domingo, novembro 30, 2003

Fome

Aos fundamentalistas da caridade: nunca se deve confundir a caridade com os direitos. Sorriso perverso e venenoso o da caridade. De boas intenções ...

1 de Dezembro de 1640

Na véspera da comemoração do 363º aniversário da Restauração da Independência, é altura de dizer, em jeito de balanço, "Volta Miguel de Vasconcellos! Estás perdoado, estás perdoado..."

sexta-feira, novembro 28, 2003

Um país à beira de um ataque de nervos

De acordo com informações veiculadas ontem no Congresso Nacional de Psiquiatria, mais de 60% dos portugueses adultos tomam benzodiazepinas (príncipio activo dos ansiolíticos) e destes, metade fá-lo sem prescrição médica.
Se ainda haviam dúvidas de que este é um país à beira de um ataque de nervos, notícias deste tom demonstram-no à saciedade...
Todavia, sendo esta percentagem tributária de cálculos obtidos até à passada semana, permitam-me duvidar da fidedignidade actual deste valor. Passo a aduzir, a título de exemplo, 4 acontecimentos ocorridos esta semana no país que sustentam a minha asserção:
Em primeiro lugar estes números já não correspondem à verdade, uma vez que foram avançados antes do Sporting ter jogado com os turcos do Genclercibliliglibidebimi. Desde então, foram muitos os sportinguistas que se viram na contingência de ingerir imediatamente umas caixas de ansiolíticos para adormecerem por uns dias e não se recordarem do que viram...
Em segundo lugar, depois do beneplácito que o Governo português concedeu esta semana a alemães e franceses para estes exercerem o seu livre arbítrio no (não) cumprimento do PEC, muitos milhares de portugueses ficaram de tal modo baralhados com a visão dual que o Governo tem sobre este instrumento de disciplina orçamental, que foram obrigados a recorrer ao consumo de umas benzodiazepinas para readquirirem o equilíbrio entretanto perdido.
Em terceiro lugar, estes números não contemplam ainda os utentes da Carris, os quais se deparam semanalmente com greves (ainda que legítimas) dos motoristas que os obrigam a gastar semanalmente umas pipas de massa em táxis, em acréscimo ao custo dos passes de transporte que indexam mensalmente à Carris.
Em quarto lugar, também não foram contabilizados os 128 militares da GNR que acorreram em massa às farmácias de Nassíria para comprarem ansiolíticos depois de terem sido informados (no Iraque) que estarão sujeitos a descontar para o IRS como "todos" os cidadãos deste país.
Como vêem, somando apenas estes factos semanais facilmente se percebe que estes números pecam por serem escassos, daí a necessidade de uma actualização da percentagem de portugueses que recorrem aos ansiolíticos para mergulharem num entorpecimento que lhes permite enfrentar melhor o dia-a-dia...

quinta-feira, novembro 27, 2003

Ainda bem que não veio...

Parece que ficamos todos muito tristes (este nosso orgulho lusitano!!!) com a escolha de Valência para a organização da Taça América em Vela em 2007. Eu por mim faz-me confusão este contínuo agitar do nacionalismo finório quando toda e qualquer candidatura à organização de um evento internacional se destina a engordar os mesmos de sempre e a aprofundar os males do país. Ou seja, quando tudo, mais uma vez, se limita a beneficiar a capital do império e os limites da sua aldeia e a esquecer todo o resto do país eu não percebo a razão de ser de tanta excitação.
Há coisas que serão sempre iguais neste Portugal dos pequeninos.
Este centralismo que impõe sempre Lisboa como centro de um mundo decadente é castrador e, simultaneamente, alimentador de enormes discrepâncias que continuamente se alastram como um tumor pelo seio da sociedade portuguesa. Depois disto viria a mesma história da Capital Europeia, da Expo e até do Euro: tudo se paga, tudo tem retorno; tudo está sob forte rigor orçamental, está garantido o cumprimento escrupuloso de prazos, vêm milhares, quiçá, milhões de turistas etc, etc. A mesma cantilena cheia de ar e de vento. No fim, ficariam mais umas marinas (onde os aborígenes poderiam olhar pasmados para a beleza dos iates dos ricos exclamando espantados “ah! aquele também às vezes vem na Caras. É casado com aquela que tem a loja que se divorciou do outro que criava camelos e que é sócio do Clube Naval de Cascais”), mais umas estradas melhores (ou talvez nem isso), voariam uns bons milhões de contos, haveria suspeitas de fraude, mas ninguém iria preso, viriam umas histórias de corrupção e de coisas estranhas em jornais, apareceriam uns novos mercedes, quem sabe uns novos barcos, umas riquezas súbitas, mas o que interessaria era que tudo se teria feito mesmo que tivesse custado mais uns cobres do que o previsto e o indígena tivesse dado ao mundo uma boa imagem da sua civilidade em nome de um desporto que apesar na nossa suposta tradição de marinheiros, quase nenhum português pratica pelas razões evidentes. Só que, e ainda, a experiência, que neste país é muitas vezes convenientemente esquecida, diz-nos que devemos colocar sempre as receitas previstas pela metade (sendo optimistas) e multiplicar por três os custos orçamentados (sendo realistas). Afinal, basta olhar para a Expo, para a Capital Europeia ou para o Euro para se perceber do que se fala.
Eu não sei onde é que os nossos governantes vão buscar tanta lata para apoiar a megalomania de iluminados que devem pensar que Portugal é um país do primeiro mundo (bastava olhar para os outros candidatos). Acredito que o Sr. Santana gostasse imenso de ter a sua Taça América para lhe granjear uns votos importantes numa altura muito próxima de eleições presidenciais; acredito que o Dr. Durão encher-se-ia de orgulho pelas mesmas razões, mas não acredito que isso trouxesse qualquer tipo de vantagem para o desenvolvimento cabal, estrutural e estratégico deste nosso país. Só por isso, e porque parece que andamos sempre a reboque de grandes epopeias é que digo “Ainda bem. Ainda bem que não veio!”.

quarta-feira, novembro 26, 2003

Delenda Carthago*

Esta obsessão pelo cumprimento do défice da D. Manuela das Finanças não tinha paralelo desde que o Dr. Cavaco por cá andou de máquina calculadora em riste a contar os clipes que gastávamos. Eram outros tempos. Os tempos em que Bruxelas começou a "directivar" para que os bárbaros de cá do burgo começassem a conhecer e a entrar na civilização.
Hoje, voltamos a esta obsessão inusitada sem qualquer resultado visível e sem se perceber, afinal, as razões de tantos sacrifícios quando a outros nada se exige.
Pior. Aquilo que aconteceu ontem na reunião dos doze ministros das finanças da zona euro, revelou uma coisa que não devia ter revelado em circunstância alguma: a falta de substância do Governo da coligação, a fraqueza das suas posições e a incoerência entre aquilo que diz e aquilo que faz. Tudo erros que se pagarão caros.
O não cumprimento dos pactos de estabilidade por parte dos dois maiores países da zona Euro veio pôr a nu a fragilidade de uma União Europeia que começa a fomentar uma nítida divisão entre os que podem e os que não podem, ou entre os que mandam e os que obedecem. Antes mesmo de aprofundarmos mais esta relação contra-natura eis que França e Alemanha revelam as suas verdadeiras e reais intenções e aquilo que vão fazer com os mais pequenos. Sente-se que nem todos jogam de acordo com as mesmas regras.
Assim, resta-me perguntar como pode a D. Manuela vir pedir contenção em nome do cumprimento de um défice, espremendo os portugueses até ao tutano (pelo menos os que mais necessitam) para depois levianamente votar ao lado da Alemanha e da França na aprovação da violação ou suspensão desse mesmo défice? Ó D. Manuela tenha dó. Já não há pachorra.

*lat Cartago deve ser destruída. Palavras de Catão, o Antigo, com que terminava seus discursos. Cita-se esta locução a propósito de uma ideia fixa, perseguida com tenacidade.

Cobrança de IRS à GNR

O Governo está a analisar se a missão do Subagrupamento Alfa da GNR no Iraque está ou não isenta de IRS. Uma decisão técnica que será tomada pela Direcção Geral das Contribuições e Impostos (DGCI).
O artigo 42 do decreto-lei que define as isenções fiscais em missões de salvaguarda de paz diz que é o Ministério das Finanças que tem competência para reconhecer, ou não, a isenção de IRS.
O mesmo artigo diz que ficam isentos deste imposto os militares e elementos das forças de segurança em missões «com objectivos humanitários ou destinadas ao estabelecimento, consolidação ou manutenção da paz, ao serviço das Nações Unidas ou de outras organizações internacionais».
No entanto, a GNR não está ao serviço das Nações Unidas nem enquadrada no âmbito de uma organização internacional. Entretanto, os ecos provindos do Iraque dão conta que entre os soldados e oficiais da GNR a indignação é geral!
Em primeiro lugar, mais uma vez se demonstra que apesar da série de adiamentos, supostamente visando limar todos os preparativos para a missão, o Ministério das Finanças esqueceu-se de dizer aos "voluntários" da GNR quando estes ainda estavam em Portugal (pelo menos àqueles que não sabiam) que a missão deles não se enquadrava nem no âmbito da ONU nem de qualquer outra organização internacional, e que por isso mesmo os seus vencimentos não seriam objecto de isenção fiscal. Falta saber se esse lapso de informação do MF foi propositado ou não...
Em segundo lugar, tendo, pelo menos agora, conhecimento desta norma, espanta-me que os "voluntários" da GNR, portadores indómitos de um espírito humanitário que seria dedicado em prol da população iraquiana, nas palavras do douto dirigente do PP, Pires de Lima, não tenham o mesmo espírito em relação aos seus compatriotas, uma vez que cumpre a todos o pagamento de impostos devido aos salários que se auferem.
É que não basta ser-se solidário com os iraquianos. Há que ser solidário também com os portugueses (pelo menos com aqueles que também pagam impostos).
Caso tal não suceda até poderão surgir nas mentes dos portugueses indícios dubitativos se o inaudito zelo humanitário que os "voluntários" da GNR transportaram consigo até ao Iraque, conforme propugnaram alguns responsáveis políticos, mais não era do que um argumento capcioso e espúrio para esconder o verdadeiro móbil do seu "voluntarismo"...
Os responsáveis governamentais e os soldados e oficiais da GNR concerteza não quererão que os portugueses pensem isso, pois não?

