sexta-feira, outubro 31, 2003

Pestana

Hoje e um dia muito triste. Um Juiz do Crown Court condenou Joao Pestana a dez anos de prisao. O que fez Joao Pestana, este anonimo cidadao Portugues? Teve a infeliz ideia de ameacar explodir o aeroporto de Gatwick no pos 11 de Setembro, pre Guerra contra o Iraque. O infeliz da idea nao era tanto explodir o aeroporto. Desde que nao produzisse feridos (o que seria pouco provavel) o meio ambiente e o planeta ate agradeciam. O infeliz foi o timming. Mas o Pestana e assim, e um gajo que nao se controla, nao retem nada 'la dentro'. E um homem que tem uma necessidade urgente de se expandir, de se explodir (uma vez que no passado ja amecou por cobro a sua propria vida) ou de fazer explodir algo. O que os ingleses nao percebem e o classico bluff Latino do 'olha que eu f****-te, -me ou -vos' sem que nada realmente se concretize. O sermao moral e moralizante proferido pelo Juiz no final da leitura da sentenca - que la teve de passar pelas basicas dictomias do bem e do mal, do terrorista nao terrorista e do 'novo' direito dos cidadaos (recem descoberto pela comunidade anglo-saxonica) viverem sem medo de serem vitimas da violencia - nao deixa de ser incongruente com muito daquilo que a sociedade inglesa representa onde a violencia se aloja nos mais profundos intersticios da vida social…
Seja como for, todo este processo judicial decorreu sem o minimo interesse das autoridades portuguesas. Eu acho mal… Pestana deu um enorme contributo a comunidade portuguesa em Inglaterra. Quando a noticia da prisao de um terrorista portugues foi tornada publica (praticamente dois meses antes do inicio da invasao do Iraque) os lusos passaram a ser bem mais respeitados pela comunidade internacional que va-se la saber porque se encontra a residir nessa ilha. Nomeadamente os franceses, que ao inves de dizerem 'por acaso conheci uma portuguesa que era minha porteira em Paris' ou 'os portugueses sao muito bons a construir casas', passaram a cumprimentar os descendentes dos 'batimains' com um piscar de olhos e um afavel sorriso.
Pestana elevou o prestigio dos portugas em terras de sua majestade e fez crer ao 'mundo' que os portugueses por vezes sao capazes de passar das palavras aos actos…

Sobre a bola...

Sempre fez-me muita confusão, muito antes da minha incursão pelos meandros da Sociologia, o fanatismo, de toda e qualquer espécie.
Lamentavelmente, ou talvez não, nunca encontrei uma facção, ou grupo, com a qual me identificasse completamente. E sempre achei redutor (apesar de inevitável) ter de optar por uma facção ou, pior ainda, ter um sentimento “determinista” de pertença a uma “tribo” por herança. Claro que é muito mais confortável ter as opções já todas feitas à nascença, o método de “recrutamento” que as Religiões apuraram em milénios de existência, mas acho muito mais “vida” (apesar de muito mais difícil) os indivíduos terem a possibilidade e a responsabilidade de fazerem as suas escolhas.
No futebol, apesar de ainda ter resistido uns anos, tive de fazer uma opção relativamente cedo. A pressão foi demasiada. A certa altura, lá pelo início do secundário, vinha a pergunta inevitável: “Então, qual é o teu clube?” Lá estava eu com um enorme problema... Eu até gostava de “jogar à bola”, mas não tinha um clube, não tinha pachorra para ver jogos de futebol, e entre uma colecção de cromos de jogadores de bola e outra sobre a Exploração Espacial nem tinha dúvidas, optava pela última...
E neste juvenil limbo identitário andava eu, a ser olhado cada vez mais de lado pelos colegas de escola. Era “o gajo esquisito que não tinha clube de futebol”, e isto no melhor dos epítetos...
Até o dia em que resolvi o assunto optando pelo Sporting. Motivo: era o único clube do qual eu tinha uma t-shirt (oferta de um primo mais velho que era dirigente do Sporting Club Madeira). Passei a dizer que era do Sporting. Uma escolha muito racional...
Até que comecei a achar piada a esta coisa de ser sportinguista. Anos e anos seguidos sem ver uma vitória e um gajo ia rindo e dizia: “Pois, isto de ser sportinguista...”
O que eu gostava do Sporting era esta característica de perder campeonatos mas não perder a compostura. Meteu-se-me na cabeça que o Sporting era um clube de cavalheiros. E até acho que o Sporting teve o melhor presidente de um clube de futebol em Portugal nos últimos anos, o Roquette, que era um cavalheiro com visão. Mas, por outro lado, o Sporting também teve, na sua equipa, alguns dos maiores energúmenos que já vi no futebol: o João Pinto e o Sá Pinto ( ambos Pintos, como eu... Hum!??)
Pela primeira razão continuo a simpatizar com o Sporting. Mas, pela segunda razão (que se repete em todos os outros clubes, uma completa falta de desportivismo e de civismo ao que se junta o fenómeno claques, os presidentes “empreiteiros patos bravos” e o descarado aproveitamento político que se faz da coisa, etc.), não me importava nada que fizessem explodir o novo estádio do Sporting e todos os outros juntamente.
Só ficavam os campos de futebol para a malta ir jogar ao fim-de-semana e para os putos passarem as tardes entretidos. Acabava com o futebol profissional em dois tempos. E acho que ninguém ia perder nada. Mesmo os que muito gostam de ir passar tardes num estádio a apanhar banhos de multidão (coisa que se consegue muito bem fazer viajando de Metro e que é cada vez mais raro acontecer nos estádios...).
Acho que o futebol, tal como está, só dá para gozar e rir um bocado. Ir mandando umas bocas para os amigos, mas nunca e jamais para ser levado minimamente a sério...
É por isso que este último post do Nuno deixou-me um pouco chocado... E não acredito que alguém do Pato perca tempo a “ter ódio pelo Benfica.”
Como também duvido muito que alguém da tenha ido a Lisboa beijar a mão a um vendedor de pneus... A não ser que um independentista tivesse tido o azar de ter simultaneamente dois pneus furados às 4 da manhã a meio de Monsanto... Acho que qualquer um beijava a mão ao vendedor de pneus que o tirasse da embrulhada.
Fica a promessa de, quando me for possível, ou achar que tenho alguma coisa a acrescentar, falar sobre "a desertificação do interior, dos múltiplos despedimentos que assolam a Beira Baixa, das fábricas que fecham, das escolas que fecham", entre outros. Isto se conseguir ultrapassar o trauma do jornalista....

quinta-feira, outubro 30, 2003

Sobre o ódio

Sobre o ódio.

O caso está a tornar-se, do ponto de vista medicinal da questão, patético e preocupante. Quando falo sobre a bola, ultrapasso muitas vezes os limites da minha racionalidade, mas faço-o quase sempre conscientemente. Receio, porém, que o mesmo não se passe em relação a alguns dos meus companheiros de blog, O ódio que sentem pelo Benfica parece tão real e vincado que, de repente, parece ter-se tornado o seu objectivo de vida violentar tudo o que se relacione com o clube da águia. Como sou simpatizante desta agremiação devo dizer que me sinto também violentado. Só sou do Benfica porque o meu avô me levava ao estádio, não pertenço a nenhum bando de malfeitores. O raciocínio dos meus companheiros é tão primário, tão ressabiado e tão ressentido que temo percam a razão, instrumento tão importante para analisar outros problemas do mundo. São 22 jogadores atrás de uma bola. Se quiserem criticar as relações do futebol com a política, a economia e os media, não culpem os mais fracos, dirigam-se aos políticos, às empresas, e às televisões etc. Meus amigos, não têm mais nada para fazer na vida do que ver os jogos do Benfica, a inauguração do estádio do Benfica, as notícias de jornal sobre o Benfica, os programas de rádio sobre o Benfica, e escrever textos sobre o Benfica. Ao menos o Hugo fala de Top-models. Vocês também se podiam distrair com outras coisas. A energia que gastam com o Benfica (um verdadeiro saco de boxe freudiano) podiam-na utilizar de forma mais útil. Sei lá, eu sei que isto ao pé do Benfica não interessa nada, mas podiam falar da desertificação do interior, dos múltiplos despedimentos que assolam a Beira Baixa, das fábricas que fecham, das escolas que fecham. Bem sei que são coisas menores ao pé do Benfica, mas era só para variar um bocadinho. Por exemplo, para falar de impostos não é preciso chatear o Benfica, mas talvez apontar o dedo a certos dirigentes regionais, que andam sempre com a independência de baixo da língua, mas depois, provincianamente, vêm a Lisboa beijar a mão do rei dos pneus. E depois a culpa é do Benfica.

quarta-feira, outubro 29, 2003

Pergunta de lagarto II

Quando se realizam eleições no clube mais português de Portugal e se multiplicam pelas televisões, de forma quase obscena, os vários candidatos, proto-candidatos ou apenas os "cromos" apoiantes de candidatos, não consigo deixar de pensar para com os meus botões: Como é possível que um clube tão grande como o Benfica tenha uma tão trágica falta de massa cinzenta?

Finalmente ouvi a ex-Top model

Visualmente a capa do CD e apelativa, uma "jovem" tendo por respaldo o chao, ladeada por uma guitarra.
Insito no topo do CD, surpreendentemente, o nome da artista que o encabeca traz a memoria tempos nao muito distantes dos desfiles parisienses (confesso que era a minha Top-model favorita...). Depois de uma hesitacao inicial, lá decidi avancar para a auscultacao do disco.
Logo nas primeiras faixas e audivel que as composicoes sao marcadas, instrumentalmente, por um acentuado despojamento em termos de arranjos, onde reina a acustica. Tinha lido numa entrevista que esta tinha sido uma opcao pessoal da cantora, decorrente de gostos pessoais (Leonard Cohen, Bob Dylan, Bjork ou Jacques Brel). Legitima como qualquer outra.
Com o avanco da audicao do disco mais notoria se torna a presenca de uma linha condutora simples e melodica, sustentada pela língua francesa, que neste caso se casa perfeitamente com a intencao expressiva da cantora.
No fim, em genero de balanco, fica um album que revela a estreia elegante e intimista de uma ex-Top-model.
Carla Bruni, Quelqu´un m´a dit

A Fátima não fez estas perguntas

Conjunto de perguntas que a Fátima Campos Ferreira não fez no programa de ontem à noite, pago com os meus impostos e que se limitou a glorificar uma instituição morta:

Por que é que qualquer candidato a presidente do Benfica é sempre potencial arguido num qualquer caso que envolva burlas e falsificações?
Por que é que para se ser proto-candidato a presidente do Benfica temos de prometer o Rui Costa, o Fernando Couto e até o David Beckham?
Por que é que o Eusébio está sempre com uma espécie de bebedeira nostálgica?
Por que é que sempre que se fala do passado glorioso do Benfica passam imagens a preto e branco?
Qual é a probabilidade de um presidente do Benfica vir a ser preso mal termine o seu mandato?
Um clube que tem adeptos que comem relva em directo é para ser levado a sério?
Quanto tempo demorará a encher-se novamente a Catedral?
Porque é que todos os grandes ídolos do Benfica têm perto de 70 anos?
Em que filme entrou o Guerra Madaleno?
Quem é o Guerra Madaleno?
Quanto tempo resiste o Benfica se não for, indirectamente, financiado pelo Estado?
Por que é que um clube quer como capitão de equipa um tipo que usa uma t-shirt com o nome Mariana por baixo da farda de trabalho?
Por que é que o Jaime Antunes é sempre candidato a presidente do Benfica?
Por que é que nas plateias dos programas sobre o Benfica está sempre um misto de brigada do reumático com saudosistas dos tempos de glória de passados que já lá vão?
Por quantos mais anos ficará o Benfica sem ganhar o campeonato?
And so on, and so on….

Triste povo que lavas no rio…

terça-feira, outubro 28, 2003

ENTREVISTA DO PRESIDENTE

O Presidente da República deu uma boa entrevista à RTP, hoje transcrita no jornal Público. Da generalidade das suas intervenções saliente-se a sensatez no modo como encarou o excessivamente mediático processo da Casa Pia, a preocupação demonstrada com o cenário de desinvestimento global no ensino e a crítica à progressiva comercialização do sistema nacional de saúde. Mas mais importante do que estas questões foi a sua inteligente análise macroeconómica. Sampaio mostrou-se apreensivo em relação a uma política orçamental que insiste em conter o investimento público (sobretudo em sectores como a educação, a saúde e o do investimento tecnológico), mas que não consegue promover o aumento das receitas do Estado. O equilíbrio orçamental é sempre conseguido à custa de receitas extraordinárias, muitas delas resultantes da venda de património público. Neste contexto, o governo, ao contrário do prometido, continua a ser permissivo no que respeita à evasão fiscal. O quadro desenhado aponta, a toda a velocidade, para um crescendo das desigualdades sociais.
A presidência de Sampaio é passível de ser criticada em inúmeros aspectos. No entanto, olhando para os candidatos à sua sucessão, facilmente percebemos que vai demorar tempo a encontrar um presidente ao nível do que temos hoje.

