, demonstrando toda a beleza inerente ao ofício de defender. Haverá poucos defesas no mundo como ele. Os actores principais foram bem coadjuvados pelos restantes intérpretes e é bom saber que há outras opções para os diferentes lugares. O mais importante deste jogo foi que, por breves momentos, as pessoas esqueceram-se que assistíamos a uma competição entre nações, deixando-se levar pelo espectáculo. No Café Estrela estavam cinco russos. Depois do intervalo aplaudiram de pé todos os golos portugueses. Para quem gosta de futebol era a única coisa a fazer. Ontem houve bailado em Alvalade.

Sondagens

Segundo o DN da Madeira o PSD/Madeira ganhará as eleições de domingo por uns expressivos 62,4% (+ 6,5% do que em 2000), contra 22.6% do PS (+1,6%), 5,1% da CDU (+0,5%), 3,5% do CDS/PP (- 6,2%) e 3,4% do BE (a UDP tinha tido em 2000 4,8% dos votos). Os números assustam, pois claro. Não só o PSD conseguiria a sua maior votação de sempre como também cilindraria, por acréscimo, o campo adversário. Mas a táctica conhece-se. Nada como dar como certo o ovo no cu da galinha para desmobilizar as gentes. Mas tácticas de guerrilha à parte, nada de novo, portanto.
Instigados a comentar os números, algumas luminárias da oposição fizeram o que lhes competia e o que a prudência aconselhava: desvalorizaram a sondagem que é o mesmo que dizer que desvalorizaram os números, quase de certeza empolados para uns e subestimados para outros. Tudo certo. Tudo politicamente certo, até porque sondagens não ganham eleições como o Dr. João Soares muito bem sabe. Mas um dos partidos destacou-se pela anormalidade da prosápia. O PS cá do sítio, pela voz do seu líder parlamentar Bernardo Trindade, pessoa supostamente lúcida, esclarecida e inteligente, no comentário à sondagem, mostrava-se satisfeito com a mesma uma vez que ela indiciaria uma subida do PS em percentagem e em mandatos (confesso que não sei se o Dr. Trindade estava a ser irónico). Pasme-se a atitude insensata e o flanco desprotegido. A pergunta é simples: se para o PS do Dr. Trindade subir 1,6% é um bom resultado e uma grande festa, o que será para o PSD, do Dr. João Jardim, subir de 55,9% para 62,4%? Provavelmente, um enterro. Só pode.

Selecção

Como ontem à noite considerava o Gil, e com inteira razão, é inadmissível como é que a Selecção Nacional permitiu que a Rússia marcasse um golo!

O Durao na Europa

O nosso Durao, la nas Europas ja esta a ‘fazer bonito’… Nao era ‘a fazer bonito’ que o povo o queria la? Ou seria so para se ver livre dele? Bom, isso nao interessa. O que interessa e que o nosso Durao apoiou ao cargo de Comissario Europeu para a Justica um politico Italiano de 77 anos, assumido catolico, apostolico, romano, que diz, entre outras coisas, que a homosexualidade e um pecado, constando do seu curriculo o apoio a Mussolini. Face a nao eleicao deste excelente candidato para o posto em questao, o ministro Italiano para os Italianos que residem no estrangeiro (!?) publicamente acusou o Parlamento Europeu de ser governado pelo 'lobby gay'. Ora pelo menos, tanto quanto temos noticia, os gays la do Parlamento Europeu nao andam constantemente a por nada de for a como a Chichiolina. Valha-nos ao menos isso porque se ‘eles’ sao assim tantos, o que seria das reunioes parlamentares… Por outro lado e bom saber que sair de Portugal fez bem ao nosso menino, o Durao: parece que lhe abriu os horizontes, comecou a dar-se com outras gentes. Quando regressar vai estar no ponto, com certeza! Temos homem, temos homem, e nao e rabeta!