EPC II

O Eduardo Prado Coelho descobriu o Brasil! Ja o estou a imaginar, gordo, anafado, a ocupar dois lugares no ‘frescao’, com as coxitas a rocarem umas nas outras deixando uma chaga. La vai ele, de nariz colado ao vidro descendo do Cristo em direccao a Lapa. Passa agora em Santa Teresa. Abisma-se com os casaroes e lembra-se de Sintra. Ai, como isto parece a minha querida Sintra! Exclama EPC ao mesmo tempo que puxa de um lenco verde bebe para secar o suor que lhe escorre pelo pescoco onde a olho nu e possivel ver os poros num movimento perpetuo de ‘abre e fecha’, ‘fecha e abre’ engolindo o calor humido para o expelir logo de seguida sob a forma liquida de um cheiro fetido. Ai, como me faz lembrar Sintra! Nisto, descendo do Cristo, EPC repara num aglomerado la no pe da Serra, casinhas de cores variadas, parece-lhe. Que lindo, faz lembrar o Portugal dos Pequeninos. Esta sem oculos o EPC e nao consegue chegar a conclusao de que as ‘casinhas lindas e coloridas’ sao a favela do Vidigal… Oh menina, diz EPC para a guia (que sorrindo muito porque e muito feliz, obviamente, lhe dirige toda a atencao), quem e o presidente da camara aqui do Rio? Rosinha Garotinho, senhor. Ah! Pois… EPC so ouviu o ultimo nome porque se distraiu com um barulho que vinha das casinhas coloridas, um pum, pum, pum que mais parecia foguetes. Seria foguetes? Olha que que engracado, ha festa ali no pe da Serra! Exclamou EPC. Coitadinhos, pobrezinhos mas alegretes que eles sao! Emociona-se EPC. E que calma que esta cidade e! Nao… Vou ter que elogiar esse tal de Garotinho! Oh menina, entao diga la, o seu avozinho era portugues, ora nao era? Claro! Responde a guia sempre com um grande sorriso. Pois, pois… Regala-se EPC. Nos e que descobrimos isto sabe? E ainda bem que fomos nos porque os Portugueses sempre foram muito mais bonzinhos do que todos os outros colonizadores! A chaga queima-lhe a pele fina das entrecoxas como um fio de agua a escaldar. EPC coloca o lenco verde bebe entre as pernas e cola novamente o nariz a janela do autocarro climatizado. Que bons transportes publicos eles aqui tem. Melhor que a Carris!

Então?

Há quase vinte e quatro horas que o papa disse que ia rezar por Portugal mas isto está tudo na mesma. Karol, mais convicção nas aves marias.

terça-feira, novembro 25, 2003

Recursos Humanos e McJobs

"Passados poucos meses estava sentado na Sunset Place a admitir e a despedir como um demónio. Assim Deus me ajude como aquilo era um verdadeiro matadouro. Não fazia sentido absolutamente nenhum. Era um desperdício de homens, de material e de esforço, uma farsa hedionda representada com um pano de fundo de suor miséria. Mas, assim como aceitara espiar, assim aceitei admitir e despedir, e tudo o mais que isso implicava. Dizia «sim» a tudo. Se o vice-presidente decretava que não podiam ser admitidos aleijados, eu não admitia aleijados. Se o vice-presidente dizia que todos os boletineiros com mais de 45 anos deviam ser despedidos sem aviso prévio, eu despedia-os sem aviso prévio. Fazia tudo quanto me mandavam fazer, mas de maneira que eles o pagassem. Quando havia greve, cruzava os braços e esperava que terminasse, mas primeiro tratava de os fazer perder umas boas massas. Todo o sistema estava tão podre e era tão desumano, tão irremediavelmente corrupto e complicado, que seria preciso um génio para lhe insuflar um certo sentido ou uma certa ordem, para já não falar em bondade ou consideração humanas. Tinha pela frente todo o sistema americano de trabalho, que estava podre por dentro e por fora. Era a quinta roda da carruagem e nenhum dos lados tinha qualquer serventia para mim, a não ser para me explorar. Na realidade, toda a gente estava a ser explorada: o presidente e a sua seita pelos poderes invisíveis, os empregados pelo público, etc., por aí fora, através de toda a rede. Do meu poleirozinho em Sunser Place tinha uma vista geral de toda a sociedade americana. Era uma página tirada da lista telefónica. Alfabeticamente, numericamente e estatisticamente, fazia sentido. Mas quando a olhavamos de perto, quando examinávamos as páginas separadamente, ou os componentes separadamente, quando examinávamos um só individuo e o que o constituía, o ar que respirava, a vida que levava e os riscos que corria, então víamos algo tão sujo e degradante, tão baixo, tão miserável, tão completamente desesperado e sem sentido, que era pior que olhar para um vulcão. Via-se toda a vida americana: economicamente, politicamente, moralmente, espiritualmente, artisticamente, estatisticamente e patologicamente. Parecia um grande cancro sifilítico num caralho gasto."
In: Trópico de Capricórnio de Henry Miller.

A ingenuidade de Eduardo Prado….

Andava eu no sitio do Publico, desesperadamente a procura de um artigo de Manuel Fernandes (o meu odio de estimacao e admiracao por personificar a simbiose perfeita entre a ignorancia e a arrogancia) quando me deparo com uma cronica do Prado Coelho. Confesso que o Prado Coelho nao desperta em mim qualquer tipo de reaccao (e chato, flacido, pouco imaginativo, por vezes forcado) a nao ser a de pena quando enche paginas de jornal com os seus problemas pessoais do tipo, a conta da EDP. Mas, isso ate se perdoa uma vez que nao foi o homem que lancou moda. Tera sido a Maria Filomena Monica quando, num dos seus artigos, depois de realcar pela enesima vez que estudou em Inglaterra com fulano de tal, teceu largas consideracoes sobre a sua vida dosmetica e sobre a sua empregada…
Bom, mas o EPC la foi ao Brasil, ao que parece debater o futuro dos intelectuais, essa especie oprimida e perseguida, que vagueia em diaspora sem abrigo. Pois o mundo pode ate estar a beira do caos mas ha que discutir o futuro dos intelectuais. Alias, sera precisamente por esse motivo… Avante, deixemos a intelectualidade reunida, a pensar sobre si propria (e eu que julgava que os que se auto-designam de intelectuais nao fazem mais do que isso mesmo…) e avancemos para o artigo de hoje do nosso bom intelectual pensador de si e dos outros, EPC. O senhor in loco, aproveitou para saber em que estado esta o governo do Lula. Logico que isto sem sair do Rio de Janeiro e ja na cidade maravilhosa, logico que isto sem sair do Leblon e da Lapa (para onde deve ter ido de autocarro climatizado ou vulgo ‘frescao’). Ora diz o EPC que quase nao ha violencia no Rio. Diz ainda que o governo de Garotinho tem todo merito nessa materia. Meu caro, Garotinho nao e o governador do Rio. Garotinho concorreu as presidenciais lado a lado com o Lula, Ciro Gomes e o Serra. Rosinha e a governadora do Rio de Janeiro, sucessora de Benedita do PT (primeira mulher e primeira negra a chegar a governadora do Estado do Rio de Janeiro). Rosinha pode ate ser casada com Garotinho mas o EPC tambem nao gostava que viessem para aqui dizer que o primeiro ministro de Portugal e a Maria (ou la como e que se chama a mulher do Durao).
Depois EPC avanca com a tese de que a violencia e mais relatada do que real pois “sabemos de casos contados por amigos que foram assaltados, sabemos de confrontos entre habitantes de favelas, com tiros à mistura, que por vezes atingem pessoas de passagem, encontramos a violência referida quotidianamente pelas televisões e os jornais, assistimos a mesas-redondas - mas de facto, ao andarmos nas ruas, seja no Leblon, seja na Lapa, a insegurança é reduzida, desde que se tome um certo número de medidas de bom senso. O policiamento nas praias recrudesceu e faz que hoje se possa ir tomar banho deixando as coisas que levámos na areia sem que no regresso possamos estar certos de que elas desapareceram”. Meu dilecto intelectual, pois quem fica no Leblon, em hotel de cinco estrelas e e transportado de autocarro de um lado para o outro nao tem muita nocao, nao e verdade… Alias, a sua logica e a mesma logica da classe media alta e alta brasileira que se fecha em condominios como se assim se fechasse do mundo. Ja agora pergunto-lhe, oh grande pensador do pensar, sera que a vida de um favelado vale menos do que a sua que se pavoneia pelas praias da orla, de agua infecta pelos despejos da lagoa, onde os traficantes atiram os corpos mutilados e em putrefaccao? Sabe por acaso a estatistica de quantos levam um tiro na cabeca nos semaforos da Estrada do Leblon que ladeia o calcadao? E a policia do Rio, sabera por acaso que e apontada pelo IBGE como uma das mais corruptas do pais, nao se sabendo muito bem onde comeca o trafico e acaba o dever publico?
EPC, que ingenuidade intelectual a sua, para se deixar contagiar pelo pagode de mesa tocado na bela Lapa e esquecer que o que se passa na ponte Niteroi mais do que uma estrategia para lhe tornar a vida mais confortavel e uma estrategia de criacao de emprego. Tera por acaso perguntado ao senhor que o ‘serviu’ quanto e que ele ganha?
So faltou terminar com a celebre frase, ‘vivem tao mal mas estao sempre contentes’… Quando comentava isso com uma ‘intelectual’ brasileira, militante de um movimento social no Rio de Janeiro, ela respondeu-me ‘se isso acontece e porque o povo e besta nao e nao?’ Considera o senhor que brasileiro e besta? Eu nao. Muito pelo contrario. A si convenceram-no. Ficou regalado. Venderam-lhe o produto: Brasil como turismo. Escamotearam-lhe a realidade, e retornaram ao morro, por entre os tiros de faccoes rivais, onde arriscam a vida diariamente. Factor que pouco importa porque afinal nao passa de uma violencia relatada bem longe do nosso intelecto. Quanto ao EPC um conselho, intelectual mais do que pensar deve fazer uso de todos os outros sentidos…