Cristo!

Até fiquei com pena do Arnaldinho... Coitado.

'Arnaldo'

Caro 'Arnaldo',

Tenho-te a dizer que concordo plenamente com os teus comentarios! Alias, faco minhas as tuas doutas palavras. De facto essas coisas serias sao demasiados chatas e muito pouco sofististicadas. Nada como um Brecht para adicionar alguma sofisticacao, algum cosmopolitanismo. Calculo que Brecht sera o ultimo nome que anda na boca da 'malta da noite' do bairro, aquela malta que odeia falar de coisas mais serias quando, ao redor de uma qualquer mesa de determinados bares, range os dentes de raiva de um mundo que obviamente nao os leva tanto a serio como o meso-mundinho academico, torpe e decrepito, que aparentemente os reconhece como sendo os mais serios entre os serios. Ah, esse anseio (velado) pela posteridade… Essa conviccao comezinha e bem escondida de que se o mundo te ouvisse seria bem melhor e, logo, nao tao serio… Como o mundo te ultrapassa, te transcende, te assusta na sua imensidao e te demonstra que tu afinal nao mais es do que um specimus entre outros tantos specimus refugias-te no Brecht, que estando morto, nao tem outro remedio se nao ouvir-te. O mundo esse, corre depressa demais e serio para se perder nas tuas elaboracoes teoricas Brechtianas e outras que tais. E tu… Alas! Es igual a todos os iguais e nao somente igual aos iguais que queres para teus semelhantes. Pior, morreras talvez sem reconhecimento publico, sem audiencia, sem premio nobel…
Estou aqui a tentar incluir um 'foda-se' no meu texto, ou um 'caralho'… Mas esvai-se-me a inspiracao para o enquadramento de tais poeticas palavras. Este meu esforco advem do facto de eu reconhecer que da assim um certo toque de je ne sais quoi, um toque de urbano-decadente-noctivago-bloquista que bebe gin tonico e sabe das merdas e conhece os gajos… Tem amigos giros e tal, tipos que, ve la tu, ganham a vida a pintar quadros com os dedos dos pes e vendem CDs na feira da Ladra. Malta alternativa que sabe das cenas e nao embarca em capitalismos nem mesmo quando vai ali a esquina comparar o hax ao tipo que tambem e fixe e amigo e tal… Funcionarios publicos isso e que nao! Essa malta cinzenta e chata que ve novelas e deita-se as dez para acordar as sete… Gente 'seria' como o mundo 'serio' e chata como os chatos que nao te dao o devido valor! Muito provavelmente gente como os teus proprios progenitores… Mas isso, deixo a Freud para interpretar, ou a ti proprio - e a tua malta - quando Brecht cair em desuso e a malta passar a debater Freud. Nao de forma seria e claro, porque isso a malta tambem nao consegue. A malta gosta e da superficie das coisas, o saber das merdas…
Pois e Arnaldo, quanto a mim, o Papa que se foda (finalmente encontrei o contexto certo), antes ele do que eu. O orcamento de Estado idem, idem, aspas, aspas. O benfica entao nem se fala… A mim nao me preocupa o mundo serio porque nele existem muitos anonimos que se deitam as dez e levantam as sete que ainda tentam fazer alguma coisa. Preocupa-me os gajos como tu, os 'Arnaldos' deste mundo, as 'maltas' das noites dos bairros que, biliosos, transpiram e respiram raiva de uma seriedade que, como disse, nao os pode realmente levar a serio, e que eu so espero que se engasguem no seu proprio cinismo e que se enforquem no alto do seu convencimento…

segunda-feira, outubro 27, 2003

Anedotazzzz2

A mulher para o marido:
- Por que é que não usas a aliança de casamento ?
- Estás doida ? Com este calor ?

Anedotazzz

P: Como se chama a mulher que nunca se afoga e sempre que pode aparece nos telhados?
R: A Clarabóia...

Dos Subúrbios

Não há nada como vir um gajo dos subúrbios, que detesta assuntos chatos e sérios, falar do "distanciamento brechtiano" e do "efeito Kuletchov" ...

Clandestino

Fui descoberto. Porra!

Chatos do caralho

Recebi um e-mail que passo a publicar, dado o seu conteúdo interessar a todos. “Há quase um ano que sou um assíduo frequentador da blogosfera. Das centenas de blogs que já visitei, garanto-vos que não encontrei nada mais aborrecido que o vosso. A falta de sofisticação é épica, a seriedade anacrónica. São uns chatos. Os vossos assuntos preferidos são os orçamentos de Estado, a política do governo, futebol, o Partido Socialista, o papa e o Tocqueville. O tal do Nuno, em apenas um mês, já utilizou a expressão classes sociais mais vezes do que toda a blogosfera durante um ano. Lidera também as entradas para burguesia, operariado, os dominados e os dominantes. Mais enfadonho que o Nuno só mesmo o Bruno. Além de falar das mesmas coisas aborrecidas e insuportavelmente sérias é de direita e faz odes ao João Paulo II. Nem uma referenciazinha a Buda, nem ao Confúcio, nem mesmo ao Lao-Tzu, foda-se, pelo menos o Lao-Tzu. Depois há um tal de Palouro. Tive esperança que fosse do Bloco de Esquerda, mas não. Uma apreciação ao seu vocabulário revela que ainda não utilizou as palavras , “enrola-me ai um”, “enrola-me ai outro”, “enrola-me lá essa merda”, “enrola-te lá”, “enrola-te lá e enrola-mo cá”, “enrola-me lá e traz um amigo também”, “enrola-te cá e venham mais cinco”. Temos ainda o Stuart, que eu desconfio, sinceramente, que seja um pseudónimo do Guilherme Leite, e o Olson, que tem pinta de função pública (não há nada menos sofisticado do que a função pública), sempre a queixar-se, incapaz de um rasgo intelectual, género “distanciamento brechtiano”, ou “efeito Kuletchov”. Consta ainda do grupo um tal de César Mogueime, que além de ter o nome mais ridículo da blogosfera, é uma espécie de Baptista Bastos do grupo, «num bar da Funchal lá entrou o meu primo Isaías com o castor debaixo do braço». Uma seca. Sobram os esporádicos, todos igualmente chatos. Em suma, deixei os Lexotans, os Lorenins, os Xanax e as folhas de alfaces, dois minutos no Blog do grupo do Pato e estou ferrado. Apesar de tudo, obrigado.
Arnaldo J. / Paço D’Arcos

Inaugurações

Assisti, por me ser impossível não assistir, à inauguração de mais um estádio que teve o patrocínio dos contribuintes portugueses: o do Benfica.
Num espectáculo pobre a todos os níveis (transmissão televisiva medonha, coreografias horríveis e muito longe do mínimo admissível para um suposto evento desta natureza e jogo de futebol pobre semelhante a um qualquer Paços de Ferreira-Moreirense), o Benfica lá conseguiu bater uns tipos castiços da América do Sul, com salários em atraso, que cá vieram com o único propósito de não estragar a festa há muito encomendada pela candidatura do Sr. Luís Filipe, com o beneplácito do Sr. Vilarinho, e porque não conheciam Lisboa, antiga capital do Império.
Criou-se então um artifício e inventou-se a única enchente que muito provavelmente, em jogos do Benfica, aquele estádio, nos anos mais próximos, vai registar. E o jogo miserável pôs a nu uma evidência assustadora: o Benfica é há muito o espelho de uma decadência que só não é mais pronunciada pela falta de coragem apanágio dos políticos portugueses que com negócios que lesam os contribuintes lá vão dando mais algumas dezenas de milhões de contos para que o senhor Sabrosa se continue a jogar elegantemente para a relva (que por acaso até passou num teste de gastronomia feito por um tal de "barbas" que, sem sal nem pimenta, a provou à frente da televisão) e a fazer umas birras por causa de uma braçadeira de capitão de equipa, enquanto graciosamente exibe uma t-shirt de muito "bom gosto" com o nome "Mariana".
Numa instituição que tem como principais candidatos à presidência tipos como Luís Filipe Vieira (de ar suspeito), Guerra Madaleno (com processos de burla acumulados e acusações graves) e Jaime Antunes (um eterno candidato que um dia vai lá chegar pela insistência, por ser chato, por não desistir de ser chato - riscar o que não interessa) fica bem patente a qualidade e o quilate desta organização e a apetência com que gente séria se interessa pelos destinos deste "glorioso" clube.
Eduardo Lourenço uma vez escreveu, e referindo-se ao nosso país, que "Na verdade, o único paradigma que dá sentido ao nosso presente é ainda – e talvez mais do que nunca - o do passado. E de um passado não apenas mítico mas mitificado. Passamos a vida a comemorar-nos no que já não somos, descobridores de mares, senhores fictícios de oceanos onde outros imperam". O Benfica, infelizmente, também é assim: vive amarrado ao passado à espera, não de um Messias, mas de um novo Eusébio que o leve a ser, novamente, o novo pseudo-senhor do país e da Europa do futebol. Que clube mais triste.

domingo, outubro 26, 2003

Verdes de inveja

É lindo, lindo, lindo e lindo. Nada mais a acrescentar.

A lata destes gajos. Julgava eu que o clube dos betinhos iria ter o bom gosto de contratar alguém que fizesse outra coisa do seu estádio que não uma casa de banho gigante com azulejos em que a combinação de cores atinge o zénite do mau gosto. Pois estava enganado. Definitivamente já não se fazem betinhos como antigamente. Antes uma catedral do que um monumento aos lavabos pós-modernos.

De assinalar. Deve-se ao Benfica, ou melhor aos seus adeptos, uma das mais mediáticas afrontas à política deste governo. Noutros locais há pouco inaugurados não ouvi nada. Alguém ouviu alguma coisa?

Para terminar, dizer que ontem, na nova Luz, não se ouviu um único cântico ou palavra de ordem contra qualquer outro clube rival. É assim na Catedral.

Depois há as outras coisas más, mas isso agora não interessa nada.

É lindo, lindo e lindo, e se não fosse lindo era pelo menos o maior. Há algum maior por ai? Alguém viu um maior? Bem me parecia que não.

sábado, outubro 25, 2003

A nova catedral

Julgava eu que as catedrais eram locais sagrados, interditos ao hedonismo consumista e ao marketing mais agressivo. Pois estava enganado. Descobri hoje que a celebrada “nova catedral” está embelezada com anúncios gigantescos à Coca Cola, à Sagres e à PT. Definitivamente, já não se fazem catedrais como antigamente.

sexta-feira, outubro 24, 2003

Cunhas II

Caros Bloguistas: a Voz do Deserto e o Ponto e Vírgula já fazem parte da nossa coluna da direita (o Vasco não gosta desta palavra) tal como o Vítima da Crise que era sugestão anterior do Marçal. O blogue já fez um mês. Estamos de parabéns.

PS: A sugestão de ordenar os blogues por ordem alfabética continua por concretizar. Fica a promessa de o fazer assim que me for possível.

Cunhas

Gostava de pedir ao Bruno que colocasse dois novos blogues na nossa lista aqui do lado direito. Refiro-me ao pontoevírgula e à Voz no Deserto. Cumprimentos à Margarida e ao Tiago. São cunhas, mas valem a pena. Fica a sugestão.

Consciência de classe

Um dos operários que está a fazer obras lá no meu prédio tocou-me à porta porque precisava de fazer uns acabamentos. Lá andou a pôr massa nuns buracos e a certa altura pediu-me um folha de jornal para ajudar a limpar a massa que sobejava. Abri a Bola de terça-feira e dei-lhe uma folha. O homem olhou para a página e disse que aquela não servia. Era uma das páginas sobre o Benfica. Perguntei-lhe se tinha preferência por outro assunto qualquer. Disse-me que desde que não fosse a do Benfica era indiferente. Dei-lhe uma ao acaso. É isto que nos distingue do resto da maralha, somos pelo Benfica e não contra os outros simpáticos clubes, de quem, no fundo, até gostamos. Já agora, em resposta à pergunta do lagarto, há poucas a ver o Benfica no Estádio porque o clube é de trabalhadores. Se as nossas elites não fazem nada pelo país alguém tem que o fazer. Mas agora com a nova catedral isto vai mudar. Viva o Benfica.