PS: um a parte, como mulher, desconfio sempre de homens que necessitam constantemente de afirmarem a sua ‘masculinidade’. Digo-vos, meus caros, so revela inseguranca, duvida, e quica, curiosidade… O Signor Tremaglia parece-me ser uma alma atormentada, reprimida na sua sexualidade ha ja 77 anos e ainda a tentar convencer-se a si mesmo a nao se tentar ao pecado…

quarta-feira, outubro 13, 2004

Marcelo, o Rebelo

O actual governo Portugues… Sem comentarios… Ok, so um: e mediocre. Ha la coisa pior do que ser mediocre. Mas o Rebelo de Sousa conseguiu criar um facto politico, saltar para a ribalta e fazer-se ao lugar que aquele tipo, o Santana, agora ocupa. Alguem acredita que o director da TVI, que ate e la familiar (sobrinho ou tio) do Rebelo o despediu… Na politica nada e tao simples assim, tao transparente e sem mais… O Rebelo agora e a vitima, reunindo o consenso ate da esquerda freudiana que temos em Portugal: agastada pelo constante trauma da ditadura. A coisa atinge tais contornos de ridiculo (e o Rebelo atinge assim os seus objectivos) que ate o Sampaio, que deveria andar preocupado com outras coisas, o chama para uma conversa. Oh senhores, quantos outros cidadaos nao deveria o Sampaio chamar… Rebelo adquiriu o assim o estatuto de cidadao numero um, censurado pelo proprio partido e pela propria familia, adoptado pela esquerda en garde e pelos jornais que agora seguem a vitima mais sensata ao cimo da terra lusitana para onde quer que esta va. Eu ca digo-vos, a vitima, se for a votos ganha que o povo gosta e de vitimas. E a vitima em questao, pelos vistos, conhece bem o seu povo: tanto o da esquerda como o da direita.

Importa-se de repetir?

O inenarrável Delgado.

terça-feira, outubro 12, 2004

Alberto João é um Milagre

Depois de ainda ontem ter comentado, no final da visualização do mais recente filme de Emir Kusturica, “A Vida é Um Milagre”, que a capacidade inventiva do realizador jugoslavo continua a dar cartas no seu cinema étnico, eis quando hoje de manhã me vejo confrontado com a óbvia necessidade de relativizar o talento criador do jugoslavo, ao deparar com as frases proferidas pelo líder do Governo Regional da Madeira a propósito da detenção do Presidente da CM de Ponta do Sol por alegada corrupção.
Num dos comício pré-eleitorais, insinuou Alberto João que o PCP «está infiltrado» na Polícia Judiciária da Madeira e teve influência para o desfecho agora obtido (nem se deve ter apercebido de que estava a fazer um grande elogio à competência e ao profissionalismo dos tais elementos policiais comunas infiltrados...).
Realmente, perante isto, Kusturica ao lado de AJJ é apenas um mero principiante na arte de fantasiar ficções surreais e delirantes. Tão fértil é a imaginação do líder madeirense que consegue até inverter as sequências reais com uma naturalidade estonteante. Só assim se consegue compreender como é que a mesma pessoa que envia uma missiva ao Ministro da Justiça, antes das detenções preventivas de quadros da Câmara Municipal da Ponta do Sol, a queixar-se da actuação da Inspecção da Polícia Judiciária (PJ), no período pré-eleitoral, nomeadamente a notificação de um destacado quadro da administração regional para depor, como arguido, num processo judicial em curso, consegue vir depois a terreiro apregoar que mesmo em época de eleições pediu à polícia que actuasse sem medo!
Definitivamente, está visto que AJJ não pede meças aos grandes mestres da sétima arte na elaboração de enredos criativos, plenos de farta imaginação e pródigos em humor.

segunda-feira, outubro 11, 2004

Correcção do post anterior

Soube há pouco que a Ministra Graça Carvalho afinal também considerou os estudantes madeirenses no pacote anunciado das viagens. E que a medida é válida apenas para os estudantes que são bolseiros. Fica a correcção.

Promessas...

Segundo notícia do Público de hoje, a coligação candidata nos Açores tem recebido fortes incentivos eleitoralistas (leia-se promessas) por parte do governo da República. O Dr. Santana e o Dr. Portas, mais um ministro ou outro que por lá coincidentemente passaram ou residem, desataram a distribuir benesses e soluções miraculosas. O estilo é inconfundível. Não querendo entrar por este pântano populista de juras a pataco consoante a cara e a origem do freguês, gostaria de deixar no ar várias perguntas: o governo da República só cumprirá com as suas promessas se for Vítor Cruz a ganhar as eleições? Se assim não for, ou seja, se estas promessas só se aplicarem em caso de vitória do PSD/PP, não será isto um tipo de chantagem sobre o povo açoriano? E por último: serão estas medidas/promessas extensíveis aos outros ilhéus da República?