Bush na terra de sua Majestade

Correm boatos de que o principe (Charles, claro esta) foi apanhado em flagrante sexual, no seu real leito, com o seu fiel mordomo. (Alguns comecaram a esfregar as maos de contentes, vislumbrado a possibilade de ganhar uma velha aposta com a futura revelacao de que a Camila e afinal um travesti ou uma drag queen.) Adiante… O fiel mordomo, por sua vez, parece ter violado um outro criado real que, veja-se, depois de uma noite de folia, chegou a ala dos serventes reais e tomado pela santa embriaguez, jogou-se num dos sofas. Quis o destino que adormecesse, etilizado que estava, com o repectivo a apontar para o tecto. Quis o destino que acordasse, incomodado que estaria, com o fiel mordomo do Charles a prevaricar com o seu respectivo ainda que sem consentimento. A historia algum fundamento tera pois ao que parece, quando o episodio foi relatado por serios jornais do continente, Londres acordou sem um Le Monde para amostra. Misteriosamente a imprensa estrangeira foi retirada do Mercado (conheco paises onde por accoes menos democraticas chovem bombas por minuto mas…). God Save the Queen! Ora, foi no meio deste importantissimo assunto de estado (ou melhor, do reino) que chegou a ilha (se bem que para o ingles medio ilha e o mundo e o mundo e a ilha…) um tal de Bush. Sacudiu-se o po a Buckingham Palace, deu-se uso a rainha, e o Bush ficou entao hospedado nos reais aposentos oficiais. Consta que a par e passo era apanhado a raspar as paredes com o dedo mendinho para se certificar de que o dourado era mesmo ouro e nao tinta e que mal ingeria o pequeno almoco, confudido que ficava com o numero de utensilios expostos em cima da mesa. Entre calorosos abracos ao Blair (que diga-se de passagem, o homem e digno de pena… alguem que tivesse de encarar todos os dias um ser tao horrendo quanto a mulher dele e eu queria ver) ia chamando ao Reino Unido de Great Kingdom e aos ingleses de Best Friends. Nada que encha mais o ego aos subditos de sua majestado (independentemente das suas preferencias sexuais)! De tal forma que o debate acerca da estadia de Bush decorreu da forma mais patetica possivel: quem influencia quem? Se e o Bush que influencia o Blair entao tudo vai mal! Se o contrario e verdadeiro entao tudo vai bem porque este Great Kingdom e perfeito, omnipotente e omnipresente. O sol nunca se poe, a nao ser na Escocia, onde o Parlamento explicitamente votou contra a Guerra e certamente esta-se nas tintas para o reino. Um ex assessor do Clinton foi ao Canal de televisao 4 dizer que o Blair nao tem qualquer influencia sobre a administracao Bush e que pelos corredores da Casa Branca ja se fala em bater em retirada do Iraque porque a opiniao publica (essa gaja de quem toda a gente fala mas nunca ninguem viu) nao esta la muito satisfeita com a situacao. Logo, os ingleses serao deixados com a batata quente na mao, de mas relacoes com o resto da Europa e a bracos com uma opiniao publica inglesa, de maquina de calcular em punho, a exigir mais investimento no decrepito sistema nacional de saude e na educacao (que, diga-se, nao podia estar pior). O que Bush veio fazer a metropole foi campanha eleitoral. Ha que passar a imagem la na terrinha de que o ex-alcoolico triunfou em terras de sua majestade, que e bem visto e que ate dorme numa cama com lencois suspensos… Mas meus caros, a intelectualidade inglesa 'apispenhou-se'! Nada disso, o homem veio aqui porque precisa do apoio dos ingleses. Delusions of grandeur, chama a isto a esquerda cinica, alucinacoes de grandeza… A ‘Europa’ some, subtrai ou segue sem a Inglaterra e no final ainda agradece. Nao me parece que o eixo franco-alemao se deixe influenciar pela Inglaterra no que quer que seja e enquanto o mundo anglo-saxonico se transveste de Churchil e New Deal, a Franca e a Alemanha afoitam-se por outros imperialismos a porta de suas casas.
Nisto Michael Jackson e preso, acusado de molestar criancinhas. Na Inglaterra, como nos Estados Unidos e a histeria colectiva. De repente, a par de um obscuro Campeonato Mundial de Rugby, Jackson invade as paginas dos jornais. Ja nao tem mal o Charles ser gay, ja nao importa o porque da vinda do Bush e a imagem esteticamente incomodativa da mulher do Blair. Em vez de T-shirts contra a Guerra os corpos sao invadidos por T-shirts onde se le ‘Michael we love u’ ou ‘What the fuck is this’ e por baixo a cara da famosa estrela pop... Serve de consolo, no meio desta paisagem visual, dar de caras com um simpatico Americano que enverga um T-shirt onde esta escrito ‘Bush, you’re not my president’ e que me diz ter muitas mais em casa, tamanho XL para usar por cima da roupa quente (porque faz muito frio) e que as ira usar todos os dias ate que Bush seja derrotado pelo sistema que nao o elegeu: o sistema democratico!

Dias da Cunha

O Woody Allen realizou em tempos um filme chamado "Os Dias da Rádio", onde retratava a América dos anos trinta e quarenta. Em Portugal, falta quem crie um grande épico nacional que se podia adequadamente chamar "Os Dias da Cunha".

segunda-feira, novembro 24, 2003

A festa da Taça

Eram memórias que datavam de tempos que me parecem hoje bastante remotos, quando o clube da terra disputava, alternadamente, a 3ª divisão e o Distrital da Associação de Futebol de Viseu.
Nesses anos, a vivência do jogo fazia-se também ali, junto às linhas de campo marcadas com cal, junto dos bandeirinhas e dos bancos de suplentes das equipas, e sempre acompanhada com os comentários dos adeptos às incidências do jogo e aos intervenientes.
No entanto, com a passagem dos anos esses memórias foram-se gastando, desvanecendo aos poucos e poucos até que ontem puderam ser novamente vividas junto à linha lateral do campo de jogos do 1º de Dezembro.
Desta vez não era o Lusitano de Vildemoinhos que jogava com o Mangualde, o Lamego, o Viseu e Benfica ou o Tondela. Era sim o Sporting contra o 1º de Dezembro.
O campo de jogos do 1º de Dezembro ainda é mais pequeno do que aquele onde passei muitas tardes na infância. Lá os lugares não são marcados, nem sequer existem cadeiras na bancada. O pessoal ou fica de pé no peão ou então senta-se no cimento da bancada. Houve ainda quem tivesse ficado nas árvores ou nos postes de iluminação ...
Optando nós por ficarmos de pé, junto do banco de suplentes que viria a ser ocupado pela equipa do Sporting, estávamos a dois metros da linha lateral do sintético. Tivemos que ir cedo para arranjarmos um lugar de onde fosse possível ver (quase) todas as incidências do jogo. Alguns que chegaram mais tarde não puderam ficar tão "confortavelmente" instalados e logo começaram a vociferar contra as condições que o campo oferece. Ripostou em alto e bom som um adepto com um cachecol do SCP: "O que é que querem? Cadeiras aquecidas? Isto é Taça!" Tinha razão, a Taça é mesmo assim.
Outro pormenor onde se viu claramente que era Taça. A equipa do SCP entrou em campo para os exercícios de aquecimento e os adeptos da equipa da casa imediatamente aplaudiram em uníssono os adversários.
Dado o pontapé de saída, à medida que um claro equilíbrio entre as duas equipas pautava o jogo, a insatisfação crescia nos adeptos do SCP.
Graças à "especificidade" do campo, essa insatisfação era directamente dirigida aos ouvidos do treinador e dos jogadores do SCP :
"Ó Fernando Santos, vê lá se fazes por merecer o ordenado que nós te pagamos!"; "Clayton, pressiona o guarda-redes, pá! Aposto que se ele tivesse lá o cheque do teu ordenado ias logo atrás dele a correr!"; "Ó Mister, já vi jogos de casados e solteiros melhores do que este!"
Com o intervalo veio mais uma substituição no Sporting. Pouco agradados com a permanência em campo de Clayton (eu próprio discordava da sua continuação), um adepto prontamente transmitiu a discordância aos ouvidos do treinador: "Ó mister, devia era ter tirado o Clayton. O rapaz (Paulo Sérgio) até estava a jogar bem!". Ao que o treinador respondia com indicações para dentro do campo: "Joguem a bola pelo chão, pá. Não vêem que salta muito?!", ou "Ó Tonito, passa a bola pra frente. Não quero passes para trás, fod.."
Com os golos e a definição do vencedor, ainda assim os adeptos do SCP não se eximiram de fazer chegar aos ouvidos dos jogadores a sua opinião: "Ó Luís Filipe, vê lá se corres, pá! Pareces uma andorinha!" "Estão satisfeitos com o 1-0? Isso, defendam porque é um óptimo resultado contra uma equipa da 3ª divisão, car...".
Mas como nem tudo eram críticas, quando a bola se aproximava da linha lateral o público por vezes saudava alguns jogadores: "Ó Chaves, tá tudo bem?", ao que o Chaves respondeu levantando o polegar para cima, ainda quando um dos suplentes da equipa da casa se levantou para fazer aquecimento, indo ter com uns amigos à linha, dizendo-lhes ao mesmo tempo que se ria: "Isto tá complicado para eles, hein!", ou quando um adepto dirigiu o seu pedido: "Ó Liedson, vais-me dar a tua camisola no fim do jogo, não vais ?", ao que Liedson respondeu, acenando negativamente com a cabeça.
Já perto do final, o jogador Tonito numa disputa com um adversário sofreu um corte na cabeça que o deixou a sangrar. Estava dado o mote, criado um modelo para um adepto, pelo menos avaliar pelo seu incentivo: "É assim mesmo, Tonito!" Há que sangrar a camisola!"