Miséria

Na Assembleia da República discute-se hoje o estado das políticas sociais do país. Como se esperava, o programa do governo, escrupulosamente seguido em relação ao défice público, não vai ser cumprido em vários aspectos fundamentais. Portugal continua a ser um país absolutamente miserável ao nível das políticas sociais. A ajuda do Dr. Portas aos velhinhos, que seria concretizada pela convergência da pensão mínima com o salário mínimo, não passou, como era esperado, de populismo barato. Noutro âmbito, é preciso reagir com dinâmica à ideia peregrina de que o sistema de segurança social está à beira do colapso. É falso. Só aqueles que desejam lucrar com a sua privatização conseguem sustentar esta ideia. Uma política realmente comprometida com a vontade de ajudar os mais fracos faz-se com medidas concertas e não com retóricas inconsequentes (é por isto, aliás, que o senhor Wojtyla é um reaccionário do pior, porque o seu lado pretensamente bom é simples retórica, ao passo que o lado tenebroso tem, infelizmente, consequências práticas. Apresentem-me um exemplo, só peço um, de uma actuação concreta do Vaticano para minorar as grandes injustiças do capitalismo, para evitar guerras que violam o direito internacional, para ajudar, e não falo da caridadezinha, as pessoas que sofrem com as cada vez mais intensas desigualdades sociais. Bem prega Frei Tomás).

O exemplo

No meio do trânsito, estão, lado a lado, um Mercedes com uma madame finíssima e um Fiat Uno bem velhinho, onde vai o Zé dos bigodes.
O Zé grita, buzina, faz um escarcéu por causa do trânsito ... até que, a fina madame baixa o vidro e diz-lhe:
- Oh meu senhor, "A paciência é a mais nobre e gentil
das virtudes!", Shakespeare, em "Macbeth".
O tipo do Uno não se intimida e revida:
- "Tou-me cagando pra essa merda!", Ferro Rodrigues, em "Processo da
Casa Pia".

quinta-feira, outubro 23, 2003

Confissões de um Director de Jornal

Leio algures que o director do Expresso lançou um livro intitulado “Confissões de um Director de Jornal”. Isto chama-se liberdade de expressão.

Diário de um Desempregado

Digno de ser lido. vitimadacrise blogspot e etc e tal...

quarta-feira, outubro 22, 2003

Karol Wojtyla – uma homenagem

Há pouco mais de 25 anos, um polaco católico, Karol Wojtyla, futuro João Paulo II, iniciava um dos mais importantes papados de que há memória na história da Igreja Católica.
João Paulo II é, muito provavelmente, o mais importante líder mundial da nossa era e é, certamente, o mais respeitado e conhecido de todos.

Naquele longínquo dia de 16 de Outubro de 1978, Deng Xiaoping dominava uma adormecida China, e Brejnev e Jimmy Carter eram os adversários políticos da Guerra Fria: colectivismo marxista de um lado e capitalismo liberal de um outro, digladiavam-se e alimentavam doces e severas propagandas ideológicas que estimulavam tempos de experiências, de tensões e do medo frio do Inverno nuclear. Talvez por isso, nomear um polaco católico Sumo Pontífice não tenha sido de todo inocente. Nem de todo despropositado. A Polónia, recorde-se, era um dos países atrás daquilo que Winston Churchill apelidou de “Cortina de Ferro”.

Mais do que com qualquer político, foi com João Paulo II que se iniciou a etapa final do fim da Guerra Fria. E foi com ele que se iniciou porque, como é identificado por Timothy Garton Ash, há dois aspectos que são decisivos para a derrota final do socialismo real em 1989:
1- a primeira grande digressão do novo Papa, em 1979, que passando pela Polónia, sua terra natal, ajudou ao processo de formação ou de consolidação de uma organização poderosíssima clandestina chamada “Solidariedade” que teve como líder o carismático Lech Walesa;
2- e, consequentemente, a nova atitude de Gorbachev perante a resistência, anos mais tarde, do mesmo “Solidariedade” de Walesa, que o fez ver que algo estava errado, que o socialismo não podia ter afinal qualquer preço e que nem todas as greves podiam ser resolvidas à força dos tanques e das metralhadoras.

Claro que isto é uma análise demasiado simplista das coisas, porque pelo meio há outras causas que podem ou que deviam ser identificadas e que por certo ajudariam a fazer uma análise mais global e detalhada de todo o fenómeno. Mas não seríamos honestos se não relevássemos o papel do Papa e da Igreja Católica para este desfecho mesmo que a queda do Muro, o fim da utopia, fosse inevitável.

Mas, e apesar de ser um ódio de estimação para muitos (com razão ou sem ela, não importa isso agora), não se julgue que este Papa, que tem tanto de conservador como de progressista no entender dos católicos, apenas lutou contra o comunismo esquecendo-se de tudo o resto. Muito pelo contrário. Rejeitando a ideia de que a doutrina da Igreja era uma terceira alternativa aos dois tipos de sociedade existente, João Paulo II a partir dos anos 90, dedicou-se a denunciar os males da exploração dita capitalista, onde os ricos dominam os pobres e onde há uma evidente discrepância entre hemisférios e um proliferar de desigualdades.
Tornou-se então um Papa universal, reivindicativo e que colocava em sentido todo e qualquer governante; foi um Papa capaz de espalhar a fé, a esperança e de colocar no centro de tudo a “pessoa humana” – corpo, razão e alma – mostrando, através da canonização e da beatificação, inúmeros novos modelos de conduta que enriqueceram com uma outra visão toda a Igreja Católica e aqueles, que nos princípios mais nobres dela, se revêem mesmo que em Deus não acreditem. De repente, o mais importante deixou de ser o santo demasiado puro (logo, inacessível) para haver uma série de homens e mulheres que à luz da “normalidade” dedicaram a sua vida a causas humanitárias e a feitos, que não sendo extraordinários, transmitiram uma nova esperança àqueles que mais necessitavam ou que ainda necessitam. Isto significa dedicar uma vida inteira a ajudar os outros. Há pessoas que não podem, simplesmente, ser apagadas ou esquecidas da memória colectiva das gentes ou dos povos. Daí o tal reconhecimento.

Mas Wojtyla foi ainda mais longe: conseguiu ainda a aproximação ecuménica às outras igrejas cristãs e imprimiu um ritmo de evangelização impressionante fazendo várias voltas ao mundo, procurando unir os seus fiéis e abraçando muitas novas causas.
Foi capaz ainda de perdoar, e de pedir perdão, e aproximar-se das outras religiões mostrando o seu respeito e tolerância por outros cultos e demonstrar o quão erradas foram certas atitudes e comportamentos do passado. Isto não é de ânimo leve.
A bondade deste homem é e foi inexcedível. Não ver isso é escamotear toda uma existência e não conseguir passar por cima de uma ideia pré-concebida, pelos anos e pelos séculos negros passados, que ainda se faz da igreja Católica. Wojtyla continuou. E continuou porque tinha a coragem e a força como características naturais e inatas capaz de o fazer protestar contra os abusos da liberdade, ou da libertinagem, o mediatismo, o populismo, o consumismo, a promiscuidade sexual, o alcoolismo, o relativismo e o pós-modernismo. Nestes aspectos, Wojtyla foi um conservador. Um bom conservador. Podia, quem sabe, ter ido um pouco mais além. Mas numa instituição monstruosa como o Vaticano e a Igreja Católica há coisas que demoram a mudar, há resistências, há políticas, há dificuldades, há, também, interesses instalados. Porque até a Igreja é feita pelos homens.

Naturalmente que Karol Wojtyla tem aspectos da sua actuação que podem considerar-se mais negativos, principalmente nas questões que envolveram a contracepção e o uso do preservativo quando África assim o exigia e mesmo na questão da pena de morte (assunto contraditório no seio da Igreja), por exemplo, situações que no entender de muitos são intoleráveis e inconcebíveis. A própria situação das mulheres e do tratamento discriminatório dos homossexuais é uma realidade indesmentível. Mas em tudo o resto foi coerente e manteve-se como um símbolo inabalável da paz e da esperança num mundo cada vez melhor.

Passados 25 anos, João Paulo II já não tem a mesma força que o fez gritar ao mundo e às centenas de milhares de fiéis das varandas da Praça de São Pedro, em Outubro de 78, “Não tenhais medo!”.
Por ele, por aquilo que ele personifica e representa, muitos “não tiveram medo” e mudaram de facto o curso da história. E isso também não lhe pode ser negado. Porque há demasiadas testemunhas e porque a história não é feita nem escrita sempre pelo mesmo lado.
Eu mesmo que muitas vezes me custe a acreditar vejo nele uma obra notável e um líder espiritual como poucos, que vai deixar a Igreja e o Mundo um pouco melhor.
Em minha opinião foram passos imensos no sentido da harmonia, da obra, da paz, da liberdade e do diálogo inter e intra-religioso.
Isso, digam o que disserem, e apesar de tudo, vale bem toda a dedicação de uma vida.
E, obviamente, a minha homenagem: obrigado, Wojtyla.

Montalbán

Algures num aeroporto de Banguecoque um escritor de livros policiais morreu. O caso parece não merecer a investigação de um detective privado. Ataque cardíaco. E pronto, as aventuras de Pepe Carvalho, o gastrónomo galego de Barcelona, ex-comunista, ex-agente da CIA, vão viver em círculo nas obras publicadas. Muitos livros da Biblioteca de Carvalho ficaram por queimar.
“Às vezes penso voltar a Paris. Tenho um armário cheio de fatos em casa da minha mãe. Tenho a minha ex-mulher casada com um catedrático riquíssimo a quem assenta muito bem o fraque e que está constantemente a aparecer nos Jours de France. Se me deitar a recapitular os meus livros e me puser a ler o Le Monde Diplomatique destes últimos sete ou oito anos, ficarei em dia e tenho a certeza de encontrar um bom emprego, se fizer cara de filho pródigo e lhes vender que venho do universo do marxismo e da contracultura, consciente de que a única verdade detêm-na Milton Friedman e o neo-liberalismo económico e político. A hegemonia da burguesia sustenta-se graças à prestação de método e linguagem que lhe trouxeram os dissidentes do inimigo e os meninos que foram marxistas ou budistas ou drogados e depois voltaram para casa do papá.”

Manuel Vásquez Montalbán, Os Pássaros de Banguecoque, Lisboa, Caminho, p.214

segunda-feira, outubro 20, 2003

Pergunta de lagarto

De forma sofrível, o Benfica lá ganhou mais um jogo no Estádio Nacional. A assistir ao jogo estiveram apenas cerca de quatro mil pessoas. Como disse um dos comentadores da Sportv: “é desolador!”. Ingenuamente, não consigo deixar de perguntar: Mas onde raio estão os tão falados seis milhões de adeptos do clube da águia?

Unanimismo pantanoso

A semana passada ficou marcada pela celebração dos vinte e cinco anos de pontificado de João Paulo II. Todos os meios de comunicação dedicaram a este assunto rios de tinta ou horas de emissão. Pela minha parte, fiquei estupefacto e espantado com a onda de aplauso com que quase toda a gente analisou estes vinte e cinco anos. Descontando os “suspeitos do costume”, todos os comentadores, analistas ou especialistas (?) desdobraram-se em hossanas celebratórias à figura papal e ao seu legado à humanidade. Que ele foi o Papa dos direitos humanos, um Papa humanista, o Papa que lutou contra todos os totalitarismos, que foi um Papa fenomenal, etc... Pasme-se, houve até quem garantisse que se tratou de um Papa progressista.
Este unanimismo pantanoso deixou-me inquieto. Percebi que, para os guardiões das consciências habituais, o espirito critico não passa de um slogan oco e démode. O excesso de politicamente correcto nos media lusos começa a ser insuportável. Falemos claro: este Papa é responsável por algumas das orientações mais obscurantistas que se podem imaginar. Durante o seu pontificado, a Igreja assumiu posições inaceitáveis no que toca a questões relativas à vida quotidiana: definiu, vergonhosamente, a homosexualidade como uma doença; lutou contra a despenalização do aborto; condenou o uso do preservativo. A nível interno o seu conservadorismo revelou-se na reprodução das assimetrias homem-mulher, num marialvismo deslocado no tempo.
É obvio que nada é a preto e branco e este Papa também marcou alguns pontos pela positiva. A este respeito, os exemplos referidos são sempre a auto-crítica ao passado histórico, a promoção de um diálogo ecuménico e, principalmente, a crítica ao capitalismo e à relação capital-trabalho existente no seu interior. Este último ponto, aparentemente contraditório com o percurso pessoal do Papa, tem que ser enquadrado na encruzilhada histórica em que nos encontramos. Perante o mundo cada vez mais desigual e caótico do capitalismo globalizado e sem o “papão” comunismo-ateísmo para combater, a Igreja Católica não podia ficar indiferente e passiva. Mas esta é outra conversa.