De todas as medidas propostas pelo actual elenco governativo da República, apreciei particularmente a da ministra Graça Carvalho que promete uma viagem de graça (!!!???) a todos os estudantes açorianos a estudar no Continente. Vale tudo.

Quanto ao resto, espero que “(...) transportar correio mais depressa para os Açores (...)” e “(...) pôr em acção helicópteros para acudir grávidas e doentes e melhores aviões de fiscalização marítima (...)” não seja um empecilho muito grande para o Dr. Portas.

sábado, outubro 09, 2004

O Tal Canal

Acerca das censuras que se exercem sobre a televisão, por parte dos detentores dos media:
"São factos tão grandes e grosseiros que a crítica mais elementar se apercebe, mas que escondem os mecanismos anónimos, invisíveis, por meio dos quais se exercem todas as censuras de todas as ordens que fazem da televisão um formidável instrumento de conservação da ordem simbólica."
Pierre Bourdieu, "Sobre a Televisão".

sexta-feira, outubro 08, 2004

O caso

O governo do Dr. Santana inaugurou a censura política portuguesa do século XXI. Não está mal vindo de quem vem. Não se esperava grande novidade na doutrina. Mas prova uma certeza antiga: a esquerda tinha razão, o Dr. Sampaio não. O homem não está preparado, vive obcecado com a imagem e com aquilo que dele dizem e está rodeado de gente incompetente e incapaz que quer gerir o país como se gere a aldeia ou a oficina. A conjugação de tudo isto dá sempre desastre. Sem remédio, claro.
Mas louve-se a coisa. Louve-se o escândalo, e vejamo-lo pelo seu lado positivo. Tudo isto serve para abrirmos os olhos e focar a atenção no problema principal: a promiscuidade que existe entre poder político e poder económico e os favores que à volta de tudo isto decorrem de regras e princípios que são tudo menos democráticos e transparentes. Pelo meio salientemos ainda a elevada concentração dos media em grandes grupos e o papel do Estado nesta barafunda comunicacional que faz de uma empresa público-privada o maior grupo empresarial do sector e do Sr. Luís Delgado o seu Todo-poderoso. Marcelo foi a vítima deste sistema podre e decadente. Conhecendo as suas inequívocas qualidades, de vítima passará rapidamente a mártir, situação melhor que a anterior. Pior para o governo e excelente para a oposição: será um mártir vivo e um exemplo sempre presente a assombrar a vida do acossado, e incompreendido, Dr. Santana.
Resta-nos desejar que nada fique na mesma, que se abra de vez o debate e que o mesmo não seja, como tantas vezes, em vão.

Marcelo

O universo político tem uma autonomia própria que não permite análises simplistas. Longe de ser um mero reflexo de uma infra-estrutura material, o mundo político é ele próprio produtor do real. A questão “Marcelo” é uma machadada poderosa desferida neste governo. Figura mediática, quase com dois milhões de espectadores por domingo, Marcelo faz parte da nossa cultura popular e conseguiu, com distinção, ganhar o respeito de um imaginado português médio. O professor anda há muito cometido numa luta, disputada em jornadas semanais, contra o primeiro-ministro e os seus acólitos. A sua auto-exclusão dos noticiários da TVI, depois de ter sido amavelmente convidado a calar-se, foi o seu último ataque, o mais contundente. A sombra da censura não vai largar o governo. Foi bom, também, termos um exemplo visível do modo como os media vão funcionando e das suas relações com o mundo político. Mas a questão mais interessante é perceber se Marcelo tem lugar noutra televisão portuguesa. A SIC é propriedade do fundador do PSD. A RTP, já se sabe, é de quem está no poleiro. Nos media da PT, com o exemplo de jornalismo independente que se tornou o Diário de Notícias de Luís Delgado, o senhor, recorde-se, que está à frente da Lusa, também não deve caber. Onde colocamos Marcelo?
Apesar de as pessoas relativamente educadas já terem percebido o que significa este governo, resta ainda o perigo real do populismo, especialidade absoluta de Santana e Portas. E como é preciso levantar poeira para esconder a destruição sistemática de tudo o que é público neste país (isto é, de todos, mas que quase sempre é apropriado pelos senhores feudais que governam o rectângulo) preparem-se para o regresso das promessas aos velhinhos, das inaugurações em catadupa, da defesa da lavoura, e, quem sabe, do reaparecimento em força do discurso contra os emigrantes, empossados da responsabilidade do desemprego e dos baixos salários.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Espectro

"O ex-presidente do PSD Marcelo Rebelo de Sousa anunciou hoje que vai deixar de fazer comentários na TVI, na sequência de uma reunião a pedido de Miguel Paes do Amaral, presidente da Media Capital."