Por fim, com o apito final, e sob os aplausos dos adeptos caseiros e forasteiros, o treinador do SCP levantou-se, olhou para um dos postes de iluminação onde estava um adepto do SCP, sorriu e seguiu em direcção aos balneários.
O que é que querem? Isto é Taça!

sexta-feira, novembro 21, 2003

É tudo uma questão de números

As ruas de Londres foram ontem invadidas por milhares de pessoas, que se manifestaram contra a presença de Bush em solo britânico. A manifestação, realizada num dia de semana, foi gigantesca e superou as expectativas mais optimistas. Para não variar, os números variam conforme a fonte que os divulga. Segundo as autoridades oficiais estiveram nas ruas de Londres 110 mil pessoas, ao passo que a organização da manifestação defende que esse número foi de 200 mil pessoas. Estas disparidades monstruosas já não chocam ninguém. Já faz parte da tradição. Banalizaram-se. Seja na Grã-bretanha, em Portugal ou noutro lugar qualquer.
Esta obsessão pela manipulação dos números sempre que se realizam manifestações é algo que, apesar de a compreender perfeitamente, me intriga. Tornou-se uma espécie de jogo perverso. E neste jogo, como é óbvio, os organizadores das manifestações também entram. No entanto, as tentativas de desvalorização da cidadania através deste método por parte das autoridades chegam a ser patéticas perante o evidente gigantismo de algumas manifs.
A cobertura televisiva da manifestação por parte da emissora britânica Sky, muito boa diga-se, foi a este respeito paradigmática. Como foi largamente difundido, a expectativa dos organizadores apontava para a mobilização de 100 mil pessoas. Apenas tinham passado hora e meia desde do início da manifestação e os jornalistas da Sky começaram imediatamente a fazer a “contagem de espingardas”. Um dos pivôs avança com o número das autoridades: cerca de vinte mil pessoas. Perante as imagens em directo, o número parece anedótico. De seguida o pivô entra em contacto com uma repórter, situada no início da marcha, e pergunta-lhe a sua opinião sobre a questão numérica. A resposta da repórter foi algo parecido com isto: “Bom, é muito difícil fazer esse tipo de contabilidade neste momento. No entanto, as autoridades no terreno (a polícia) estimam que estejam cerca de 75 mil pessoas nas ruas.” E acrescentou: “mas as pessoas continuam a chegar”.
Caros amigos,

A Radio Nacional de Sao Tome e Principe necessita de apoio

Sao Tome e Principe e considerado um dos paises mais pobres dos chamados PALOP e do planeta. A situacao da radio Nacional e apenas um pormenor mas e perfeitamente desoladora. Eles necessitam praticamente de tudo. E de facto o principal orgao de comunicacao social do pais e dada a sua posicao geografica privilegiada (Golfo da Guine) o seu sinal atinge com facilidade Angola, Congo, Republica Democratica do Congo, Gabao, Namibia, Guine Equatorial, Nigeria, etc..

Apela-se para que doem CDs, cassetes audio virgens, telemoveis, microfones, gravadores, auscultadores, computadores, consumiveis para computadores, blocos de notas… Enfim, tudo! E muitas vezes coisas que ja nao nos servem e que ate acabamos por deitar for a!

Para ajudar:

Contacto
Correspondente e representante na Europa
da Radio Nacional
Rui Neumann neumann@filbox.com

Ou enviem directamente os donativos para
Radio Nacional de Sao Tome
Att. Rui Neumann
Avenida Marginal 12 de Julho
CP 44
Sao Tome e Principe

quinta-feira, novembro 20, 2003

Este blogue já tem contador

Mais uma originalidade recentemente colocada: agora podemos saber aproximadamente quantas visitas temos através do contador colocado junto ao histórico do blogue. Como vêem o número não é assim tão negligenciável... Acho eu.

quarta-feira, novembro 19, 2003

O Vasco qualquer dia regressa

Vejam lá como mesmo doente o homem continua a cilindrar tudo o que se mexe. Vasco Pulido Valente ao seu melhor nível no Público do passado Domingo.

Um esforço

Pessoal, vamos todos tentar fazer um esforço para não deixar morrer o blogue. Vejo que depois de um período áureo entramos numa recessão da qual, qualquer dia, já nem a D. Manuela das Finanças nos safa.

Queres dinheiro? Vai ao Totta

Foi publicada na semana passada a notícia de que dentre todos os bancos (todos eles incumpridores habituées e reincidentes, em maior ou menor grau, da legislação relativa ao pagamento de horas extraordinárias aos seus funcionários), o Banco Totta tinha sido aquele onde os inspectores tinham encontrado o maior número de violações à Lei.
Só nesse banco o número de horas extraordinárias prestadas pelos trabalhadores à entidade patronal e que não lhes foram pagas totalizavam cerca de 2.000.000 milhões de Euros. O sindicato bancário, em forma de protesto, visando consciencializar os trabalhadores para este incumprimento patronal, deslocou-se a várias agências deste Banco e de outros, denunciando a existência de trabalho escravo promovido por entidades que correntemente compram espaço publicitário em diversos jornais para publicitarem aos seus accionistas e ao público em geral os seus faustosos lucros, incluindo-se neste caso o Banco Totta.
Após reunião de emergência o Conselho de Administração, a coordenadora de Recursos Humanos do Banco Totta, sem nunca desmentir a veracidade das violações laborais cometidas, comunicou aos trabalhadores e à imprensa que as informações veiculadas pela comunicação social estavam a pôr em causa a boa imagem do Banco que tanto tempo demorou a construir...
Em vez de ecoar lamúrias sobre a desgraça da imagem do Banco junto do público que as notícias estavam a provocar, melhor seria que a coordenadora e os responsáveis do Banco interiorizassem que não basta o marketing para se edificar uma boa imagem de um Banco junto dos cidadãos, mas sim que cumprissem a legislação laboral em questão, evitando que a tal boa imagem não deixe de assentar em voláteis castelos de cartas.
Isto porque a tal boa imagem requer que as entidades patronais, públicas ou privadas, possuam uma ética que postule o respeito pelos direitos dos trabalhadores e não atropelem estes descaradamente. Concerteza que se uma parte do dinheiro gasto em publicidade para a promoção da imagem do Banco ou uma escassa parcela dos gordos lucros anunciados tivesse sido canalizada para remunerar os trabalhadores do seu exercício de actividade, esta situação não se punha com a acuidade que surge frequentemente à estampa, e a coordenadora não estaria agora tão preocupada com os efeitos nocivos que estas notícias causam para a boa imagem do Banco.

P.S- Destronado pelo Banco Totta, o crónico vencedor do desrespeito pela remuneração das horas extraordinárias dos seus funcionários, o BCP foi relegado para o segundo lugar da lista.
Apesar desta sensível melhoria, ainda assim seria justo que nos novos anúncios publicitários deste Banco, para além dos "mil sorrisos", "mil vontades", etc, fossem aduzidas frases como "mil horas extraordinárias por pagar", "mil calotes aplicados aos funcionários", "mil violações da Lei", and so on ...

terça-feira, novembro 18, 2003

Ent�o...

Come�o a pensar que ninguem gosta de Chico Buarque...

terça-feira, novembro 11, 2003

MEU CARO AMIGO

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que, também, sem cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

Francis Hime - Chico Buarque
1976

segunda-feira, novembro 10, 2003

And the Oscar goes to ...