A Última Semana da Bola

Do mosaico futebolístico da última semana, gostaria de afixar alguns comentários. Da campanha eleitoral do Benfica, que tantos momentos de boa disposição nos tem dado, tivemos no sábado Guerra Madaleno a anunciar que a contratação de Beckham estaria ao alcance da sua candidatura, acaso ganhasse as eleições! Desde já posso garantir a veracidade desta notícia! E mais, para além de Beckham, também o restante plantel do Real Madrid já manifestou vontade de mudar de capital, desde que os jogadores ouviram Luís Filipe Vieira a anunciar que o Benfica será o maior clube da Europa daqui a 3 anos!
Quanto ao Sporting, é chegado o momento de esclarecer de uma vez por todas o mistério das seringas na Suécia! Segundo informações obtidas por fontes crediveis, as seringas não continham mais do que uma substância que estava a ser testada secretamente há algumas semanas no laboratório químico da Academia de Alcochete, e que visava combater a fobia dos golos sofridos no último minuto pelo clube! Depois de muitas experiências durante os últimos dias, provou-se na Suécia que a substância encontrada para já demonstra ser eficaz.
Entretanto posso dizer em primeira mão que está já a ser pesquisada nos laboratórios uma nova substância, cujo objectivo é ajudar os responsáveis e os jogadores do clube a pronunciarem correctamente o nome do clube turco que saiu na rifa ao Sporting na próxima eliminatória da Taça Uefa, o Gencleciblidebialiniremihineci...
Ainda no Sporting tivemos o vice Soares Franco da Linha a dizer que o Papa estava a morrer. Enfim, nada que nos espante, pois o namoro deste com uma jovem nortenha de 27 anos logo fazia prever que o Papa iria sofrer um desgaste acentuado para satisfazer os apetites da jovem. Exaurido por sucessivas maratonas sexuais com a jovem e por combates de luta livre com a ex-esposa, parece então que o Papa está agora a dar as últimas...
Por fim, na Selecção Nacional, Scolari voltou a reiterar que não irá convocar Baía para o Euro 2004, acrescentando até que mais depressa convocava o guarda redes do Chelsea, perdão Chelski, após tê-lo visto a jogar este fim de semana contra o Arsenal, do que Baía!

O populismo de que eles não querem falar

Só quem não quer é que não diz que o populismo de que fala o Sr. Ferro é o populismo personificado no Sr. Portas e na sua aposta à Presidência da República, o Sr. Santana, o novo homem dos sete instrumentos do PSD.
O Sr. Ferro, que já só telefona à D. Ana e ao companheiro Pedroso o seu verdadeiro carrasco político, é um homem só nesta sua campanha inútil contra os moinhos de vento populistas que ele decidiu inventar.
A curto prazo, a estratégia não resultou e revelou-se profundamente errada; a médio vai-lhe custar a liderança do partido; e a longo, vai pôr fim à sua carreira política.
Com tanto tiro no pé é impossível resistir à infecção e à gangrena que se espalharam irracionalmente.
Mal aconselhado, pior avisado, Ferro já está na “Dead Row” da política.

quinta-feira, outubro 16, 2003

o papa

Vive-se uma espécie de histeria papal. Confesso que não percebo porquê. Encontram-se entre os mais entusiásticos aqueles que, há muito pouco tempo, perante a posição anti-guerra do papa, afirmaram que o senhor não podia dizer outra coisa; a sua opinião era salutar, humana no fundo, mas o assunto era sério e, assim, valores mais altos se levantam. E pensava eu que acima do papa só o outro, vocês sabem quem. Este papa, dentro do género, foi bastante mau. É certo que não mandou ninguém para a fogueira, não colaborou com nazis e até pediu desculpa ao Galileu, embora com ligeiro atraso. De resto foi mau. Atribuem-lhe o facto de ter esmagado o comunismo soviético, mas este esmagou-se a si mesmo. No que respeita ao modo como julgou a vidas das pessoas foi de um fundamentalismo extraordinário. As suas posições em relação aos métodos contraceptivos, ao aborto, ao divórcio, aos homossexuais são quase medievais. Mais grave, porém, talvez seja o modo como as mulheres continuam a ser tratadas no interior da igreja católica. Claro que por detrás da moral e dos bons costumes estão, como dizem os católicos oportunistas que apoiaram a guerra, os assuntos sérios: as negociatas da opus dei, os interesses financeiros, as infiltrações nos meandros do poder político, académico, judicial, etc. Respeito os poucos católicos que seguem os bons ensinamentos do livro, com certeza que são cidadãos quase exemplares. Não acho que a Igreja seja um todo uniforme. Como em todo o lado há pessoas que pensam de forma diferente e que têm uma postura progressista e humana. No geral, porém, a hierarquia reflecte quase sempre um conservadorismo perverso.

quarta-feira, outubro 15, 2003

Estado (des)Educador

Isto está mau, mas mesmo muito mau!
Pode parecer um lugar comum esta expressão do meu estado de alma. Dirão alguns, pouco original, ademais tratando-se de uma estreia em tão prestigiado fórum.
Concordo. Esta ideia de partida não é, seguramente, mais que uma repetição de tudo o que todos dizem. Mas, que dizer quando, sempre que olhamos um jornal, somos confrontados com uma sucessão de notícias, relatando situações até então improváveis e inimagináveis?
Não consigo sair disto. Isto está mau, muito mau!
Isto está tão mau, mas mesmo tão mau que – alguém poderia imaginar? – o programa de Português do 10º ano apresenta, entre os diversos “textos pragmáticos” – adoro estas pós-modernices –, o regulamento do concurso Big Brother, com o qual se propõe aos alunos “que, em diálogo com os colegas da turma, refiram o que já conhecem sobre este concurso e que, após a leitura do regulamento, emitam um parecer sobre o mesmo” (ver Público, 11-10-2003).
É intenção da corrente pedagógica vigente – vulgo “pedagogos, pedagagos, pedófilos” – valorizar todo o tipo de vivências e (des)aprendizagens dos alunos tidas fora do contexto escolar, integrando-as nos programas e currículos lectivos e fazendo-os “reflectir” e discutir sobre os mesmos, não importa a sua natureza, a sua vacuidade intelectual ou desinteresse cognitivo ou científico. O que interessa é que seja uma “vivência” dos jovens.
Isto está mau, mesmo muito mau, pois é o resultado das reformas curriculares iniciadas em 2001 pelo nosso, salvo seja, governo guterrista e que, infelizmente, o actual ministro da educação não teve a coragem para travar. Este é o resultado de se ter abolido autores como Gil Vicente, Luís de Camões, Virgílio Ferreira, entre outros, dos currículos do secundário, substituindo-os pelos mais “instrutivos” e “adequados” “textos pragmáticos”.
Isto só merece um comentário: Isto está mau, mesmo muito mau!
Não se pode compactuar com isto. É esta a educação que queremos para o nosso país? É este o Estado educador que se pretende?
O actual sistema educativo não serve ao país que pretendemos construir, não serve a ninguém como ser dotado de racionalidade.
Ao invés de se potenciar o verdadeiro conhecimento, promove-se a boçalidade, a estupidez, a acefalia, a ignorância.
Isto está mau, mesmo muito mau, pois temos um Estado de tal forma deseducador que não promove a existência de princípios e valores éticos e morais, que não promove o conhecimento e o saber. Temos um Estado que, desde a sua génese, se desresponsabilizou e demitiu do seu papel de Educador, tal como se propôs na Constituição da República. Temos um Estado que não promove uma actuação concertada, coerente e transversal ao todo social.
A título de exemplo, refiro-vos uma outra situação que para mim retrata precisamente aquilo que acabo de referir. O nosso Estado - e enfim todos nós - compactua com existência de um programa inenarrável no seu principal canal de televisão. Refiro-me às “Lições do Tonecas”. Este programa representa precisamente a desresponsabilização do dito Estado Educador. Senão vejamos. O enredo da referida série representa tudo aquilo que não deve ser o estado ideal das coisas. O herói - sim o herói - fomenta e promove a imagem do estudante acéfalo, estúpido, boçal, ignorante, desrespeitador, mal educado, impertinente, burro, enfim, tudo o que não deve ser. Este programa de entretenimento de muitas famílias, crianças e jovens, representa mais que uma simples distracção. Ele veicula um ideal tipo, o qual considero ser contrário a tudo aquilo pelo que devemos lutar e que o Estado deve promover.
Isto está mau, mesmo muito mau!
Mas isto não está mau por estar. Isto está mau porque resulta das opções que o nosso país tomou ao longo da sua história. Isto está mau, não porque as coisas estão a correr mal, ou porque estamos a ter azar. Não! Isto está mal porque este é o resultado de tudo aquilo que procuramos.
Isto está mau, porque o Estado que construímos é um Estado que se demite das suas responsabilidades, é um estado que se mantém neutro, mesmo face àquilo que é de sua responsabilidade. Se não vejamos. No artigo 43 da Constituição refere-se o seguinte: “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.” Resumindo e concluindo, o Estado deve manter-se neutro relativamente ao seu papel de educador. Não pode defender e veicular princípios ou valores de qualquer espécie, pois, caso contrário, estará a ir contra a sua lei fundamental. Isto é um paradoxo, e os seus resultados estão à vista. Qualquer “texto pragmático” serve para educar as pessoas. Afinal educar é isso. Tudo serve, tudo é possível, tudo é aceitável.
Isto está mal, mesmo muito mal! E está tão mal, que as pessoas encolerizam-se, revoltam-se, indignam-se porque o Paulo Portas defende que se cante o hino nas escolas. Sejamos honestos, o que é preferível? Continuar com os “textos pragmáticos”, as análises pragmáticas, a acefalia pragmática, a ignorância pragmática, a falta de rigor, de exigência, a ausência de princípios, de valores. Ou pelo contrário cantar o hino.
É preciso pensar o que pretendemos com o nosso país. É preciso mudar. É preciso dar mais às pessoas, para além da “merda” que lhes é servida todos os dias, acompanhad ao jantar. Como diz o Nuno Pacheco no editorial do Público de domingo passado, é preciso abrir mundos aos nossos jovens para que amanhã sejam mais que simples vegetais com BI e cartão de crédito.
É por isto, e por tudo o resto que isto está mau, mesmo muito mau! Mas pode ficar melhor se quisermos e trabalhar-mos para isso.

Franchising do Red Light em Bragança

Julgo, ao contrário de muitos, que a criação de "uma filial do Red Light" em Bragança é, não só imperativa para o desenvolvimento de toda uma região, como também urgente uma vez que faz parte do caderno de encargos e do lote das infraestruturas básicas necessárias para acolher, como deve ser, um Europeu de Futebol. Isto claro, de acordo com o regulamento da UEFA, que entretanto o Carlos Cruz, sorrateiramente, desviou para a cadeia como leitura de mesa-de-cabeceira e para ensinar outros presos preventivos a ler. Este era um ponto que se encontrava por cumprir, coisa que o Comissário responsável não deixou passar em claro na última vez que visitou um dos estádios dos contribuintes portugueses, perdão, dos clubes portugueses.
Eu pessoalmente sempre achei que fazia falta a Portugal estas marcas de desenvolvimento, sinónimo de civilização e de abertura franca a novas modas. É tempo de acabar com este pensamento conservador.
Agora, tenho a mais profunda convicção que tenho todas as condições para acolher ingleses e outros que tais.

PS (que não partido socialista): A verdade é que a Time fez um enorme favor ao país. Ao publicar um artigo sobre Portugal, a Time deu-nos mais publicidade gratuita que todos os Figos, Rui Costas e Eusébios juntos. O resto é conversa.

Picanha

Era uma vez uma pequena cidade do interior de Portugal onde todos eram felizes e trabalhadores. As famílias, abençoadas pela santa madre igreja, eram o esteio da comunidade para o sucesso da qual contribuíam homens rudes mas honestos e mulheres dóceis e dedicadas. As crianças viviam contentes nas suas pequenas e ingénuas brincadeiras esperando um dia seguir o exemplo abnegado das mães e a postura forte e determinada dos pais. Tudo corria pelo melhor no desertificado interior português, quando o terrível feiticeiro do reino de Krom enviou trezentas prostitutas brasileiras para destruir a felicidade da pacata comunidade. E logo brasileiras, das piores como se sabe. De um momento para o outro, enfiteiçados pelo canto enebriante das meretrizes, os valorosos homens da cidade enlouqueceram. Tornaram-se trabalhadores desleixados, romperam com os bonitos hábitos familiares e quiseram mudar o nome dos filhos para Gerson, Juninho, Wanderley Alexandre, Jumira, Losiney e afins. As mulheres desesperaram para o contentamento de bruxas, cartomantes, tarólogas, psicólogas e da TVI. Felizmente que alguém, perante a normal apatia da comunidade internacional, resolveu actuar. George Bush, o presidente de todos os humanos tomou o caso em mãos, colocando a Time, esse pilar da democracia mediática, em acção. A sua táctica é surpreendente. Bush quer mandar as brasileiras para Guantanamo e obrigar os homens da pequena cidade do interior português a assinarem esse baluarte da cultura americana que é Playboy Channel, apostando no faça você mesmo. Sempre à frente.
Por mim acho que a modernidade em Bragança começou pela cama. Viva o Brasil. Às mães de Bragança só posso lhes posso aconselhar a contratar uns gigolos ucranianos. Temos que construir o luso-tropicalismo-eslavo. Viva Portugal.