Até apetece plagiar, com algumas novas nuances, um filósofo alemão:
"Um espectro ronda Portugal - o espectro do censura."

A César o que é de César

Em plena campanha eleitoral para as eleições regionais de 2004, o líder madeirense do PS, Jacinto Serrão, passa a vida a gabar os aspectos transcendentais do desenvolvimento açoriano menorizando as políticas e o modelo implantado pelo PSD na Madeira. Isto começou a acontecer desde que Serrão foi aos Açores fazer um curso intensivo de política com Carlos César, actual presidente dos Açores e do Partido Socialista local. Mas a César o que é de César e a Serrão o que é de Serrão.
Mesmo estando no calor da política não se desculpa tudo até porque como diz o ditado, em tempo de guerra não se limpam armas. O problema aqui é de comparação. E de óbvia falta de imaginação. Serrão falha redondamente a analogia que usa, porque quem o ouve quase que acredita que os Açores são a Singapura do Atlântico e um paradigma do desenvolvimento. Nada de mais errado. Os indicadores disponíveis, e são muitos, desmontam a falácia e o engodo muito facilmente (como se pode ver, por exemplo, aqui). Basta comparar. Se Serrão estivesse mais atento, perceberia rapidamente que a mentira tem pernas curtas e que hoje se vive efectivamente melhor na Madeira do que nos Açores, sem ser preciso fazer grande ginástica ou exercício mental.
Com oposição deste calibre, desnorteada e alienada, percebe-se o que quer dizer falta de alternativa. E já agora, de credibilidade. Depois queixam-se de que ninguém os leva a sério. Não se pode mesmo.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Baldrick e a arqueologia do trabalho

Alguém se lembra de Baldrick? Baldrick era aquela figura pequena, normalmente suja e não muito inteligente, que acompanhava as aventuras de Black Adder, personagem televisiva imortalizada pelo conhecido cómico inglês Rowan Atkinson. Pois bem, Baldrick, ou melhor o actor Tony Robinson, está de volta, apresentando uma série de documentários sobre os piores trabalhos existentes na Inglaterra oitocentista da rainha Vitória. O título é algo guloso, mas a intenção comercial proporciona uma curiosa e interessante, se bem que ligeira, arqueologia do trabalho no período de intensificação da revolução industrial. Robinson viaja por diversos espaços laborais, demonstra como se edificaram as grandes obras, quem construía os túneis e as valas, por onde passaram os comboios, revela as condições nas fábricas, a exploração da mão-de-obra nos campos, os trabalhos forçados, o trabalho infantil. A presença nos ambientes de trabalho e a exemplificação de “como se fazia” possibilitam a compreensão da violência inerente a muitas ocupações (Violência que sobreviveu, em larga medida, à Inglaterra industrial vitoriana. As fotografias de Sebastião Salgado sobre o “trabalho” são um bom exemplo do tratamento do tema na actualidade). Os documentários apresentados por Robinson permitem, ainda, de uma forma geral, mergulhar na vida quotidiana dos grupos sociais mais baixos, traçando a sua genealogia. Este programa passa em horário nobre, ao Sábado, num dos principais canais ingleses. Diga-se que a televisão inglesa está muito longe de ser um exemplo de qualidade. No entanto, é considerável a atenção conferida ao documentário. A utilização de actores como Tony Robinson, ou como os ex-Monty Phyton Terry Jones e Michael Palin, na apresentação de documentários históricos ou de viagens, é uma forma encontrada de transmitir de forma simples e didáctica, não descurando a qualidade, conteúdos históricos e sociais. Um facilitismo, dirão alguns. Ao conseguir unir a distracção ao conhecimento estes documentários cumprem, porém, uma função importante que não belisca o seu valor. Isto faz-me lembrar quanto seria necessário encontrar em Portugal alternativas ao José Hermano Saraiva, que, pese embora a sua historiografia, povoada em demasia por reis, rainhas, príncipes e princesas, lá vai fazendo o seu trabalho de divulgação.