Admitindo que uma opiniao individual transporta sempre consigo uma carga subjectiva, ainda assim, e porque a liberdade consiste em fazer opcoes e nao alienar essas mesmas opcoes, o filme que esteve em exibicao neste fim de semana no Cine Estudio 222, "Requiem for a Dream", do realizador norte-americano Darren Aronofsky, ocupa desde ja nas minhas preferencias o lugar cimeiro no que diz respeito a melhor pelicula cinematografica vista durante ano de 2003.
Este e um filme que acompanha a perseguicao dos sonhos de felicidade ao longo de tres estacoes (Verao, Outono e Inverno), por parte de quatro personagens. As personagens sao Sally, uma viuva solitaria e avida de aparecer na televisao para colmatar a carencia de reconhecimento e afectos, Harry, o filho, heroimano, o seu amigoTy, seu parceiro de negocios e acompanhante de viagens ao limbo da existencia, e Marrion, namorada de Harry, aspirante a pequena empresaria no sector do vestuario, e desiludida com a "ausencia" constante dos progenitores na sua vida.
No inicio, durante o Verao, o jubilo e a esperanca assolam o estado emocional das personagens. Com a chegada do Outono, estes sentimentos transformam-se em tormenta e desassossego. Por fim, eis o Inverno, e com ele os sonhos primordiais cedem lugar ao pesadelo e a escuridao absoluta.
Todo este percurso retrata o mergulho colectivo no abismo das drogas (nao apenas a heroina, mas a TV ou os comprimidos para emagrecer), por personagens que anseiam pelo usufruto de sentimentos feericos mas que acabam consumidos pela Dependencia.
Mas nao se pense que o realizador aponta o dedo as personagens e se compraz na decadencia e na humilhacao delas perante a situacao tragica e inane dos seus destinos. Pelo contrario, no final, Aronofsky, ao libertar as personagens da Dependencia, atraves da "extincao" dos mesmos, redime-os e resgata-os do martirio que atravessavam, provocado pela ilusao compartilhada dos beneficios das drogas e da fuga ao "real".
No meio de tudo isto, ao longo de todo o filme, sucedem-se a um ritmo vertiginoso os cortes de imagens e sons, entrelacados por grandes planos e ecrans divididos numa miriade de sequencias freneticas que servem de metafora a rapidez com que a Dependencia se alastra e ao precipicio para o qual ela conduz os seus fantoches.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Os esqueletos que saem do armário

Álvaro Cunhal decidiu quebrar, através de uma carta/intervenção, o silêncio para comprovar porque é que o PC português é o partido comunista mais ortodoxo e com mais tiques estalinistas da Europa civilizada e para discorrer sobre as razões por que é ainda possível acreditar no marxismo. Com "criatividade".
Todo o texto de Álvaro Cunhal é lixo. Lixo programático e ideológico assente em abjectas e levianas considerações sobre o mais terrível dos males políticos que o homem conseguiu inventar.
O comunismo não é só uma utopia e um discurso que alegremente se atira ao ar; é também o mais terrível totalitarismo inventado e obstinadamente perseguido pelos homens.
Nem é preciso ser muito inteligente para desmontar todo o discurso de Álvaro Cunhal que se estrutura numa negação inacreditável daquilo que foi precisamente o marxismo, ou por outra, naquilo em que ele verdadeiramente resultou, o socialismo dito real.
Só por brincadeira se pode esquecer as pretensões imperialistas soviéticas do tempo da guerra fria; só por brincadeira se pode continuar a defender a China, o Vietname, a Coreia do Norte, o Laos ou Cuba; só por brincadeira se pode afirmar que a excessiva centralização e burocratização da máquina estatal resultou de um erro conjuntural; só por brincadeira, de mau gosto, se continua a perseguir os fantasmas que põem em "perigo [imaginário] o futuro da sociedade socialista em construção".
Fazer afirmações deste quilate é mentir, é mentir sem escrúpulos, é omitir, é acreditar numa espécie de Pai Natal determinista ou pior, é usar de uma ironia atroz, sem qualquer respeito intelectual por quem o lê, por quem o ouve e por quem sentiu na pele o tal comunismo de que ele fala. Se foi para isto que quebrou o seu longo silêncio, mas valia ter estado calado porque das duas uma: ou Álvaro Cunhal está embrenhado num jogo onde, estou convencido, se tenta enganar a si próprio numa atitude autista inqualificável ou de uma vez por todas, Álvaro Cunhal parou no tempo, no espaço e ainda não percebeu que o muro ruiu, que a URSS desmembrou-se, que Cuba e a Coreia não são exemplos de pluralidade de pensamento e que o socialismo real, consequência da utopia, avalia-se cruamente pelo resultado da soma de pessoas que morreram em vão e em nome desse processo de engenharia social.
Assim e nestes termos, a criatividade a que se refere Álvaro Cunhal só pode ser a originalidade dos regimes que defende onde tudo se resolve branda e pacatamente com julgamentos sumários, com execuções bárbaras ou matando à fome um terço da população. Este deve ser um novo conceito revolucionário para a criatividade. Uma nova criatividade estalinista.
Nada disto é, ou pode ser, considerado inocente. Porque, de certeza absoluta, o que Álvaro Cunhal veio fazer foi garantir que o PC irá continuar a sua lenta caminhada até à sua prodigiosa extinção num momento em que o PC enfrenta o seu maior problema: o PC em si. O PC em si e o seu isolamento, a falta de diálogo, a perseguição política interna, a cúpula directiva que açambarca todo o poder e que debita os conteúdos programáticos de uma ideologia moribunda e que assenta, na lei e na ordem do mais puro e duro estalinismo, a sua crescente falta de credibilidade e a voz sebastiânica que ainda ouve, a de Álvaro Cunhal.
Talvez seja por isso que agora me seja mais fácil perceber porque é que um partido como o PCP tem um líder parlamentar que tem dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia. E onde é que ele vai beber a sua triste e abominável inspiração.

Sugestão para o fim de semana de S. Martinho

Castanhas de Chocolate à Moda de Viseu

Ingredientes

300 g de castanhas cozidas ;
1 requeijão ;
2 colheres de sopa de coco ralado ;
2 colheres de sopa de açúcar ;
3 colheres de sopa de castanha assada e ralada ;
1,5 colher de natas ;
200 g de chocolate em barra ;
75 g de manteiga
Confecção:

Passe pelo passe-vite as castanhas cozidas e o requeijão. Junte ao puré obtido o açúcar, as natas e o coco. Junte o chocolate, previamente derretido em banho-maria, e a castanha ralada. Misture muito bem. Tenda as pequenas bolas em forma de castanha. Passe-as por açúcar pilé e coloque-as em caixinhas de papel frisado.