The New Red Light District

A aparição nos escaparates reais e virtuais da edição europeia da revista Time, trouxe de novo à primeira linha dos destaques noticiosos portugueses a situação daquelas que a revista Time designa por "meninas de Bragança".
Não sendo minha pretensão estar agora a discorrer sobre as razões do fenómeno, gostaria isso sim de utilizar esta pena de silício para deixar algumas palavras acerca da forma como as "meninas" foram apresentadas no noticiário da estação televisiva SIC.
Concretamente, e indo de modo directo ao sucedido, o jornal televisivo desta estação, ao fazer a introdução da notícia, afixou em pano de fundo no ecrã a capa da revista Time, ao que se seguiu de imediato o relato do pivôt do noticiário a anunciar que a revista trazia à sua primeira página uma fotografia onde se via claramente umas das "mulheres da má vida" ...
Fazendo letra morta da neutralidade semântica que deve pautar a informação objectiva e rigorosa, o pivôt deste jornal, ao descrever a pessoa, e todas as outras que partilham a mesma actividade profissional, como sendo elas "mulheres da má vida", logo extraiu uma raíz quadrada negativa dessas pessoas que infere a sua caracterização como promotoras do sumiço das virtudes morais da sociedade.
Porque o rigor jornalístico não se compadece com expressões de cariz popular ou com juízos particularísticos, melhor seria que quando olhassem para as pessoas da "boa vida", que se depreende, por antítese, serem aquelas que aparecem assiduamente nas "Caras" dos seus programas, se dessem conta do valor acrescentado que muitas dessas "mulheres da boa vida" trazem para o enriquecimento da qualidade moral da sociedade!

terça-feira, outubro 14, 2003

OE

De acordo com as primeiras previsoes vamos ter um proximo ano ainda com menos investimento na educacao, saude e seguranca social. Vamos ter mais investimento em carros para os director geral, secretaria e seguinte hierarquia. Ainda nao sei para que serve pagar impostos num pais que nao aposta em nada com uma visao de menos de 20 centimetros, nem consegue ver o outro lado da rua. Para a p....... dos estadios nao ha cortes. So ha cortes nas coisas que sao primordiais para um pais moderno.
A aposta era na ciencia e tecnologia. Onde esta?? Alguem viu. O Ze e a Maria ainda continuam a espera da operacao ou do filho ir para a faculdade, nao tem a sorte de outros. O outro filho esta em preventiva a 2 anos mas tem o azar te ter sido apanhado a roubar laranjas na propriedade do director da policia e como nao é pedofilo nao lhe ligam nenhuma. ETC, ETC.
Nao sei como se pode continuar a viver num pais assim.

Pensamento do dia


Aquele que, ao longo de todo o dia:

É activo como uma abelha,
Forte como um touro,
Trabalha que nem um cavalo,
E que ao fim da tarde se sente cansado que nem um cão.
Deveria consultar um veterinário.

É bem provável que seja um grande burro!
A D. Ana do PS implodiu (como diria o Pacheco Pereira)

Seria bom que a D. Ana Gomes, do PS, depois de apontar, disparasse. Esta coisa de levantar insinuações que não se podem provar tem que se lhe diga, a começar por ser uma solução bem mais fácil do que enfrentar a realidade dos factos, que não é, ao contrário do que eles pensam, assim tão negligenciável.
Com tanta certeza, com tanta teoria, que provas tem a D. Ana que gentilmente queira partilhar connosco? Aonde quer chegar? E o que é que vai fazer se daqui por algum tempo, o seu amigo, vier a ser considerado culpado e condenado pelos crimes de que é acusado? Vai meter a viola no saco? Ou vai inventar mais uma história à Mel Gibson?
A D. Ana deve achar que vivemos nalguma oligarquia, onde se nomeiam aqueles que queremos perseguir e que se inventam testemunhos e se promovem caçadas. Eu pessoalmente, já não tenho pachorra. Ainda por cima sou dos antiquados: por mais que me tentem alertar e agitar fanatsmas, eu só consigo vislumbrar pressão sobre a justiça, de um lado.

Posfácio: fazer da Assembleia da República, um qualquer palco de vingança em directo como se o Al Pacino andasse a ajustar contas com os chefes das outras famílias, é não só contraproducente como um monumental tiro no pé. A casa da Democracia não pode em circunstância alguma ser usada, seja por quem for, para episódios degradantes como este, onde um partido mostra ao mundo a “injustiça” que um seu acólito aparentemente sofreu. Se isto não é uma forma de pressão, eu vou ali e já venho.

segunda-feira, outubro 13, 2003

Civilização

A Barbárie precede a queda da Civilização.

DOGVILLE

Desculpem o tamanho mas o nosso blogue não é um blogue light.
Lars Von Trier não é um cineasta que provoque unanimidades. Em relação à sua obra as opiniões quase sempre se dividem entre os que gostam muito e os que não gostam nada. Devo dizer que me encontro entre os primeiros. Independentemente das opiniões, Von Trier tem uma vantagem que vai rareando: os seus filmes provocam a discussão, não apenas a estritamente cinematográfica, mas a que remete para a forma como o realizador pensa e discute, o mundo e a vida. Dir-me-ão que estas duas dimensões, já que falamos de um filme, são inseparáveis, não podendo ser analisadas de per si. Certamente. Porém, por manifesta incapacidade de discutir convenientemente a primeira, gostava de cometer o lamentável sociologismo de me centrar na segunda, onde apesar de tudo, navego com maior facilidade. Têm os media salientado até à náusea, ideia para a qual o próprio Von Trier terá contribuído, que Dogville é sobre os Estados Unidos América. Na realidade, a acção do filme decorre numa pequena aldeia norte-americana, durante os difíceis anos da depressão que se seguiu à crise de 1929. A inserção histórica e espacial não encerra, porém, o significado da obra. Estou em crer que a sua moralidade, e Von Trier é um cineasta indiscutivelmente moralista, persegue uma dimensão universal. Claro que esta história moral vai-se adequando com maior ou menor exactidão às situações históricas em que vivemos. Nesse sentido, a crítica feroz inerente ao filme atinge com precisão o establishment da dominação geo-política quotidiana, que tem como centro o Estados Unidos da América.
Von Trier montou uma fábula, moral como todas as fábulas. A obra é uma montagem artística da sua tese. A pequena aldeia americana é o espaço desta demonstração. Von Trier assume isso. O filme é contado no terreno da fábula, os cenários são desenhados no chão, as casas não têm paredes, e o espaço remete obviamente para o teatro e para o exercício da encenação. A própria direcção de actores reenvia para uma dimensão teatral. Neste contexto «artificial», sobressaem as palavras que são ditas, a narrativa que é contada e, em último caso, a inevitável moralização da história. A fábula e o conto, embora géneros substancialmente diferentes, têm uma inspiração popular, no seio da qual a forma de contar está sempre ao serviço de uma moral, de algo que se quer demonstrar. Claro que a evolução do campo arte no caminho invío da autonomização sanciona este tipo de dispositivo que sacrifica a forma ao conteúdo, o mostrar ao demonstrar. A reviravolta formal, e ai Von Trier defende-se habilmente, surge pelo facto da construção da demonstração ser absolutamente original do ponto de vista cinematográfico, já que importa de outros materiais artístico o modo de contar. Von Trier é acusado de ser um manipulador, mas expõe de forma clara os mecanismos da sua manipulação. Nada está escondido. Trata-se de uma fábula. Resta aos seus detractores protestarem. Numa discussão, há formas diferentes de colocar as questões, mas se estas existem, proporcionam respostas. Von Trier quer discutir, mas não quer discutir apenas as formas cinematográficas, quer discutir a vida.
O filme de Von Trier é sobre a comunidade. A comunidade isolada. Uma aldeia pobre, algures nas Montanhas Rochosas, recebe a visita atribulada de uma estranha. Um esquema típico do cinema clássico americano: a harmonia do espaço vai ser quebrada pela nova personagem, está lançado o mote da narração. Grace, o nome da personagem interpretada por Nicole Kidman, foge de um grupo de gangsters. Um dilema assombra a comunidade de quinze indivíduos que habita Dogville: receber ou não receber Grace. Em nove capítulos e um prólogo, Von Trier, com a ajuda fundamental da narração de John Hurt, conta a história da relação de Grace com a comunidade. A recepção temerosa deu lugar à integração harmoniosa. Mas o constante assédio das forças policiais que entretanto procuravam Grace atormenta a comunidade. Aos poucos, esta vai exigir que Grace pague a sua protecção. O pagamento, inicialmente em horas de trabalho, vai extremar-se até à mais aberrante exploração sexual, uma situação conhecida e legitimada por toda a comunidade.
O modo como Von Trier trata os habitantes de Dogville é cruel, mas sobretudo ambíguo (já o olhar de Steinbeck sobre a América da depressão, em As Vinhas da Ira, expressava essa ambiguidade). É possível que a simpatia, que o humor e mesmo certa humanidade sejam compatíveis com o comprometimento individual num colectivo mecanicamente atroz? A caracterização bárbara de um conjunto de pessoas pobres e simples levanta evidentes problemas político-filosóficos. Choca, por exemplo, com a mitologia que a esquerda construiu sobre o povo, uma entidade intrinsecamente boa acossada por uma exploração milenar que evoluía e vários estádios. Por outro lado, rejeita a concepção oposta, típica da direita, que olha para as divisões entre os indivíduos como substâncias, “ele é assim porque é” ou, numa elaboração mais liberal, “ele está assim porque não teve o mérito de conseguir estar melhor”. A maldade, que aliás só consegue identificar como tal quem foi educado a interpretá-la dessa forma, é fruto da normalidade das circunstâncias particulares que rodeiam aqueles indivíduos. Só condena os habitantes de Dogville quem não compartilha a moralidade dos seus actos. A maldade, que pode conviver com os “bons sentimentos” faz parte de uma ética particular nascida das circunstâncias. Isto faz-nos regressar à ideia de comunidade. A transformação de uma sociedade tradicional numa sociedade moderna e industrial foi estudada por um conjunto de autores que são considerados hoje fundadores fundamentais do pensamento social. Tonnies falou da passagem de um estado “comunitário” a um estado “societal”, Weber da transição de uma sociedade caracterizada por “dominação tradicional” para uma sociedade onde vingava uma “dominação racional e burocrática”, Durkheim, por sua vez, falou da passagem de uma sociedade dominada por uma “solidariedade mecânica” para uma sociedade definida pela sua “solidariedade orgânica”. Marx, fora daquilo a que o marxismo veio a chamar de sociologia burguesa, antecipou, que à dissolução de uma ordem tradicional efectuada por uma burguesia revolucionária, se seguiria uma revolução proletária. Com evidentes diferenças entre estes autores, todos descrevem a destruição paulatina de uma sociedade tradicional, rural, isolada, comunitária e profundamente desigual por uma ordem moderna, burguesa, industrial e urbana onde o indivíduo se autonomizava das normas prevalecentes da tradição e do costume. Na cidade, espaço da mistura e da liberdade, o indivíduo ia enfrentar outra ordem não menos desigual; Sabemos quanto é perigoso fazer previsões em história. É pouco líquido que, mesmo nos países mais modernos e industrializados, certas lógicas decorrentes de um contexto tradicional tenham desaparecido. O tipo de circunstâncias sociais que enformam um contexto comunitário, rígido, pouco cosmopolita, não são monopólio de um tempo ou de um espaço. É por isto que penso que o filme de Von Trier não é sobre a América, mas acerca dos efeitos preversos de um totalitarismo comunitário que manieta um indivíduo que mecanicamente segue as regras da comunidade sem lhes conseguir responder. Eram assim os habitantes de Dogville. As normas de um colectivo que subjugava completamento o indivíduo, que se limitava a representar um papel definido pela comunidade, eram tão coercivas que ninguém ousou, perante as maiores iniquidades, pô-las em causa. A personagem de Tom, o filósofo, é a que mais se aproxima da ruptura mas acaba também por se tornar mais um cúmplice da tragédia. Será que este cenário traçado por Von Trier é assim tão irreal? Tão manipulador? Tão demagógico? Ou será que não é sob o beneplácito da comunidade mesquinha e isolada, tão típica, infelizmente, do Portugal atrasado do brandos costumes e dos chicos espertos, que decorrem um número incontável de pequenas atrocidades. É perante os olhos fechados da comunidade mesquinha e isolada que prospera a violência física e psicológica, sobre mulheres e as crianças, a justiça popular sobre as minorias, o caciquismo, o populismo. Tudo por detrás da aparência respeitável da comunidade. O que se passa por detrás das portas comenta-se. Mas não dá origem a qualquer intervenção. Intervir, mesmo sobre a mais intolerável acção, era romper com o equilíbrio da comunidade. Augusto M. Seabra (Público, 10/10), que considera Dogville o mais repelente filme que viu nos últimos anos, acha que Von Trier foi miserável quando, num travelling para trás mostra como toda a comunidade estava a ser conivente com a violação de Grace. O plano só choca Seabra porque a encenação de Von Trier retira as paredes das casas, as mesmas paredes que tornam publicamente respeitável a hipocrisia da comunidade. Conheci, no Portugal dos anos noventa, alguém a quem um filho de um cacique local, provavelmente embrigado, atropelara mortalmente um irmão de oito anos. O caso resolveu-se com 1000 contos. O dinheiro pagou o silêncio da mãe. A comunidade vendeu o silêncio por nada. Von Trier pode ser chamado de abjecto, pelo hipotético prazer exibicionista com que filma o rosário de Grace. Mas a sua fábula não é assim tão diferente da violência que José Saramago descreve no “Ensaio sobre a Cegueira”. Saramago, outro moralista.
Von Trier descreve circunstâncias, não culpa o indivíduo. A sua lógica relacional está povoada por questões intemporais, como as que decorrem do pensamento religioso. A religião sempre discutiu a condição humana, como o fez depois a filosofia e a arte. Grace, no epílogo do filme, afirma que se tivesse estado no lugar deles – dos habitantes de Dogville - tinha feito a mesma coisa, ou talvez pior. Basta pensarmos no nosso quotidiano para percebermos como esta frase se aplica a tantas situações. É “aquele lugar” que Von Trier critica.
Chegamos então ao final. As características perversas da comunidade de Von Trier não têm um local ou um tempo. Digamos que elas podem, dentro de certas circunstâncias, ser reproduzidas onde e quando quer que seja. A ideia de comunidade é, desta forma, transplantada do América da grande depressão, para outros contextos. O mesmo provincianismo, a mesma estreiteza de vista, a mesma falta de capacidade reflexiva e analítica podem fazer parte de comunidades urbanas e modernas. Aliás, o pessimismo de Max Weber em relação progressiva à racionalização do mundo, à hiper divisão social do trabalho, à autonomização de várias esferas do social, entre as quais a da arte, é bastante compatível com aquela visão. Os que destróem Dogville, matam de forma bem mais moderna e racional, sendo por isso bastante mais perigosos. Mas disso Von Trier falará, estou em crer, noutra ocasião.
E o que é que isto tudo tem a ver com os Estados Unidos da América? O país mais industrializado do mundo, o país mais poderoso e moderno elegeu um governo que decalca na perfeição a lógica de mesquinhez comunitária descrita por Von Trier. No seio da modernidade, nasce o mesmo anti-cosmopolitismo, a lógica maquiavelicamente dualista, a hipocrisia da comunidade que continua a pregar o respeitável, mas por detrás das paredes comete as atrocidades que acaba por legitimar colectivamente. O hiper-individualismo americano é um preconceito colectivo que justifica todo o tipo de iniquidades, reproduzindo as circunstâncias onde as pessoas simples se tornam monstruosas. Neste contexto, Von Trier assume-se, não apenas como um cineasta, mas como um crítico mordaz das sociedades contemporâneas, como aliás já o tinha feito em alguns dos seus filmes anteriores. A sua fábula moralmente demonstrativa é uma tese sobre o mundo. Os guardiões das formas não gostam, mas Von Trier não é apenas um jogador formal, é alguém que pensa o Homem. Não se trata apenas de discutir as formas da arte, mas as formas do Homem. Não se trata apenas de ver os pormenores mais recônditos da árvore, mas a imagem da floresta toda.
Os pindéricos da Selecção Nacional