A Quinta II

A coisa é ainda pior do que se imaginava. Hilariante, mesmo. Oscilando entre o circo e a comédia, a quinta bate o absurdo. Consegue. Depois de ter entrado uma ex-miss Portugal, o tal do Castelo-Branco, a Cinha Jardim, uma tipa que tirou a roupa não sei onde, um modelo de lingerie, um cantor que canta pior do que eu, um actor brasileiro de quarta categoria com ar de criminoso e mais uns quantos espécimes que só em Portugal são célebres, eis que chega nada mais, nada menos do que o inestético pugilista do Marco de Canavezes, Avelino Ferreira Torres.
Para quem julgava que tínhamos chegado ao fim da linha, nada como experimentar o abismo. Já lá estávamos. Só não tínhamos dado por isso.

domingo, outubro 03, 2004

A Quinta

A TVI começa hoje um programa que mete umas celebridades (nenhuma delas certamente muito inteligente) numa quinta com animais de verdade e uma série de regras absurdas como ausência de electricidade e de telemóvel. O objectivo por enquanto é desconhecido, mas a coisa promete: o segundo tipo, que é como quem diz o segundo concorrente, a sair de uma limusina directamente para o estúdio do programa chama-se José Castelo-Branco, conhecidíssimo traficante de diamantes (ele diz-se marchand) que já foi, numa outra vida, travesti antes de atingir o auge da fama (ler, ser preso) em pleno aeroporto de Lisboa. Como dizem que a quinta está povoada de animais do campo, nada como ver como é que o animal da cidade e do jet-set português se vai comportar com os seus primos mais distantes. Neste verdadeiro jardim zoológico, Castelo-Branco não pode defraudar os seus inúmeros fãs.

sábado, outubro 02, 2004

A Igreja do carmo

É a terceira igreja mais representativa da cidade de Viseu. Herdeira da tradição secular das igrejas aldeãs, também ela é branca, está orientada na direcção leste-oeste de forma a permitir aos fiéis ficarem voltados para o sol-nascente, e o seu acesso faz-se por intermédio de alguns degraus de pedra, os quais separam o templo do solo profano.
Se, como as igrejas dos camponeses, a Igreja do Carmo partilha com estas, pela sua imponência e grandiosidade, a função simbólica de domínio sobre o espaço envolvente, no entanto, actualmente distingue-se da simbologia tradicional das igrejas aldeãs por um infeliz e notório aspecto: o seu estado de conservação, ou melhor a absoluta ausência dele.
Sempre foi regra nas igrejas aldeãs que a sua conservação e reparação fossem um dever de todos os habitantes da aldeia. Para isso a norma era criarem-se comissões que arrecadavam de forma autorizada fundos monetários visando a manutenção da integridade das igrejas.
No caso específico da Igreja do Carmo, desconheço a quem compete zelar por esta obrigação, se à igreja católica, aos fiéis da freguesia, ou ambos.
O que salta à vista desde há bastante tempo é o ostracismo a que esta Igreja tem sido votada. Tinta a desprender-se em massa das paredes, deixando clareiras enorme de cimento e pedra à vista, vidros partidos, madeira carcomida, um sino completamente enferrujado, arcadas de pedra asfixiadas pelo negrume da poluição e inundadas de fungos, enfim, uma desgraça total!
Perante isto, a Igreja Católica não tem vergonha em deixar um tão nobre edifício naquele paupérrimo estado de conservação? E os fiéis da freguesia e da cidade não se inquietam pela desagregação evidente da sua Igreja e do seu património?
Eu, que não sou católico nem professo qualquer fé religiosa, dei-me conta por mais de uma vez nos últimos dias a cirandar perto do templo nos últimos para ver para crer como é possível deixar chegar aquele edifício a tão deplorável aspecto, tal o espanto...