Bom Apetite

quinta-feira, novembro 06, 2003

"Desgraça" - J. M. Coetzee

Estive a ler, por sugestão de alguém, um livro maravilhoso do mais recente prémio Nobel da Literatura, o sul-africano J. M. Coetzee, um autor que me era, até aqui, um completo desconhecido.
O livro chama-se "Desgraça" (Disgrace no original) e conta a história de David um professor Universitário que perde o emprego depois de se envolver com uma aluna (Melanie) e da filha deste, Lucy, uma jovem lésbica desiludida com a vida, que o acolhe numa espécie de retiro espiritual onde se dedica ao campo e à agricultura num ambiente nubloso.
O livro é um retrato irónico, mas muito real da África do Sul dos nossos dias e das consequências do fim do Apartheid na relação entre raças e das mudanças efectivas do poder e da propriedade privada que entre as mesmas se estabeleceram.
É por isso que o livro antes de mais nada é cru: cru como o ódio que pintou a história da segregação sul-africana, cru como a violência implícita em tudo isto e cru como o sentimento de impotência de David perante os sucessivos acontecimentos que inevitavelmente desenham o seu destino e o da sua própria filha.
Há dois momentos marcantes que orientam toda a sequência do livro: o seu despedimento e a violação dentro de casa da sua filha Lucy.
São estes dois átomos que são fulcrais para o desenvolvimento narrativo e para a grande lição que Coetzee nos pretende transmitir.
Todo o livro acaba por ser uma análise profunda às motivações dos homens e à sua incessante busca interior como se interminavelmente andem à procura de algo que os preencha, mas que raramente é quantificável, definível ou sequer hipoteticamente mensurável.
O livro nunca é bonito porque um livro destes nunca é bonito; é um livro ácido, muito azedo, onde o autor, num estilo explicativo simples nos conta de um modo sublime parte do que se alterou na África do Sul do fim do século e a borrasca que a mesma atravessa depois da libertação e do fim de um regime político repressivo e altamente segregador.
É também um livro, quanto a mim, totalmente desprovido de afecto, com personagens já incapazes de amar perante as desilusões e agruras da vida, onde parece haver um medo constante e macabro de falar das coisas que acontecem, do ódio a que estão sujeitos os brancos e da mentira e da ilusão em que vivem como se nada tivesse mudado.
Tudo parece irreal. Confortavelmente irreal, porque tirando David nenhuma personagem quer falar abertamente sobre o que se passa, sobre o que está a mudar, sobre o que sente, sobre o que vê, sobre o caminho que trilham, sobre o surrealismo das suas opções. Tudo é uma doce ilusão porque só numa doce ilusão se pode ainda acreditar na África do Sul. Nesta África do Sul.
"Desgraça" é por isso um livro muito poderoso, porque demonstra bem a falácia do sistema e o modo como estão desprotegidos os brancos numa África do Sul dos negros que num repente se sentem senhores inabalados e inimputáveis do país, das terras, das cidades, das gentes e até das almas; eles são os novos senhores intocáveis, senhores absolutos que vivem numa espécie de cobrança retroactiva de anos e heranças passadas em que tudo é permitido. Sente-se o medo e o determinismo histórico que é fatídico de aceitar o triste, maquiavélico e silencioso destino. "Um dia é (foi) da caça; o outro é do caçador".
É aqui que entra Petrus, a incarnação do novo senhor africano a quem se presta uma espécie de vassalagem e de tributo para habitar nas suas terras e que acaba como dono de tudo: da terra, da família, da força, da protecção, do mundo real que é irreal, da alma e como protector de Pollux, outra personagem, e um dos jovens violadores que é testemunha viva daquilo que aconteceu a Lucy e que cresce carregado de ódio.
Fazendo um aparte, Pollux na mitologia era filho imortal de Zeus sendo na astronomia a estrela mais brilhante da constelação de Gémeos (a outra é Castor). A ironia é que a estrela mais cintilante em Coetzee seja aquele que chega não para dar esperança mas precisamente para destruir essa esperança, ainda por cima com fama de....imortal.
Mas neste jogo de tributos, de vassalagem ao novo senhor feudal, o dono das terras, a Lucy resta carregar no ventre a semente da sua violação como hipoteca para toda a vida e como abono vital para a sua protecção. É aquele rebento, filho mestiço, que lhe garantirá a segurança, a sobrevivência, a companhia, a comida, o tecto que Petrus lhe estende e que fará dela sua amante, sua mulher, sua concubina, sua o que for. Já nem isso lhe interessa porque será aquele rebento que consagrará a sua escravatura eterna perante o novo senhor, da nova África do Sul.
Por seu turno a David resta continuar à procura de si e da ópera interminável que não consegue escrever, ajudando como pode no canil Bev, outra personagem, e mantendo-se por perto de Lucy na medida do possível, tomando um contacto cada vez mais estreito com os animais.
E ele, David, que sente que no canil - que acaba por ser num sentido figurado também a prisão dos homens que aguardam o fatídico fim - os cães também pressentem o sofrimento, a ilusão, a decadência, a submissão, a mudança.
Concluindo, Desgraça é uma metáfora subtil e cruel que mostra como Lucy, uma branca, depende mais de Petrus, o negro, do que do próprio David, o pai, para a proteger e que a harmonização racial na África do Sul passa pela miscigenação entre raças como se se quisesse criar uma nova estirpe que abraçasse o melhor de dois mundos tão distintos.
Só que em Coetzee nada disto é natural. Aliás, em Coetzee tudo isto é uma verdadeira descida ao Inferno onde tudo é consumado pela força porque só pela força, pela superioridade física é possível ficar com a terra, ser protector e fazer um filho na branca.
São estas as grandes lições que Coetzee, num romance aflitivo, doloroso e triste como o maior desassossego jamais imaginado pelos homens, nos narra.
Afinal, Lucy tornou-se prisioneira perpétua num país sem lei nem ordem porque tudo é permitido como se ela expiasse pecados antigos e como se vivesse numa espécie de pensão vitalícia que acabe por justificar o injustificável, tal como os cães que no canil de Bev aguardam a sua vez.
Ele, Coetzee, percebe que "a vingança é como um incêndio [que] quanto mais devora, mais fome tem" e que no fim, o que nos liberta, aos homens e aos cães do canil, aquilo que nos permite partir, verdadeiramente partir da vida, da dor e do ódio, é a morte, porque só a morte nos liberta a alma, porque só a morte nos liberta das grilhetas que nos prendem o corpo à vida terrena e porque só a morte nos salva da arbitrariedade dos outros homens.

Do Sr. José Manuel Gouveia

O Sr. José Manuel Gouveia enviou um e-mail para o endereço electrónico do Grupo do Pato, que passaria a transcrever, para aqueles que não tiveram conhecimento.
Antes ainda, gostaria de agradecer, penso que de forma extensível aos outros membros, ao Sr. José Manuel as considerações elogiosas que teceu acerca deste Blog.

"Chamo-me José Manuel Gouveia e gostava de saudar o vosso espaço de intervenção. Gosto especialmente das discussões que têm e do rumo proletário que se vê nalgumas pessoas . É preciso gente com força porque as coisas estão difíceis. Sou reformado da Lisnave onde tive que aprender nos últimos anos a mexer nos computadores porque tive um problema no braço e os gajos não me quiseram reformar logo ali, e tive que me habituar ao escritório. O meu filho é que tem um desses blogues com os amigos sobre música da pesada, desses que andam todos de preto e eu, para ver os disparates que eles escreviam comecei a ler, ele deu-me a morada e agora ando sempre ai a ver os blogues, já que não tenho mais nada para fazer. É um dos melhores o vosso blogue porque fala dos problemas das pessoas sem grandes complicações como outros que aindam prá aí e que não se percebem nada, por isso é que gostei daquela resposta do amigo global aquele outro leitor. Até me lembrou lá um tipo da fabrica que era um gozo , ninguém se metia com ele, o gajo até era meio educado, tirou não sei lá bem o quê, até pensei que podia ser ele mas a última vez que soube dele estava em Angola num negócio qualquer. Mas esse tipo o global já deve ter sido operário, tem tomates e é isso que é preciso porque só aqueles que passaram por elas é que sabem e não esses gajos que tem blogues e que são uns intelectuais, desculpem lá mas de merda. Gosto também das conversas sobre a bola, porque é isso que nos vai distraindo, fala-se pouco de bola nos blogues. Continuem, força".

quarta-feira, novembro 05, 2003

Notícia preocupante

As ligações no âmbito do projecto "Internet nas escolas" vão deixar de ser pagas pela Fundação para a Computação Cientifica Nacional (FCCN), entidade que gere a Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade (RCTS), que permite as ligações à Internet nas escolas, nos espaços internet e ainda as de diversas instituições de solidariedade social.
A FCCN gere as ligações através do POSI (Programa Operacional para a Sociedade da Informação), mas como este financiamento termina no final do corrente ano, a fundação deixa de ter condições para continuar a assumir estas ligações, pelo que terão que ser suportadas através do Orçamento do Estado.
Para já, as escolas começaram a receber a comunicação por parte da FCCN de que irá cancelar as ligações no final do ano...
Lançado em 1996, o Programa "Internet na Escola", do Ministério da Ciência e da Tecnologia, estava enquadrado nas iniciativas do Governo no âmbito da chamada Sociedade da Informação. Numa primeira fase foram contempladas as escolas do 5º ao 12º ano de escolaridade, através da instalação de um computador multimédia e respectiva ligação à Internet.
Face a este panorama sombrio que se depara à continuação deste projecto fulcral para a democratização e para a equalização dos desníveis sociais no acesso à Internet, quero acreditar que realmente o Orçamento de Estado, venha a consagrar uma dotação orçamental capaz de dar prossecução ao cumprimento desta medida.
Acaso tal não suceda, desfere-se um rude golpe no sentido positivo da correcção das desigualdades sociais domésticas no acesso à Internet (e que são tão acentuadas), por parte dos estudantes portugueses.
Vou esperar para ver se as pretensões de justiça social deste Governo vão chegar à Internet...

terça-feira, novembro 04, 2003

ainda o futebol...

Algures deveria estar escrito que o ser humano se distingue dos outros animais e todos os restantes ser vivos pela necessidade imcomprensivel de afirmar uma ou outra dimensao socio-cultural nao para demarcar a diferenca mas para realcar a sua superioridade em relacao ao outro. Resumindo e concluido, a definicao por oposicao ao outro encalha sempre na procura de uma categoria afirmativa de superioridade. Daqui decorre o facto de qualquer sentimento de pertenca nao ser pacifico: sou portugues por oposicao aos espanhois que falam alto e mataram mais indios que nos, sou madeirense e consequentemente sei mais sobre a 'vida' porque a insularidade me devotou a uma condicao de privacao cumulativa que so me fez mais forte, sou deste clube que e melhor do que o outro porque representa o povo… Infelizmente, sendo esta uma caracteristica inata ao ser humano, atenua-la em cada um de nos exige um esforco que por vezes parece sobre-humano. Seja como for, custa-me ver gente que 'pertence' a um conjunto privilegiado, que teve oportunidade de estudar e de desenvolver minimamente o seu espirito critico (o que lhe permite, dentro do possivel, seleccionar a informacao disponivel), a debater estas questoes da 'pertenca' usando de preconceitos que eu julgaria ja devidamente descontruidos.
Resta-me acrescentar que considero grosseiro identificar, ao jeito de correlacao directa, um clube de futebol com uma 'classe social' ou 'popular'. O 'povo que lava no rio' tem muito mais que se lhe diga… Por outro lado, esse povo, benfiquista ou outro, que assobiou o nosso Primeiro no estadio de futebol foi o mesmo que votou nele. Logo, o assobio pouco me revela acerca das opcoes politico-ideologicas dos legitimos 'populares' que acorreram ao estadio. Mais depressa me faz pensar que o descontentamento radica em motivos bem mais prosaicos e individualistas (aumento de impostos e por ai vai) do que propriamente em preocupacoes de caracter mais colectivo e estrutural (nomeadamente as privatizacoes, 'a desertificação do interior, os múltiplos despedimentos que assolam a Beira Baixa, as fábricas que fecham, as escolas que fecham').