Só por excessivo laxismo, comprometimento, arrogância e/ou provincianismo é que não se consegue ver em que é que vai resultar esta selecção de ex-vedetas, vedetas e de candidatos a vedetas ou proto-vedetas no próximo Euro 2004.
Levar um golo da Albânia já era mau; levar dois não era mau, era terrível para não dizer inadmissível; levar três, não era mau nem terrível: tinha de dar despedimento com justa causa por incompetência. Do seleccionador e de alguns, hipotéticos, jogadores.
Sinceramente, começo a ficar farto do autismo do senhor Scolari e dos projectos de equipa que em vez de solidificar a nossa candidatura anda a deitá-la por terra e dos métodos pouco práticos e ortodoxos que o mesmo pratica. Qualquer dia, jogamos com Andorra e corremos o risco do empate ser um bom resultado. Voltamos às velhas máximas do Poeta Jorge Artur do Contra-Informação, para quem ganhar, empatar ou perder era exactamente a mesma coisa.
Talvez fosse bom, o Senhor Scolari repensar a sua vida e começar por tentar explicar aos portugueses o que pretende desta selecção.
Este empreendimento, que meteu milhões em construções de estádios para gáudio dos insuspeitos Filipe Vieira (que faz campanha eleitoral com isto!!!), Pinto da Costa (que se recusa a convidar o Presidente da Câmara do Porto, porque sim senhor, sou eu que mando), e, só para citar os três grandes, Dias da Cunha (já agora, se não fosse muito incómodo, gostaria de saber quanto mais custou ao erário público a mudança da fantástica relva) é demasiado valioso para que um tipo, seja ele quem for, não tenha que prestar contas pelo trabalho que está a fazer.
Mas julgo que isto é um mal nacional. Parece que há cargos e lugares que não podem ser criticados em nome da tranquilidade dos medíocres. Só que eu penso exactamente o contrário e acho que esta coisa de andar a fazer experiências deve ter um limite plausível e delimitado. É que eu já não sei onde começa a realidade e termina a ficção.
Ou acham que é normal levar três golos da Albânia?
Olhem, eu não acho.

Questão adicional: por que razão para se ser seleccionador nacional é preciso ter um curto, ou farto, mas sempre inestético bigode?

Do Dia do Mancebo

Daqui a uma semana comemora-se nesta ditosa pátria, com grande pompa e circunstância, o Dia da Defesa Nacional (acho que dia do Ataque Nacional para os mancebos sempre era mais apelativo, mas pronto...). Quis a "fortuna" que o mesmo esteja a ser organizado sob a batuta do Ministro do Zé e da Maria.
Infeliz por não ter tido ainda oportunidade de colocar todos os meninos e meninas deste país a cantar o Hino Nacional no início de cada dia escolar, o ministro do Zé e da Maria logo arranjou uma forma de abafar o seu desgosto.
Vai daí e pôs-se a convocar de forma compulsiva, sob pena de levarem umas vergastadas no rabo, dadas pelo próprio, todos os jovens mancebos deste país para a grande parada militar!
Posta de parte toda a parcimónia financeira que ao país é exigida pelos mais elevados dignatários das finanças, pois que as viagens e os comes e bebes são grátis, o ministro do Zé e da Maria, conhecido por desempenhar com frequência nas horas livres o papel de uma distinta actriz francesa, desfere mais um golpe de teatro na "modernidade" deste país através dos seus recalcamentos infantis, ao encenar uma daquelas exibições militaristas seguida por comício populista tão ao estilo da Velha Senhora.




O triste futuro das cadeiras amarelas

Há quase dez anos que passo parte da minha vida no número 26-c da Avenida de Berna. Parida de um antigo quartel, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas sempre foi um espaço estranho, difícil de perceber no seu conjunto. Durante quase três décadas foi um género de lego permanentemente remontado. Destrói de um lado, constrói do outro, quase sempre com aquela incompetência que nos habituámos a gostar. Em todo o caso, quem passe pela Av. De Berna dificilmente se apercebe que por detrás do famoso muro está uma parada militar preenchida pelo amarelo de uma esplanada que se exigia fosse classificada rapidamente pelos técnicos do IPAR. Já se sabe que a FCSH vai deixar a AV. De Berna. O destino não é a margem a sul como se pensava, mas os terrenos de Campolide, onde residem a Faculdade de Economia e Gestão e a novel Faculdade de Direito. Tive, esta semana, a oportunidade de passar pelas modernas instalações de Campolide. Não sou o Ernie Walker mas assim a olho não vejo que aquilo esteja preparado para nos receber. Todo o espaço é irritantemente moderno. O edifício da reitoria é um primor da regra e do esquadro, sem curvas, funcional, onde tudo está feito para ser eficiente. Uma chatice, de uma cor horrorosa; toda a gente tem um ar pálido, embora eficiente. Há urgências de hospitais mais divertidas. Dizer que a funcionalidade se deve aliar à estética é bonito, mas de que funcionalidade estamos a falar, e de que estética. O relvado do campus, naquela manhã soalheira, estava deserto, quem passava por lá ia sempre apressado, concerteza à procura da eficiência que lhe foi sugerida por qualquer economista neo-clássico. Para que tipo de Homem foi aquele espaço feito? Nâo consigo compatibilizar o local com algumas coisas simples da vida na Berna: cadeiras amarelas, imperial ao fim do dia, galos, galinhas, gatos (há quem jure que já lá viu um rebanho de ovelhas) , o sol, a luz, perder tempo a conversar sobre o sexo do anjos, o empate do Benfica e a crise mundial (ou a ganhar tempo, perdoe-me o Bentham e os seus correligionários). Garanto-vos que isto não é a conversa da esquerda preguiçosa. Podia ser, mas não é. Estou plenamente convencido que podemos ser os melhores do mundo num espaço que não seja concebido pelos ditames da racionalidade fria. É a velha questão das aparências. Não precisamos de um oceano de linhas rectas imaginadas por um qualquer arquitecto aborrecido que nunca percebeu o estranho prazer de entrar num caminho que não vai dar a lado nenhum, mas do investimento do Estado, ou melhor dos cidadãos que pagam impostos, que permita aos recém-licenciados, pelo menos os que desejarem, dedicarem-se a trabalhar naquilo que aprenderam durante os anos do curso. No declive de Campolide as Ciências Sociais vão ficar na parte de baixo. Temo que em breve se transformem definitivamente nos tarefeiros dos senhores das gravatas que habitam a parte de cima; estudar o Homem desde que não ofenda o velho paradigma utilitarista do mundo. Ciências Sociais aplicadas.

Liberdade

“Nunca se repetirá vezes suficientes que nada há de mais fecundo e maravilhoso que a arte de ser livre, mas nada tão duro como a aprendizagem dessa liberdade. Não é isso que sucede com o despotismo. O despotismo apresenta-se muitas vezes como o reparador de todos os males; é o apoio do direito justo, o que protege os oprimidos e o garante da ordem. Os povos adormecem-se no seio da prosperidade momentânea que produz, e quando acordam são miseráveis. A liberdade, pelo contrário, nasce frequentemente entre tempestades, estabelece-se trabalhosamente e com discórdias civis, e só quando já é velha se podem conhecer os seus benefícios.”
Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 1831

domingo, outubro 12, 2003

O monstro e o seu criador

Tenho uma dúvida constante em relação ao desempenho do sistema de justiça, especialmente quando estão ao barulho grandes interesses políticos e económicos. A independência dos poderes é uma base do Estado de direito, mas isto é o que está escrito. Partindo deste pressuposto resta-nos esperar que a justiça funcione, sem linchamentos ou absolvições públicas. Que esta esperança não seja, porém, demasiado ingénua. No meio das declarações dos inúmeros actores que vão intervindo diariamente no processo mediático da Casa Pia, retive uma frase do advogado de Carlos Silvino. Disse o senhor que os actos do denominado Bibi não são explicáveis, apenas, através das suas indiossincracias individuais; Bibi é uma criação do ambiente da Casa Pia, onde viveu desde os quatro anos num clima de abuso sexual constante. Sem pretender absolver os actos do seu cliente, o advogado abriu os horizontes para uma análise histórica da instituição, das relações políticas que enquadravam uma situação impune, que vinha de longe, de bem dentro do Estado Novo salazarista. Para quem pensa que a mudança se faz por decreto, note-se como algumas continuidades sobrevivem com facilidade a processos políticos e a aparentes mudanças civilizacionais.

sábado, outubro 11, 2003

O inimigo segundo Brecht

QUANDO TOCA A MARCHAR, MUITOS NÃO SABEM
Que o inimigo marcha à sua frente.
A voz que os comanda
É a voz do inimigo.
O que fala do inimigo
É ele mesmo o inimigo.