A denúncia anónima

Cenas da vida política portuguesa

Parece que o governo regional açoriano se aproveita da boa vontade europeia para conseguir uns dinheirinhos extra. Sob o disfarce de obras de recuperação de imóveis destruídos pelo temporal de 1996, há importantes somas desviadas para outras construções, tudo em prol do bem-estar dos açorianos e das boas ideias do Sr. Carlos César. O Público de quinta-feira trazia esta auspiciosa notícia, sob o título “Sede do PSD-Açores Identificada em Queixas "Anónimas" a Bruxelas”. A coisa, ainda no início, promete incendiar as ilhas açorianas.
Admirados? Não fiquem. A marosca é complexa, mas não é original. Aliás, o esquema foi particularmente bem sucedido entre os empresários do norte e outros tipos empenhados em aproveitar os dinheiros comunitários para fazer de tudo menos reestruturar o sector em que laboravam ou intervinham. Digamos que desviavam o dinheiro para outras necessidades mais imediatas. Vale tudo para mamar da teta europeia porque os fins justificam os meios, principalmente se os fins forem carros desportivos, grandes casas com piscina e viagens educativas ou em última instância, ganhar mais uns votos.
Mas o que torna este caso diferente do empresário Chico-esperto é o facto de o mesmo partir de um governo regional que devia ser uma pessoa de bem e de acrescida responsabilidade. Puro engano ou ilusão. Reparem que a coisa deve ser ilegal. Altamente ilegal, embora proveitosa e tentadora, claro. E o que faz o PSD dos Açores para combater isto? Denuncia anonimamente (aliás, tão anonimamente que acabou com o rabo de fora) aquilo que o devia fazer publicamente e sem receio. Porquê? Precisamente porque tem medo da resposta: "Essa gente não se importa de prejudicar os açorianos, desde que consiga prejudicar o Governo da sua terra". Política à portuguesa, pois então.
O uso da retórica e da demagogia é brilhante neste caso: não podes atacar a mensagem, ataca o mensageiro. Não chega? Faz-te de vítima. Tudo muito simples. Tudo tão errado.

sexta-feira, outubro 01, 2004

O Gado

A BBC tem um programa semanal em que um painel de convidados, das mais diversas especialidades mas com forte representação política, responde a perguntas de uma audiência seleccionada. As perguntas debruçam-se sobre temas da actualidade. Um dos assuntos tratados num dos últimos programas foi a emigração. O líder do partido conservador, Michael Howard, propôs um regime restrito de quotas para estancar o número de emigrantes que entra todos os anos no país. O partido conservador, que perdeu o centro político para os trabalhistas e se vê ameaçado pelo liberais democratas, guindou a sua política para a direita tentando pescar votos a partidos extremistas e xenófobos, renovados pela onda anti-europeísta. As opiniões dos convidados perante o problema foram quase consensuais. Os representantes conservador, trabalhista e liberal democrata concordaram, com diferentes graus de rigor e linguajar, com as quotas. Entre os convidados encontrava-se uma jornalista do Daily Mail, tablóide conhecido pela sua política editorial anti-emigrante. Começando por afirmar que não era racista, porque tinha sido bem educada, a senhora defendeu as quotas afirmando, no entanto, que a Inglaterra precisava de emigrantes. E que tipo de emigrantes? Emigrantes seleccionados por uma espécie de renovação da prática da eugenia, isto é, tem que ser jovens, sãos e fortes, qualificados, obedientes, que não ponham em causa as instituições, que conheçam e se adaptem obrigatoriamente à cultural britânica, que sejam trabalhadores obedientes. Perante a afirmação, não contrariada pelos outros convidados, um jovem da plateia, filho de emigrantes, acusou a jornalista de tratar as pessoas como gado. Podia ter-lhe chamado nazi. Adiantou ainda que, como ela bem sabia, a Inglaterra precisa da mão-de-obra emigrante e se existem clandestinos é porque há interesses económicos que beneficiam com a sua entrada, especialmente porque não lhes oferecem direitos sociais, lhes pagam salários baixos e não cumprem as leis laborais. A resposta foi a habitual: mas acha que o país pode abrir as portas a toda a gente?
Claro que os países não podem abrir as portas a toda a gente. Mas o debate tem que se descentrado da política interna dos países que acolhem emigrantes para ser focado na sua política externa. É precisamente pelo facto de os países desenvolvidos estrangularem as economias do terceiro mundo, exploradas primeiro pelo colonialismo e agora pelo neo-colonialismo económico, que os seus habitantes são obrigados a moverem-se. E vão, naturalmente, continuar a fazê-lo. O modo como os ingleses colocam publicamente a questão da emigração, mesmo os representantes do partido trabalhista, vai muito para além do que ouvimos à direita portuguesa. Não digo que os métodos não sejam os mesmos, mas o despudor das afirmações públicas, de políticos e de jornalistas, são preocupantes, porque tornam o racismo – sem lhe chamar racismo claro -, na coisa mais banal do mundo. Pelo rectângulo, apesar de tudo, ainda há alguma vergonha. Até quando?