segunda-feira, novembro 03, 2003

Ainda sobre bola (e não só)

Não resisto, a propósito da polémica do momento aqui no Pato, a dar mais umas "caneladas". Como alguém disse, não recordo quem, o futebol é a coisa mais importante entre as coisas sem importância. Eu concordo. É, portanto, um tema sensível. O nosso querido companheiro Nuno, picado com algumas das "bocas" aqui postadas (entre as quais algumas minhas), resolveu, desde logo, arrasar todos os “crentes” rivais, acusando-nos de invejosos a espumar de raiva e ódio. Meu caro, não é caso para tanto. É verdade que em cada sportinguista existe um anti-benfiquista, mas esta realidade, que só choca quem não percebe nada de futebol, existe em todos os clubes do mundo. Isto é, a identidade de um clube é sempre construída na oposição aos clubes rivais. Acreditar que o Benfica é diferente é revelador da costumeira megalomania encarnada.
Pela minha parte, assumo algum desconforto com alguns fenómenos vistos nas últimas semanas associados ao Benfica. Vou abordar só dois. O primeiro tem a ver com o excesso escandaloso de mediatização do fenómeno futebolístico. E aqui falo apenas como cidadão. Admito que não aconteça só com o Benfica, mas quando o acontecimento se relaciona com este clube atinge-se a dimensão de patologia nacional. Por si só, as onze horas contínuas de emissão que uma televisão dedicou à inauguração de um estádio de futebol é sintomático da menoridade intelectual deste país. O outro toca-me enquanto adepto sportinguista. Refiro-me à arrogância insuportável com que a maioria dos adeptos e dirigentes do Benfica se auto-elogiam e desprezam os outros. Que somos os maiores. Que temos mais adeptos – aliás, somos seis milhões. Que o nosso estádio é o maior e mais bonito. Que de Portugal no estrangeiro só se conhece o Benfica (para além de Bragança obviamente). Que os outros são anões ao lado do glorioso. Etc. Não há maior sintoma de decadência do que quando uma grande instituição sente a necessidade, a cada dois minutos, de publicitar a sua grandeza.
Para terminar, apenas uma referência a um mito recorrente do futebol nacional de que o Nuno tanto gosta. Estou a falar da identificação de cada clube com uma determinada classe social. Para os adeptos desta tese pseudo-sociológica o Benfica é o clube das classes populares e mais desfavorecidas ao passo que o Sporting é um clube essencialmente burguês, sendo os seus adeptos, na sua maioria, de classe média-alta e alta. O Nuno, num excesso de ironia, chegou até a qualificar os sportinguistas de "betos". Só faltou mesmo dizer que todos os adeptos do clube de Alvalade com menos de trinta anos eram militantes das Juventudes Populares. Esta ideia é uma mistificação absoluta, mas compreensível. Os clubes, tal como as Nações, necessitam de uma origem mítica. É por isso que sempre que se aborda esta temática se resgatam as origens sociais dos fundadores dos dois clubes: pequena-burguesia comercial (Benfica) e aristocracia/ burguesia (Sporting). Julgo que este tipo de análise é muito frágil quando falamos dos chamados clubes grandes. O conceito de popular é aqui mais quantitativo que qualitativo. O Benfica sendo o clube com mais adeptos tem naturalmente uma grande representação nas classes sociais menos favorecidas economicamente. Tal como, de resto, também o Sporting tem. Estes clubes são, digamos, transclassistas.
Tenho para mim que uma analogia clube-classe só é aceitável no caso dos clubes locais (pequenos, mas grandes), com uma forte identificação com uma determinada comunidade, socialmente homogénea. Nestes casos existe até uma estética de classe, que se revela no símbolo ou no equipamento do clube. Assim de repente ocorre-me o caso do Leixões, clube de raiz genuinamente popular.

PS: Temo que a actual mercantilização do futebol interdite "o jogo" às verdadeiras classes desfavorecidas. Quando em meados de Setembro, com a emoção que provoca sempre a novidade, fui ao Alvalade XXI, o bilhete mais barato que consegui arranjar custou-me a "módica" quantia de 25 euros. Para a maioria da população portuguesa este valor é incomportável. É a morte definitiva dos clubes enquanto instituições populares, simbolizada na desaparição inevitável do mítico peão.

A Aldeia Gaulesa resiste agora "(n)um longínquo arquipélago"

Peço parte do título emprestado ao post colocado pelo Gil, mas confesso que não gosto da expressão. É seca, cínica e demonstrativa de uma certa mentalidade colonial-fascista muito do agrado de certos intelectuais lisboetas, mormente nos partidos mais à esquerda que por cá não se conseguem infiltrar e que vivem da publicidade enganosa e das parangonas das ideias feitas sobre a Madeira como por exemplo o Off-Shore, a pedofilia, o défice democrático, a pobreza escondida e a ditadura do Dr. Jardim. Tudo coisas sinistras, portanto e que alimentam novelas no imaginário da TVI e de muitos comentadores e políticos, mormente do partido dos intelectuais do cachimbo para os quais, muito sinceramente, me começa a faltar a pachorra.
Eu não levava muito a sério se a frase ("um longínquo arquipélago"), fria e assassina, fosse escrita por uma pessoa que nunca conheceu outra realidade que não a lisboeta. Mas vinda de um jovem do interior, como o Gil, que conhece bem de certeza absoluta, o que é estar "longínquo" de tudo (dos centros de decisão, do desenvolvimento, do conhecimento, do emprego, da vida), tal consideração passa a ser grave, extemporânea e redutora, para além de identificar na perfeição o actual situacionismo vigente e medíocre apanágio da classe política instalada em Lisboa e de muita gente por ela influenciada que não consegue olhar para além das fronteiras do distrito depois de lá entrar.
Não tenho por hábito embocar por este tipo de discussão até porque por mais que expliquemos ou se conhece ou não vale a pena sequer tentar explicar o que é a Madeira, o que são os madeirenses (que muitos gostariam que não fossem gauleses, perdão, portugueses), o que é a Autonomia, e outras "balelas" do género.
Viver num sítio "longínquo" tem destas coisas: acabamos tão esquecidos que só se lembram de nós quando descobrem uma família sem casa, quando expulsam um tal de Joel, quando o Marítimo incomoda e se infiltra nos primeiros lugares da classificação ou quando reivindicamos direitos nossos. Mas o problema é que dos outros nem reza a história.
A Madeira só incomoda porque é um caso de sucesso o que não deixa os centralistas estatais hediondos, corruptos, depravados e abjectos, contentes, porque isso pode significar o fim dos mitos que eles contam. É isso que incomoda também o Gil, já esquecido das suas origens.
Mas viver numa ilha acaba por ser, e se olharmos para o interior do país, a nossa grande vantagem, porque é a ilha que nos permite, dentro de certos limites, sermos donos do nosso próprio destino, mesmo que "longínquos" e mesmo com uma necessidade evidente de sair. Afinal, apesar de longe, de estarmos a meio do Atlântico é mil vezes melhor, apesar do mar, viver na Madeira que em qualquer outro distrito perdido no interior do país esquecido. Do interior que todos renegam.
Por isso, não invejo a sorte das gentes de Évora, Beja, Castelo Branco, Vila Real, Bragança, Viseu ou Guarda, abandonadas pelos centralistas de Lisboa e pelos seus próprios filhos que há muito tempo confortavelmente se instalaram noutros poisos do bolorento império.
Qualquer dia, olharemos para trás e estas gentes mais não serão que almas penadas a povoarem um sepulcral e original vazio (quem sabe não se safa isto com uns campos de golfe?). E isso o nosso líder, o tal "líder do governo regional de um longínquo arquipélago" não deixa que nos façam porque há muito tempo que abriu os olhos. É por isso que há gente que ainda não percebeu que a Madeira já está mais próxima de Lisboa que qualquer sítio de Castelo Branco. A tal Madeira, do "líder do governo regional de um longínquo arquipélago". E por aqui me fico.

Sobre a Rússia

Na sequência dos acontecimentos que se têm vindo a precipitar nos últimos dias, o milionário russo Mikhail Khodorkovski, presidente da empresa petrolífera Iukos, demitiu-se hoje do cargo, após dez dias de detenção por suspeitas de fraude generalizada e evasão fiscal.
Na sequência, Alexander Voloshin, chefe da administração presidencial, a terceira posição mais importante na hierarquia do Estado russo, e um simpatizante de Khodorkovski, apresentou a demissão na sequência da detenção do magnata.
Estas acções judiciais que assinalam o conflito declarado entre o Kremlin e os magnatas russos, alguns deles, como Voloshin, com manifestos poderes políticos, parecem-me radicar em dois pólos distintos, por parte do Kremlin.
Num primeiro pólo, da parte dos partidários de Putin, a intenção de secar a emergência de partidos políticos financiados pelos magnatas, capazes de irem para a peleja nas eleições que se aproximam.
Num segundo pólo, com menos importância no móbil das acções desencadeadas, mas ainda assim credor de interesse, designando os prosélitos de Putin maioritariamente indivíduos que pertenciam aos antigos serviços secretos soviéticos, confrontam-se neste episódio russo actual, também as duas clássicas concepções de organização social: os defensores do intervencionismo estatal, nomeadamente nos assuntos económicos, e os defensores do liberalismo económico, dominantes no espaço económico russo após as privatizações selváticas da ex-União Soviética.
Apesar de crer que o peso dominante no confronto, indiscutivelmente, está a ser determinado pela medição de forças entre dois grupos que partilham pretensões similares relativamente ao controlo governativo, ainda assim parece-me que esta refrega não deixa de estar também infiltrada por alguns resquícios ideológicos, trazendo à recordação velhos episódios da luta pelo poder na Rússia.