Bertolt Brecht

Achei genial

Cito aqui o blogue "a cagada" pois achei, simplesmente, genial: "85% do corpo diplomático apoia a escolha da Dr. Teresa Patricio Gouveia para ministra dos Negócios Estrangeiros. A razão principal têm a ver com o facto de normalmente as ministras escolherem assessores jovens e bonitos." Eh Eh

quinta-feira, outubro 09, 2003

Histeria mediática

Por volta das quatro e meia da tarde a bomba jornalística é conhecida: Paulo Pedroso vai ser libertado. Imediatamente, uma multidão de reporteres dirige-se para a porta de entrada do Estabelecimento Prisional de Lisboa. A imagem, vista até à exaustão, de um batalhão de jornalistas frente a uma pequena porta verde é a metáfora perfeita da lógica mediática. Finalmente, após algumas horas de espera, Pedroso sai do EPL. Entre os jornalistas que o aguardam é a loucura total. Entre empurrões, encontrões e tropeções a tudo se assiste. O que interessa é conseguir o melhor "boneco". Literalmente, um jornalismo da rasteira. Mas o melhor ainda estava para vir. Na Assembleia da Republica a histeria mediática atinge proporções raramente vistas. Manuel Alegra, irado, grita a sua revolta: "Haja respeito, porra!". Mais encontrões. Mais tropeções. Palmas. Flashes disparados. Ainda mais encontrões. Reporteres fotográficos em cima de mesas na ânsia da melhor fotografia. É um espectáculo absolutamente surrealista. À noite, em vão, dezenas de jornalistas tentam ainda testemunhar esse "importante" acontecimento que seria a chegada a casa de Pedroso depois de quatro meses e meio de prisão preventiva. É o circo mediático em todo o seu esplendor.

Uma cartografia da pobreza

Na passada terça-feira o Público divulgou um relatório das Nações Unidas que apresenta números impressionantes e dramáticos. O documento da ONU-habitat, o programa das Nações Unidas que visa apoiar o direito à habitação, afirma que quase mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem em bairros degradados. Isto significa que um em cada seis seres humanos vive numa casa sem condições mínimas de humanidade. A ONU chegou também à conclusão que um terço da população urbana mundial vive nestas condições. Se é certo que as regiões ricas do norte não escapam ao fenómeno, é no sul que a situação atinge a dimensão de escândalo total. Para se perceber a dimensão das desigualdades basta comparar por regiões as percentagens de população urbana a viver em bairros degradados. Enquanto a Europa apresenta uma percentagem de 6,2%, o Norte de África aparece com 28,2%, a América Latina e Caraíbas com 31,9% e o sul da Ásia Central com 58,8%. A África Subsariana apresenta uma situação ainda mais miserável, com 71,9% da sua população urbana sem habitação condigna. Num mundo em que as sociabilidades e as práticas económicas do meio rural são destruídas, promovendo migrações em massa para megalópolis caóticas, as realidades urbanas assemelham-se cada vez mais a um barril de pólvora pronto a explodir. A violência urbana extrema, aparentemente sem sentido, é reflexo de um enorme mal estar social latente. A revolta, inconsciente, dos pobres.
(Co) ligações perigosas

Só o actual estado de euforia, ou será, tão baralhado estou, de eurocalmia?, justifica uma nova coligação, esta pré-eleitoral, entre os partidos do governo, como se as eleições europeias fosse aquele tipo de acontecimento menor.
Numa altura onde os eurocépticos marcam pontos, em que a Europa não é correctamente explicada e que a chantagem dos grandes sobre os pequenos é uma evidência aterradora talvez fosse bom alguém, não interessa quem, fazer o comboio parar um pouco e começar a explicar, cabal e minuciosamente, o que verdadeiramente está em causa com aquilo que sorrateiramente nos querem fazer legitimar.
Um Europa feita, idealizada e construída à pressa, comandada por um directório e que resulta das mágoas e dos escombros dos países derrotados da II Guerra – França, Alemanha e Itália – é uma Europa desonesta, injusta e fantasiada com base em interesses que não são, em sentido lato, os interesses dos europeus.
Nestas coisas tenho sempre presente a ideia de que só devagar se pode ir ao longe. E isso é uma condição que não está a ser respeitada.
Esta mudança no equilíbrio das forças vai dar um resultado que se calhar muitos há já algum tempo vaticinavam. Haverá europeus de primeira e europeus de segunda o que é exactamente o mesmo que dizer que um alemão valerá mais do que um português.
Esta Europa, estamos mesmo a ver, é uma Europa que não interessa.
GNR

De acordo com informações prestadas pelo ministro da Administração Interna, a colocação de militares tugas no Iraque, comportará ao erário público 427 mil euros por mês para manter os 130 homens e mulheres. Quanto ao investimento em equipamento, o governante avançou com o valor de 7 milhões e 777 mil euros.
Figueiredo Lopes adiantou igualmente o valor do suplemento a que os militares destacados vão ter direito. Serão 2490 euros por mês, tanto para oficiais como para praças. O seguro de vida será também igual para todos.

É esta uma parte dos encargos que os contribuintes portugueses têm de suportar para que o governo prossiga a sua generosa e cordata atitude de legitimação de uma invasão e ocupação estrangeira do Iraque e para que algumas empresas de construção civil e bancos portugueses dali recolham muitas pepitas de ouro.
Entretanto continuamos a aguardar que o governo português discorra sobre a fundamentação das provas que o conduziram a apoiar o ataque. Para quem brandiu aos sete ventos a iminência de um apocalipse nuclear acaso não ocorresse a invasão, seria de esperar que maior desvelo tivesse sido posto na apresentação de argumentos irrefutáveis desse perigo. Em vão, até hoje ...

quarta-feira, outubro 08, 2003

Orçamento de classe

Não conheço em pormenor a proposta de orçamento de Estado para 2004 feita pelo nosso governo. As notícias não são, porém, as melhores. Na lógica de desinvestimento estatal que caracteriza a política macro-económica deste governos são áreas sensíveis e prioritárias para o bem estar geral, como são os casos da saúde e da educação, que vão sofrer os maiores cortes. O governo, liderado por um partido que se diz social-democrata, desfere um rude golpe no quotidiano dos mais fracos. Neste sentido, é um orçamento de classe. Da classe que sem qualquer dúvida domina o aparelho estatal.
Martins da Cruz e um exemplo do futebol

O que aconteceu é demasiado grave para não ser ampla e correctamente debatido ainda para mais quando, mais uma vez, se faz exactamente o contrário daquilo que se diz que deve ser feito.

Por certo, como este caso, pelo menos na sua génese, no seu princípio, existem milhares de outros espalhados pelos ministérios e pelo país fora. Desde a simples multa, às filas que não se respeitam, aos prazos que não se cumprem, às listas que só são de espera para alguns, um pouco por todo o lado incutiu-se este pensamento no cidadão: preciso de ter um padrinho que me ajude, que me dê um jeito ou um amigo que ponha o meu papel por cima e que me resolva o imbróglio. As filas, a espera, o mérito fica para os outros.

O país está mergulhado nesta pequena “corrupção”. Passiva e activa, do maior ao mais pequeno. E por todo o lado, a competência, a capacidade, o chegar primeiro, o ser melhor parece uma exigência de outro mundo que não este porque se cultiva a céu aberto este espírito contraditório com os princípios, sejam eles morais, políticos, filosóficos que transmitimos e nos quais, julgo eu, ainda acreditamos.

Um pequeno exemplo futebolísitco para compor o ramalhete.

Há dias assistia ao resumo do Marítimo 2 - Sporting 1 e fiquei boquiaberto com o que lá aconteceu. E passo a contar.
O primeiro golo maritimista, um grande golo por sinal, que deu o empate e que relançou a equipa para uma vitória incontestável e inabalável sobre a grande equipa do engenheiro e do fantástico ponta-de-lança Silva, ficou envolto numa polémica acidental porque a bola passou, depois de entrar na baliza, por um buraco que havia na rede mais do que visível a qualquer distância.
O que mais me chateou não foi todo o alarido gerado pelo lance, os cinco minutos de paragem, a crítica ao árbitro, a contestação entre jogadores ou, até, um palavreado mais agressivo normal nestas situações porque tudo isso acaba, no futebol que temos, por ser absolutamente normal. O que mais me chateou foi a cara de pau com que um guarda-redes que é titular da selecção nacional e que deve acima de tudo ser um exemplo para os jovens, pretendeu ver escamoteada a verdade desportiva como se ela fosse secundária, desprezável e, pior, acessória.

Com exemplos destes, seja na política, no desporto ou noutro sector qualquer, não há princípio que resista.

terça-feira, outubro 07, 2003

CALIFÓRNIA

Daqui a pouco se saberá quem foi o escolhido para suceder a Gray Davis como governador do mais populoso dos estados norte-americanos. Dos 133 (!) candidatos ao lugar, tudo leva a crer que Arnold Scharznegger, o conhecido actor de action movies, venha a ser o escolhido pelos eleitores californianos. As últimas sondagens dão-lhe, com 40% das intenções de voto, uma larga vantagem sobre os seus mais directos adversários, o democrata Cruz Bustamente (32%) e o republicano McClintock (15%). "Arnie" está implacável. O velho mito do sonho americano parece estar a concretizar-se na sua biografia pessoal de emigrante de sucesso. Mas o final deste "filme" pode, afinal, ser muito pouco hollywodesco. O efeito imprevísivel das recentes denúncias de abuso sexual de mulheres bem como de simpatias hitlerianas pode deitar tudo a perder ao ex-senhor músculos. Se por fim imitar Reagen e for eleito governador a sua tarefa não se afigura nada fácil. A crise económica, a violência urbana e as enormes tensões sociais provocadas por antagonismos étnicos duma sociedade com dificuldades em lidar com a sua enorme heterogeneidade cultural são tudo menos ficção. Resta esperar que, se ganhar, os seus actos de gestão sejam bem menos destrutivos que a sua costumeira acção/representação no grande ecrâ. Caso contrário, será catastrófico. E bem real.
Sobre a crítica política

Considero que aquele que critica politicamente deve recordar-se que esta crítica não é um fim em si mesmo. A crítica desmonta discursos, clarifica posições e mesmo quando não aponta alternativas, arrepia caminhos. A satisfação com os jogos de linguagens proporcionados pela crítica é perversa, porque autonomiza de tal forma o discurso que transforma o empenho em intervir sobre o real num simples exibicionismo identitário. A crítica deve esclarecer e para isso deve ser sólida e estar sujeita à verificação. Tenho dificuldades em perceber totalmente o que é o capitalismo, mas tanto aqueles que o combatem, como os que o defendem, parecem compreênde-lo de forma tão perfeita que estão dispostos a jurar pela alma da mamã que ele é ou Deus ou o Diabo. Também considero complexo interpretar todas as dimensões da globalização, se tem um lado emancipatório, ou se é predominantemente predadora. Ando lento. Na minha fraca opinião, a crítica do slogan não nos leva longe. Os novos slogans da esquerda correm o risco de ser tão vazios como os velhos. A crítica tem que soltar o conhecimento, deve criar pessoas capazes de interpretar e analisar, e não repetidores de chavões que se auto-caracterizam por balizas ideológicas que nem sabem muito bem explicar o que são.
A crítica tem que ser mais complexa. Desconfio dos discursos radicais. A inteligentsia da direita, em resultado de ter poucas pessoas com pelo menos duas ideias, está repleta de ex-radicais de esquerda, esquerdistas. Os esquerdistas são maus, os que já saíram e os que se mantêm, porque quanto maior o seu exibicionismo retórico mais longe estão da solução dos problemas reais. Em certo aspectos parecem-se muito com a velha direita. Tão inúteis como os optimistas que acham que o capitalismo se anula por decreto e no dia a seguir nasce o Homem novo, são os cépticos. Normalmente o céptico é o tipo que está porreiro da vida mas que acha que se deve apresentar ao mundo como um gajo chateado. Os cépticos são um género de sub-cultura da burguesia, onde ninguém tem que levantar o cu da cama às cinco da manhã para ir trabalhar na fábrica. No fundo, dá um charme do caraças ser céptico, além disso dá pouco trabalho.
A crítica política tem que ser emancipadora. Isso só se consegue se for estruturada a partir do conhecimento do real. Seguindo esta premissa, penso que a esquerda parte com uma vantagem gigantesca sobre a direita.
Megacities
Merece uma visita este documentário que está em exibição no Cine-Estúdio 222, da autoria do austríaco Michael Glawogger. Nomadismo fílmico sobre a vivência de pessoas em 4 megalópoles da Economia-Mundo (Nova Iorque, Moscovo, Cidade do México e Bombaim), eis um retrato pungente e desassombrado de espaços infinitos que embaciam os sentidos e manietam os destinos.
Aqui não se vendem hot-dog´s na rua, vendem-se patas de galinha em copos de plástico com molho de limão. Os miúdos não vão ao Toy´s Rus, esperam ansiosamente pelo vendedor ambulante de pintaínhos. Não há "vedetas" de telenovelas que mostram às revistas o novo interior das suas casas com piscinas, há jovens que mostram o interior da rede de esgotos onde vivem. Há também aqueles que recolhem, transportam e pisam o lixo que recebem das suas incursões diárias pelas bairros escavacados e andrajosos, e que vão depois jogar futebol, não para os relvados ou os pelados, mas para a lixeira.
Estes e muitos outros cenários de uma realidade que exige um despertar imediato de um torpor colectivo que as narrativas imagéticas exibidas mostram à evidência.
Enquanto assim não for, tem razão o fantasma Barrio, e o Absurdo continuará a fazer parte do património cultural da humanidade.

segunda-feira, outubro 06, 2003

Considerações sobre a globalização e outros assuntos quentes

“Não há alternativa!” A frase é peremptória, fria e assassina; mina qualquer ideia de alternativa e castra qualquer pensamento que não vá ao seu encontro. Perante a triste e singela ausência de opção, eis-nos, entre a espada e a parede, prontos a aceitar a inevitabilidade, qual Édipo, do destino que nos espera. Será mesmo assim? Que estranho determinismo é este que faz de nós simples fantoches incapazes de resistir ao novo totalitarismo?