A PAIXÃO DA BOLA

É interessante ver que há duas perspectivas de se ver (ou não querer ver) a realidade do Benfica.
A dos supostos seis milhões, para quem o Benfica foi e continua a ser o maior do Mundo e há uma outra da qual tu partilhas, segundo a qual o Benfica está moribundo/morto.
Como é óbvio são as duas vítimas de dois sentimentos exacerbados: a paixão e o ódio.
É verdade que muitos dos adeptos do Benfica vivem do passado, mas isso, como já muita gente disse, acontece com o nosso saudoso país das míticas naus.
Porém, não é menos verdade, apesar do que tu dizes, que o clube em questão é a maior instituição desportiva do país, e daí infelizmente o aproveitamento que a nossa classe política faz do clube, passando-se o mesmo no sentido contrário.
Aproveitamento que toda gente dentro e fora do Benfica tenta,
apesar de ser pequeno e estar moribundo.
No que se refere a esse aproveitamento, penso que estamos todos de acordo,
quando até o líder do governo regional de um longínquo arquipélago vem saudar
“gente de aparência duvidosa e de percurso cinzento se auto-promover e se dar a conhecer, gratuitamente, ao Benfica, a Portugal e, supostamente, ao Mundo” se vê a promiscuidade.
Líder que nunca se imiscui no tema futebol do tal arquipélago
tentando fazer uma Sad, união de três clubes, que tornaria o resultado dessa união
um clube capaz de ombrear com os grandes -onde não está o Benfica – e que também por isso foi vaiado.
Assobios, que parecem recorrentes nos recintos desportivos, mas não só por maus espectáculos como se viu nos últimos quinze dias e por duas vezes no estádio da Luz,
o que só demonstra uma certa coerência dos adeptos do clube:
Assobia-se um mau Primeiro-ministro
assim como, com a devida distância, se assobia um mau jogo de futebol.

Sobre a bola II

O que se criticou foram as ideias feitas: as ideias de que o Benfica é grande, de que vive bem, de que é imponente, de que conquista títulos atrás de títulos, de que tem os melhores jogadores, de que tem seis milhões de adeptos, de que é importante. É isto que é redutor e conceptualmente muito desonesto. Tudo o resto passará ao lado.
Não podemos estar constantemente a repetir uma mentira à espera que ela se torne verdade. Houve, em tempos que a história, por ser recente, ainda dolorosamente recorda, quem assim o fizesse e daí tirasse miraculosos proveitos e benesses. Mas na era da informação e da comunicação, com os dados ao alcance de todos só por manifesta insensatez se pode continuar a acreditar em certa e determinada retórica que faz a apologia (que só pode ser decadente) da grandeza de algo que há muito não é grande e que há muito é e está moribundo. Essa é a verdade que os tais seis milhões não querem ver.
Acreditem que me não importo com as transmissões em directo nas televisões privadas de programas do Benfica (qualquer dia só acessíveis no canal História, como dizia o outro, mas sempre extremamente cómicas), sobre o Benfica ou com os proto-candidatos e candidatos a jogadores, treinadores, secretários-gerais, vices e presidentes da mesa, da direcção, da SAD ou da secção do Jogo do Pião. Isso não me importa. Agora não é admissível que o mesmo aconteça em canais públicos pagos com os meus impostos ainda por cima como espaço de propaganda e de campanha eleitoral para gente de aparência duvidosa e de percurso cinzento se auto-promover e se dar a conhecer, gratuitamente, ao Benfica, a Portugal e, supostamente, ao Mundo. E se ainda assim tiver de ser que se façam perguntas incómodas e não jornalismo faccioso e politicamente correcto.
É isso que eu condeno, porque há quase dez anos que, eleição atrás de eleição, se discute a mesmíssima coisa: qual o futuro do Benfica? Quem errou? Que jogadores promete? Que modalidades vão acabar? Que apostas vai fazer? Que plano apresenta para fazer um Benfica campeão e cheio de dinheiro? Mais do mesmo, sem tirar nem pôr. Só o nome das personagens muda: Manuel Damásio, Vale e Azevedo, Guerra Madaleno, Luís Filipe Vieira, Manuel Vilarinho, Jaime Antunes, Luís Tadeu, etc, etc.
Ontem assistia comodamente ao jogo de futebol entre o Benfica e o Beira-Mar, na pseudo-nova Catedral meio-cheia e escutava atentamente o que os comentadores diziam sobre o jogo. Naquelas frases, naquele discurso, grande parte dele estrutural e mentalmente preparado e articulado com antecedência, cheio de lugares comuns, o Benfica continua a ser o maior do mundo, com os melhores jogadores dos arredores, e com tudo para vencer na vida. Talvez por estarem enfeitiçados com a recente vitória em Coimbra, só possível porque o guardião da Académica estava em noite de não lhe apetecer fazer nenhuma defesa, o Benfica parecia renascido das cinzas, qual Fénix, e pronto para o sprint final rumo ao título. Só que ninguém contava com os dois golos do Beira-Mar. Nem o Benfica.
No fim, os assobios eram o sinónimo claro do despertar do sonho e do regresso ao calvário. E daqui a uns meses, voltamos ao mesmo: qual o futuro do Benfica? Quem errou? Que jogadores promete? Que modalidades vão acabar? Que apostas vai fazer? Que plano apresenta para fazer um Benfica campeão e cheio de dinheiro? Mais do mesmo, sem tirar nem pôr.
Quanto ao aproveitamento político que se faz do futebol, ele fica para um próximo post mais elaborado e com mais tempo. É que nesse aspecto parecemos todos de acordo: a promiscuidade entre futebol e política não é saudável nem para um nem para outro, e essencialmente, para o povo anónimo que financia tudo isto. E se há uma coisa que abomino é esse financiamento descarado por parte do Estado para que clubes de futebol paguem regiamente meninos mal educados e pior formados e estádios imponentes para as empresas feitas com os Presidentes dos clubes de futebol.

Termino dizendo ao Nuno uma coisa: há uma clara diferença entre ser populista e ser popular. Acredita que o AJJ, digam o que te disserem, é tudo menos um populista.

sábado, novembro 01, 2003

Sobre os discursos: resposta ao Marçal

É verdade que o significado das palavras não depende apenas de uma conjugação de signos. A interpretação de uma frase deve avaliar o tom utilizado pelo emissor, as pausas, a expressão facial, etc. Estes dados podem transformar uma afirmação, enfatizar uma ideia ou, noutro sentido, estabelecer formas de relativização do que foi dito. Numa frase escrita não posso, em princípio, interpretar os tons, os sorrisos ou a expressão facial de quem a escreveu (a menos que o escritor nos forneça essa informação). Deste modo, para interpretar um texto, tenho que me quedar pelo que está redigido. No universo da escrita existem formas de transformar ou relativizar o que foi dito: a própria construção das frases, o humor, algumas formas de ironia, etc. Isto tudo para dizer que, se fui injusto na apreciação de certos textos de alguns companheiros, isso deve-se apenas ao facto de, na minha leitura desses textos, não ter encontrado qualquer mecanismo que permitisse distinguir “uma coisa que é para rir um bocado”, “mandar umas bocas uns aos outros” e que “não deve ser levada minimamente a sério”, de formulações categóricas escritas num estilo igual, sem tirar nem pôr, ao utilizado para falar e discutir outros assuntos. O que me preocupa não são os jogos jocosos de crítica saudável, na fronteira da irracionalidade, que adeptos de clubes diferentes desenvolvem entre si. Não fui eu o atingido pela crítica ao Benfica. Eu posso defender-me. Preocupa-me, isso sim, por um lado, as omissões, e por outro, algumas concepções que se vislumbram por detrás da crítica futebolística. Sobre as omissões, basta dizer que culpar um clube de futebol por todo o tipo de aproveitamentos políticos e económicos é de um sentido analítico extraordinário. Sobre as concepções que sustentam certas análises o caso é talvez mais grave (e é por isso que as coisas são sérias meu caro Marçal, se ao menos houvesse algum distanciamento). É sabido que a pertença a um clube de futebol tem, para muitas pessoas, um significado quotidiano importante, seja no seio familiar, seja no trabalho ou no tempo de lazer. No contexto português o Benfica é indiscutivelmente o clube mais popular. A crítica feita ao Benfica neste blog insistiu várias vezes nesta relação do Benfica, “o clube mais português de Portugal”, com o povo. As analogias e os adjectivos são quase sempre bastante infelizes e lamentáveis.
Quanto à questão da vinda do presidente do presidente do governo regional da Madeira à inauguração do Estádio porventura terei sido injusto, dado que não foi o único populista presente. Realmente deviam todos levar a sua bicada. Mea-culpa. Felizmente que o povo tonto do Benfica sob responder à altura, não por ser do Benfica, mas por sofrer aquilo que a grande parte dos portugueses sofre no dia-a-dia.