O neoliberalismo, esse ilustre conhecido, tornou-se no cavalo de batalha de uma segmento político que desde a queda do muro de Berlim se encontra à deriva e à procura de um rumo e de uma razão para viver e de voltar a ser algo de consistente.
A globalização, essa madrasta interesseira, ditadora e exploradora, é um escape para o combate político que coloca nos dois lados da barricada aspectos e pensamentos que há muito deixaram de ter um suporte ideológico claro e diferenciador. A globalização, parece então, transformada no mal de todos os males como se fosse ela a única causa directa da crise e das milhentas outras pequenas crises instaladas no seio das nossas sociedades.

Mas esta ideia de globalização não só é errada como é facilmente rebatida. O problema não é a globalização. Ou pelo menos, não é a globalização enquanto processo que envolve um sem número de países e que afecta, para o bem e para o mal é certo, centenas de milhões de indivíduos porque quem sofre não é quem está com a globalização, é quem está à margem dela, o que é, evidentemente, muito diferente daquilo que nos querem mostrar.
Continua, o tal campo político, sem perceber ou sem alcançar que a ideia de globalização não é boa nem é má. Existe e é inevitável num mundo onde a comunicação e a mobilidade é acelerada e que os processos globalizadores e globalizantes trouxeram vantagens e desvantagens. Serei adepto de uma globalização construtiva de mais oportunidades enquanto entender que os aspectos positivos são muito mais importantes, coerentes e com vantagens nitidamente acrescidas do que os negativos. E como não sou marxista entendo a globalização muito para além de um mero negócio onde o “forte” explora o “fraco”. Assim, ela é, sem dúvida, uma gigantesca oportunidade para todos e para todos sem excepção. A própria lógica do confronto anti-globalização só é possível, imaginem!!! porque hoje as distâncias se esbateram, porque a internet comunica e espalha, porque a televisão mostra, e porque o avião leva: por isso se recruta, se treina e se espalha o “vírus” global anti e por isso, também, tudo é muito rápido e exige de nós uma enorme velocidade de assimilar e apreender aquilo que à nossa frente e à nossa volta se projecta.

A seguir é preciso também perceber que por mais circo de rua mediático, mártires das manifestações, pedras e garrafas e Macdonald’s destruídos; por mais que se tente acabar com cimeiras ou desvalorizá-las, provocando a polícia e as forças de segurança é a “jardinagem guerrilheira” que não tem legitimidade e que ataca os fundamentos da democracia e de quem efectivamente o povo elegeu para os representar. São eles, esses guerrilheiros de lenço na cara e projéctil na mão, que atacam e que têm problemas de representatividade.

As políticas neoliberais são erradas? Muitas serão certamente. E outras políticas podiam ser seguidas como é óbvio, não tivesse a esquerda, há muito tempo, se traído....a si mesma. Porquê? É uma boa pergunta que fica no ar. Mas cheira-me que é por isso que... “não há alternativa!”.

Por último, queria dizer que não sei o futuro do capitalismo, porque não faço, naturalmente, futurologia dessa dimensão. Mas há uma coisa que sei de certeza: há um caminho por onde nunca mais devemos seguir e esse caminho, nem é preciso dizer, todos nós sabemos muito bem qual é.

sábado, outubro 04, 2003

Berlusconi sempre
Ao discursar em Wall Street, Silvio Berlusconi, o inenarrável presidente do governo italiano, saiu-se com mais uma das suas frases de antologia: "Outra razão para investir em Itália é que há muito menos comunistas que antes, e os que o são negam-no".
Sem comentários.
A ESCRAVATURA...O Link que coloquei no post anterior não funciona (ainda não descobri como é que se faz). No entanto, tem muito a ver com o que o Vasco escreveu neste último post. O link conduzia a um excelente artigo que surgiu na edição portuguesa deste mês da National Geographic. Eu fiquei deveras alarmado e preocupado. A escravatura está de volta. E não é somente em Africa, é na Europa e até, imagine-se, nos Estados Unidos... Dai o: "Liberalismo... Liberalismo..." No sentido económico, claro...

sexta-feira, outubro 03, 2003

Sobre a crise da democracia
Ainda há tempos li um artigo do Manuel Vilaverde Cabral no Diário de Notícias onde, a propósito das desilusões internas causadas pelo governo Lula e a profunda crise de identidade política instalada no PT, se interrogavam as razões da inquestionável crise de representatividade que se vive hoje nos regimes democráticos.O tom pessimista e desencantado do artigo, com que desgraçadamente me identifiquei, obrigou-me a uma pequena reflexão sobre a questão da crise da democracia.
Em meados do século XX muitos intelectuais e teóricos polí­ticos ocuparam o seu tempo a reflectir sobre a natureza da relação entre o capitalismo e a democracia, nomeadamente quanto à  possível incompatibilidade "genética" entre os avanços em matéria de direitos democráticos e a própria essência desigual do sistema capitalista. Dito de outro modo, o carácter igualitário e inclusivo da democracia iria, inevitavelmente, entrar em ruptura com o capitalismo, por natureza desigual e excludente.
Aquilo que nos parece hoje uma análise absurda era na altura bem compreensível. Viviam-se então os anos do pós-guerra, o crescimento económico coincidia, fruto da pressão de um movimento operário poderoso e do medo do "papão" comunista que era a União Soviética, com a emergência do Estado-providência. O ritmo avassalador das conquistas sociais promovidas através do Welfare-state, e a consequente inclusão polí­tica dos trabalhadores nas democracias liberais, deixava antever uma transformação interna do capitalismo, quem sabe até mesmo a sua superação. O sonho da social-democracia parecia estar a concretizar-se.
Hoje, esta suposta incompatibilidade é obviamente contrariada pelo caminhar da história. Não só se revelaram compatíveis, como, desde a chamada terceira vaga de democratização do sul da Europa até hoje, a exportação universal do modelo democrático ocidental se fez a par da emergência do processo de globalização neoliberal. A democracia, enquanto modelo polí­tico-formal e institucional, passou mesmo a constar, a par das medidas de reajustamento estrutural, do livro de receitas obrigatórias neoliberal. Durante este periodo de tempo, as transformações promovidas pela globalização aumentaram as desigualdades sociais, o desemprego e a pobreza. Esta realidade está assim a dar origem a uma monstruosa decepção com a democracia e a polí­tica. "Não há alternativa!", repetem-nos constantemente, não vamos nós suspeitar dos novos iluminados do Banco Mundial. Esta enorme decepção, que frusta tanto aqueles que tinham a justa expectativa de inclusão com o advento da democracia como para aqueles, nas sociedades centrais, que se julgavam seguros e que agora vêm os seus direitos esfumarem-se, só pode alimentar, de uma forma que pode ser dramática, a crise de legitimidade da democracia enquanto regime polí­tico. A crescente abstenção eleitoral, o cinismo e o desencanto político são claros sinais dessa crise.
Foi como se tivesse sido invertido o modelo analítico falado no iní­cio. Já não é a progressiva democratização que provocará a superação do capitalismo, mas sim a radicalização do capitalismo que poderá conduzir ao suicí­dio da democracia.
Isto é motivo para preocupação: http://www.nationalgeographic.pt/revista/0903/feature6/Default.asp
Liberalismo... Liberalismo...
"O que é que o baiano tem"

Fica prometida uma prosa sobre a nova direita. Mas já agora questiono-me se esta nova direita é a do Senhor Martins da Cruz e do Senhor Lynce. Se é, parece-se extraordinariamente com a tal esquerda que se aproveita do Estado para sacar uns cobres. Talvez a questão não esteja entre a esquerda e a direita mas se reporte às elites que governam este país. Realmente, Portugal ainda tem muitos traços das democracias musculadas da Amércia do Sul, ou do tal regime de Salazar que a direita quer esquecer. Mas era precisamente sobre a América do Sul que queria falar. Gilberto Gil deu uma simpática entrevista à televisão pública. Ficando-me pela Judite da 1, perdi a Bábá na privada. Uma desgraça. O Gil é fixe. Não é o Caetano, nem o Chico, nem o Jobim, nem o outro Gilberto, nem mesmo a Elis, mas pronto, é fixe. É fixe e é ministro. Ministro e artista. Um artista parte logo em vantagem para uma entrevista. A Judite começou já esmagada; quando o Gil cantarolou sobre o seu imenso lado feminino, a Judite já tremia por todos os lados. Algures num apartamento de Queluz Ocidental Fernando Seara dava de comer ao Mantorras, o seu hamster de estimação, e punha o Wagner na aparelhagem, irritado com o neo-colonialismo brasileiro, já não bastavam os auto-golos do Argel, o homem do dragão tatuado. Normalmente, quando um ministro é entrevistado, os jornalistas querem saber como vai o ofício, medidas, políticas, problemas, contradições, etc. Quando o ministro é artista a música é outra; Gil falou da mamã, do papá, do irmão Caetano, cantou um pouco, disse poemas, máximas zen com postura new age ao melhor estilo do Paulo Coelho, pregou a nova religião pós-moderna, como se não estivessemos fartos da IURD, do Roberto Leal e da Laurinda Alves (não tem nada a ver mas é sempre bom relembrar que a Laurinda existe e é contagiosa). Imagine-se uma entrevista do mesmo género com o nosso ministro, perdão ex-ministro, da Ciência. Ministro Lynce, então a sua infância? Pois, lá andava com as ovelhas do meu tio, lá na herdade, até que um dia, por infuência de um primo, o Bernardo, lá resolvi ir jogar rugby. – E isso foi importante? – Muito importante, percebi logo as grandes semelhanças entre o rugby e a ciência, embora o rugby seja muito mais complexo que quase todas as ciências tirando a agronomia que eu tanto gosto por causa das ovelhas do meu tio Ernesto, sáo coisas que não se esquecem. – Então e capaz de nos mostrar um pouco da sua arte? - Tudo bem, posso por exemplo, fazer uma placagem ali ao operador de câmara, se ele se aleijar eu falo com o ministro da saúde, que é meu amigo, e arranjamo-lhe logo uma cama de hospital, eu escrevo uma cartinha.
Pois é, mas o Gil tem o seu charme. Até sabe quem é o Boaventura de Sousa Santos, o inventor do eco-socialismo. Desde o Pedro Nunes que não inventávamos nada de tão importante. Grande país. Posto isto, devo-me dizer um indiscutível adepto, cauteloso quanto baste, do presidente Lula da Silva. A esquerda tem um língua muito afiada, especialmente para destruir os seus camaradas de ideias. É uma comadre linguaruda esta esquerda. À falta de experiência histórica concreta esperemos mais tempo pelos efeitos do governo Lula. Há sinais negativos, mas vamos ponderar nas consequências de uma crítica demasiado moralista e puritana de pessoas que nem a experiência histórica recente podem apontar como exemplo. E quão bom é o Lula quando comparado com a nova direita, filha da velha direita.